Índice de Capítulo

    O interior da Grande Biblioteca cheirava a poeira e papiro envelhecido. Sêneca estava sentado em um banco de madeira maciça, no centro da ala leste. Ao redor dele, cinco jovens estudiosos o escutavam com atenção plena.

    — A lógica não é uma ferramenta para controlar o mundo — explicava Sêneca, com a voz pausada e didática. — Ela é o método para controlar a nossa própria resposta ao que o mundo faz. O sofrimento existe apenas quando a mente recusa a realidade.

    Um dos rapazes anotava as palavras em uma placa de cera. Os outros assentiam. Encostado em uma das estantes, perto da saída, Magno observava a cena com um sorriso contido. Ele balançou a cabeça de forma leve e caminhou em direção ao grupo. Sêneca percebeu o movimento do gatuno.

    — Chegou a hora da partida — anunciou Sêneca. Ele levantou-se e ajustou as dobras da túnica.

    Os jovens suspiraram, demonstrando lamento.

    — O senhor voltará a Pérgamo para nos ensinar? — perguntou o rapaz com a placa de cera.

    — Eu não sei — respondeu o filósofo com honestidade.

    Ele caminhou em direção ao balcão de devolução. Nas mãos, segurava o rolo pesado de couro escuro. Os dois estudiosos mais velhos, os mesmos que o haviam tratado com indiferença no primeiro dia, aproximaram-se com passos rápidos.

    Sêneca estendeu o livro sobre a mesa.

    — Agradeço o acesso. O texto sobre a Ontologia do Poder ajudará em nossa jornada.

    O estudioso mais velho empurrou o livro de volta na direção de Sêneca.

    — Guarde com você, Sêneca.

    O filósofo franziu o cenho. O roubo ou a perda de um volume daquela biblioteca era um crime grave. Ele retirou a mão da mesa.

    — Eu não posso levar isso. É um registro único.

    — E continuará inútil aqui — interveio o segundo estudioso, com um tom de voz firme. — Nós passamos décadas olhando para essas letras sem compreender a profundidade do que significam. Para nós, são apenas palavras antigas. Para você, elas possuem sentido real. Um homem sábio fará melhor uso desse pergaminho.

    Sêneca olhou para o livro, depois para os dois homens. Ele percebeu a sinceridade no gesto. Sem dizer mais nada, ele pegou o rolo de pergaminho, colocou-o dentro de sua bolsa de couro e fez uma reverência curta.

    Magno já o esperava na saída. Eles deixaram a acrópole e iniciaram a descida em direção à área residencial.


    Na casa de Átalo, Roupas, utensílios de barro e ferramentas ocupavam a mesa e os bancos de madeira.

    Aylla dobrava mantos de lã grossa e os empilhava no chão. Átalo amarrava fardos pesados com cordas de cânhamo.

    Hermes cruzou os braços na entrada da sala e observou o trabalho.

    — Não precisam levar as paredes junto — sorriu Hermes com os cantos da boca.

    Aylla parou e olhou para a bagunça ao seu redor.

    — Para onde vamos, não teremos teto e nem comida — respondeu ela. A voz soava prática e direta. — Precisamos de tudo isso para sobreviver no sul.

    Sêneca entrou na casa logo atrás de Magno. O velho ajeitou a bolsa de couro no ombro e avaliou os preparativos.

    — Quando partiremos? — perguntou Sêneca.

    Magno pegou uma maçã da mesa e limpou a casca na própria túnica.

    — Pela manhã. Can cumpriu a promessa dele. Os trabalhadores passarão a noite inteira abrindo a estrada sul.

    Átalo soltou a corda do fardo. Ele caminhou até Aylla e a abraçou pelos ombros. Um sorriso de alívio tomou o rosto do príncipe.

    — Eu preciso agradecer à deusa — disse com olhos no teto de madeira. — Ela colocou pessoas brilhantes no meu caminho. Ouviu as minhas preces e abençoou a nossa fuga.

    Hermes desfez o sorriso de imediato e deu um passo à frente.

    — Não faça isso — ordenou Hermes. A voz saiu dura e absoluta. — Não vá ao templo. Não saia desta casa esta noite. Sob hipótese alguma. Entendeu?

    Átalo recuou um passo, surpreso com a rispidez da ordem. Ele olhou para os olhos dourados de Hermes, engoliu a seco e assentiu com a cabeça.

    O silêncio que se seguiu à interação foi desconfortável, mas quando Magno se dispôs a ajudar com a carga das janelas, o clima aliviou. Hermes, no entanto, parecia preocupado.

    Hermes e Magno caminharam até a beira da muralha sul. O som de machados de ferro contra a madeira ecoava na escuridão. Tochas iluminavam o suor de dezenas de homens exaustos.

     O trabalho avançava rápido. Árvores grossas tombavam para as laterais, e as antigas pedras de pavimentação da estrada começavam a aparecer sob a terra revirada.

    — Eles terminarão antes do sol nascer — avaliou Magno.

    Hermes assentiu. A rota de fuga estava garantida. Eles deram as costas para a muralha e retornaram para o setor residencial em passos largos.

    Quando chegaram à rua de Átalo, notaram a porta da casa entreaberta.

    Hermes empurrou a madeira com o pé e entrou rápido. O silêncio reinava na sala. Os fardos continuavam no mesmo lugar. Aylla estava deitada no chão, com as mãos sobre o rosto.

    Hermes procurou o príncipe com os olhos. O espaço estava vazio. Ele acordou a mulher que despertou assustada.

    — Onde ele está?

    Aylla levantou o rosto e varreu a casa com os olhos, sem entender.

    — E-eu não sei — ela engoliu em seco. — Ele não foi com vocês?

    Hermes trincou a mandíbula.

    — Aquele idiota — rosnou Hermes.

    Sêneca apontou no corredor, desperto com o barulho. Hermes não explicou e partiu pela porta enquanto Magno ajudava Aylla a se levantar e pedia para Sêneca se apressar.

    — Já estamos de saída? — Perguntou o velho, mas Magno já saía pela porta com a mulher.

    Confuso, ele correu para apanhar suas bolsas e a de seus colegas que ficaram para trás.

    Eles correram pelas ruelas de Pérgamo. Sêneca acompanhou o passo deles com certa dificuldade pelo peso que carregava. 

    O grupo invadiu o pátio lateral do Templo de Afrodite. O mármore refletia a luz pálida da lua.

    Estava vazio. Não havia sinal de Átalo. Apenas a estátua desgastada no centro do pátio.

    Hermes caminhou até a escultura. As órbitas de pedra acenderam. O brilho arroxeado iluminou o rosto do mensageiro mais uma vez.

    A voz feminina invadiu a mente dele. Dessa vez, parecia furiosa e fria.

    — Tu me traíste, Hermes.

    A mão direita dele repousou no cabo da espada curta.

    — Eu ordenei que o sangue dos soldados fosse levado para o núcleo da mata — continuou a voz. — Tu deste outra ordem, contrária à minha vontade.

    — Pare de baboseiras! — rebateu Hermes em voz alta. — Onde está Átalo?

    — Tu não obedeceste à tua missão. O pedido do príncipe não foi pago e por isso, a floresta o tomou.

    Aylla caiu de joelhos, amparada por Sêneca. Os olhos dela arregalados ficaram úmidos, e os lábios tremiam. Seu rosto voltou-se para o chão.

    — Não…

    A luz roxa nos olhos da estátua piscou e apagou. O mármore voltou a ser apenas pedra opaca e silenciosa. O vínculo mental se rompeu de forma abrupta, deixando um zumbido leve nos ouvidos de Hermes.

    Ele virou as costas para a divindade falsa e olhou para os companheiros com uma expressão crivada de urgência.

    — Precisamos invadir a floresta.

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