Capítulo 157 | Dias que Não Voltam
Plutarco entrou no celeiro. A luz da manhã atingiu a poeira e as vigas de madeira no teto. Teseu estava sentado na enxerga encostado na parede de pedra.
— Você parece melhor hoje
— Plutarco, que dia é hoje?
Ele consultou um pequeno pedaço de pergaminho.
— Hoje é o oitavo dia do mês de Metageitnion. Por quê?
Teseu ergueu a cabeça e moveu os lábios em um cálculo silencioso.
— Então meu aniversário é daqui a uma semana — o rapaz afirmou.
Plutarco guardou o pergaminho e sorriu.
— Aceite meus parabéns antecipados. Eu pensarei em um presente útil para você até lá.
Então, como se percebesse algum equívoco, o homem coçou o topo da cabeça.
— Mas como você sabe o dia de seu aniversário? Pensei que tivesse crescido sem família nas minas.
Teseu olhou para as próprias mãos.
— Eu e meu irmão não sabíamos a data do nosso nascimento. Nós fomos vendidos cedo, realmente. Os mercadores não guardavam registros sobre escravos jovens. Nós também não sabíamos nossas idades exatas.
O escriba puxou um banco e sentou-se.
— Então como chegaram a esse dia especificamente?
— Eu decidi — Teseu respondeu. — Eu ainda me chamava Agouri naquela época. Em uma manhã quente, eu ouvi de um guarda que no décimo quinto dia de Metageitnion, uma nova leva de escravos iria chegar.
Fechou os olhos e seus lábios se curvaram levemente num sorriso nostálgico.
— Foi aí que disse ao meu irmão, Teseu, aquele de quem tomei o nome, que nesse dia seria o nosso aniversário. Ele não viu sentido a princípio, mas logo entrou na briga quando eu decidi sozinho que seria o mais velho.
Plutarco soltou uma lufada de ar pelo nariz e se recostou no banco.
— Uma briga? E quem venceu afinal?
— Ele — Teseu sorriu de forma breve. — Ele era mais forte e mais teimoso. Disse que ia me proteger e que por isso seria o mais velho.
O silêncio ocupou o espaço por um instante. Teseu desviou o olhar para a porta da ala de cura.
— Eu sinto falta dele todos os dias.
O som de passos ecoou no corredor de pedra. Sophia surgiu com uma cesta de linho e bandagens novas. Ela parou na entrada e observou os dois homens. Plutarco levantou-se com pressa e ajeitou a túnica.
— Eu vou deixá-los trabalhar — olhou para os lados com cautela. — Não diga para Calixto que eu estive aqui, sim?
Ele saiu da ala de cura com passos rápidos.
Sophia aproximou-se do leito de Teseu. Colocou a cesta no banco e começou a organizar os materiais para a troca dos curativos.
Então, ela desatou os nós das bandagens e removeu o tecido sujo com toques leves. Suas mãos se moviam com delicadeza de modo que Teseu mal as sentia sobre a própria pele.
No entanto, no ponto do ombro que Mines havia apertado com maior força no dia anterior, a garota teve dificuldades para desamarrar. Uma fisgada aguda atingiu as costelas de Teseu. O rapaz contraiu os músculos e puxou o ar com força.
A garota sobressaltou e recolheu as mãos num olhar preocupado. Seus lábios, um pouco trêmulos, se abriram para revelar uma voz baixa e melodiosamente doce:
— Ainda dói muito?
Teseu relaxou os ombros e abriu um sorriso largo.
— Tem uma voz muito bonita.
Sophia abaixou os olhos e apertou os lábios. Então, pegou a pasta de ervas e voltou a espalhar o medicamento sobre a ferida, em absoluto silêncio.
O olhar fixo do rapaz sobre ela fazia seus ombros arderem em desconforto.
Teseu tentou iniciar uma nova conversa.
— Mines não veio hoje? — Ele notou a hesitação nas mãos da curandeira e apressou-se em consertar a fala. — E-eu pergunto apenas por curiosidade. Ter o seu cuidado é excelente.
Ela enrolou a tira de linho limpa ao redor do torso de Teseu e finalizou o curativo com um nó firme. O rapaz abaixou os olhos, encabulado.
Sophia guardou os restos de tecido na cesta, virou as costas e caminhou em direção à porta do celeiro.
Teseu esticou o braço direito na direção dela.
— Sophia!
A garota estancou. Sua voz saiu mais alta do que planejava. Antes que a situação se tornasse ainda mais constrangedora, ele prosseguiu.
— Eu peço desculpas por ontem… Eu não tive a intenção de assustar você.
Sophia virou o rosto apenas o suficiente para olhar por cima do próprio ombro.
— Homens brutos não precisam de intenção para causar medo.
A garota sussurrou a frase e deixou a ala médica com passos rápidos. Teseu deixou o braço cair ao lado do corpo, encostou a cabeça na parede de pedra e remoeu as palavras da garota pelas horas que se seguiram.
Licaão parou diante da encosta após a quinta volta seguida.
A parede de granito subia num ângulo quase vertical até o cume. Ele caminhou pela base e analisou a superfície da pedra.
Testou uma reentrância na parede com os dedos. A pedra cedeu sob a pressão e esfarelou no chão de terra seca. Recuou e limpou a poeira das mãos na própria túnica. Não havia uma rota de escalada segura para alcançar a espada.
“Infernos! Estou dependente daquele pentelho maldito.” Rangeu os dentes.
O caminho antigo, cuja entrada ele ainda guardava na mente, desapareceu sob toneladas de terra e rocha.
Estalou a língua.
Um assobio tirou sua atenção das pedras e o fez finalmente se virar mais uma vez para a direção do assentamento. De lá, vinham Silvo e Letônio, dois jovens batedores de armadura de couro negro, o primeiro tinha pele curtida e cabelo curto, o segundo um rabo de cavalo e pele clara como a lua.
O primeiro parou a uma distância segura e olhou para a encosta colossal. O segundo posicionou-se logo ao lado do amigo e espelhou a postura observadora dele com exatidão.
— Um admirador de ruínas? — Silvo perguntou com um sorriso. — Nós vasculhamos toda essa base durante o último inverno.
— Sim, sim. Durante o último inverno. — Letônio repetiu como um papagaio.
Licaão ignorou os dois batedores. Caminhou para a direita e inspecionou um amontoado de escombros de mármore branco.
O jovem moreno acompanhou os passos do estranho a distância, com Letônio o seguindo logo atrás feito uma sombra.
— O palácio possui uma estrutura particular, não o culpo por ter curiosidade em observar.
O selvagem bufou em resposta, com um sorriso desdenhoso.
— Ha. Particular? E o que é que você entende de arquitetura nobre?
— Um pátio aberto ocupa a área logo após a borda do precipício. Três colunas brancas permanecem em pé no centro. A coluna do meio exibe uma rachadura profunda na base e guarda a estátua de um lobo sem cabeça ao lado.
Licaão bufou roucamente com impaciência, ainda de costas para os dois.
— Precisa estudar mais se quiser parecer esperto. A estátua de lobo tem cabeça.
— Bem, não parece ter, se estou vendo corretamente.
“Vendo?” Os olhos do rei se estreitaram antes que ele se virasse.
Silvo protegia os olhos verdes da luz do sol com a mão, o rosto voltado para cima, para o cume da montanha. Dois mil côvados.

Deu de ombros e se voltou para o estranho com uma expressão resignada.
— Certamente é algo particular.
Licaão, indubitado, dirigiu o próprio olhar ao topo. O antigo pátio real exibia exatamente essa configuração arquitetônica.
A distância vertical e o ângulo desfavorável da montanha impediam a visualização daqueles detalhes a partir do nível do solo. Apenas alguém com profundo conhecimento prévio do local detinha aquela informação.
— Você consegue ver o topo? — Licaão questionou com a voz grave e autoritária. — É impossível ver o pátio daqui.
— O Silvo enxerga essas coisas com facilidade — Letônio respondeu e abriu um sorriso largo.
Vendo como Licaão ainda não parecia convencido, apontou o dedo indicador para o ombro do amigo.
— Os olhos dele captam detalhes em distâncias extremas, consegue identificar a cor das penas de um pássaro nas nuvens. O Silvo é o batedor com a melhor visão de todas.
Licaão reavaliou a figura de Silvo. O jovem exibia braços finos e trajava equipamentos de couro simples.
“Fraco.” Constatou.
Mas detinha uma capacidade física incomum que compensava a falta de força bruta. Ele não conseguia negar. Havia algo naqueles olhos verdes que o faziam acreditar. Uma certa… familiaridade.
— O que mais você vê lá em cima? — Licaão perguntou e deu um passo na direção dos rapazes.
O som de cascos pesados interrompeu o interrogatório. Três guardas com couraças de couro surgiram na estrada do assentamento e pararam os animais perto do grupo.
Licaão mostrou um sorriso desdenhoso.
— Cavalos sem carruagem? De algum modo não me surpreendo.
Os olhos verdes se fecharam em um suspiro. O jovem de rabo de cavalo mostrou os dentes, irritado.
— Em algum tempo teremos fundos para carruagens.
O líder da patrulha desceu da sela de couro e bateu o punho cerrado contra o próprio peitoral na direção de Silvo.
— Dekadarchos — o patrulheiro fez uma mesura militar. — Nós inspecionamos a área da mata a oeste.
Silvo mudou a expressão do rosto. A postura relaxada desapareceu e deu lugar a uma rigidez oficial.
— O que vocês encontraram lá? — Silvo exigiu o relatório.
— Rastros fundos na lama perto do riacho principal — o patrulheiro detalhou a descoberta. — Muitas marcas cruzam o leito de água.
— Cascos, ao que parece. — Outro dos soldados, aquele que encontrou as marcas, complementou. — Um grupo que viaja em marcha rápida.
Silvo olhou para a linha densa das árvores no horizonte oeste. Os olhos se apertaram e sua testa mostrou uma ruga tensa. Virou a cabeça e encarou Licaão.
— Você vem conosco?
Licaão balançou a cabeça e voltou a atenção para a parede de pedra intransponível de seu antigo domínio.
— Esse assunto diz respeito aos seus homens — respondeu e cruzou os braços. — Tenho os meus próprios problemas para resolver aqui embaixo.
Silvo assentiu. Ele e Letônio acompanharam os outros pela estrada de terra. O grupo de batedores partiu em marcha apressada rumo à floresta oeste para investigar a anomalia, e deixou o rei sozinho com o silêncio das ruínas de Nova Arcádia.

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