Heragon está deitado no chão, desmaiado. A Salamandra… de bote armado, já quase consegue sentir o delicioso sabor da carne de Dragão. Mas, antes que as presas se cravem na pele do garoto.

    Uma bota pisa em sua cabeça, travando-a contra o solo queimado.

    — Tsc. O que aquele velhote estava pensando ao mandar o neto para cá sem avisar? — O recém-chegado sente o Eco ao redor. — Essa assinatura de Eco… foi a velhota. Aquela irresponsável.

    A criatura tenta reagir, tentando se soltar. Sem rodeios, esmaga a cabeça da fera. Observa o corpo da Salamandra levando a mão ao queixo.

    — Até que é impressionante, o garoto conseguiu ferir uma Salamandra Ardente… usando fogo. — Passa a mão pelos cabelos castanhos. — Não esperaria menos do neto dele.

    Quando a escuridão da noite cede lugar à luz da manhã, Heragon desperta ainda dolorido. Vira o rosto e quase salta de susto ao dar de cara com uma cabeça triangular, um chifre no centro e escamas que variam do marrom-claro ao escuro.

    — Aaaaah! — Grita por instinto.

    Sem pensar muito, sai correndo meio desengonçado. A enorme cobra o persegue, serpenteando rapidamente atrás dele. Ao alcançá-lo, o bote vai seco em sua direção. Heragon cruza os braços por puro reflexo enquanto cai de bunda no chão e o ataque para a poucos centímetros de sua cabeça.

    — Aquele velhote não te treinou direito. Você nem consegue ressoar o próprio Eco conscientemente.

    — O quê?! Você fala?!

    — Mas é claro que falo. Enfim… — A cobra começa a se retrair, tomando a forma de um homem jovem de aparência sábia, cabelos castanhos e olhar ranzinza. — E aí, garoto. Vejo que cresceu bastante.

    — Tio Ouroboros! O vovô…

    — Já imagino o que aconteceu. Mas, antes de qualquer coisa, vamos comer algo. Aquela Salamandra vai render um bom cozido.

    Eles seguem entre árvores, cachoeiras e córregos, até chegarem a uma caverna aconchegante. Onde Ouroboros, um amigo de longa data do avô de Heragon, cozinha a Salamandra enquanto prepara um café da manhã reforçado.

    — Heragon. Agora vá descansar — diz ao ver o jovem tentando se levantar.

    — Não tenho tempo para isso, tio. Preciso encontrar o vovô.

    — Haah… cabeça dura. Do jeito que está, você vai morrer antes de chegar lá. Fique e treine um pouco.

    — Mas…

    — Nada de “mas”. Conhecendo o velho Fiogon, ele ainda está bem. Agora, passe esta pomada nos ferimentos e se enfaixe. Amanhã, vou te levar a um lugar.

    Heragon resmunga, apertando os punhos com força, mas dada a própria situação, relaxa e… obedece, mas ainda pestanejando. No dia seguinte, Ouroboros o conduz o até uma cachoeira barulhenta ao lado de um pântano. Próximo à margem do rio que corta a paisagem pantanosa, uma criatura de couraça grossa repousa deitada com a boca aberta.

    — Derrote aquele bicho. Se conseguir, te levo até o seu avô.

    — Sério?! É uma promessa? — Empolgado, ele estende o dedo mindinho para o homem.

    — É. Se tiver sorte de sobreviver. — Revirando os olhos, retribui o gesto.

    Heragon observa o ambiente, amarra cipós, prepara uma armadilha e se posiciona. Lentamente, aproxima-se da criatura. Assim que ela o nota, um olhar carregado de sede de sangue o paralisa.

    Se mova… eu preciso me mover, vamos lá, pernas idiotas!

    Mas, antes que consiga reagir, uma sensação sufocante toma conta dele. Uma imagem de pura morte invade sua mente. As pernas tremem de forma descontrolada, até ele sentir a própria roupa se molhar.

    Ouroboros surge à frente dele, a fera ao perceber que alguém mais forte chegou, foge correndo para dentro da água. O jovem cai sentado, ofegante.

    — Entendeu agora? Para salvar Fiogon, você vai ter que invadir a casa dos Predadores. O mais fraco dos inimigos que terá de enfrentar… tem a mesma presença que essa criatura.

    — Então eu… ainda sou fraco demais. — Ele abaixa a cabeça. — Mas posso ficar forte o suficiente se treinar com você?

    — Digamos que será um bom começo.

    Heragon olha por entre as pernas e vê a virilha molhada. A vergonha bate. A realidade martela. A decisão é tomada. — Não tenho escolha, vovô. Espere só mais um pouco. Vou ficar mais forte e te salvar.


    Uma neblina engole a visão. A savana está estranhamente quieta. Ele caminha com calma, enquanto pequenos roedores roem um osso ainda coberto por vestígios de carne. Ao menor sinal de presença, disparam, abandonando a refeição para trás.

    Os passos no solo úmido, aos poucos, são substituídos por pedra talhada. O ar branco, leve e insistente, revela casas rústicas surgindo uma a uma, com cabeças de animais empalhados no topo, exibidas como troféus que vigiam quem se aproxima.

    Sem muros, sem bloqueios, uma grande estrutura se impõe. Paredes erguidas com ossos de bestas gigantescas. No lugar de pinturas, peles de animais cobrem tudo, como um aviso de que a própria história daquele povo foi escrita em carne, caça e inverno.

    Ele atravessa um corredor largo e chega a um portão. Entra. O chão cede sob o tapete de couro. À frente, um trono feito de incontáveis ossos, empilhados após o sabor da caça.

    — Grande Predadora. — Hugo se ajoelha diante de uma figura com um olhar mais afiado que mil lâminas.

    — Sabia? A tradição diz que cada novo Grande Predador deve cravar um osso nesse trono — diz a mulher de cabelos negros sentada com sua fina silhueta no trono da morte.

    — Sim, eu sei. Afinal, já me sentei nesse trono.

    — E, mesmo assim, deixou o garoto escapar com o Medalhão Rodens e empatou com um Dragão velho, datado de antes da Era Noite Eterna. — Ela eleva o tom, cada palavra bate como um golpe.

    — Ele pediu ajuda para aquela mulher. Os rastros foram apagados depois que o garoto foi levado… e Fiogon, mesmo sendo velho…

    — Sem desculpas. Hércules unificou nossa raça. Depois que foi embora, seu meio-irmão… meu pai, assumiu. Depois de morrer… por muito tempo me foi negado o trono.

    Hugo permanece em silêncio. Já ela se levanta, desce com passos firmes caminhando até ele. Pousa a mão em seu ombro e fala perto de seu ouvido.

    — Você é uma decepção, igual ao seu filho traidor. Os outros Ômegas e seus subordinados ficaram encarregados de rastrear o garoto. Fique quietinho por aqui.

    — Sim, Predadora. — Ele serra os punhos, irritado: Essa pirralha… é isso que dá colocar uma coroa em alguém tão jovem. — Ainda assim, se mantém centrado, sem sair do lugar.

    Ela caminha calmamente para fora da sala do trono, atravessando um longo corredor e desce escadas até um vasto labirinto. Anda ate chegar ao centro, para frente a um portão colossal de ferro negro. Três fechaduras o selam, desenhando runas num brilho fraco e azulado. Atrás dele, correntes de Prata Rúnico se entrelaçam, conduzindo até as algemas que prendem Fiogon, imóvel, mas com um leve sorriso. Sereno. Orgulhoso.

    — Meu neto… — diz ele, a voz ecoando em um sussurro que o lugar inteiro escuta. — Sua jornada acabou de começar. Siga o seu próprio caminho… e não se esqueça de aproveitar a vista.

    O portão se abre em um rangido antigo, a luz recorta a silhueta da predadora que entra com um sorriso de canto.

    — Fi-o-gon, vim brincar com você. Me diga, que tipo de interrogatório… acha o mais divertido? — diz, mordendo de leve o canto da boca.

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