Capítulo 14 — Penumbra

Em queda livre, mil pensamentos atravessam a mente de Heragon.
Ele respira fundo, organiza a cabeça. Enquanto cai, controla o corpo para não bater nos galhos.
Naquela velocidade, mesmo usando ressonância para endurecer a pele, se acertar de frente vai se quebrar bonito.
Algo aparece ruma a queda dele, uma garota, parada sobre gelo preso a madeira. Sem tempo para desviar, Heragon ajusta o corpo no ar, estica o braço… quase se chocando com ela.
Só no último instante consegue agarrá-la, evitando o impacto.
As nuvens ao redor começam a escurecer. O branco se fecha aos poucos, puxando para o cinza, até que eles se chocam contra nuvens carregadas.
A queda é amortecida, mas o impacto dispara uma descarga elétrica. Os trajes resistentes impedem danos sérios, porém o choque ainda é suficiente para fazê-los desmaiar.
Lá em cima, em solo firme. O mestre da Guilda observa a queda.
— Olha só… até imagino o que você está pensando. Mas não acha que é meio cedo para ele? — diz colocando as mãos nas costas.
— Hã… é bem difícil lutar naquele lugar — diz Elena. — Vai ter que aprender na marra. Por mais que pegue pesado com ele, admito: ele tem talento para artes marciais. E é determinado. Ele vai dar um jeito.
— É bom mesmo. Se algo acontecer com ele, vou te rebaixar para Rank B. — Se vira, já indo embora.
— Que isso, vai dar tudo certo… — Ela começa a soar.
Droga, é bom dar certo mesmo, pelo bem da minha carreira.
A raça dos humanos é conhecida por duas características simples: ganância em excesso ou impulsividade além da conta.
Lá… onde o céu é invertido e a tempestade é constante. Heragon desperta, pisca algumas vezes e encara o nevoeiro espesso ao redor. A cabeça lateja, e a memória volta aos poucos.
— O que aconteceu? Ah… sim. Aquela doida quer me matar. — Ele se senta, sentindo o corpo formigar.
— Ai… meu corpo está formigando — resmunga uma voz ao lado.
— Acordou. Você está bem? — Coloca a mão no ombro dela.
— Ah… o quê? Quem é você? — Recua, assustada.
— Não é hora para perguntas. Vamos. Precisamos achar um lugar seguro. — Heragon olha rapidamente a volta.
— Não vou a lugar nenhum até me dizer quem é você e onde estamos! — A garota cruza os braços.
A penumbra vibra. Pontos vermelhos começam a pipocar no horizonte negro.
— Vamos logo, estamos ficando sem tempo.
— Negativo. — A garota vira a cabeça. — Não dou um passo até ter respostas.
Heragon puxa a teimosa de supetão. Os dois despencam para trás. No exato ponto onde ela estava, um pescoço comprido irrompe numa bicada, enterrando a cabeça na nuvem.
Os pontos vermelhos então se revelam. Pequenas cabeças de bicos pontiagudos emergem do nevoeiro, presas a corpos arredondados cobertos por penugem acinzentada. As pernas são longas e finas, terminando em garras ferozes. Um bando inteiro se move ali dentro.
Uma das criaturas avança sem hesitar. A bicada mira a garota, mas Heragon se joga na frente e endurece o corpo no impacto.
A pancada os arremessa para longe, fazendo os dois quicarem pela superfície instável até caírem numa área mais afastada do bando.
Ele se ergue no mesmo instante e reage.
Um sopro de fogo rasga a névoa e ilumina tudo por um breve segundo. As criaturas recuam, cegadas pelo clarão. Os dois aproveitam a abertura para correr.
As nuvens são macias e traiçoeiras, afundando sob cada passo. A velocidade cai. Fica irritante. Perigosa. E o bando logo se recompõe, retomando a perseguição.
Heragon fecha os punhos, pronto para contra-atacar se fosse preciso.
À frente, um paredão de água despenca sem fim. Na base, abre-se um túnel de pedra, com musgos bioluminescentes brilhando pelas paredes.
A teimosa percebe a entrada de imediato e aponta para ela. Heragon questiona. Podem acabar encurralados ali dentro. Ainda assim, a lógica é irrefutável: se a ameaça vier de uma única direção, ficará mais fácil lutar.
O jovem Dragão pensa por um instante e concorda, lembrando-se do truque de Merlin com as paredes de terra. Se aquilo podia ser usado para encurralar, também podia servir para limitar o avanço do inimigo.
Percebendo a dificuldade de correr naquele ambiente, a garota age. Água cristalina escorre por suas mãos e se espalha pelas nuvens à frente.
No instante em que pisa, o líquido congela e avança rápido, formando uma pista de gelo.
Com movimentos precisos dos pés, ela desliza sem perder o ritmo.
Heragon tenta imitar. Falha. Perde o equilíbrio, cai, e a pancada trinca o gelo sob o corpo.
Na hora, entende que não bastava copiar. Então improvisa. Dobra os joelhos e joga os braços para trás.
Uma rajada de chamas explode de suas palmas abertas e o lança para frente.
Ele cai e desliza de forma desgovernada, mas usa as mãos para corrigir a direção e não escapar da pista de gelo. Ao alcançar o corredor, salta em guarda… e percebe que as criaturas haviam parado de persegui-los.
— Estranho… por que não vieram atrás da gente? — Ela pergunta, confusa.
— Sei não. Talvez tenham medo do paredão… ou da luz dessas paredes. — Heragon dá de ombros.
— Ainda assim, não faz sentido. Devem ser bichos daqui, estão acostumados com tudo. Ei… aonde você vai?
— Explorar. Vai que eu acho um caminho lá para cima.
Sem andarem muito, chegam a um espaço aberto cercado pelo mesmo paredão de água. No centro, um amontoado de pedras cobertas de musgo.
De dentro dele, uma tromba d’água sobe, carregando luz, como uma coluna viva puxando o mundo para cima.
— Já sei onde estamos. — Heragon sorri. — Em uma das histórias que meu avô contou, existe uma tromba d’água que leva a água lá para cima, distribui pelas veias da ilha e depois despeja lá de cima, formando esse paredão.
— História bem detalhada — comenta ela. — Então dá para usar essa tromba para subir.
— Exato. Mas, se tudo for verdade, isso significa… — Algo o acerta no meio da frase e o lança longe.
Diante da garota, pousa uma criatura maior que as demais, penugem totalmente branca, limpa demais para um lugar tão escuro.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.