Índice de Capítulo

    Vaiola estava estática, sem saber como reagir àquele movimento rápido do gorila. Ela estava tão atordoada que esqueceu todos os ensinamentos que recebera da sua mãe até aquele momento.

    O gorila de frente para ela exalava uma aura fervilhante, a atmosfera ao seu redor estava em chamas, dificultando a sua respiração.

    Ela viu toda a sua vida passar pelos seus olhos lentamente, o punho coberto de fogo se aproximando cada vez mais do seu peito.

    Ela não tinha como reagir a tempo.

    Seu pai, ao seu lado, não teve nem tempo de puxar a nanica para perto de si, tempo de mantê-la protegida. Seus olhos arregalados estavam fixos na filha, seus dentes cerrados e sua mão estendida para tentar alcançar a pequena.

    Seu coração não mais pulsava durante aquele segundo tortuoso. Ele queria tanto salvar a sua filha, mas sabia que não seria mais rápido que aquele gorila, sabia que a sua mão chegaria tarde demais, que a sua mão só chegaria no seu destino depois que a Vaiola tivesse sido lançada longe, em chamas.

    Precisava evitar aquilo, mas como?

    “Outra vez!! Está acontecendo outra vez! Por que as Bestas Mágicas continuam atacando a minha filha!!!?”— A indignação era tanta que gerava lágrimas gélidas que escoriam pelo seu rosto. —“Por quê!!? Por quê!!?”

    BAAAAMMM!!!

    O chão tremeu quando o gorila acertou o seu alvo e rachaduras se formaram no chão, naquela leve cratera circular que se formou.

    — Preste bem atenção, pequena! — A voz da Lavina despertou os sentidos do Glamich e da pequena Vaiola, que tinha fechado os olhos momentos antes da sua mãe se colocar entre o punho em chamas do gorila e a nanica.

    Os olhinhos da Vaiola cintilaram, orgulho e admiração se fazia presente neles, a mãe dela tinha parado a investida do gorila usando apenas o indicador direito.

    — Você é uma Hermis, deverá ser capaz disto.

    O gorila saltou para longe depois de vislumbrar o sorriso da Lavina, depois de notar que aquela mulher nem prestava atenção nele depois de receber o seu mais forte soco.

    Não era uma mulher normal.

    — Não desvie o olhar nem por um segundo. — Lavina lançou um olhar ao esposo e ele logo abraçou a filha e se distanciou da mulher, se escondendo atrás de algumas árvores, num lugar onde a nanica poderia ver tudo o que estava prestes a acontecer.

    — Me digam! Branca? Amarela? Laranja? Qual a vossa Classe?

    Se era atenção o que as Bestas Mágicas queriam, elas tinham conseguido a da Lavina. A mulher tinha se colocado de fronte para as três Bestas Mágicas, tombando com rigidez a cabeça para os lados, estalando os músculos do pescoço. 

    Roooaaaarrr!!

    — Ah, é mesmo! Vocês não falam, hehehe. — Não, não era um riso de ameaça. Aquele era um riso sincero e um riso de empolgação e animação. Aquele era o riso que dizia: “Lavina Hermis saiu da jaula.” — Já faz um tempo que eu não me mexia.

    Ela deu um passo para frente, a atmosfera mudou na mesma hora. O ar se tornou mais denso e parecia que uma força estava forçando tudo e todos a se curvarem perante a presença daquela mulher. As árvores se entortaram, não suportando a pressão, as pedrinhas no chão viraram pó e a leve brisa começou a dar início a um vendaval.

    — Vocês são tão patéticos. — Lavina deu outro passo e as Bestas Mágicas deram três passos para trás, usando de todas as suas forças de vontade para não se curvar. Era evidente o receio delas. — Ainda não fiz nada e vocês já estão fedendo a desespero. — Outro passo. — Já disse que adoro o cheiro do medo?

    Um arrepio percorreu toda a criatura que viu o sorriso psicótico que surgiu entre os lábios daquela mulher. Toda.

    — Virão? — Outro passo da Lavina e outro recuo das Bestas Mágicas. — Ou precisarei ir até vocês?

    Grrr…!!

    As Bestas Mágicas não mais se encolheram, sabiam que morreriam, lutando ou fugindo.

    O gorila não recuou mais, ele inflou as bochechas e estufou o peito, seus punhos cerrados e cotovelos recuados.

    ROOOAAAR!

    VOOOSSH!

    Fogo saiu da boca do gorila como uma forte rajada, voado com ferocidade contra a Lavina, enquanto derretia a areia no chão e transformava em nada as folhas, galhos e pequenos arbustos no caminho.

    — Primeira lição! — Lavina levantou o indicador direito durante a fala, sem se importar com a rajada de fogo que ia contra ela. Vaiola, que estava atenta a todos os movimentos da mãe, logo viu uma barra roxa no pulso da mão levantada. — Uma Hermis que teme magia não é digna de ser uma Hermis. — Lavina disse, abrindo a palma da mão. — Diante de uma Hermis, magia não é diferente de uma mosca irritante, portanto, apenas a enxote.

    VOOOSH!

    A rajada de fogo se aproximou, com violência, da Lavina, contudo, como se nada daquilo estivesse acontecendo, lavina permanecia plena, girando a mão para lá e para cá, como se seu pulso doesse, mas aquele não era o caso.

    Quando as chamas chegaram perto o suficiente para transformar qualquer humano em cinzas, lavina apenas estendeu o seu braço e, como enxotasse uma mera mosca, ela agitou a mão de leve, bem leve mesmo, ao ponto de que, mesmo se atigisse um recém-nascido, o atingido gargalharia, achando fofo o toque.

    Todavia, entretanto, com um repentino Pof!, as chamas simplesmente sumiram, depois que foram atingidas pela mão da mulher, transformando-se em finíssimas partículas de Ehne.

    O sorriso da Vaiola quase rasgou as suas bochechas, quando ela viu a sua mãe suspirar com decepção e desânimo. Não parecia que a mulher tinha acabado de dispersar, com extrema facilidade, uma rajada de chamas capazes de fazer até a areia derreter.

    Tinha areia derretida na trilha deixada pela rajada de chamas.

    — Segunda lição! — Lavina levantou dois dedos, quando o gorila percebeu que a rajada de fogo sequer aranhou a mulher e decidiu apostar no combate corpo-a-corpo. — Todo e qualquer usuário de magia é similar a uma peça de porcelana diante de uma Hermis. — O gorila avançava com os punhos e os dentes cerrados, a chama em seus olhos crescendo a cada segundo. — Portanto, lembre-se de não usar mais de 0,000001% da sua força total… se não quiser fazer estragos.

    Thud!

    Thud!

    Thud!

    Enquanto o gorila avançava na força do ódio e do medo, lavina apenas estendeu o braço direito, sua palma aberta. Então, quando o gorila chegou mais perto, ela apenas dobrou o dedo médio e criou uma pressão bloqueando-o com o polegar.

    Roar!!!

    O gorila rugiu e, então, Voosh!, lançou o seu punho usando tudo o que tinha de força e magia. A chama que cobria aquele punho enorme era tão densa que parecia algo pastoso.

    Vendo o soco chegar, Lavina teve até tempo de suspirar desanimada, de tão lento que o gorila era da sua perspectiva, então deu dois passos para o lado, podendo assim ver o instante em que o punho do gorila passou ao seu lado. A chama naquele punho, que parecia lava, concheguiu tocar os cabelos da mulher, mas não conseguiu causar nenhum dano sequer.

    Quando o gorila deu mais um passo, a mão da lavina alcançou a bariga dele, então, ela deu o peteleco mais suave da sua vida.

    BOOOOOOMMMM!!!

    Sangue e carne vôo para todos os lados, pintando o chão, as árvores que estavam num raio de dois metros e a própria Lavina. 

    O gorila tinha explodido, como se tivessem implantado uma bomba dentro dele.

    — Correção! — Lavina gritou, baixando o braço. — É melhor que use uma força abaixo de 0,000000001%. — Ela baixou a cabeça, parecia pensantiva. Então, sem que ninguém pudesse ouvir, murmurou: — Eles são tão… fracos…

    — LAVINA!!! — Glamich gritou enquanto a esposa ainda estava pensativa, seus olhos arregalados e a boca escancarada.

    — Huh!? — Lavina virou o rosto naquela direção, mas parecia que não era aquilo que o seu esposo queria que ela fizesse.

    Voosh!

    Swing!

    No segundo seguinte, Lavina apenas escutou o assobio de algo cortando o ar, algo que parecia bastante afiado.

    BAAM!!

    Glamich cerrou os punhos quando sequer pôde ver quando a esposa foi atingida, de tão rápido que foi o golpe desferido. Antes ele sequer tinha conseguido acompanhar os movimentos da Lavina e do gorila, aquilo tinha acontecido instantaneamente para ele e, naquele momento, aquilo estava se repetindo. Ele só tinha visto a aranha gigante chegar perto da Lavina e levantar a sua grande foice, então, uma densa cortina de poeira foi levantada.

    — Terceira lição! — Glamich levantou as sobrancelhas ao escutar aquela voz. — Não existe usuário de magia capaz de machucar o corpo de uma Hermis.

    Krikikriki!

    Um alto grunhido dolorido ecoou pela floresta, então a cortina de poeira se dissipou, revelando uma Lavina intacta e a aranha se lamentando enquanto recuava, sua foice direita estava destruída e jorava cachoeiras de sangue, depois de atingir a muralha que era o corpo da Lavina.

    — Quarta lição! — Lavina disse em seguida e, de um segundo para o outro, quando pai e filha viram, a mulher não estava mais onde estava um segundo atrás. — Uma Hermis deve ser capaz de se manter atenta aos seus arredores, mesmo sob poderosas distrações.

    Vaiola olhou para cima e viu a sua mãe suspensa no ar, parecia que a gravidade não tinha mais poder contra ela, mas bastava olhar com alguma atenção para ver a Lavina chutando repetidas vezes o ar.

    Gruuuu!!

    O chão tremeu um segundo depois e, de onde a Lavina estava antes, a enorme giboia emergiu do chão, subindo aos céus com a boca escancarada.

    Lavina viu aquilo e esperou a giboia chegar perto, então parou de chutar o ar e deu um giro mortal para trás, atingindo a mandíbula superior do réptil, o obrigando a fechar a boca, por fim… ela apenas se soltou.

    BAM!

    Uma leve cortina de fumaça levantou, depois de um leve tremor de terra, leve o suficiente para que pai e filha pudessem ver a Lavina parada sobre a cabeça da giboia. Ela foi como um meteoro e esmagou até a morte a pobre Besta Mágica.

    — Nooossa! — Vaiola olhou fascinada para a cratera que tinha surgido sobre a cabeça da grande cobra. — Huh!?

    A nanica arregalou os olhos em seguida, quando a sua mãe voltou a sumir.

    Thig!

    Um som metálico soou, parecia o choque entre dois metais, mas, depois de virar a cabeça na direção da grande aranha, Vaiola viu que uma das partes era o punho da Lavina e a outra parte era uma espada longa.

    “Interessante.”— Lavina sorriu, depois de ver a criatura que tinha bloqueado o seu ataque. 

    Era uma Lihyf.

    A Lihyf mantinha um olhar determinado e inabalável, vestia uma armadura branca com detalhes dourados, seus longos lóbulos caíam sobre as ombreiras e seus cabelos alaranjados contrastavam com a sua pele negra.

    — Vão embora! — A Lihyf imperou, o trevo de prata em suas íris douradas fitava a Lavina com alguma raiva.

    — Heh, Heh! — Lavina retraiu o punho e a floresta ao seu redor se moveu até criar uma trilha de saída. — Você segurou o meu punho com uma mera espada?! Nada mal. — Lavina sabia que venceria se enfrentasse a Lihyf e nem precisaria se esforçar, mas também sabia que não ganharia nada com isso. — Mesmo que eu tenha usado quase nada de força naquele golpe, ainda é impressionante que você tenha conseguido segurar, afinal é do meu punho que estamos falando. Nada mal mesmo. — O sorriso da Lavina continuava lá, assim como a determinação inabalável nos olhos da Lihyf. Sem querer arrumar confusão, a humana apenas deu as costas à Lihyf e se virou para a sua família. — Vamos!

    Glamich se levantou com a sua filha no colo e seguiu a esposa para fora da floresta. 

    Quando a família já estava longe, a floresta voltou a se mover até esconder a trilha.

    — Kugghh! — As pernas da Lihyf tremeram e cederam. Os joelhos dela foram ao chão, as costas arquearam-se e ela começou a vomitar sangue. Da sua perspectiva, tudo ficou borrado e parecia rodar. 

    “Mesmo que eu tenha usado quase nada de força…”— As palavras da Lavínia reverberam em sua mente. —“Aquilo foi… quase nada???!”

    — Q-que…

    — Tipo…

    — De monstro… 

    — Era… 

    — Aquele?

    Seu corpo não parava quieto, estava tremendo todo, como se estivesse acontecendo um terremoto no seu organismo. Então sangue desceu dos seus olhos, nariz e orelhas.

    — Cof! Cof! Cof!

    Sangue continuou a sair da sua boca.

    A Lihyf largou a espada no chão, o metal se transformou em estilhaços e o mesmo aconteceu com toda a armadura dela, a deixando com apenas aquilo que parecia ser uma túnica castanha, que estava por baixo da armadura.

    Ela desmaiou em seguida, precisando ser ajudada pela aranha gigante ferida.


    [Algures no Oceano Escarlate]

    Os irmãos Nel estavam mais uma vez na cabine do capitão no Liberdade.

    Uma simples vela no centro de uma mesa de madeira iluminava fracamente o lugar. 

    Sobre a mesma mesa estava um grande e detalhado mapa da Dimensão Amarela, marcado com inúmeros “X’s” em vários pontos, excepto no extremo Leste, na região ao redor da Ilha dos Esquecidos.

    — Nós finalmente conseguimos, capitão! — Kramustek anunciou com alegria, incapaz de segurar os sorrisos.

    Ele pegou uma caneta tinteiro vermelha e a aproximou do mapa, marcando um grande círculo na região Nordeste da Ilha dos Esquecidos.

    — Não temos a exata localização, mas temos certeza que a Interseção está nesta região do oceano. — Kramustek concluiu e o capitão sorriu.

    — Finalmente. — O capitão disse, a felicidade em suas palavras. — Finalmente encontramos… a ponte entre as Dimensões.

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