Capítulo 38 — 1 Última Vez
O dia começou ensolarado, com leves manchas brancas, quase invisíveis, perambulando pelo firmamento.
O calor acolhedor da manhã, os ventos mornos e a melodia dos pássaros tornavam qualquer fardo menos pesado e reduziam boa parte das frustrações diárias.
Naquele dia, que prometia ser o mais belo do mês, algumas crianças da Favela do Leste se reuniram próximo à entrada do lugar. Ali, traçaram uma linha reta bem no limite da favela, onde cada uma posicionou um pé.
Elas se preparavam para uma corrida.
Eram apenas sete crianças ali: três meninas e quatro meninos, todos com uma média de cinco a seis anos de idade, prontos para aquela jornada desafiadora que era atravessar a favela de um extremo ao outro.
— Então está combinado. — Alin falou, com um largo sorriso no rosto. — Quem vencer vai poder desafiar a Vaiola quando ela voltar.
Podia-se dizer que aquelas eram as eliminatórias, um confronto para determinar quem poderia desafiar a mais rápida entre as crianças daquela idade. Alin já largava um passo à frente dos demais; afinal, antes de ser rebaixado pela Vaiola, era o mais rápido da sua faixa etária.
Naquele momento, ele só precisava reafirmar isso.
— Atenção!
Havia uma miúda, com uma aparência que denunciava uma idade não superior a doze anos, que tinha sido escalada para ser a responsável por acender aquela chama.
Ao ouvirem sua voz, as crianças na linha de partida trocaram olhares e sorrisos. Brilhos de determinação e desafio cintilavam em seus olhos; cada uma estava confiante de que poderia vencer as demais. Confiantes de que os vários dias de treino não seriam em vão.
— Preparar!
— Vejam se não se perdem na poeira que vou deixar para trás. — Alin debochou, firmando os pés em preparação para o impulso da partida, os olhos atentos ao caminho adiante. — Tenho treinado muito desde que a Vaiola saiu. Quando ela voltar, vou mostrar que não fiquei parado nesses dois meses.
Vaiola era sua rival, e desafiá-la para uma corrida era seu maior passatempo. Depois que a nanica saiu com a mãe, há dois meses, sem aviso nenhum, ele praticamente ficou sem nada para fazer. Por conta disso, decidiu se dedicar ao máximo ao treinamento, determinado a vencê-la da próxima vez.
— VÃO!!!
Quando a adolescente gritou, depois de uma pausa dramática, apenas viu vários vultos passarem ao seu lado em disparada.
A corrida tinha começado.
Quando adentraram a favela, as crianças se separaram pelos becos inevitáveis, já que seguir pelo mesmo caminho certamente obrigaria algumas a permanecer no fim da fila.
Alin seguiu por um beco cheio de buracos por toda a extensão, mas seus pés, já acostumados ao terreno degradado, evitavam as depressões com maestria, dando pulos leves ou amplos sempre que necessário.
Mesmo com as pernas curtas, conseguia dar passos rápidos o suficiente para compensar a deficiência na distância percorrida a cada passada e, controlando a respiração, garantia que seu fôlego duraria por muito tempo.
Apaixonado por correr desde os três anos de idade, a estamina do pequeno rapaz tinha se tornado algo além do que se poderia esperar de uma criança daquela idade.
Enquanto passava por entre aquelas paredes rachadas, porém coloridas, Alin mantinha o sorriso. Não era um lugar imponente; pelo contrário, possuía uma aparência extremamente frágil, mas ainda continuava de pé.
Tudo graças ao companheirismo infinito da população dali.
Passou pela senhora Lirta, aquela que alguns chamavam de eterna viúva. Nunca a tinham visto com outro homem desde que perdeu o marido aos vinte e oito anos. Há trinta anos.
A velha senhora sorriu ao ver o garoto correr, então levantou a mão e gritou:
— É melhor vencer, moleque! Estou apostando em você!!
Ah, sim. Aquela velha era viciada em apostas.
O lado bom disso?
Bem, era absurdamente sortuda, a ponto de parecer feitiço.
Não era à toa que conseguia se sustentar e ainda ajudar algumas pessoas, mesmo estando sozinha no mundo. Talvez fosse justamente a confiança nessa sorte incrível que a tivesse levado a desenvolver tal vício.
— Pode deixar! — gritou ele, seguindo por uma curva ali perto e chutando uma das paredes para se equilibrar. — Mas compra um doce para mim depois.
— Hmpf! Moleque ganancioso.
A velha bufou e, enquanto voltava para dentro de casa, um sutil sorriso desenhou-se em seus lábios.
Noutro beco, longe dali, uma criança de olhos verdes e cabelos acastanhados também corria desenfreadamente, ávida por levar aquela vitória para casa. A menina não era como Alin, ou seja, não tinha muito tempo como corredora, tendo começado a correr há pouco mais de sete meses, depois de ver Vaiola, que era mais nova e menor que ela, vencer o garoto mais rápido daquela faixa etária.
Naquele dia, ela ficou tão maravilhada que começou a fazer tudo correndo, justamente para alcançar aquele patamar e, um dia, poder desaparecer por ser tão rápida.
“Eu vou conseguir.”
Retsa era seu nome e, com o fogo da determinação incendiando seu coração, acelerou ainda mais.
Mas, quando percebeu, uma casa surgiu diante dela. Era o fim do beco. Ela não conseguiria desacelerar a tempo de fazer a curva ao lado da construção.
“É o único jeito.”
Com esse pensamento, seus olhos focaram-se na janela aberta ao lado da porta e, sem fraquejar, conseguiu impulso num buraco do chão. Então pulou e, ao se aproximar, pousou e rolou pelo piso.
No interior da casa, Retsa conseguiu se equilibrar bem antes de se chocar contra a mesa no centro da sala e se levantou de imediato.
Plang.
— Oh! Menina! — Olhou para o lado, onde encontrou uma mulher de meia-idade que acabava de derrubar uma colher de pau. — Quase me mata de susto.
Enquanto a senhora recuperava o fôlego, com uma mão sobre o peito, os olhos fechados e a outra apoiada na cadeira, outra voz soou.
— Quem é o miserável!? — A voz era ruidosa e bem grave, chegando a assustar a menina. — QUEM OUSA INVADIR MINHA CASA!?
Um homem saiu do cômodo à frente, segurando um facão, sem nenhuma vestimenta cobrindo o tronco.
— Ah, querido. É só a…
— Então é você, piralha!? — o homem gritou, interrompendo a mulher. — É isso que os teus pais te ensinam!?
Quando viu o homem largar o facão sobre a mesa e segurar o chinelo que calçava, Retsa rapidamente se preparou para sair dali. Não era medo, era só hábito mesmo.
Ela conhecia bem aquele casal, conhecido por muitos como “o Ogro e a Sonhadora”.
Bastava colocar os olhos na senhora para perceber que ela era gentil e simpática, daquele tipo que não suportava ver uma maldade acontecer e ficar quieta.
Quanto a ele, era conhecido como resmungão e extremamente irritadiço. Se não estava com a esposa, estava sempre sozinho, fosse pela rua ou em casa. Sua esposa dizia que ele amava aquilo, então ninguém o importunava, conversando com ele apenas quando o homem tomava a iniciativa.
Contudo, apesar daquela personalidade aparente, Retsa sabia muito bem que aquele homem era a pessoa mais bondosa que já conhecera, alguém capaz de abrir mão do próprio prato para alimentar outra pessoa… mesmo que sempre usasse desculpas desagradáveis para realizar seus atos altruístas sem quebrar a imagem que havia construído.
— Desculpa aí, senhor Ogro! — gritou, correndo até a janela do outro lado e saindo dali o mais rápido possível.
— SUA PIRRALHA!!
Enquanto o homem lançava o chinelo, a mulher apenas esboçou um pequeno sorriso.
As outras crianças também seguiam por suas rotas escolhidas, por vezes esbarrando nas diversas individualidades que compunham aquela favela.
Apesar dos contratempos causados por aquela corrida sem regras, os moradores dali observavam e aceitavam aquilo com alegria. Crianças fortes constroem futuros prósperos, afinal.
Em determinado momento, as pessoas começaram a se juntar e seguir as crianças pelos becos, lançando contínuos gritos de apoio e incentivo para todas elas, ajudando-as a enfrentar e superar o cansaço que começava a se acumular com o passar do tempo.
A criança que seguia por último era um garoto de seis anos e meio, com cabelos escuros como a noite e olhos de um tom azul muito escuro. O menino chegou a pensar em desistir algumas vezes quando sentiu o peito apertar e o fogo consumir o ar dos pulmões.
— Hunf! Hunf! Hunf!
Ele não suportava mais… não era como os demais.
Tinha começado a correr havia dois anos, mas continuava sendo o mais lento dentre o grupo de crianças que compartilhavam aquela mesma paixão. Esforçava-se tanto, mas seu corpo simplesmente não conseguia acompanhar a própria determinação.
— Hunf! Hunf! Hunf!
“Eu preciso descansar.”
Ou ele parava, ou seu coração faria a pausa em seu lugar.
Seu passo desacelerou e…
— VOCÊ CONSEGUE, MOLEQUE!!
— FALTA POUCO, AGUENTA AÍ!!
— VOCÊ ESTÁ INDO BEM, NÃO DESISTE AGORA!!
— …
— …
Tantas vozes de incentivo chegaram até ele de um segundo para o outro, recarregando sua bateria de determinação e teimosia.
— Hunf!
Arfou por uma última vez, apertou o peito com força e seguiu correndo, ainda que mais devagar do que antes.
Desde que alcançasse a linha de chegada, já seria melhor do que desistir.
A desistência abria as portas para a preguiça, o caminho mais rápido em direção ao fracasso. Já a insistência e a determinação, mesmo que a conta-gotas, um dia levavam à perfeição.
Ele só precisava insistir por mais um pouco e, um dia, seria como os outros… ou melhor que eles.
Vendo ali aquelas faces conhecidas — a velha e manca Alva, a jovem Tarina, de dezessete anos, que ele desejava que esperasse só um pouquinho até que pudesse crescer e se casar com ela, Ernik, que estava sempre contando piadas e se esforçando continuamente para ser engraçado, mesmo falhando quase sempre…
A dona da casa ao fim da rua, que sempre fazia bolos nos finais de semana, o velho Rainut, que era como um líder por ali, e muitos outros…
Com o incentivo de todos eles, o menino se viu obrigado a nunca desistir.
Para os demais acontecia o mesmo… todos haviam conquistado o próprio público e os próprios torcedores pelo caminho.
…
…
…
E…
Por uma última vez…
Essa é a Favela Arco-íris.
Ao cair da tarde, bem próximo do pôr do sol, quando nuvens cor de fogo cobriam o firmamento, Alin chegou em casa, acompanhado de sua irmãzinha, que o seguia para todo canto.
— Você foi muito incrível, irmão. — A pequena comentou, abrindo um sorriso. — A-a Retsa estava… estava na frente… mas depois vrum… ela não deve… não deve nem ter te visto chegar.
Ela falava com tanta animação que, de vez em quando, tropeçava nas palavras. Aquilo, associado ao seu rosto redondo e às bochechas rechonchudas, tornava a cena ainda mais fofa.
— Hahaha. Eu te disse que ninguém me venceria. — Bateu no peito, com uma mão na cintura, fazendo uma pose orgulhosa. — Vaiola vai ver só quando voltar.
Quando a menor riu, Alin bagunçou os cabelos um tanto avermelhados dela, que dividiam espaço com vários fios negros, e sorriu com alegria ao ver aqueles olhos grandes, da cor do mel, brilhando.
Andaram mais um pouco e puderam ver a própria casa. Lá, uma mulher de longos cabelos ruivos balançava o braço, sorrindo largamente ao vê-los.
Era a mãe deles.
As duas crianças acenaram de volta, sorrindo. Com saudades da mãe, a mais nova correu naquela direção, gritando:
— Mãe, você não vai… não vai acreditar, hehehe!
Foi então que Alin arregalou os olhos e sentiu o corpo estremecer levemente. Ele não sabia de onde aquilo tinha surgido, mas uma lança de fogo estava caindo em direção à sua casa.
E não era só aquela.
Outras inúmeras caíam atrás dela, cobrindo os céus da Favela do Leste.
— YILMA!!
O rapaz gritou o nome da irmã por puro instinto, enquanto seu corpo agia sozinho.
No segundo seguinte, já estava ao lado dela. Porém, a lança de fogo também se encontrava a meros centímetros do teto da casa. Ele não sabia de onde vinha aquela sensação, mas sentia que precisava tirar a irmã dali.
Antes mesmo de entender o que estava acontecendo, Yilma apenas sentiu o empurrão do irmão, que a lançou para trás até ser detida por uma parede próxima.
Então…
KABOOOOM!
Quando a lança de fogo tocou o teto, a enorme explosão lançou uma furiosa onda de vento, areia e fumaça, que prensou a menina contra a parede, abrindo rachaduras profundas na estrutura frágil.
Aquela cortina levou alguns minutos para se dissipar e, enquanto o corpo lutava para se manter firme, Yilma abriu os olhos, tentando chamar pelo irmão e pela mãe em meio a severos acessos de tosse.
— Irm… COF!! COF!!
Ela tinha manchas de sangue espalhadas pelo corpo, resultado dos inúmeros ferimentos causados pelos detritos lançados pela explosão. Mas não era nada grave.
Contudo, lá na frente, um cadáver carbonizado se desfazia em pedaços e, ao ver aqueles cabelos ruivos, que ainda insistiam em permanecer presos àquele crânio transformado em carvão, Yilma sentiu como se seu coração tivesse sido esmagado.
Mesmo querendo se aproximar, seu corpo permaneceu estático.
Sua mandíbula tremia, assim como todo o resto. Parecia impossível piorar.
Até que ela viu o segundo cadáver.
Era um pequeno corpo.
Era aquele pequeno rosto que ela conhecia tão bem.
Era uma criança atravessada por uma barra de madeira.
Com boa parte do corpo ainda em chamas, Alin não mais se movia…
Sequer respirava.
Aquilo destruiu de vez o mundo da menina, ao ponto de fazê-la esquecer como respirar. Seu cérebro não conseguiu responder àquilo e simplesmente travou, paralisando seu corpo e todas as suas funções.
Depois de cerca de dez segundos, Yilma caiu inconsciente.
Mas não foi apenas ela que caiu.
A parede atrás dela desabou logo em seguida.
A estrutura apenas acelerava conforme caía, levando cerca de três segundos até atingir a menina. Porém, era impossível ignorar o tentáculo que surgiu um milésimo de segundo antes.
Naquela noite, quando as duas luas brilhavam majestosas nos céus, Vaiola caminhava sozinha, sorrindo por já estar perto de casa.
Ela ainda não entendia a razão do treino ter acabado cedo, muito menos por que sua mãe a enviara sozinha, dizendo apenas que a alcançaria depois. Mas não se importava muito, já que em breve veria seu pai, seu tio e seus amigos.
Ela estava com tantas saudades del…
Todavia, antes mesmo de conseguir visualizar a Favela do Leste, seus passos cessaram e seu peito se apertou.
O que era…?
O que era aquele pilar de fumaça que se erguia exatamente da direção da Favela Arco-íris?

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