Capítulo 19 — 1 Amiga Imaginária (1/4)
Era noite na Dimensão Amarela, os céus, um tanto roxos, tinham manchas brancas que ainda perambulavam por ali, tentando esconder o brilho suave das estrelas e das duas luas.
Ao sul das Terras Centrais estava o maior continente daquele mundo, o continente humano. E neste mesmo continente estava, à Sudoeste, a capital imperial, Kartumz…
[No palácio imperial, o Castelo branco]
— O pirata estava ali, finalmente de frente para a sua querida filha, que não via há vinte anos… mas está história não é um conto de fadas…— O imperador, Alius Naddgard, narrou o que lia no livro negro nas suas mãos, olhando de vez em quando de soslaio para a sua filha deitada na cama, a terceira princesa na linha de sucessão. Ele fez uma pausa repentina, o que lhe proporcionou um olhar estranho da filha. — Portanto, está na hora de dormir.
— Quê? Mas e a história? Eu venho acompanhando a história por dois anos, só por este momento, pai. — A princesa, Feemel Naddgard, reclamou após arquear as costas, indignada pela pausa repentina justo no ápice da história que acompanhava desde os seus quatro anos. — Vá lá, pai. Por favor, continua a história, pai. Me diz o que aconteceu.
— Acredite em mim, meu brotinho de feijão, a tua curiosidade vai deixar a história bem mais interessante amanhã. — Alius explicou, ao depositar um beijo na testa da filha. — Contudo, se você não dormir agora, eu vou contar outra história… — Fez uma pausa dramática e sorriu de forma estranha, querendo assustar a filha. — A das Hermês!
— Huh? — Feemel teve a sua curiosidade instigada pela fala dramática do pai. — Quem são as Hermês?
— As Hermês? — O tom do Alius se tornou ainda mais assombroso. Ele, definitivamente, ia contar uma história de terror. — As Hermês são…
— Criaturas que a nossa filha não deve ter conhecimento neste momento, não é mesmo, Alius Naddgard? — Alius tremeu de leve ao escutar aquela voz, sentindo como se o inverno tivesse invadido aquele quarto.
— É-é… querida… — Alius quase engasgou.
— Hã? Quem são as Hermês, mãe? — Feemel voltou a indagar, ainda mais curiosa.
— Não são ninguém, filha. — A Imperatriz, Kioetu Naddgard, tentou apaziguar a curiosidade da filha. Não era chegado o tempo da pequena Feemel conhecer aquele tipo de histórias. — É só uma história contada entre os nobres para assustar as crianças, nada demais.
— Conta, mãe, vai — suplicou, seus olhinhos brilhantes faziam-na parecer um cachorrinho abandonado.
— Melhor não, pequena. — Kioetu sorriu. — Mas… quer ouvir uma história melhor? — Se sentou na berma da cama e afagou o topo da cabeça da filha.
— Uma história melhor?
— Heheh! É que fiquei sabendo que o teu pai molhou os cobertores na primeira vez que escutou a história.
— Ei!! — Alius reagiu, tremendo de leve, com o rosto ruborizado.
— Sério? — Feemel sorriu, olhando para o seu pai, marota.
— Aham.
— N-Não!! Não foi bem assim! — O imperador se defendeu, não podia deixar que a sua imagem fosse manchada daquele jeito, não diante da sua querida filha. — E-eu já disse que… daquela vez… eu só fiquei com um pouco de medo e acabei suando mais que o normal. Eu tinha 9 anos… i-isso! Era apenas suor!
— Hahaha! Não se preocupe, querido, eu acredito em você. — A Imperatriz disse em seguida, acariciando a lateral do rosto do marido.
[Algures nos arredores da Ilha Dos Esquecidos]
Plam!!
Rugiam os trovões e ecoavam pelos céus e por toda aquela área abaixo deles, como se fossem abrir uma fenda lá em cima. Os relâmpagos reluziam de vem em quando, trazendo alguma luz em meio a tanta escuridão criada pelo cobertor preto que escondia o azul do céu.
Voosh! Zwoosh! Voosh!!
Os ventos sopravam com fúria, lançando as águas do oceano para lá e para cá, criando enormes ondas aterrorizantes, cujo peso esmagaria qualquer cidade.
Vez ou outra, os ventos alcançavam o ápice de suas forças, chegando ao ponto de abrir uma fenda no mar, separando as águas em duas.
Woosh! Splash!
Um pequeno barco navegava contra a forte correnteza do mar e dos ventos, desafiando a natureza. O barco continuava resistindo choque após choque, enquanto os gêmeos Nel—Kramustek e Morstek—, remavam com todas as forças que tinham e, ao mesmo tempo, suportavam as chicotadas da chuva, que caía como o choro de alguma divindade, carregando um enorme peso, ao ponto de ser suficiente para deixar marcas vermelhas na pele. Eles ainda tinham que imbuir seus corpos com uma camada de Ehne—que cintilava entorno dos seus corpos como pontilhados de névoa, algo como um sutil vapor, quase imperceptível aos olhos—, para escapar dos cortes lançados pelo poderoso vento que soprava naquela região do mar.
A razão para poucos se aventurarem no mar próximo da Ilha dos Esquecidos?
Bem… simplesmente, era suicídio navegar naquelas águas sem a devida capacitação.
Mesmo quando as águas tentavam lançá-los para trás, ou para as profundezas, os gêmeos seguiam remando sem perder a determinação, onde cada um segurava um em cada par de mãos e, em dados momentos, um deles precisava parar para tirar a água da chuva e do mar que se acumulava no convés, tentando afundá-los.
— Ainda estamos longe?! — gritou Kramustek, sua face contorcida pelo esforço de ter que remar contra as ondas furiosa e o vento, que parecia querer arrancar os seus cabelos.
— Como você quer que eu saiba? Esqueceu que perdemos o mapa!!? — Morstek rugiu em resposta, com alguma frieza, sua face se contorcendo sempre que ele precisava semicerrar os olhos para protegê-los do vento e da chuva. — Estou começando a achar que…
Crak!
O som gritante de algo rachando tomou a atenção dos dois irmãos, os levando a olhar para o bordo direito do barco, para o exterior daquele casco preto.
— Merda!!! Temos um problema! — alertou Kramustek, depois de ver várias rachaduras, formando o desenho de uma rede de teia, no casco, que ficava gradualmente maior.
— Eu já vi! — Morstek resmungou, voltando a olhar para frente. — Vamos voltar a remar! Se o mar está tão protetor, significa que devemos estar perto.
— Não!! — Kramustek gritou logo em seguida, suas mãos inferiores apoiadas na borda do barco, seu tronco curvado e os dois pares de olhos mirando o mar. — Nós não estamos perto!! — contrariou o irmão, seu tom adotando uma mistura entre alegria e preocupação. — Nós já chegamos! Olha!
Morstek viu o irmão apontar para baixo e seguiu o indicador dele até a superfície do mar, onde as ondulações formavam uma espécie de espiral.
— Isto é…!? — Antes que ele pudesse terminar de formular a frase, as ondulações transformaram-se num feroz redemoinho, que sugou o pequeno barco, fazendo-o dar inúmeras voltas entorno do seu eixo, deixa do os irmãos tontos, ao mesmo tempo em que sofria mais e mais rachaduras. Em poucos segundos, aquele barco se transformou num pedaço de madeira sem nenhuma esperança de concerto.
— MERDA!! — rugiu Kramustek, seus dentes levemente serrilhados cerrados com grande força e o rosto contorcido. A preocupação tinha consumido o seu coração, assim como o terror. Parecia que eles encontrariam o seu fim ali.
Em contraste, seu irmão, Morstek, que segurava as bordas do barco em frangalhos com tanta força, que chegava a acelerar a destruição do mesmo, estava sorrindo e rindo, excitado.
— Finalmente, alguma adrenal—!!! — Mas a natureza não o permitiu terminar de falar, com um último crak!, o barco se estilhaçou por completo, a explosão dos trovões abafou os gritos dos irmãos—gritos de desespero de um lado e de alegria do outro—, então o barco e os irmãos foram engolidos pelo redemoinho, que desapareceu logo em seguida, como se nunca tivesse existido, deixando que as ondas voltassem a reinar na superfície do mar.

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