Capítulo 9 – Grim – O Peso dos Outros
Havia uma heresia repetida aqui e ali, em voz baixa, entre os abençoados pela megin: ser tocado pelo milagre era também ser amaldiçoado por ele. Grim nunca a descartara por completo.
A megin dava muito. Algumas coisas eram iguais para todos. Força onde não havia. Fôlego quando o corpo pedia chão. Claridade em momentos que deveriam ser só pânico. Outras vinham tortas. Dons que pareciam benção até que chegasse a hora de carregá-los, o dele era um desses. Chamavam de graça do empata. Soava melhor do que era, na prática, Grim sentia o que às vezes não lhe pertencia.
Dor. Medo. Raiva. Alívio. Restos de memória grudados em sensação. Quase nunca vinham inteiros. Vinham como fragmentos. Um gosto estranho na boca. Um aperto no peito. Um cansaço que não nascera nele. Bastava proximidade, toque, ou, pior ainda, dar de si demais ao outro. Os brancos evitavam isso quando podiam. Curavam sem se derramar. Aliviavam sem abrir espaço demais. Cada um conhecia o preço de se ligar a alguém além da conta. Naquela manhã, Grim o pagava.
O rapaz sentado diante dele — alto, queimado de sol, um braço a menos e uma calma que não merecia confiança — doía dentro dele de um jeito ruim. O ombro esquerdo ardia em carne ausente. O peito trazia uma irritação funda, seca, como se cada respiração quisesse lembrar ao corpo o que havia sido tomado. Havia também um cinismo escuro, uma raiva à espreita, e, enterrado sob tudo isso, lampejos errados de alegria. Não alegria limpa. Uma coisa mais torta. Mais perigosa.
Grim se sentia estranho mesmo quando estava sozinho. Perto daquele rapaz, sentia-se pior.
“Nome?”, perguntou o outro. A voz saiu calma. Grave. Boa demais para um homem recém-arrancado da morte.
“Grim”, respondeu.
A dor no ombro voltou mais forte no instante seguinte, como se a resposta tivesse apertado alguma ligação invisível entre os dois.
Grim respirou fundo uma vez e tentou manter o rosto neutro.
“E você é Hrafn, certo?” perguntou. “Está mesmo bem para andar?” Sabia que não estava.
Hrafn estava sentado na relva rala ao lado de uma barraca, o coto do ombro enfaixado com o melhor trabalho que haviam conseguido fazer na pressa. Tinha cor de gente que deveria estar deitada. A boca seca. O corpo inteiro trabalhando mais do que devia só para ficar ereto. Ainda assim, ele parecia irritado com a própria fraqueza, não dominado por ela.
“Ah, estou sim”, respondeu Hrafn. “Não dói tanto agora.”
Mentira.
Grim a sentiu antes mesmo de reconhecê-la como mentira. A dor vinha nele e não vinha. Havia algo quase obsceno em partilhar o sofrimento de alguém sem merecê-lo por inteiro. Como provar o sangue de outro na língua.
Dar sua megin aos outros era sempre um risco. Para Grim, mais do que para os outros brancos. Quando curava, não entregava só força. Às vezes abria uma porta. E com algumas pessoas a porta demorava a fechar, com Hrafn, ainda estava aberta.
“Nanna dizia que tinha que se mover para não morrer”, disse Hrafn.
Veio saudade. Veio arrependimento logo atrás, denso e rápido, como alguém tentando fechar uma mão sobre água.
Grim não conhecera Nanna, mas sentiu por um instante a ideia dela. Calor. Fumaça. Alguma paz antiga. Depois a sensação foi empurrada para algum canto escuro da mente de Hrafn, como se ele mesmo não permitisse que ficasse muito tempo à vista.
O rapaz então se abaixou um pouco mais, passando os dedos da mão boa sobre a grama fria. A emoção que veio disso fez Grim franzir o cenho.
Alegria. Grande demais para um gesto tão pequeno.
Hrafn vinha oscilando desde que acordara. Grim estivera perto dele quase o tempo inteiro. Vira o silêncio primeiro — um silêncio errado, duro, quando o corpo ainda não parecera compreender o que faltava. Depois viera a dor, enfim reconhecida, tão forte que o rapaz quase dobrara ao meio. Depois um riso curto, quase um sorriso sem sanidade. Agora aquilo. Alegria por sentir a relva nos dedos como se o mundo ainda lhe devesse alguma coisa boa.
Era estranho. Pior: Grim não apenas via. Sentia. Talvez aquilo bastasse para preocupar qualquer um. Para ele, era quase insuportável.
“Ela parece ter sido uma mulher sábia”, disse Grim, escolhendo as palavras com cuidado. “Em muitos casos é verdade. Mas você ainda devia repousar.”
Tentou manter a voz baixa. Não queria perturbá-lo mais do que o necessário. Hrafn já parecia suficientemente perturbado por dentro sem ajuda de ninguém.
“Ela era”, respondeu ele, ignorando o resto. A saudade voltou. Menor desta vez. Veio e foi.
Hrafn passou a mão boa pelos cabelos, como se alisá-los fosse bastante para pôr as coisas em ordem.
“Por que temos que ir a Sahirid?”, perguntou.
Veio raiva. Viva. Afiada. Não um acesso, mas uma presença.
“Por que não nos treinam em Brinegard?”
Grim entendia a pergunta. Entendia ainda melhor a raiva que vinha com ela. Perder um braço para depois ser arrastado estrada afora até a cidade certa da Hird podia soar como escárnio. Em alguns dias, talvez até para ele soasse, mas entendimento não fazia nascer resposta.
“Há motivos para isso, irmão”, disse Grim. “Tenho certeza de que a Hird tem seu propósito.” Hrafn o fitou em silêncio por um instante.
Depois levou de novo a mão aos cabelos e os penteou para trás, num gesto que parecia mais esforço para conter o próprio humor do que vaidade.
“Quais motivos seriam esses, irmão?” O sarcasmo da pergunta veio leve na voz. Na mente, veio pior.
Frio. Deboche. Um ódio curto e prático. Por um momento, Grim imaginou Hrafn cuspindo nele, levantando-se de repente e batendo com o braço bom nele até ficar ruim.
“Não há motivo para eu saber, irmão”, respondeu Grim, o mais gentilmente que conseguiu. “Mas a Hird permanece. A razão deve ser boa o bastante.” Hrafn o olhou mais um pouco.
A resposta que chegou a Grim pela ligação não foi feita de palavras. Foi feita de desprezo cansado. Não o bastante para virar violência. Só o bastante para deixar claro que, naquele ponto, Hrafn o colocava no mesmo saco.
“Entendo”, foi o que ele disse. Grim se viu pensando, não pela primeira vez naquela manhã, que talvez Hrafn não fosse quebrar. Talvez já estivesse quebrado. Passos se aproximaram pela esquerda.
“Voroir”, chamou alguém. “O hersir deseja vê-los.” Grim levantou os olhos.
O homem que viera chamá-los era um voroir velho de rosto cansado, um dos muitos que sobreviveram à noite por pouco. Ele não olhou muito para Hrafn. Também não olhou muito para Grim. O chamado era simples, mas nele havia peso.
Leif. Grim não gostou da ideia.
Tinha sido ele quem tratara o hersir ao voltar da luta. Havia usado mais de si do que devia para manter Leif de pé, alinhando o que podia, fechando o que dava para fechar, empurrando o resto da dor para mais tarde. Entre os brancos ali, era o melhor. Sempre fora. Por isso era também o mais cobrado. Curar Leif já teria sido ruim num dia comum.
Ligado a Hrafn como estava agora, teria gosto de castigo.
O hersir era massa demais para qualquer mente. Dor demais. Vontade demais. A simples proximidade dele já pesava até em gente normal. Para Grim, que às vezes sentia os outros como se os vestisse por dentro, ficar entre Leif e Hrafn ao mesmo tempo parecia um jeito bastante eficaz de perder o juízo antes do meio-dia, ainda assim, levantou-se.
O joelho protestou. O corpo inteiro protestou, na verdade, mas não com a eloquência dos homens mais feridos. Os brancos quase nunca recebiam o luxo de estar entre os que tombavam primeiro. Serviam antes, durante e depois. Era o jeito da coisa. Hrafn também começou a se pôr de pé.
Dessa vez a dor veio em Grim antes do som seco da respiração dele. O rapaz vacilou por um instante mínimo. Não caiu. Recusou-se a cair do mesmo modo que certas pessoas se recusavam a rezar: por orgulho, raiva ou costume. Grim estendeu a mão por reflexo, Hrafn viu o gesto.
Não aceitou. Levantou-se sozinho, pálido, um pouco torto, mas inteiro o bastante para a teimosia.
“Ótimo”, disse Grim, antes que pudesse evitar. “Então está mesmo bem para andar.” Hrafn soltou um som breve pelo nariz. Não chegou a ser riso.
“Viu?” Mentira outra vez. Mas agora vinha acompanhada de alguma coisa que parecia, ao menos de longe, humor divertido.
Grim assentiu. Os três começaram a andar pelo acampamento.
A luz da Estrela já se firmara no céu, tornando tudo mais nítido do que a noite permitira e, por isso mesmo, pior. Marcas escuras sobre a estrada. Restos de carroça. Gente ferida deitada em panos improvisados. Voroirs andando entre os corpos. Alguns comuns ainda choravam em silêncio. Outros já tinham secado. O cheiro de sangue, cinza e entranhas ainda pairava baixo, Hrafn viu tudo. Grim sentiu o que vinha dele ao ver.
Raiva, outra vez. Luto mal resolvido. Uma atenção quase doentia ao detalhe. E, por trás, algo novo, ainda pequeno: Queria entender algo.
Temia entendê-lo. Grim conhecia essa mistura, a megin sempre cobrava, à frente, Leif esperava.
Mesmo de pé, o hersir tinha o aspecto de uma muralha rachada que ainda assim se recusa a tombar. O braço pendia na tipoia. Um dos olhos já não servia para nada. O rosto estava marcado de sangue seco e cansaço. Ainda assim, havia nele uma presença que fazia homens arrumarem a coluna só por chegar perto. Grim sentiu Leif antes de chegar.
Dor. Fome. Orgulho. Dever. Um tipo de gratidão áspera por ainda estar respirando. Tudo isso misturado num corpo que parecia insistir em existir por teimosia e fé, ao lado disso, Hrafn era um fogo ruim em mato seco. Grim quase parou, mas continuou, não havia nada mais a fazer.E talvez essa fosse a pior parte de dons como o seu. No fim, apesar de tudo o que se sentia, tudo o que se via e tudo o que se adivinhava nos outros, ainda restava fazer o mesmo que qualquer homem comum faria.

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