Os dias passaram sem muitas surpresas depois do sparring. Duas semanas ao todo.

    Ao contrário do que Hrafn esperara, nada de especialmente notável aconteceu. O treinamento árduo que imaginara, as provações, os ritos, os sermões, os homens graves vindo lhe dizer o que fazer com a nova vida — tudo isso existia, ao que parecia. Só não para ele. Era reservado aos fylkirn que ainda precisavam, de maneira lenta, dolorosa e metódica, alcançar aquilo que ele obtivera sem sequer tentar.

    Havia também a educação que muitos deles recebiam: etiqueta, história, precedência, vocabulário, vestuário, o tipo de coisa que gente bem-nascida parecia respirar. Edvard tentou empurrá-lo nessa direção mais de uma vez, e talvez tivesse conseguido, não fosse Hrafn já ser um voroir pleno. 

    As Hirds levavam títulos a sério. Não importava como alguém os ganhara, se cedo, se tarde, se por sorte demais ou por caminhos que desagradavam aos outros. Uma vez tocado, uma vez elevado. A megin não errava, era o firmamento dos três milagres, afirmar o contrário seria heresia.

    Restou a Hrafn praticar com armas sob a supervisão de instrutores pacientes e lidar sozinho com a própria bênção, o que era menos instrutivo e mais irritante. Em algum momento, disseram-lhe, haveria alguém mais adequado para guiá-lo no uso da megin, outro verde como ele. 

    Mas ele subira rápido demais, e a Hird não parecia ter mãos sobrando para problemas raros. A Hird do Véu estava ocupada formando novos voroirs e sustentando as cidades. A Hird do Sal tinha guerras suficientes para mastigar. A Hird da Luz cuidava da fé e de tudo que precisava parecer imutável. Por enquanto, Hrafn era só mais uma exceção inconveniente esperando a agenda certa.

    Ao menos ele não era o único, Sigrid e Briorn eram casos parecidos, o que tornava o evento ainda mais raro, mas eles dispunham de cores mais nobres, de agendas melhores. Ao menos a lembrança de Briorn aprendendo a ler o divertia.

    Quanto a ele, tinha tempo. Tempo demais.

    Não queria aprender a fazer pose no ângulo certo, nem a escolher talheres como se facas diferentes transformassem comida em outra coisa. Também não se importava muito em entender o teatro inteiro da alta sociedade, embora começasse a suspeitar que ignorá-lo totalmente não fosse algo esperto. O que queria era outra coisa. Informação útil. Não a informação velha, fabulosa, meio dourada pelo tempo, que Saga lhe entregara ao longo dos anos. Não histórias sobre o mundo, por mais ricas de conhecimento que podiam ser, eram pouco práticas na maioria dos casos reais.

    O que ele queria eram rotas, mapas, portos, casas, famílias e comércio. Coisas que podiam bater-lhe à porta algum dia. Nomes importantes, nomes perigosos, quem lucrava com a guerra, quem lucrava com a paz. Esse tipo de coisa.

    “Criar conexões é importante, meu senhor”, disse Edvard, ao seu lado, carregando três livros como se cada um deles tivesse um valor moral. “Esta é uma casa antiga.”

    Edvard vinha melhorando, ou piorando, a depender do ponto de vista. Já se acostumara um pouco a Hrafn, o que o tornava menos rígido em certas coisas e mais irritantemente confortável em outras. Descobrir que Hrafn sabia ler parecera elevá-lo alguns graus na estima do mordomo, o que, por sua vez, dizia muito sobre a régua vergonhosamente baixa que gente bem-nascida costumava reservar aos comuns.

    “Alva, você quer dizer”, respondeu Hrafn, sem erguer os olhos do livro aberto sobre a mesa. Bebeu um pouco de café antes de virar a página. O luxo ainda lhe parecia indecente, o que só o fazia apreciá-lo mais. “Comércio externo e mineração?”

    “Sim, meu senhor. Um ramo abundante em moeda.” Edvard pousou os livros um a um, alinhando-os com a precisão de um homem que talvez corrigisse o mundo inteiro, se lhe dessem tempo bastante. “Em influência.”

    “Um inconveniente também, um perigoso”

    Não falou com desprezo. Falou com desinteresse. Nunca fora homem de correr atrás de moeda. Tinha aprendido cedo demais, com a morte dos pais; a não confundi-la com salvação. Quanto à influência, parecia-lhe só outra palavra para dever favores a pessoas que mereciam pouco.

    “Sim”, disse Edvard. “Significará sair dos muros com mais frequência.”

    Isso interessava mais.

    Hrafn apoiou o cotovelo na mesa e deixou os olhos correrem por cima do mapa aberto ali. Linhas finas cortando o reino, marcas de rios, passagens, cidades menores, pontos de vigia, estradas largas demais para bandidos pequenos e estreitas demais para exércitos grandes. Tudo aquilo parecia mais honesto do que etiquetas. Uma rota dizia o que queria. Uma família, raramente.

    “É interessante, mas eu já tenho dinheiro”, respondeu. “No fim, peça quebrada ainda serve pra alguma coisa, não serve, Ed?”

    Essa fora uma descoberta particularmente agradável. Havia uma quantia considerável reservada aos voroirs estacionados, ainda que passassem longos períodos sem fazer nada além de existir de forma útil e ameaçadora. Uma espécie de agrado, suspeitou Hrafn, para abafar o fato de que, em troca, a Hird podia chamar por eles a qualquer momento durante cinquenta anos de honrada servidão obrigatória.

    Honrada. Hrafn gostava quando gente poderosa punha nomes bonitos em coisas feias.

    ‘’Eu não diria que o senhor e-’’

    “Alguém da sua idade deveria beber chá perto da lareira, Ed”, interrompeu, fechando o livro. Sorriu ao se lembrar de Nanna. “Xingar panelas, talvez. Criticar o clima, essas coisas.”

    Edvard não pareceu ofendido. O que já era resposta suficiente para metade da provocação.

    “Por que ainda se esforça?” A pergunta era sincera.

    Edvard não era tão velho quanto Saga, mas também não estava nem perto de ser novo. Meticuloso como era, Hrafn duvidava que tivesse administrado mal a própria vida a ponto de precisar trabalhar por desespero. Um homem assim calculava o futuro da mesma maneira que dobrava guardanapos: com exatidão agressiva.

    O mordomo ajeitou um dos livros na prateleira, embora ele já estivesse reto.

    “Quando se vive do mesmo trabalho por muitos anos”, disse, “acaba se acostumando.”

    Hrafn soltou um ruído baixo pelo nariz. “Não vejo como eu poderia imaginar isso.” Fez uma pausa. “Minto. Vejo, sim.”

    A lembrança de Saga veio fácil. História parecia habitar a velha como outra camada de pele. Isso o levou a buscar entre os livros sobre a mesa um volume que destoava dos demais: maior, mais gasto, mais velho, menos digno. O livro de contos. As bordas estavam gastas, a lombada marcada, as páginas carregando o tipo de uso que nenhum livro respeitável daquele local tinha.

    “Você disse que a empresa de Lady Alva alcança um quarto do reino, certo?”

    “Sim, meu senhor. E algumas rotas seguem além, para reinos vizinhos.”

    “Mas ela é a décima oitava filha da linhagem.” Hrafn folheou o livro sem realmente lê-lo, mais interessado em ouvir do que nas palavras. “Imagino que tenha pouca influência na própria casa.”

    “Tem alguma”, respondeu Edvard. Notou a xícara vazia e estendeu a mão para servi-lo sem precisar perguntar primeiro. Ainda assim perguntou: “Mais café?”

    “Eu vou ficar mimado, Ed… bolinhos cairiam bem também’’.

    Edvard serviu o café e bateu palmas para os bolinhos conforme explicava.”Ela tem alguma influência”, continuou. “E as coisas tendem a mudar muito rápido entre os nobres, o nome da casa quase nunca se vai, mas mudam as mãos. Às vezes por morte, às vezes por casamento, às vezes por erro.”

    “Muitas oportunidades”, acrescentou Hrafn.

    “Sim, meu senhor”

    Hrafn aceitou o café e recostou-se um pouco na cadeira. Estava gostando cada vez mais de Edvard, respeitando até. O homem sabia ouvir, sabia responder. Havia também algo mais ali. Orgulho, talvez, há vaidade do ofício. A fortuna de Edvard estava ligada à de Hrafn, e o mordomo parecia encarar isso com ambição disciplinada.

    “Imagino que ela espere um sujo, um aleijado burro, mal instruído e manipulável”, disse Hrafn, observando a fumaça subir da xícara. “Uma boa carta para ganhar alguns degraus.”

    “Ninguém imaginaria que um elevado voroir—”

    Edvard parou. O olhar de escárnio que Hrafn lhe lançou dizia mais do que palavras.

    O mordomo assentiu uma única vez. “Sim, meu senhor. Ela vai esperar exatamente isso.”

    “Bom.” Hrafn virou mais uma página do velho livro de contos, embora agora sorrisse para algo que não estava escrito ali. “Que bom que estamos nos entendendo, Ed.”

    Os bolinhos chegaram e Edvard os pousou à mesa como quem participa de algo solene.

    Hrafn pegou um, mordeu e aprovou em silêncio. Então fechou o livro de Nanna com cuidado surpreendente, com um respeito que dava a poucas coisas.

    “Vamos dar a ela uma surpresa”

    Edvard não sorriu. Não era homem de sorrir por pouco. Mas seus olhos, por um instante, pareceram contentes.

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