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Capítulo 196 — O Grupo de Suporte
A uma distância considerável do confronto entre Celina e Redgar, o silêncio da
floresta era estilhaçado por grunhidos abafados e o estalar de galhos secos. O
grupo liderado por Tály estava encurralado.
— Droga! Onde ela está?! — Um dos homens balbuciou, as pernas tremendo de forma
incontrolável. — ONDE EST—
A frase foi decepada. Um chicote carnudo serpenteou das sombras, enrolou-se em sua boca com a precisão de uma serpente e o arrancou da vista de todos, tragando-o para
dentro da folhagem densa. O grito interrompido deixou uma tensão temível no ar.
Tály não desviou o olhar. Seus olhos varreram a penumbra até que o movimento quase
imperceptível de uma folha a denunciou.
— ALI! — gritou ela, apontando para o flanco esquerdo.
O grupo girou em uníssono. O fôlego de todos falhou quando dois pontos de um amarelo
hipnótico brilharam entre as sombras. Percebendo que o elemento surpresa fora
perdido, a Pantera-Chicote emergiu.
Era uma massa de músculos fibrados sob uma pelagem negra, que vibrava a cada rosnado
gutural. Seus caninos superiores projetavam-se para fora, longos e letais como
sabres gêmeos cintilantes. Na base da coluna, cinco caudas dançavam no ar com
vontade própria. Quatro delas terminavam em pontas de açoite, enquanto a
central ostentava um ferrão recurvado, como a de um escorpião, exalando uma
promessa de envenenamento mortal.
A vontade de lutar do grupo minguou instantaneamente. A aura de predação da fera
era tão esmagadora que o ar parecia ter ficado mais pesado.
— Nós… nós vamos morrer… — alguém sussurrou, a voz quebrada pelo desespero.
Uma gota de suor escorreu pela testa de Tály. Ela apertou os punhos, recusando-se a
ceder ao pânico. No fundo de sua mente, a imagem de Cassian surgiu. Ele não era
um estrategista admirável ou um líder nato, na realidade ele era o total oposto
disso, mas havia algo nele que a fazia acreditar que o plano funcionaria.
A fera agachou-se, as garras cavando o solo para o bote final, quando, de repente, a
floresta estremeceu.
Um surto de mana titânico irrompeu das profundezas da mata. Foi uma explosão de
energia tão vasta que mesmo aqueles desprovidos de sensibilidade mágica
sentiram os pelos do corpo arrepiar e o estômago revirar.
A Pantera-Chicote travou. Ela virou a cabeça na direção da emanação, soltando um
rugido que misturava fúria e um instinto territorial primitivo. Sem hesitar, o
predador ignorou o grupo de Tály e disparou entre as árvores, movendo-se como
um borrão negro em direção ao epicentro da mana.
— O quê… o que foi aquilo? — os desafiantes se indagavam, ainda em choque.
Tály respirou fundo, o coração martelando contra as costelas. Ela sabia.
— Cassian…
— Eles começaram! — Uma voz familiar surgiu entre as árvores. Era Gustoo, ofegante,
vindo da direção onde Helick e Cassian estavam. Ele parou diante de Tály, os
olhos fixos na trilha deixada pela fera. — A criatura já saiu daqui?
Tály recobrou a postura, a determinação voltando ao seu olhar. Ela assentiu com a
cabeça.
— Sim. Nossa parte do plano foi cumprida.
Ela ergueu o punho, concentrando cada grama de sua mana ígnea. Com um movimento
seco, disparou um soco flamejante em direção ao céu. O rastro de fogo cortou a
copa das árvores e explodiu nas alturas, um sinal brilhante de que a fera
estava a caminho do seu destino.
— Ótimo. — Gustoo agachou-se, pressionando a palma contra o solo para sentir as
vibrações do terreno. — Eles chegaram.
— Inimigos? — Tály questionou, os punhos entrando em prontidão.
— Não — respondeu ele, mantendo a calma. — O suporte.
Isaac surgiu por entre as árvores, vindo da direção oposta à trilha da fera. Atrás
dele, seu pelotão de curandeiros avançava em formação serrada.
— Onde estão os feridos? — Isaac disparou a pergunta, os olhos varrendo o local em
busca de prioridades.
Tály apontou para a zona de massacre. O pelotão se dividiu instantaneamente,
movendo-se entre os corpos para identificar quem ainda tinha chance contra a
devastação deixada pela Besta Mítica. Isaac avaliou a cena com frieza e tomou
sua decisão.
— Vocês dois, fiquem! Estanquem os sangramentos e salvem quem puderem — ordenou, apontando para os curandeiros que já trabalhavam em um ferimento no pescoço de
um soldado. — O restante, comigo. Aquelas explosões e clarões de mana vêm de
onde Marco e Redgar estão. Se a batalha chegou a esse nível, os mais fortes
devem ter os encontrado. Temos que garantir que eles dêem conta de segura-los
até o plano de Cassian ser concluído.
O grupo retomou a corrida, mergulhando na floresta densa.
— Isaac! — uma das combatentes do grupo chamou, emparelhando com o líder. — Tem
certeza que não devemos dar suporte total aos feridos daqui primeiro?
Isaac não desviou o olhar do caminho.
— Minha prioridade são os príncipes. Não sabemos o quanto o plano vai exigir deles
antes que se quebrem. Já ouvi histórias sobre a Pantera-Chicote, mas o que vi
ali atrás… ela é muito mais letal do que os relatos diziam. Precisamos
alcançar Marco e Redgar. Eles são o escudo que garante o tempo dos príncipes.
Mal terminaram a travessia, o grupo estancou. À frente, Marco flutuava em uma
corrente de ar instável, carregando Yssa, Vell e o corpo inerte de Bane para
longe de uma massa de mana deformada que crescia ao longe.
— Marco! — gritou Isaac.
Aliviado, Marco desfez a magia. O grupo de feridos desceu suavemente enquanto o suporte
os cercava.
— Isaac! — a voz de Marco era de urgência pura. — Esqueça o resto! Ajude o Bane,
ele está em estado crítico!
Enquanto os curandeiros iniciavam o protocolo em Vell e Yssa, Isaac ajoelhou-se ao lado
de Bane. Ele arregalou os olhos ao ver as queimaduras de terceiro grau que
desenhavam ramificações de raios por toda a pele do guerreiro.
— Vocês cruzaram com a ThunderBlade, não foi?
Marco apenas assentiu, o semblante obscurecido.
— Ela faz jus ao título.
— E o Redgar? — Isaac abriu seu ARGUEM, o livro de capa metálica cujas páginas
começaram a brilhar com um calor suave sobre as feridas de Bane. — Onde ele
está?
— Ficou para trás. Está enfrentando ela sozinho.
Isaac parou por um segundo, incrédulo.
— O quê? Ele enlouqueceu?
Marco sustentou o olhar de Isaac. O silêncio que se seguiu foi pertubador.
— Sim.

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