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    ​O som surdo do corpo de Cassian chocando-se contra o solo, completamente desacordado, alcançou os ouvidos de Helick.

    ​— CAAAASS!!! — o príncipe mais novo gritou, o desespero arranhando sua garganta.

    ​A mana de Helick estava prestes a entrar em estado crítico; mais alguns minutos forçando os seus limites e ele ficaria incapacitado de lutar pelo resto do dia. Sentindo a iminente fraqueza do captor, a Pantera-Chicote debatia-se com fúria redobrada. As trincas no gelo já não se fechavam na mesma velocidade, isso quando se fechavam, e a mente de Helick fragmentava-se em um dilema cruel: focar na fera mítica diante de si ou correr para acudir o irmão caído aos pés do inimigo?

    ​Rossander permanecia de pé diante de Cassian. O príncipe que fora testado havia desabado, enquanto o carrasco continuava erguido.

    ​A lâmina pálida em sua mão não precisaria de magia para colocar um fim àquilo; o mero fio afiado bastaria. Cassian Havillfort sem dúvidas provara sua força de vontade e alinhara-se ao seu destino. Mas as ordens de Blando haviam sido categóricas: se o príncipe caísse, significava que falhara no quesito poder. E, para a guerra que se aproximava e contra a luta que viria contra os verdadeiros inimigos, a vontade e o poder eram igualmente indispensáveis.

    ​— É uma pena… — murmurou Rossander, aproximando-se e erguendo o seu ARGUEM. — Você seria um bom rei, Cassian Havillfort de Lyberion.

    ​Quando a lâmina pálida desceu para o golpe final, um estalo metálico ensurdecedor ecoou pela arena.

    ​Envolta em sua imponente armadura carmesim, Rhyssara surgiu do nada, interceptando o ataque com o seu cetro dourado.

    ​— E ele será — sentenciou ela.

    ​Rossander saltou para trás em um reflexo puramente militar, a respiração presa na garganta.

    ​— Imperatriz BloodRose?! — exclamou, o pânico instintivo distorcendo suas feições. Ele sabia que se ela vasculhasse sua mente com a temida Coroa de Edgar, as defesas implantadas por Blando virariam pó. — Imperatriz, devo lembrá-la de que, pelas leis do império, a senhora não pode interferir nas lutas de ascensão para beneficiar nenhum dos lados!

    ​Rhyssara o fitou. Seus olhos azuis, frios como o céu mais límpido de um dia de inverno, perfuraram o soldado.

    ​— E as leis também ditam que o governante deve tomar quaisquer meios necessários para esmagar conspirações que tramem contra a coroa por baixo dos panos. Quem diria que alguém como você estaria mancomunado com o Traficante de Verdades?

    ​Os olhos de Rossander arregalaram-se. Ela havia destruído suas defesas mentais em um único piscar de olhos?

    ​Como se lesse a incredulidade em seu rosto, Rhyssara soltou um riso seco.

    ​— Não olhe para mim com esse espanto. Não fui eu quem reduziu aquela muralha de espinhos a cinzas. Cassian já havia feito o trabalho sujo enquanto revirava suas memórias atrás de um ponto fraco.

    ​Rossander arqueou as sobrancelhas, boquiaberto.

    ​— Impossível! O ARGUEM dele é do tipo elemental, não mental! E mesmo que fosse, uma magia mental de nível abaixo dos da Cidade Central não seria capaz de penetrar nessas defesas.

    ​— Esses príncipes de Lyberion são cheios de surpresas… mas vejo que você também é — rebateu ela, dando um passo à frente. — Vamos ver o que você e Blando andaram sussurrando às escondidas.

    ​— Não! Espere! Se você tentar violar os segredos dele, eu vou…

    ​Rhyssara não lhe deu margem para respirar. Ela mergulhou com tudo na mente exposta do soldado. Contudo, no milésimo de segundo em que sua percepção colidiu com a lembrança do encontro entre Rossander e Celina no distrito mais obscuro da Cidade de Ferro, um nó metafísico apertou o cérebro do guerreiro.

    ​Rhyssara recuou a sua consciência abruptamente, os olhos semicerrados.

    ​— Droga… Como eu suspeitava. Ele teve acesso a essa magia.

    ​A imperatriz já havia reconhecido aquele padrão de defesa na mente da mulher mascarada durante a ascensão na Cidade dos Corajosos, mas na época pensou tratar-se de uma mera coincidência visual de vinhas, espinhos e pequenas rosas vermelhas. Agora, porém, vendo o cérebro de Rossander travar por completo e o corpo do homem desabar inerte à sua frente, a verdade se revelava por inteiro.

    ​Era a magia de segurança contra vazamento de informações do império. Um feitiço restrito, plantado na mente de cada integrante do círculo íntimo do imperador.

    ​Tratava-se de uma alta magia secreta que canalizava uma fração do poder da Coroa de Edgar através de um anel de espinhos de rosa. Ela blindava os subordinados contra intrusões mentais comuns e, no pior cenário, se informações vitais estivessem prestes a ser expostas, colapsava e destruía a mente do hospedeiro para proteger o segredo.

    “Aquele homem… Como ele conseguiu acesso a um feitiço da Coroa?”, os pensamentos de Rhyssara fervilhavam em busca de respostas.

    ​Sua linha de raciocínio, no entanto, foi cortada pelo grito desesperado de Helick ao fundo:

    ​— Imperatriz! Dá uma ajudinha aqui, por favor?! — implorou o jovem, os músculos tremendo sob o esforço colossal de reter a Pantera-Chicote, que rugia prestes a romper as últimas correntes de gelo.

    ​Rhyssara esboçou um breve riso de canto, soltando um suspiro entediado enquanto a aura carmesim começava a envolvê-la novamente.

    ​— Sinto muito, garoto-lobo, mas as leis de ascensão realmente não permitem que eu interfira na sua luta. Boa sorte para vocês.

    ​Antes que Helick pudesse protestar, a Imperatriz BloodRose pôs o corpo inerte de Ross sobre os ombros e desapareceu do mesmo modo enigmático em que havia chegado, deixando o príncipe mais novo sozinho com uma fera mítica furiosa e um irmão inconsciente para proteger.

    ​E em menos de um segundo após a Imperatriz deixar Helick à própria sorte, o desastre se concretizou.

    ​As amarras congeladas que prendiam o monstro atingiram o limite absoluto de sua resistência. Com um estalo ensurdecedor que reverberou por todas as árvores da arena, as Correntes do Lobo Branco se partiram por inteiro, estilhaçando-se em milhares de agulhas de gelo voadoras.

    ​Livre de suas amarras, a Pantera-Chicote ergueu seu corpo massivo, e o rugido ensurdecedor de sua fúria contida ecoou mais e mais, fazendo o chão tremer sob os pés do príncipe. A pressão da mana liberada pela Besta Mítica gerou uma lufada de vento violenta, empurrando a poeira e os destroços para longe.

    ​— Merda! — Foi tudo o que o príncipe conseguiu dizer, a voz quase engolida pelo som do monstro.

    ​Helick mal teve tempo de firmar a postura antes que a criatura se apoiasse nas garras dianteiras, abaixasse o tronco e focasse suas pupilas verticais e assassinas cara a cara com ele. O jovem lobo estava esgotado, quase sem mana, e agora era a única linha de defesa entre uma máquina de matar faminta e o corpo indefeso de seu irmão.

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