Índice de Capítulo

    Após o encontro inusitado com Oliver, o trio foi diretamente para a pousada.

    “Merda, isso vai dificultar as coisas…” Raul murmurou, ao entrar no quarto, ao lado de Lerona e Fernando.

    Como o Major havia declarado que os escoltaria de volta à Garância, significa que teriam que retornar à cidade ao seu lado. Isso, inevitavelmente, geraria um novo registro de entrada. Como haviam partido de forma clandestina, não havia um registro de saída, o que poderia levantar suspeitas por parte do Salão e até ser usado de munição por Herin.

    “Talvez… e se saíssemos essa noite?” Lerona perguntou, apreensiva. Ela nunca havia assumido uma missão que tivesse que ir contra as regras da Legião, então estava tensa.

    “Claro, e fazer um futuro General nos procurar como louco até ficar zangado? Quando ele voltasse, acabaria com nossa raça… Além disso, mesmo se partirmos um dia antes, é provável que ele chegue antes de nós. Nesse caso, teríamos uma recepção bem ‘acalorada’, com vaga garantida na prisão. Você bateu a cabeça ou algo do tipo para dar uma sugestão dessas, ruiva?”

    Ouvindo isso, Lerona, que estava apreensiva, percebeu que havia falado uma bobagem.

    “V-você… só estou tentando ajudar, seu babaca!”

    Vendo os dois Capitães com os ânimos à flor da pele, Fernando suspirou.

    Primeiro, eles quase haviam morrido na mão da Eterna Viajante, depois descobriram sobre Brakas e ainda sobre Theodora, uma Medusa entre as fileiras do Batalhão Zero. Para completar o ciclo de infortúnios, haviam se deparado com Oliver, ficando presos num dilema péssimo.

    “Por enquanto, acho que devemos acompanhar o Major. No pior dos casos, o General Dimitri lida com os problemas que vierem depois”, o jovem Tenente sugeriu, com uma expressão calma.

    Lerona e Raul se voltaram para o rapaz, seus olhares pesados. Ele apenas queria jogar os problemas nas costas de seu superior? Apenas de pensarem nessa possibilidade, com Dimitri gritando com eles, os dois Capitães sentiram suas cabeças doerem.

    “Você parece muito à vontade após se meter em tantos problemas, não é, moleque?”

    Fernando olhou para o lado, tentando disfarçar.

    “Já estou acostumado com esse tipo de coisa”, falou, com alguma indiferença.

    Para alguém que já havia sobrevivido a tantas coisas malucas, como um encontro com um Campeão Élfico, um Obscuro, um Rei Carniçal, um Nômade Sombrio e até tinha uma Grande Guilda das Trevas como um inimigo e um General a serviço de um Cavaleiro o investigando, aquele dia parecia apenas um simples passeio no parque.

    “Enfim, quanto a esse tal leilão que o Major citou, eu estou fora. Aquele cara não gosta de mim e não estou a fim de aturar ele também. Ruiva, você cuida do moleque, garanta que ele não vai fazer besteira”, o sujeito moreno disse, focando em Fernando. O rapaz pálido apenas o olhou de forma inocente, como se não soubesse do que ele estava falando. “Vou resolver algumas coisas na cidade antes de partirmos. Não piorem a situação.”

    “Tudo bem!” Lerona respondeu, sem se importar. Apesar de nervosa em estar ao lado de Oliver e deixar escapar algo, sabia que seu dever era a prioridade.

    Após a mulher concordar com ele, Raul olhou para o rapaz pálido novamente.

    “Em relação à questão com a Medusa, ou melhor, a Subtenente Theodora… Ah, quer saber, não quero pensar nisso agora!” Raul exclamou, colocando a mão na cabeça e coçando-a.

    Merda, esse maldito pivete é tão problemático. Será que era assim que a Tenente Gallia se sentia ao lidar comigo e com o Capitão Viktor? Droga, não gosto de ser o cara sensato! pensou, irritado.

    Assim que o Capitão tocou a maçaneta da porta, abrindo-a, uma figura, que estava à espreita do lado de fora, saltou em direção a ele, com as duas mãos visando seu pescoço.

    Bam!

    O sujeito moreno apenas desviou para o lado sem dificuldade, deixando a figura cair sobre seu próprio peso.

    “Que merda você está fazendo, gorducho?” Raul perguntou, olhando o sujeito rechonchudo de forma estranha, completamente estirado no chão. O homem havia caído de cara, com as duas mãos esticadas para frente.

    Fernando e Raul também observaram aquilo sem entender.

    “Gorducho é a sua cabeça!” Aldebaran, que estava imóvel, gritou, reagindo ao insulto. Então, rapidamente levantou-se, colocando-se de joelhos e apontando para Raul: “Você…! Você disse que só ia usar minha área subterrânea para treinamento, então por que diabos todo o lugar está arruinado?! Isso é algum tipo de vingança pessoal? Eu, por acaso, dormi com sua mãe numa vida passada? Espera, talvez o meu eu da Terra e ela tenham realmente feito… e você seja meu bastar-”

    Antes que Aldebaran pudesse terminar, Raul o acertou com um chute em sua enorme barriga, derrubando-o no chão novamente.

    “Não faço ideia do que está falando, mas se quer culpar alguém, culpe-os. Os dois foram os únicos treinando lá”, o Capitão moreno falou, dando de ombros e saindo como se não tivesse nada a ver com o assunto.

    Aldebaran imediatamente voltou-se para a mulher e o rapaz pálido.

    “Vocês… paguem meus prejuízos!” O velho estranho gritou, olhando para Lerona e Fernando. Eles se entreolharam, suspirando.

    Algum tempo depois, o jovem Tenente tinha uma expressão irritada no rosto.

    “Velhote mesquinho…” Fernando murmurou.

    “Obrigado pelos negócios! Se quiserem quebrar mais alguma coisa, me avisem!” Aldebaran falou, rindo alto e saindo do quarto.

    Após negociar valores, Fernando concordou em pagar 1 moeda de ouro e 200 de prata ao velho homem para os reparos da área subterrânea, com ele ficando responsável por 700 de prata e Lerona pelas 500 restantes.

    Mesmo que pudesse apenas chantageá-lo ou extorqui-lo como Raul normalmente fazia, o rapaz pálido sentiu que não era certo, ficando com pena do dono da pousada, já que eles haviam realmente destruído o local enquanto aprendiam habilidades.

    No entanto, ao ver como ele era ganancioso, imediatamente arrependeu-se. Ele até achava que o velho havia superfaturado o valor dos reparos listados.

    “Você tem certeza? Eu sou uma Capitã, eu posso pagar metade da quantia”, a Capitã insistiu, sentindo que não era justo que Fernando pagasse a maior parte, mas o jovem Tenente apenas deu de ombros, sem se importar.

    “Não é muito dinheiro, eu posso lidar com isso.” Após dizer isso, Fernando de repente lembrou-se de algo, então moveu o pulso, retirando um pequeno frasco e jogando para Lerona. “Eu quase esqueci, isso é seu.”

    A mulher não compreendeu de imediato do que se tratava, mas pegou o item e, assim que o fez, sua expressão mudou.

    Dentro do frasco, havia uma única flor lâmina quase transparente. Essa era a folha da Árvore de Luz que ele havia comprado da Eterna Viajante!

    “E-eu… não posso aceitar isso, Tenente!” A mulher exclamou, em choque. Esse era um item no valor de 10 moedas de ouro, era algo muito valioso para que fosse presenteado de forma tão banal!

    “Se eu estou dizendo que é seu, então é seu”, Fernando disse, com uma expressão calma, mas séria, mostrando que não estava disposto a recuar.

    Após conviver com o rapaz pálido por algum tempo, já sabia mais ou menos como era sua atitude e entendeu que não conseguiria convencê-lo do contrário tão facilmente, então, apertando o frasco e com uma expressão pensativa, a mulher ruiva o encarou.

    “Durante a negociação mais cedo, eu… pensei seriamente em matá-lo.” Ao dizer isso, a respiração da Capitã imediatamente ficou irregular, como se tivesse feito um esforço tremendo.

    Fernando continuou a olhar com um rosto inexpressivo, sem reagir às suas palavras.

    “Eu sei”, respondeu, com uma voz indiferente.

    Ao ouvir isso, Lerona ficou chocada.

    “Você sabia? Mesmo assim, está me dando isso?”

    Fernando virou de costas, parecendo pensativo.

    “Se eu fosse realmente o escravo de um Erolder, acho que eu gostaria que alguém me matasse”, respondeu, com um olhar calmo. Após conhecer Brakas e saber do que ele era capaz com base em tudo o que ele já fez com suas vítimas, o mero pensamento de ser escravo de algo assim o fez sentir um calafrio nas costas. “Além disso, mesmo que tenha pensado nisso, no fim, você confiou em mim, Capitã Lerona. Eu sou grato por isso.”

    Com as palavras de Fernando, a expressão da mulher ruiva mudou. Inicialmente, ficou surpresa, mas logo em seguida suas bochechas brancas ficaram levemente avermelhadas.

    “Eu só fiz o que achava certo, Tenente”, disse, desviando o olhar e assumindo seu modo habitual de agir.

    Vendo isso, Fernando não pôde deixar de sorrir levemente. Mesmo que aparentasse ser uma pessoa extremamente rígida e que só se importava com sua missão, ocasionalmente demonstrava um lado emocional.

    “Mesmo assim, eu não posso aceitar isso de graça, já recebi muitas coisas gratuitamente”, Lerona falou, ao lembrar-se de que havia recebido as Veias de Mana, talento para o Sistema de Habilidades, a Aptidão Absoluta que aumentava sua Compatibilidade e agora uma folha da Árvore de Luz. Mesmo sendo, em tese, sua superior, o rapaz continuava a ajudá-la sem pedir nada em troca. A ruiva sentiu que, se permitisse que isso continuasse, ela não seria diferente de uma aproveitadora. “Eu não comprei a folha por mim mesmo, não porque é cara, mas porque achei que não teríamos o suficiente para a Habilidade Lendária.” Após dizer isso, a mulher moveu o pulso, retirou 10 moedas de ouro e lhe ofereceu.

    Fernando franziu a testa ao ver isso.

    “Você entendeu algo errado. Eu não te dei isso por ser bonzinho ou algo do tipo, Capitã Lerona, mas para que você possa me proteger adequadamente como minha guarda. Caso se sinta em dívida comigo, é melhor se tornar uma Major de uma vez”, o rapaz declarou, quando caminhou para fora do quarto. “Eu vou treinar um pouco, então, se quiser, tome um banho ou algo do tipo.”

    Como ele era um homem casado, não poderia ficar no mesmo quarto que uma mulher que precisava se trocar e tomar banho, sendo assim, aproveitou o momento para se retirar.

    Lerona apenas observou em silêncio o rapaz pálido saindo.

    “Esse menino, ele é realmente cabeça dura”, a mulher comentou consigo mesma, mas não pôde evitar dar um sorriso. Guardando as moedas em sua pulseira, olhou novamente para o frasco com a flor, seu olhar determinado. Mesmo que Fernando tenha dito aquilo da boca para fora, Lerona tomou como uma verdade. Com as Veias de Mana e a folha, ela sentiu-se confiante em aumentar sua força.

    Caminhando pelos corredores da pousada, Fernando foi em direção à área secreta de Aldebaran. Mesmo que o lugar estivesse um pouco bagunçado e destruído, ainda deveria servir como local de treinamento. Além disso, ele havia pagado um alto valor e estava decidido a quebrar o lugar um pouco mais para fazer jus às suas moedas de prata gastas.

    Ao se aproximar do hall, ele sentiu uma brisa intensa tocar seu rosto.

    O que é isso? Alguém deixou alguma janela aberta? Antes que pudesse pensar mais a respeito, viu uma silhueta fina movendo-se com agilidade pelo enorme hall. Essa é…

    Era uma garota de cabelos e olhos azuis escuros, vestindo uma roupa branca leve e delicada, que se assemelhava a um uniforme de treinamento, movia-se ritmicamente pelo local. Seus braços deslocavam-se de um lado ao outro, dando passos de acordo.

    Fuuuu!

    A cada balanço de seu corpo, uma brisa suave soprava.

    O que é isso? pensou, levemente surpreso.

    Então, após um movimento circular, Fernando viu algo que o deixou sem palavras, os pés da garota deixaram o chão, como se estivesse pisando em algo sólido, mas macio, e continuou dando passos em sua estranha dança silenciosa.

    Magia de Levitação? indagou-se, mas logo percebeu que não poderia ser. Seus movimentos eram muito suaves e firmes, algo difícil, se não impossível, de ser feito apenas com Levitação. Logo, chegou a uma conclusão. Magia de Vento.

    Dentro da Magia Elemental e nos quatro elementos principais, a Magia de Fogo e Terra eram as mais comuns e predominantes entre a população de Magos, enquanto as Magias de Vento e Água eram relativamente mais difíceis de serem vistas.

    Fernando sentiu-se fascinado pela estranha dança, bem como pelos movimentos precisos da garota. Era como se ela dominasse seu corpo por inteiro e a Magia de Vento fosse apenas mais uma parte dele.

    Tac!

    Swish!

    Ao dar mais um passo para ver melhor, uma forte rajada de vento o atingiu e o jovem Tenente viu algo que o deixou sem palavras. A garota, que se movia em pleno ar, desapareceu bem em frente aos seus olhos.

    Para onde ela foi? perguntou-se, mas assim que o fez, sentiu uma sensação gelada tocar na lateral de sua garganta.

    “Espero que tenha aproveitado o show, tarado”, uma voz feminina soou atrás dele, fazendo Fernando congelar no lugar. “É uma pena que seja a última coisa que vai ver.”

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