CAPÍTULO 39 - APRENDIZ
O Arsenal do Viajante era, sem dúvida, o maior e mais luxuoso estabelecimento de Corval.
Oliver observou os itens expostos e seus respectivos preços. Os valores eram absurdos.
Focos arcanos custavam 25 peças de ouro. Algumas armas chegavam perto de 100. Ele viu até mesmo um conjunto completo de armadura custando 750 peças de ouro.
Aquilo estava completamente fora de sua realidade financeira. Ainda assim, ao ouvir algumas pessoas comentando os preços, não pôde deixar de se surpreender.
“Uau, como os preços aqui conseguem ser tão baratos? Eu vi uma armadura parecida com essa em outra cidade. Custava quase 1000 peças de ouro.”
“Sim, é verdade. Olhe para essa alabarda, apenas 35 peças de ouro.”
O mesmo tipo de comentário surgia em vários grupos diferentes, e Oliver logo concluiu que não se tratava apenas de um único grupo muito rico. Todos os que observavam os preços pareciam forasteiros. Cidadãos comuns de Corval não poderiam se dar ao luxo de levar nem mesmo um daqueles itens.
“Ser aventureiro deve ser lucrativo. Essas pessoas têm dinheiro para pagar por todos esses equipamentos.” Enquanto observava os potenciais clientes de Balthazar, Oliver completou o pensamento em silêncio: “Ainda estou longe de conseguir pagar por qualquer um deles…”
Ele já estava se dirigindo à saída quando sua atenção foi puxada para uma prateleira de poções, mais especificamente para duas etiquetas.
[ Poção de Cura Comum: 35 peças de ouro. ]
[ Elixir de Vigor: 10 peças de ouro. ]
Essas poções lhe eram familiares. Uma delas, inclusive, já salvara sua vida antes. Grim havia administrado uma poção de cura em Oliver, e o efeito fora quase milagroso. A poção era vermelha, borbulhante e parecia viva.
“As coisas aqui realmente são mais baratas…” Oliver concluiu que aquilo era verdade, afinal Grim cobrara 45 peças de ouro pela mesma poção. Sua mãe dizia já ter quitado a dívida, mas Oliver ainda não fazia ideia de como ela conseguiu aquilo.
O Elixir de Vigor também lhe parecia familiar. Durante os treinos com Archibald, Jonathan esgotava a mana com frequência. Os sintomas de exaustão de mana se pareciam com os de uma perda severa de sangue, e toda vez que Jonathan caía desacordado, Archibald lhe despejava aquela poção roxa pela garganta.
O garoto continuava inconsciente, mas já não tinha uma aparência tão apática depois de tomá-la.
“Mestre Archibald esteve aplicando poções tão caras em Jonathan esse tempo todo…” Oliver pensou, sentindo-se estranhamente abençoado por possuir uma reserva de mana tão avassaladora. Graças a isso, não precisava recorrer a esse tipo de poção durante os treinamentos.
Depois de matar a curiosidade, Oliver finalmente decidiu voltar para casa. Não havia mais nada ali que ele pudesse fazer além de olhar.
…
Na manhã seguinte, Oliver acordou sabendo que teria mais uma aula com Archibald.
Seu mestre havia dito para que se preparasse, pois naquele dia treinariam combate direto.
Ao chegar à casa dos Venn, foi recebido por Sebastian, como de costume. O mordomo de Archibald nunca dizia nada além do estritamente necessário e quase sempre parecia entediado. Hoje, porém, estava especialmente sorridente. Oliver percebeu um leve traço amarelo em sua alma. Ele estava feliz e cheio de expectativa.
Oliver decidiu perguntar.
“Aconteceu alguma coisa, tio Sebastian? Você parece mais feliz que o normal.”
Sebastian respondeu com um sorriso discreto, quase divertido.
“Você vai descobrir em breve, garoto. O dia de hoje vai ser agitado para você.”
Oliver seguiu andando, intrigado com a resposta.
Ao entrar na sala onde normalmente aconteciam as lições de Archibald, encontrou seu mestre e Jonathan já à espera.
“Está atrasado!”
A voz estridente veio de Jonathan.
O garoto não parecia exatamente irritado. Ao olhar para sua alma, Oliver percebeu que o que havia ali era ansiedade. Seja lá o que estivesse prestes a acontecer, Jonathan claramente mal conseguia esperar.
“Na verdade, eu não estou atrasado.” Oliver sentou-se com calma, sem dar muita importância à reclamação.
E, de fato, não estava. A percepção de tempo de Jonathan é que parecia completamente distorcida pela ansiedade.
“Não importa. Você finalmente chegou.” Jonathan falou sem nem olhar para Oliver. Seu foco inteiro estava voltado para a mesa central.
Sebastian nunca acompanhava as aulas, mas, naquele dia, além de conduzir Oliver até a sala, também se sentou em uma das cadeiras disponíveis.
Oliver então voltou a atenção para a mesa central. Ali estavam posicionados dois cajados de madeira escura, cada um com uma gema levemente azulada incrustada. Ao lado deles, repousavam também dois robes azuis, parecidos com o de Archibald.
Archibald estava por perto e, ao ver Oliver chegar, aproximou-se da mesa. Sua voz cortou o silêncio da sala.
“Bem-vindos. Hoje vamos iniciar a cerimônia oficial de aprendizes.”
Archibald falou como se estivesse se dirigindo a uma grande plateia, embora houvesse apenas 4 pessoas na sala, contando com ele.
“Cerimônia oficial de aprendizes?” Oliver repetiu, claramente confuso.
Archibald pigarreou antes de explicar melhor.
“Deixe-me explicar apropriadamente. Normalmente, entre magos, avaliamos nosso poder pelos círculos. Mas, algumas centenas de anos atrás, tornou-se comum se referir a um mago pelo título, em vez do círculo. Magos de 1º ciclo são oficialmente chamados de aprendizes. Hoje, estou entregando o título de Aprendiz a vocês dois. É por isso que temos esta cerimônia.”
Oliver começou a entender, então, o motivo da ansiedade de Jonathan e da satisfação discreta de Sebastian.
Archibald pegou um dos robes azuis que estavam sobre a mesa. A peça era grande, feita para servir em um adulto. Em seguida, chamou:
“Jonathan, venha até a frente.”
Jonathan avançou de imediato. Archibald lhe entregou o robe e ordenou com simplicidade:
“Vista-se.”
Jonathan obedeceu, vestindo o robe por cima das roupas comuns. Em seguida, ajoelhou-se diante de Archibald.
Então ergueu as duas mãos, aguardando receber algo.
Archibald seguiu o ritual com solenidade.
“Pelo poder concedido a mim pela Associação Mágica, eu, Arcanista Archibald D’Artois, concedo a você o título de Aprendiz. Meus parabéns.”
Depois da declaração, entregou a Jonathan um dos cajados preparados sobre a mesa. Em seguida, colocou em suas mãos também uma espécie de cartão, que Oliver não conseguiu observar direito daquele ponto.
Antes que pudesse pensar mais sobre aquilo, Oliver também foi chamado à frente.
“Oliver, venha cá.”
O processo se repetiu. Oliver vestiu o robe azul separado para ele e recebeu o cajado e o cartão.
Virando o objeto entre os dedos, ele acabou perguntando:
“Hmm… Mestre Archibald, para que serve esse cartão?”

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.