Capítulo 27: Energia
Marcus deixou o silêncio se prolongar por alguns segundos.
— Matéria em energia.
Ele apontou para a fórmula.
— Energia em matéria.
A ponta do giz bateu levemente no quadro.
— Durante séculos acreditamos que essas duas coisas eram os alicerces da realidade.
Então escreveu uma terceira palavra abaixo da equação.
“Energia Escura”
Alguns alunos imediatamente ficaram mais atentos.
Marcus percebeu.
— Sim. Chegamos à parte interessante.
Ele deu alguns passos pela sala.
— A maioria das pessoas aprende que a Energia Escura é uma força misteriosa presente em todo o universo. A força que expande o universo.
— Uma explicação conveniente, simples, mas incompleta.
O professor voltou-se para o quadro.
— Digam-me.
Seu olhar percorreu as fileiras.
— Se matéria pode se transformar em energia…
Ele apontou para a equação.
— E energia pode se transformar em matéria…
O giz bateu sobre a palavra Energia Escura.
— De onde veio a primeira delas?
Nenhum aluno respondeu.
Marcus sorriu.
— Exatamente.
Ele desenhou três círculos.
No primeiro escreveu:
“Energia Escura”
No segundo:
“Energia”
No terceiro:
“Matéria”
— A Física moderna considera matéria e energia estados diferentes de uma mesma existência.
Uma seta ligou os dois últimos círculos.
— A Física Mágica dá um passo além.
Outra seta surgiu.
Ligando Energia Escura aos outros dois.
— A Energia Escura é a origem.
O professor cruzou os braços.
— Ela é pode se tornar ambas.
Seus olhos percorreram a turma.
— Pensem nela como as células-tronco do universo.
O silêncio voltou a tomar conta da sala.
Marcus apontou para os alunos.
— E agora chegamos à pergunta realmente importante.
Sua voz permaneceu calma.
— Se a Energia Escura está presente em todo lugar…
Ele caminhou lentamente entre as fileiras.
— Por que apenas os humanos conseguem utilizá-la conscientemente?
Alguns alunos trocaram olhares.
Marcus bateu levemente no próprio peito.
— Fluxor.
A palavra ecoou pela sala.
— Todos vocês possuem um.
— Seus pais possuem um.
— Seus avós possuíam um.
— Todo ser humano já registrado possui um.
O professor fez uma pausa.
— E ninguém exatamente o por quê.
Algumas sobrancelhas se ergueram.
— Ah, nós sabemos o que ele faz, sabemos onde está localizado, sabemos como ele se desenvolve, sabemos quais genes influenciam sua formação…
Marcus deu de ombros.
— Mas compreender seu funcionamento e compreender sua existência são coisas diferentes.
Ele voltou para a frente da sala.
— O Fluxor é um órgão capaz de interagir com a Energia Escura.
A ponta do giz desenhou uma linha simples.
“Energia Escura → Energia Biológica”
— Em condições normais, é isso que acontece.
— O Fluxor absorve Energia Escura.
— E converte em energia biológica, distribuindo pelo corpo.
Marcus observou os alunos.
— O simples fato de vocês estarem vivos depende desse processo.
Aquilo fez várias pessoas franzirem a testa.
— Sim.
Um sorriso discreto surgiu.
— Vocês utilizam Energia Escura desde o dia em que nasceram. Apenas não percebem.
Ele escreveu outra palavra no quadro.
“Caminhos”
O ambiente pareceu mudar imediatamente.
— Agora chegamos ao motivo pelo qual esta academia existe.
Marcus apoiou o giz sobre a bandeja.
— Nem todos os Fluxores são iguais.
O silêncio tornou-se absoluto.
— Alguns absorvem Energia Escura com mais eficiência.
— Outros convertem mais rápido, outros suportam volumes maiores, outros possuem afinidades naturais específicas.
Ele apontou para a turma.
— É aqui que a genética entra. Não importa quanto vocês se esforcem. Algumas pessoas simplesmente nasceram com Fluxores superiores.
A frase provocou reações imediatas.
Marcus ignorou todas.
— Parece cruel. E é.
Ele apagou parte do quadro com a mão e escreveu oito palavras em sequência.
Destruição
Construção
Restauração
Previsão
Alteração
Vínculo
Supressão
Distorção
O silêncio tomou conta da sala.
— Estes são os oito Caminhos reconhecidos atualmente pela Academia.
Ele se afastou alguns passos.
— Existem teorias sobre subdivisões, variações e classificações secundárias, mas, no fim das contas, quase tudo que um usuário é capaz de fazer se encaixa em um desses grupos.
Marcus apontou para a primeira palavra.
— Destruição.
O tom dele tornou-se mais direto.
— O caminho mais simples de entender.
A ponta do giz tocou o quadro.
— Usuários desse Caminho utilizam Energia Biológica de forma agressiva. Quanto maior a concentração, maior o impacto.
Ele fez um pequeno risco abaixo da palavra.
Marcus deu de ombros.
— É o caminho favorito de quem acredita que problemas podem ser resolvidos com força suficiente.
Algumas risadas surgiram.
Ele já apontava para a próxima palavra.
— Construção.
O giz desenhou rapidamente a forma de uma espada.
— Enquanto a Destruição libera energia, a Construção dá forma a ela.
Marcus apagou o desenho logo em seguida.
— Armas, ferramentas, barreiras…
Ele observou a turma.
— Quanto maior o domínio, mais complexa a construção.
A ponta do giz desceu para a palavra seguinte.
— Restauração.
O professor permaneceu alguns segundos em silêncio antes de continuar.
— Um dos caminhos mais mal compreendidos.
Ele cruzou os braços.
— A maioria das pessoas acredita que restauração significa cura. Mas não.
Marcus balançou a cabeça.
— Cura é apenas uma aplicação.
— Restauração significa retornar algo a um estado anterior.
Ele apontou para uma carteira próxima.
— Um objeto quebrado, um osso fraturado.
Sua voz permaneceu calma.
— Quanto mais complexo o alvo, mais difícil o processo.
Marcus seguiu adiante.
— Previsão.
Vários alunos ficaram imediatamente mais atentos.
— Não.
Um leve sorriso surgiu.
— Não estou falando de ver o futuro.
Algumas expressões decepcionadas arrancaram novas risadas da turma.
— O Caminho da Previsão trabalha com possibilidades.
Ele desenhou várias linhas se ramificando a partir de um único ponto.
— Toda ação gera consequências.
— Toda escolha gera possibilidades.
— Toda batalha produz centenas de resultados potenciais.
Marcus apontou para o desenho.
— Usuários desse Caminho enxergam essas possibilidades antes dos outros.
A voz ficou um pouco mais séria.
— E isso costuma torná-los extremamente difíceis de enfrentar.
O professor apagou as linhas.
— Alteração.
O giz riscou o quadro de forma irregular.
— Este Caminho permite modificar propriedades.
— Temperatura.
— Densidade.
— Resistência.
— Peso.
— Elasticidade.
Marcus observou a sala.
— É provavelmente o Caminho mais versátil entre todos.
— Também é um dos mais difíceis de dominar.
Ele continuou.
— Vínculo.
O professor apoiou o giz na bandeja.
— Conexões.
Marcus apontou para dois alunos sentados em lados opostos da sala.
— Um usuário experiente pode criar relações entre pessoas, objetos, criaturas ou até fenômenos.
Uma breve pausa.
— E toda conexão possui dois lados.
O silêncio que seguiu pareceu proposital.
— Nunca se esqueçam disso.
Marcus voltou ao quadro.
— Supressão.
A palavra recebeu um único traço abaixo dela.
— Se os outros Caminhos buscam utilizar Energia Biológica…
Ele bateu o giz na madeira da mesa.
— Este busca impedir que os outros façam isso.
Alguns alunos franziram a testa.
Marcus assentiu.
— Em combate individual pode não parecer impressionante.
— Em combate real costuma ser um pesadelo.
Por fim, ele apontou para a última palavra.
— Distorção.
O giz desenhou uma linha curva que parecia errada de alguma forma.
— Espaço. Eles podem se mover por ele de maneira mais… sofisticada, por assim dizer.
— Estes são os oito Caminhos.
Ele voltou a encarar a turma.
— Nenhum deles é melhor que os outros..
Marcus apoiou ambas as mãos sobre a mesa.
— O que realmente importa é a compatibilidade entre o seu Fluxor e o Caminho que responde a ele.
O silêncio voltou a dominar a sala.
— Algumas pessoas passam a vida inteira tentando compensar uma afinidade ruim.
— Outras nascem com talentos absurdos.
Ele deixou o olhar percorrer cada aluno.
— E é exatamente por isso que eu disse no início da aula que a Física Mágica não negocia com justiça.
Uma pequena pausa.
— Ela negocia com genética.
Marcus então sorriu.
— E, para a felicidade ou desespero de vocês, descobrir qual Caminho responde ao seu Fluxor será uma das primeiras coisas que faremos nesta academia.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.