Marcus deixou o silêncio se prolongar por alguns segundos.

    — Matéria em energia.

    Ele apontou para a fórmula.

    — Energia em matéria.

    A ponta do giz bateu levemente no quadro.

    — Durante séculos acreditamos que essas duas coisas eram os alicerces da realidade.

    Então escreveu uma terceira palavra abaixo da equação.

    “Energia Escura”

    Alguns alunos imediatamente ficaram mais atentos.

    Marcus percebeu.

    — Sim. Chegamos à parte interessante.

    Ele deu alguns passos pela sala.

    — A maioria das pessoas aprende que a Energia Escura é uma força misteriosa presente em todo o universo. A força que expande o universo.

    — Uma explicação conveniente, simples, mas incompleta.

    O professor voltou-se para o quadro.

    — Digam-me.

    Seu olhar percorreu as fileiras.

    — Se matéria pode se transformar em energia…

    Ele apontou para a equação.

    — E energia pode se transformar em matéria…

    O giz bateu sobre a palavra Energia Escura.

    — De onde veio a primeira delas?

    Nenhum aluno respondeu.

    Marcus sorriu.

    — Exatamente.

    Ele desenhou três círculos.

    No primeiro escreveu:

    “Energia Escura”

    No segundo:

    “Energia”

    No terceiro:

    “Matéria”

    — A Física moderna considera matéria e energia estados diferentes de uma mesma existência.

    Uma seta ligou os dois últimos círculos.

    — A Física Mágica dá um passo além.

    Outra seta surgiu.

    Ligando Energia Escura aos outros dois.

    — A Energia Escura é a origem.

    O professor cruzou os braços.

    — Ela é pode se tornar ambas.

    Seus olhos percorreram a turma.

    — Pensem nela como as células-tronco do universo.

    O silêncio voltou a tomar conta da sala.

    Marcus apontou para os alunos.

    — E agora chegamos à pergunta realmente importante.

    Sua voz permaneceu calma.

    — Se a Energia Escura está presente em todo lugar…

    Ele caminhou lentamente entre as fileiras.

    — Por que apenas os humanos conseguem utilizá-la conscientemente?

    Alguns alunos trocaram olhares.

    Marcus bateu levemente no próprio peito.

    — Fluxor.

    A palavra ecoou pela sala.

    — Todos vocês possuem um.

    — Seus pais possuem um.

    — Seus avós possuíam um.

    — Todo ser humano já registrado possui um.

    O professor fez uma pausa.

    — E ninguém exatamente o por quê.

    Algumas sobrancelhas se ergueram.

    — Ah, nós sabemos o que ele faz, sabemos onde está localizado, sabemos como ele se desenvolve, sabemos quais genes influenciam sua formação…

    Marcus deu de ombros.

    — Mas compreender seu funcionamento e compreender sua existência são coisas diferentes.

    Ele voltou para a frente da sala.

    — O Fluxor é um órgão capaz de interagir com a Energia Escura.

    A ponta do giz desenhou uma linha simples.

    “Energia Escura → Energia Biológica”

    — Em condições normais, é isso que acontece.

    — O Fluxor absorve Energia Escura.

    — E converte em energia biológica, distribuindo pelo corpo.

    Marcus observou os alunos.

    — O simples fato de vocês estarem vivos depende desse processo.

    Aquilo fez várias pessoas franzirem a testa.

    — Sim.

    Um sorriso discreto surgiu.

    — Vocês utilizam Energia Escura desde o dia em que nasceram. Apenas não percebem.

    Ele escreveu outra palavra no quadro.

    “Caminhos”

    O ambiente pareceu mudar imediatamente.

    — Agora chegamos ao motivo pelo qual esta academia existe.

    Marcus apoiou o giz sobre a bandeja.

    — Nem todos os Fluxores são iguais.

    O silêncio tornou-se absoluto.

    — Alguns absorvem Energia Escura com mais eficiência.

    — Outros convertem mais rápido, outros suportam volumes maiores, outros possuem afinidades naturais específicas.

    Ele apontou para a turma.

    — É aqui que a genética entra. Não importa quanto vocês se esforcem. Algumas pessoas simplesmente nasceram com Fluxores superiores.

    A frase provocou reações imediatas.

    Marcus ignorou todas.

    — Parece cruel. E é.

    Ele apagou parte do quadro com a mão e escreveu oito palavras em sequência.

    Destruição

    Construção

    Restauração

    Previsão

    Alteração

    Vínculo

    Supressão

    Distorção

    O silêncio tomou conta da sala.

    — Estes são os oito Caminhos reconhecidos atualmente pela Academia.

    Ele se afastou alguns passos.

    — Existem teorias sobre subdivisões, variações e classificações secundárias, mas, no fim das contas, quase tudo que um usuário é capaz de fazer se encaixa em um desses grupos.

    Marcus apontou para a primeira palavra.

    — Destruição.

    O tom dele tornou-se mais direto.

    — O caminho mais simples de entender.

    A ponta do giz tocou o quadro.

    — Usuários desse Caminho utilizam Energia Biológica de forma agressiva. Quanto maior a concentração, maior o impacto.

    Ele fez um pequeno risco abaixo da palavra.

    Marcus deu de ombros.

    — É o caminho favorito de quem acredita que problemas podem ser resolvidos com força suficiente.

    Algumas risadas surgiram.

    Ele já apontava para a próxima palavra.

    — Construção.

    O giz desenhou rapidamente a forma de uma espada.

    — Enquanto a Destruição libera energia, a Construção dá forma a ela.

    Marcus apagou o desenho logo em seguida.

    — Armas, ferramentas, barreiras…

    Ele observou a turma.

    — Quanto maior o domínio, mais complexa a construção.

    A ponta do giz desceu para a palavra seguinte.

    — Restauração.

    O professor permaneceu alguns segundos em silêncio antes de continuar.

    — Um dos caminhos mais mal compreendidos.

    Ele cruzou os braços.

    — A maioria das pessoas acredita que restauração significa cura. Mas não.

    Marcus balançou a cabeça.

    — Cura é apenas uma aplicação.

    — Restauração significa retornar algo a um estado anterior.

    Ele apontou para uma carteira próxima.

    — Um objeto quebrado, um osso fraturado.

    Sua voz permaneceu calma.

    — Quanto mais complexo o alvo, mais difícil o processo.

    Marcus seguiu adiante.

    — Previsão.

    Vários alunos ficaram imediatamente mais atentos.

    — Não.

    Um leve sorriso surgiu.

    — Não estou falando de ver o futuro.

    Algumas expressões decepcionadas arrancaram novas risadas da turma.

    — O Caminho da Previsão trabalha com possibilidades.

    Ele desenhou várias linhas se ramificando a partir de um único ponto.

    — Toda ação gera consequências.

    — Toda escolha gera possibilidades.

    — Toda batalha produz centenas de resultados potenciais.

    Marcus apontou para o desenho.

    — Usuários desse Caminho enxergam essas possibilidades antes dos outros.

    A voz ficou um pouco mais séria.

    — E isso costuma torná-los extremamente difíceis de enfrentar.

    O professor apagou as linhas.

    — Alteração.

    O giz riscou o quadro de forma irregular.

    — Este Caminho permite modificar propriedades.

    — Temperatura.

    — Densidade.

    — Resistência.

    — Peso.

    — Elasticidade.

    Marcus observou a sala.

    — É provavelmente o Caminho mais versátil entre todos.

    — Também é um dos mais difíceis de dominar.

    Ele continuou.

    — Vínculo.

    O professor apoiou o giz na bandeja.

    — Conexões.

    Marcus apontou para dois alunos sentados em lados opostos da sala.

    — Um usuário experiente pode criar relações entre pessoas, objetos, criaturas ou até fenômenos.

    Uma breve pausa.

    — E toda conexão possui dois lados.

    O silêncio que seguiu pareceu proposital.

    — Nunca se esqueçam disso.

    Marcus voltou ao quadro.

    — Supressão.

    A palavra recebeu um único traço abaixo dela.

    — Se os outros Caminhos buscam utilizar Energia Biológica…

    Ele bateu o giz na madeira da mesa.

    — Este busca impedir que os outros façam isso.

    Alguns alunos franziram a testa.

    Marcus assentiu.

    — Em combate individual pode não parecer impressionante.

    — Em combate real costuma ser um pesadelo.

    Por fim, ele apontou para a última palavra.

    — Distorção.

    O giz desenhou uma linha curva que parecia errada de alguma forma.

    — Espaço. Eles podem se mover por ele de maneira mais… sofisticada, por assim dizer.

    — Estes são os oito Caminhos.

    Ele voltou a encarar a turma.

    — Nenhum deles é melhor que os outros..

    Marcus apoiou ambas as mãos sobre a mesa.

    — O que realmente importa é a compatibilidade entre o seu Fluxor e o Caminho que responde a ele.

    O silêncio voltou a dominar a sala.

    — Algumas pessoas passam a vida inteira tentando compensar uma afinidade ruim.

    — Outras nascem com talentos absurdos.

    Ele deixou o olhar percorrer cada aluno.

    — E é exatamente por isso que eu disse no início da aula que a Física Mágica não negocia com justiça.

    Uma pequena pausa.

    — Ela negocia com genética.

    Marcus então sorriu.

    — E, para a felicidade ou desespero de vocês, descobrir qual Caminho responde ao seu Fluxor será uma das primeiras coisas que faremos nesta academia.

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