Capítulo 28: Fluxor
Marcus permaneceu alguns segundos observando os oito Caminhos escritos no quadro.
Então pegou o apagador e removeu apenas parte do desenho anterior.
— Existe mais uma variável.
O giz voltou a tocar o quadro.
Dessa vez ele desenhou dois Fluxores.
Um grande e outro pequeno.
— O tamanho.
Alguns alunos trocaram olhares imediatamente.
Marcus percebeu a reação e sorriu.
— Sim. Eu sei que metade da sala está interessada nessa parte desde o início da aula.
Algumas risadas surgiram.
O professor apoiou o quadril na mesa.
— E também sei que a outra metade está rezando para que eu diga que isso não importa.
Seu sorriso aumentou ligeiramente.
— Infelizmente para vocês, importa.
Ele voltou ao quadro e circulou o maior dos desenhos.
— Fluxores maiores tendem a produzir organismos fisicamente superiores.
A ponta do giz percorreu o desenho enquanto ele falava.
— Mais força, resistência e coisas do tipo.
Dessa vez ele não continuou imediatamente.
Deixou alguns segundos passarem enquanto vários alunos anotavam.
— Pensem no Fluxor como parte do próprio organismo.
Marcus desenhou linhas saindo do órgão e se espalhando por uma figura humana simplificada.
— Quanto maior a estrutura, maior a quantidade de energia que consegue circular simultaneamente por uma questão de canais que saem do órgão blablabla… enfim.
Ele então apontou para o menor dos Fluxores.
— Isso não significa necessariamente mais poder.
Vance percebeu algumas expressões confusas ao redor da sala.
Marcus também.
— Certo.
O professor pegou o giz novamente.
— Vamos simplificar.
Com alguns movimentos rápidos, desenhou dois novos Fluxores.
Dessa vez ambos possuíam exatamente o mesmo tamanho.
Abaixo do primeiro escreveu:
10 u/cm³
Abaixo do segundo:
50 u/cm³
O silêncio tomou conta da sala.
Marcus bateu o giz no primeiro desenho.
— Dez centímetros.
Depois apontou para o segundo.
— Dez centímetros.
Ele largou o giz sobre a bandeja.
— Exatamente o mesmo tamanho.
Um aluno da primeira fileira franziu a testa.
— Então qual a diferença? — O aluno perguntou.
— Boa pergunta
Marcus apontou para os números.
— Densidade.
Ele caminhou lentamente entre as carteiras.
— O primeiro usuário consegue armazenar dez unidades de Energia Biológica por centímetro cúbico.
— O segundo consegue armazenar cinquenta.
Parando no corredor central, ele observou a turma.
— Mesmo tamanho.
— Mesma estrutura.
— Quantidades completamente diferentes de energia.
Alguns alunos começaram a fazer contas mentalmente.
Marcus assentiu.
— Exato.
Ele voltou para a frente da sala.
— O primeiro possui cerca de cem unidades totais.
— O segundo possui quinhentas.
A diferença arrancou algumas expressões surpresas.
— Agora entendem por que tamanho não é tudo?
O professor cruzou os braços.
— Um Fluxor grande é útil, mas um Fluxor denso é perigoso.
O comentário provocou algumas risadas.
Marcus não pareceu se importar.
— E adivinhem o que determina essa densidade.
Dessa vez a resposta veio quase instantaneamente.
— Novamente, genética.
Ele assentiu.
— Algumas pessoas conseguem converter Energia Escura em Energia Biológica com muito mais eficiência que outras.
— Conseguem comprimir mais energia no mesmo espaço.
— Conseguem armazenar mais sem comprometer a estabilidade.
Marcus então voltou ao quadro e desenhou uma série de círculos concêntricos ao redor de um Fluxor.
— Mas existe algo que muitos esquecem.
O tom dele ficou um pouco mais sério.
— O Fluxor não é estático.
A sala pareceu despertar novamente.
— Ele cresce.
Vance ergueu levemente uma sobrancelha.
Marcus percebeu.
— Não infinitamente, e certamente não da noite para o dia.
Ele reforçou as camadas desenhadas ao redor do Fluxor.
— Quanto mais o Fluxor é utilizado, mais ele se adapta.
— Quanto mais Energia Escura ele absorve e converte, mais sua estrutura se desenvolve.
O professor deu alguns passos pela sala.
— É um processo lento, demora anos, décadas para uma mudança realmente significativa.
Ele então apontou para o desenho.
— É por isso que um veterano em hipótese alguma possui o mesmo Fluxor que tinha aos dezoito anos.
— O órgão amadurece e aprende a ser mais otimizado.
Marcus apoiou as duas mãos sobre a mesa.
— É claro que a genética continua impondo limites.
Seu olhar percorreu cada aluno presente.
— Nem todo Fluxor pode crescer da mesma forma.
Ele fez uma pausa breve.
— Mas ninguém permanece exatamente igual para sempre.
O silêncio que se seguiu foi contemplativo.
Marcus observou a turma por alguns segundos antes de concluir:
— Em resumo…
Ele apontou para as palavras escritas no quadro.
“Tamanho”
“Densidade”
“Afinidade”.
A ponta do giz bateu uma vez sob cada uma delas.
— Estes três fatores definirão boa parte da trajetória de vocês dentro da Academia.
O sorriso voltou ao seu rosto.
— O problema é que nenhum deles pode ser escolhido.
O silêncio que seguiu foi diferente dos anteriores.
Dessa vez, ninguém parecia estar tentando acompanhar uma explicação.
Estavam pensando.
Alguns provavelmente calculando suas próprias chances.
Outros tentando lembrar os resultados dos exames preparatórios.
Marcus observou a sala por alguns segundos antes de soltar um suspiro leve.
— Relaxem.
Aquilo arrancou algumas expressões confusas.
— Vocês acabaram de entrar na Academia Central.
Ele fechou a pasta.
— Ainda é cedo demais para começarem a sofrer por coisas que não podem mudar.
Algumas risadas surgiram.
— E, para ser sincero, muitos dos relatórios que recebi sobre vocês provavelmente estão errados de qualquer forma.
Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.
— A realidade costuma ser bem mais interessante do que qualquer relatório.
Ninguém respondeu.
Marcus pareceu satisfeito com isso.
— Nos vemos na próxima aula.
E então saiu.
A porta se fechou atrás dele.
Por alguns segundos, ninguém se levantou.
A sala permaneceu estranhamente silenciosa, como se todos ainda estivessem processando a quantidade absurda de informação despejada nas últimas horas.
Foi apenas quando alguém empurrou uma cadeira que o ambiente voltou à vida.
Conversas surgiram em diferentes pontos da sala.
Todos pareciam ter encontrado algum detalhe específico para discutir.
Vance apenas permaneceu sentado.
Seu olhar ainda estava preso ao quadro.
A maior parte já havia sido apagada, mas algumas palavras continuavam visíveis.
Ele soltou o ar devagar.
Quanto mais explicações recebia, mais perguntas surgiam.
— Então…
A voz apareceu ao seu lado.
Vance virou a cabeça.
O rapaz da cadeira ao lado estava acordado.
Ou pelo menos parecia estar.
Os cabelos continuavam bagunçados.
As olheiras continuavam ali.
E a expressão dele carregava exatamente a mesma aparência de alguém que preferia estar dormindo.
— Você entendeu alguma coisa?

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