Capítulo 115 — A Víbora e o Tirano
Enquanto Raishi e Tenebris elaboravam uma estratégia, o Imperador agia com desdém. Impero estava sentado em seu trono reluzente com um olhar prepotente e um sorriso maligno. Cascavel entrou pela imensa porta da sala do trono e caminhou até o Imperador, interrompendo seu momento.
Ao se aproximar, se ajoelhou. Impero logo fez sinal para que se levantasse. Cascavel trazia informações sobre as incursões imperiais.
— Grande Imperador, os exércitos tomaram duas das seis principais cidades. Entre elas está o principal poderio militar e econômico de Eudora. Pena que ninguém sobreviveu à incursão. — comentou Cascavel, deixando uma risada sádica escapar.
— Então você matou todos? — Impero se levantou e caminhou na direção de Cascavel, sem parar de encará-lo nos olhos. — Que inconveniente da sua parte, Cascavel. Se continuar matando todos por onde passa, não sobrará mais ninguém para me venerar e contribuir com o meu Império. Aquela era uma das maiores cidades do continente. Fornecia armamento, armaduras e tecnologia para toda Eudora e, graças a você, essa cidade não existe mais. Perdemos uma das nossas maiores fontes de suprimentos.
Impero arqueou levemente as sobrancelhas. Mesmo confiante na vitória, saber que a gravidade das ações de Cascavel lhe custou uma valiosa fonte de renda e recursos o deixou transtornado.
— Suas ações não ficarão impunes dessa vez, Cascavel. — comentou, levemente irritado. — Não posso tolerar essa insubordinação.
— Mas Imperador, foram apenas baixas de guerra. — respondeu convencido. — Uma cidade ou duas não fará diferença.
— Cale-se! Você me prejudicou, e isso não será tolerado! — exclamou finamente irritado. — Eu te proíbo de sair em novas incursões! Além de te destituir da sua divisão! Você passará a atuar sobre o comando da Capitã Nivyel.
— O que?! Mas eu não fiz por mal! Eu apenas lancei uma bomba de veneno, mas a situação saiu do controle. — argumentou Cascavel, surpreso.
— Controle é tudo! Massacrar uma cidade atrás de rebeldes é tolerável, mas extinguir um ponto estratégico valioso não! Ponha-se no seu devido lugar, você serve a mim. Suas ações deveriam me favorecer. Você está comigo ou contra mim?
Cascavel engoliu seco. O salão se calou. Ele pensava em contornar a situação. Impero, por sua vez, não estava disposto a esperar por respostas fajutas.
— Encontraram o corpo do portador da Chama Negra? Eu fui claro quando disse que queria ele vivo, mas novamente vocês me decepcionaram. Haythan falhou outra vez e pagou o preço. Estou cansado de insubordinação e fracasso. Quantos Capitães terei que perder para conseguir o que desejo?
— Ainda não, meu Imperador. O corpo do Kamito desapareceu. Depois do que fez ao meu corpo, ele teve o que mereceu. Mas tenho um mal pressentimento quanto a isso. Ele deveria ter sido encontrado às margens do rio que corta a Cidade do Sul. Há a possibilidade de o corpo ter afundado ou sido devorado. — Cascavel sorriu e lambeu os lábios. — Ainda temos a garota, Akane. Ela será muito mais útil e valiosa do que o rapaz. Nunca houve nada igual à Manifestação dela. Devemos capturá-la.
— Não preciso tomar algo que está destinado a ser meu. — Impero voltou ao trono. — Eu quero a garota viva. Eu já perdi uma Manifestação insubstituível e não pretendo perder outra. Por isso, quero que você e a Capitã Nivyel a tragam até mim. Minha vontade é soberana e absoluta. Quem não entender isso logo, morrerá. Eles precisam entender que sou o salvador, que eu unificarei o Extra-Mundo. Eu trouxe a paz, e é assim que me retribuem? Mordendo a mão de quem os alimentou? Traidores!
Ele se sentou e fechou os olhos. A imponência de Impero era inegável. Apenas a força de suas palavras era o suficiente para causar medo.
— Cascavel, avise todos os Capitães que não tolerarei mais falhas. Quero que essa maldita praga seja logo varrida do meu Império de uma vez por todas. Você tinha mesmo razão quando disse que aquele homem era muito esperto… Raishi Kurogane, Coelho, Adfectus ou seja lá como ele se chama. Ele é um desafio à minha altura, mas eu já sei que serei o vitorioso ao final de tudo.
— Que assim seja, Grande Impero. — Cascavel se aproximava do trono com um sorriso maldoso. — Farei tudo que for preciso para lhe trazer Akane. Eu e Nivyel mataremos a Ordem e a traremos para você. Nós venceremos essa guerra.
Ele parou ao lado de Impero e o encarou com seriedade, como quem tinha outros assuntos para resolver.
— Grande Imperador, sobre as outras cidades, podemos destruí-las se elas não se renderem? Eu adoraria colocar mais algumas na minha lista pessoal.
— Outra vez você quer interferir nos meus planos? Puni-lo não foi o bastante? — dizia Impero de forma séria. — Se você sempre destruir aqueles que se negam a se ajoelhar, não sobrará ninguém para me venerar, já lhe disse isso. Contenha seus impulsos, ou terei que lidar com você também.
— Perdoe minha insolência. — Cascavel abaixou a cabeça em sinal de respeito. — Como os médicos do Império recuperaram meu corpo, eu gostaria de testar minha força. Sinto que, a cada dia que se passa, eu fico mais poderoso.
— Você terá o momento para testar suas habilidades, mas não contra aqueles que ainda me podem ser úteis. Sob o comando da Capitã Nivyel, poderá se divertir. — desviou o olhar, sentindo uma leve suspeita nas intenções daquele homem.
— Infelizmente, não é meu estilo lutar em equipe. Eu sou mais… imprevisível. — gabou-se com um sorriso, deixando as garras à mostra mesmo diante de seu líder.
Eles conversaram sobre outros assuntos durante algum tempo. Após a saída de Cascavel, Impero apoiou o cotovelo direito no braço do trono e repousou o rosto no punho. Sua expressão de tédio era visível, mas ele ainda pensava em como acabar com o confronto. Pensar nisso o deixava cansado.
— Quanta ingratidão. — murmurou enquanto suspirava. — Estou travando duas guerras ao mesmo tempo. Uma contra rebeldes, outra contra traidores. Mas chegará o momento em que eu esmagarei todos com as minhas mãos. Ainda bem que já tenho alguém cuidando do segundo problema para mim.
Impero enfim sorriu e se levantou. Se quisesse pôr um fim em dois problemas ao mesmo tempo, não poderia ficar parado. Estava na hora de ser mais ativo e impiedoso.

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