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    [ 1919 – A Ameaça Crescente ]

    Atualizações sobre o estado Medved chegaram através das redes de Masaru.

    Dilacerando-se por conflitos internos, a nação nevada ganhou destaque por um novo grupo que reorganizava forças áuricas baseado em uma antiga ideologia: a crença de que áuricos eram naturalmente superiores aos não-áuricos, e que o mundo funcionaria melhor sob hegemonia de quem possuísse o dom.

    Chamavam-se Volk, integrantes do braço mais radical da supremacia áurica e conduzidos por uma figura auto proclamada “Czar”, título máximo abolido após um processo revolucionário que derrubou a monarquia e entregou poder aos conselhos de operários, soldados e camponeses.

    O “novo Czar”, juntamente dos Volk, almejava a volta da coroa, e embora sua real identidade desconhecida, seus poderes áuricos foram retratados com inconsistências, representando exagero nas referências disponíveis.

    — “A Névoa do Fim” — leu Masaru, separando um papel sobre a mesa do laboratório. — “Uma forma gasosa que precede a presença e age como campo de percepção. Se respirá-la, a morte o alcançará instantaneamente.” Humm… um poder macabro a um líder autoritário… qual a novidade?


    Sentada na cama do aposento principal, Naomi ponderava sobre os afazeres dos últimos dias. Não houveram alertas de ameaças, nenhuma correspondência indicava movimentações hostis.

    A tranquilidade reinava.

    Após anos entre campanhas militares, reuniões estratégicas e investigações conduzidas ao lado de Masaru, entendeu-se que períodos excessivamente estáveis raramente existiam.

    Na varanda, Hiromi observava a floresta costeira na luz do entardecer. Aos quinze anos, sua percepção estava amadurecida. — Os pássaros mudaram os cantos desde a semana passada.

    A Marechala assentiu, não era a primeira vez que a filha notava alterações antes dos outros adultos. Ela levantou-se e caminhou até a varanda. O mar aparecia além das árvores, distante e silencioso.

    — Percebeu mais alguma mudança?

    Hiromi refletiu por alguns segundos. — Só uma sensação estranha.

    Naomi assentiu novamente. A resposta foi honesta. — Muitas vezes, sensações vêm antes de evidências.

    — Algo acontecerá aqui, não é?

    A pergunta não trouxe uma ansiedade exagerada, somente curiosidade.

    — Não tenho motivos concretos para afirmar. Mesmo assim, nos manteremos atentos como sempre.

    — Se acontecer, vai me deixar lutar?

    Muitos pais enxergariam orgulho naquela pergunta, mas Naomi tinha outra ideia. Os treinamentos existiam justamente porque um dia a realidade obrigaria decisões difíceis.

    — Se uma situação exigir sua participação, você cumprirá seu dever. Porém, enquanto eu estiver presente, a prioridade será sempre a sua segurança.

    — Então por que me treina?

    — Quem compreende o próprio poder possui menos chances de utilizá-lo da forma errada. Em algum dia, posso não estar por perto, e inevitavelmente a realidade te obrigará a decisões difíceis.

    A resposta deixou Hiromi reflexiva, calando-a em uma expressão de sentimentos divididos: a vontade de agir, e o respeito pelo cuidado.

    Se uma ameaça realmente se aproximasse, Naomi a enfrentaria… e se a insistência do futuro levasse a filha aos mesmos conflitos de gerações anteriores, traria também os valores contrários aos que tantos governos ensinavam…


    Em uma madrugada sem estrelas, houve uma queda na temperatura que não correspondia à estação. Era localizada demais para que fosse um fenômeno climático, espalhando-se lentamente da linha de árvores até o quartel.

    Os vigias notaram o desconforto físico antes da causa real. Depois, viram uma névoa branca e densa aproximando-se lentamente, cobrindo um vasto arredor.

    Na varanda do quarto principal, Naomi estava de pé, acordada, atenta e uniformizada, percalço da percepção áurica que desenvolveu.

    Deitado na cama, Masaru ergueu a cabeça do travesseiro e percebeu a prontidão da esposa.

    — Acorde Hiromi e alerte os homens — ordenou a Marechala, com a voz plana e todas as decisões tomadas.

    Masaru levantou sem questionamentos, e antecipadamente vestido no uniforme militar, saiu pela porta.

    Da varanda, Naomi olhava a floresta.

    Como se exalasse o próprio frio, a névoa branca cobria o solo entre as árvores e avançava com a paciência deliberada de algo guiado. Em lugares específicos entre os troncos, a névoa era mais densa — padrões que correspondiam pontos de vigilância e vulnerabilidades mapeadas e reforçadas.

    “Ele nos achou…? Não, trouxeram-no aqui”, concluiu Naomi.

    No topo de torres, os vigias asahianos percebiam que a névoa não obedecia ao comportamento natural da costa.

    A floresta costeira caiu no silêncio absoluto. Nem os mapas militares de distribuição aberta marcavam a localização do Quartel Naomi, apenas os escalões mais altos do Exército Asahiano conheciam o endereço real.

    Não obstante, a névoa estava lá…

    O mundo áurico surpreendia qualquer cálculo humano. Poderes de percepção que alcançavam distâncias que mapas não cobriam. Mas nem sempre uma intervenção áurica era necessária — às vezes bastava uma única conversa, uma palavra a mais em uma reunião sigilosa, ou um papel manuseado por mãos que não deveriam tocá-lo.

    Os poderosos protegiam Asahi; entre eles, porém, a segurança jamais foi garantida. Quando interesses divergiam, alianças e promessas pouco valiam. 


    A porta do quarto principal abriu vagarosamente. Hiromi entrou com os cabelos soltos e despenteados. A sonolência reduzia as linhas do rosto ao que eram por baixo da disciplina e treinamento: uma adolescente que acordou sem noção do por quê e procurava instintivamente a orientação de quem a criava. — Mãe? — chamou, cansada. — O que tá acontecendo?

    — Fique ao meu lado — ordenou Naomi, dispensando qualquer coisa adicional.

    Hiromi foi à varanda sem mais perguntas.

    Novamente, a mãe e a filha ficaram juntas no mesmo espaço, olhando para a floresta noturna sendo preenchida pela névoa branca.

    A jovem coçou os olhos, piscou duas vezes, e focou no cenário. — Isso não é normal. Deveria ser impossível alguém chegar até aqui.

    — Deveria — repetiu a mãe, disfarçando a dor de uma conclusão indesejada.


    O frio anormal alcançava o interior das instalações. Masaru atravessou os corredores do quartel com rapidez, e antes que chegasse ao centro do complexo, ecoou sua voz pelos pátios. — Alerta total! Oficiais em seus postos! Ativem o protocolo de defesa! 

    Sentinelas abandonaram torres de observação e reforçaram posições prioritárias, capitães deixaram suas salas e guiaram seus subordinados, sargentos surgiram de dormitórios, e em poucos instantes, o alerta espalhou-se por todo o quartel.

    A disciplina cultivada por Naomi agiu sem demora, nenhum soldado correu em desordem, desperdiçou perguntas ou exigiu explicações. Os comandantes reuniram seus grupos, distribuíram funções e conduziram homens para os setores previamente definidos em cenários de invasão. 

    Centenas de militares encontravam-se posicionados, armados e atentos à linha de árvores tomada pela névoa branca.

    A quietude seguinte era inquietante. Nenhum ataque ocorria, nenhum inimigo claro surgia. Apenas o frio avançava lentamente entre os asahianos.

    Da varanda do edifício principal, Naomi observava a névoa enquanto Masaru aparecia novamente no pátio abaixo.

    Todos os destacamentos estavam prontos… esperando…

    Então, uma luz chegou sem aviso.

    Da névoa, um enorme pilar amarelo claro irrompeu do céu como uma coluna infinita que reverberava sons agudos e graves ao mesmo tempo.

    Bruscamente, todos os militares espalhados pelo perímetro do quartel foram cegados. Vozes de alerta, posições desalinhadas, armas abaixadas, o caos destruiu grande parte das formações. Ninguém foi treinado para que encarasse aquela intensidade sem custo.

    O ardor era profundo, vistas foram substituídas por um branco que não cedia ao mero fechar das pálpebras.

    Entretanto, Naomi encarava a luz diretamente.

    Hiromi, ao lado, apertou os olhos com uma careta. — O que é aquilo?

    Naomi pegou a mão da filha. — Vamos, rápido — sua urgência obrigava a obediência de Hiromi, que deixou-se ser conduzida rumo à porta de saída localizada no outro lado do quarto em relação a varanda.

    A maçaneta estava fria demais para a temperatura daquela noite. Naomi percebeu no instante em que a tocou, e manteve a mão imóvel sobre o metal, confundindo a filha com sua pausa repentina. Aquele frio denotava uma mensagem clara: sair por aquela porta seria inútil.

    O som de uma ventania passou pela varanda, veloz, direcionado, diferente do vento costeiro que conheciam.

    Hiromi virou-se devagar e presenciou um ser indefinido dito por sua mente como “entidade”, uma figura totalmente envolta na névoa branca e escura que balançava lentamente, como um manto vivo que respirava por quem o carregava. Era imensa, alta o suficiente para que a suposta cabeça ficasse próxima às vigas superiores da varanda. Não se via o contorno de um corpo completo, porém ombros e troncos largos destacavam a forma geral inteiramente substituída por gases que se espalhavam.

    Misteriosamente, aquela nova presença atravessara todas as defesas do quartel em menos de minuto, e nem havia mostrado o rosto…

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