Capítulo 97 - A Marechala das Chamas
[ 1911 – A Ascensão ao Posto de Marechala ]
O título de Marechala de Campo chegou por um caso pragmático: Asahi precisava de alguém capaz de defender o litoral norte contra incursões de facções dissidentes de Medved, que após a guerra perdida, proliferavam em grupos irregulares com ambições próprias.
O exército regular asahiano tinha quantidade mas pecava em qualidade, faltavam shihais de alto nível liderados por alguém que entendesse de combate áurico e tivesse carisma suficiente para manter coesão em campo. Os poucos shihais de grau S ocupavam postos maiores, e os de graus menores não agradavam exatamente o objetivo do governo.
O Conselho ofereceu o posto com condições supostamente recusáveis pela áurica ígnea mais forte daquela atualidade: presença obrigatória em reuniões classificadas, responsabilidade direta por operações no norte de Seorim, e subordinação formal ao Comandante Supremo, o Imperador.
Tudo somado aos afazeres como matriarca seria altamente inviável na teoria e na prática, mas surpreendentemente, Naomi aceitou. Claro, com contrapropostas ultrajantes ao Conselho: veto sobre qualquer operação que causasse danos a civis estrangeiros, e acesso irrestrito de Masaru aos relatórios de inteligência militares.
O impasse durou três semanas. No fim, o Conselho cedeu o suficiente para que ambos os lados afirmassem que negociaram bem.
Naomi tornou-se Marechala…
Em campo, era diferente de qualquer outra figura de alto posto. Naomi não comandava em uma distância segura: ficava na linha de frente, e sua presença transformava a dinâmica das batalhas. Adversários que esperavam um general convencional deparavam-se com a chama inapagável guiada pela misericórdia.
Naomi nunca despendia força maior do que o necessário, nunca perseguia adversários em retirada, nunca permitia que o combate substituísse o julgamento sobre quando parar. Ela era a disciplina aplicada à guerra, sempre atenta e agindo apenas quando justificado.
Os soldados dos regimentos Miyazaki que combateram sob seu comando desenvolveram uma lealdade que superava a simples relação entre subordinados e superior. Além da reverência pela patente, enxergava-se uma absoluta confiança.
Porém, o vínculo despertava inquietações entre certos governantes. Aos olhos deles, aquela devoção inabalável e o imenso poder militar não representavam um símbolo de união, mas uma possível ameaça à hegemonia tirânica que tanto preservavam.
[ 1912 – As Investigações e os Perigos ]
Masaru acumulava evidências.
A rede que construiu dentro do aparato governamental era paciente, distribuída, e invisível para quem não sabia onde procurar: jornalistas que cobriam as campanhas coloniais em Seorim, funcionários que supervisionavam populações submetidas ao controle asahiano, médicos militares cujos relatórios de campo descreviam situações que não correspondiam às versões públicas, e professores que, dentro das academias seorinas forçadas ao currículo asahiano, enviavam correspondências através de intermediários.
As fontes eram confiáveis, porém, nada expunha melhor os feitos do governo asahiano do que as reuniões internas.
Quando o Conselho de Guerra aprovou o que chamou secretamente de “Protocolo de Vinte e Uma Propostas” — conjunto de exigências que no fim transformariam setores econômicos estratégicos meilianos em domínio asahiano — Naomi foi a única voz de oposição explícita na reunião classificada. Os membros do Conselho a encararam com impaciência.
Em meio aos debates, General Jin Ichikawa explicou o que via como óbvio: — Marechala, sei que é muito jovem, mas já deveria entender que os interesses estratégicos de nações soberanas sempre exigem ações em prol do próprio povo… nem que isso custe a vida de cem soldados decididos a servirem sua terra.
— Egoísta — retrucou, enojada — Asahi seria melhor servida por alianças que não criam ódio intergeracional em populações que buscam reavanço.
Naomi registrou uma objeção formal, mas sua contraproposta foi arquivada…
Nas semanas seguintes, dois oficiais de inteligência interrogaram Masaru sobre “a lealdade dos Miyazaki ao projeto nacional”. Embora a substância de ameaça das perguntas, nada abalava o sarcasmo frio do cientista.
Setores que confundiam questionamento com inimizade viam os líderes Miyazaki como traidores. Eles nunca foram maioria, mas cresciam em influência à medida que o projeto expansionista avançava e precisava de menos questionadores e mais executores.
O casal reconheceu os limites de investigação sem que se tornasse alvo direto. Era uma geometria delicada e desenhada com cuidado: avanços arriscados para que fizessem a diferença, e recuos cautelosos para o avanço seguinte.
Conquanto, os segredos e desejos do sistema continuavam imprescindíveis.
O futuro seguro da matriarca Miyazaki e sua família seguia incerto…
[ 1913 – O Fim de Ci’xi ]
A Imperatriz Viúva Ci’xi faleceu aos setenta e três anos.
Através de canais diplomáticos, assim como chegavam todas as atualizações de Meilí: filtrada, formatada, e despida de qualquer emoção que complicasse sua interpretação oficial, a notícia chegou com incríveis cinco anos de atraso.
Naomi leu o folheto velho sozinha, sentada à mesa onde Masaru costumava espalhar seus registros de investigação. Os cabelos estavam soltos naquela tarde, hora da leitura particular, sem protocolo.
Ela releu o parágrafo sobre Guang’xu, seu primo de sangue que também faleceu. Embora a informação de saúde deteriorada, as circunstâncias reais da morte eram vagas.
E Ci’xi, um dia depois, morreu na sequência.
“Ela envenenou Guang’xu para garantir que ele não sobrevivesse,” pensou Naomi, com a certeza era a de quem conhecia aquela mulher desde criança e sabia como funcionava sua lógica. “Talvez ela soubesse que não viveria mais tempo devido a idade, mas era tão orgulhosa que tirou qualquer chance dele retornar ao poder e revelar em público todos os seus erros como imperatriz.”
Outra ideia era afiada demais para que fosse ignorada: a única pessoa que comprovaria a existência de Naomi como princesa imperial havia morrido. A real origem de Huo’ying tornou-se um segredo individual, e no máximo, um boato.
Naomi pousou o relatório.
Não existia luto. Ci’xi havia tomado as escolhas que havia tomado, e a filha que ela criara para ser arma seguiu um caminho que nenhuma dessas escolhas tinha planejado. Contudo, residia no rosto da Matriarca uma tristeza abstrata. No fim, ela se viu como uma mulher que se consagrou matriarca, sem na verdade, ter tido uma mãe.
Mas sob a tristeza, o alívio de que, após anos de repressão e crueldade, finalmente existiria paz no palácio ZhuRong, mesmo que ela pouco durasse.
Com a morte de Ci’xi e as turbulências da sucessão que se seguiram, os afazeres do palácio imperial meiliano foram dominados pelo presente, não com o passado de uma princesa oculta declarada morta em combate há anos.
A desconhecida Huo’ying, futuramente renascida como a famigerada Naomi Miyazaki, seguia praticamente inexistente nas memórias do povo meiliano.
[ 1914 – Hiromi ]
Aos dez anos, Hiromi Miyazaki cresceu na intersecção de dois mundos.
De Naomi, herdou os olhos verdes, parte das mechas escarlates que surgiam gradualmente na parte interior dos cabelos negros, e uma observação do comportamento alheio silenciosa demais para a idade. A menina sentava em cantos de reuniões que crianças não deveriam frequentar e ficava absolutamente quieta, ciente que o silêncio informava mais do que qualquer pergunta.
De Masaru, herdou o senso analítico e o hábito de categorizar, fazendo perguntas que pressupunham respostas complexas, e demonstrando desde muito cedo que a intolerância para explicações imprecisas era constitutiva, não subjetiva.
Naomi treinava-a desde os cinco anos.
A técnica marcial viria depois, os focos iniciais estavam na postura, na respiração, na consciência do próprio peso sobre o chão, e no que tudo aquilo significava para o movimento seguinte. As formas animais foram introduzidas gradualmente, como histórias que o corpo contava no lugar das palavras.
Músicas tocadas por erhus e flautas também auxiliavam trazendo sentimentos indescritíveis à Hiromi, sons que guiavam gestos e aceleravam a compreensão da pequena sem que ela sequer entendesse o segredo por trás das melodias…
Num final de tarde em que Naomi demonstrava as formas animais no jardim da mansão familiar, Hiromi repetiu o movimento após observá-lo uma única vez.
Naomi interrompeu a sequência. Por um breve instante, o mesmo orgulho que um dia seus mestres meilianos sentiram dominou o sentimento da mãe.
O corpo da menina compreendia padrões com uma facilidade rara. O potencial era claro. Mas havia uma sombra.
As chamas eram pequenas e discretas, como se fossem tímidas.
Naomi vira crianças asahianas de mesma idade produzindo fagulhas instáveis e desordenadas apenas pela excitação de um treino. Porém em Hiromi, o fogo parecia recolhido, como uma brasa enterrada sob camadas de cinzas, detalhe distinto dos jovens meilianos nascidos no calor do fogo.
A própria incerteza preocupava a mãe. Era difícil dizer se aquela escassez escondia uma fraqueza ou algo não desperto.
Enquanto a filha reproduzia os movimentos com perfeição crescente, Naomi permanecia calada, observando aquela chama insuficiente que mal iluminava o próprio núcleo.
Se quisesse alcançar alturas semelhantes às que a mãe atingira, Hiromi precisaria percorrer um caminho muito mais longo comparado ao de qualquer criança meiliana comum, e talvez no fim dele, descobrir por que o fogo que deveria arder em abundância insistia em permanecer distante.
[ 1918 – O Quartel Naomi ]
O governo asahiano fez uma oferta que, em superfície, era reconhecimento, mas na realidade, não passava de uma solução para problemas geopolíticos:
A costa norte de Asahi, coberta por uma floresta densa que descia até o mar em falésias de pedra escura, era vulnerável a incursões pelo flanco. O exército regular cobria a área com ineficiência.
A solução proposta foi uma base permanente administrada pelos Miyazaki, com furtividade, proteção e visibilidade aos militares convocados…
O Quartel Naomi foi construído em seis meses.
A estrutura era sólida e monumental. Salões de treinamento, refeitório, salas de reuniões, laboratórios para Masaru, aposento principal no andar superior da ala central, e uma varanda que dava à linha de árvores e, além delas, ao mar.
Com quatorze anos, Hiromi adaptou-se rapidamente ao lugar. Os treinos matinais fortaleciam seu corpo; e as longas tardes de estudo com Masaru moldavam sua mente. História, ciência áurica, política internacional, cada lição expandia seus horizontes.
Muitos oficiais questionaram a permanência da jovem naquele quartel. Para eles, a escolha correta seria uma instituição especializada em métodos tradicionais de formação áurica.
Naomi jamais considerou a alternativa aceitável.
Ela conhecia aquelas instituições melhor do que seus defensores, conhecia os discursos patrióticos que mascaravam sacrifícios prematuros, e sabia da maneira pela qual jovens áuricos passavam a enxergar a própria força somente como instrumento de guerra.
Então, apesar dos riscos inerentes à vida militar, o quartel mantinha-se como o ambiente que Naomi considerava mais seguro para a formação de Hiromi, aliás, havia pouca margem para escolhas diferentes. O posto de Marechala não era uma honra simbólica, mas uma necessidade estratégica para Asahi. A costa norte seguia vulnerável, incursões marítimas surgiam periodicamente, e o governo jamais permitiria que a responsável pela defesa daquela região se afastasse das posições que jurara proteger.
Entre manter Hiromi próxima ou entregá-la aos cuidados de terceiros, a decisão sempre pareceu óbvia…

A partir dali, uma vida construída com cautela foi criada, e exatamente por isso, era frágil nos pontos onde o cuidado não alcançava.
Durante gerações, os regimentos Miyazaki serviram como ponta de lança das campanhas militares asahianas. Fortalezas caíram sob suas chamas, cidades renderam-se diante de sua reputação, territórios passaram ao controle de Asahi após operações conduzidas ou apoiadas pelos sucessivos líderes da família ígnea.
Mas Naomi interrompeu o ciclo e produziu resultados contraditórios.
Diferente dos admiradores ou opositores declarados, os governantes pragmáticos pouco se importavam com a mudança. Enquanto a meiliana servisse aos interesses nacionais, receberia o espaço necessário, caso contrário, seria cassada.
Tal realidade colocava Naomi sobre uma linha estreita, parte de seus objetivos dependia justamente da imagem construída ao longo dos anos. Quanto maior fosse sua credibilidade diante da população, maior seria sua capacidade de frear projetos que julgava cruéis.
Mesmo assim, certas noites traziam dúvidas. O sonho que carregava desde a juventude permanecia absurdamente distante:
Acabar com as guerras…
A própria formulação parecia ridícula quando observada com racionalidade, e Naomi compreendia demais a natureza humana para crer que um só indivíduo alteraria o curso da história mundial.
Masaru costumava lembrar que a virtude não dependia da vitória, bastava a tentativa. O pensamento nunca eliminou as dúvidas da esposa, mas tornou o peso da dificuldade suportável, pois quando recordava sobre os corredores do palácio, as disputas internas da corte imperial meiliana e os incontáveis rostos consumidos pela ambição alheia, ela encontrava a origem de suas convicções.
O poder nunca foi poder: o verdadeiro desafio sempre esteve no propósito atribuído a ele.
A mesma lógica repetia-se em diferentes bandeiras e continentes. Governos transformavam pessoas em armas, povos em recursos, vidas em estatísticas… Naomi nascera no miolo dessas operações, e o ente dançarino, tanto quanto Guang’xu, ensinou-a desde criança sobre a importância de combatê-las.
O propósito da chama eterna estava na proteção e união, e para que alcançasse proporções reais, o mandato sobre uma única família não bastaria. O objetivo ultrapassava os limites da governança familiar e almejava a estrutura militar de Asahi, motivo no qual apesar dos riscos, responsabilidades, e inevitáveis concessões políticas, o posto de marechala foi aceito visando um plano a longo prazo.
Cada vida salva, cada conflito evitado, e cada valor transmitido aos que viriam depois, representariam vitórias legítimas. Se a paz não fosse alcançada naquela geração, sementes seriam deixadas para que outras continuassem o caminho, nem que o processo durasse séculos…

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