Capítulo 22 - Que Porra é Essa?
O Arquivista-Chefe Silas não tolerava a luz do sol. As pesadas cortinas de veludo negro da ala restrita da Torre bloqueavam qualquer resquício da manhã de Lancrey, permitindo apenas o brilho vacilante de dezenas de candelabros de prata. O velho possuía a pele fina e translúcida como um pergaminho antigo, marcada por manchas senis e rugas profundas esculpidas por décadas de segredos engolidos. Os dedos compridos e esqueléticos acariciavam a borda de um mapa milenar, enquanto os olhos leitosos, espremidos por trás de lentes grossas, devoravam o relatório oficial da expedição de Gravios.
Um pigarro tímido e arrastado quebrou o silêncio fúnebre do salão circular.
Silas não ergueu o rosto de imediato. Aguardou dois segundos inteiros, impondo a autoridade silenciosa do cargo, antes de virar o pescoço duro.
Diante da mesa de carvalho, aguardava Elian. O arquivista novato não passava de um garoto de dezenove anos, mas a postura encurvada e os ombros tensos conferiam-lhe o aspecto de um homem esmagado pelo peso da própria erudição. Elian ostentava cabelos castanhos desgrenhados e olhos ávidos e irrequietos, de um verde pálido que nunca parava no mesmo ponto por mais de um segundo. As pontas de seus dedos indicadores e polegares exibiam calos escuros, cronicamente manchados pela tinta nanquim dos tinteiros do andar inferior. A genialidade do garoto rivalizava apenas com a própria paranoia.
— Mestre Silas — sussurrou Elian, apertando um dossiê de couro contra o peito estreito. — Perdoe a intrusão. Trouxe as cruzas de informações que o senhor pediu sobre os danos estruturais da Cratera de Ashfall.
— O Rei exige o arquivamento definitivo da anomalia ainda hoje, menino. O conselho aceitou o relatório do General sobre a mutação térmica da carapaça do monstro. — A voz de Silas soou seca, como folhas mortas arrastadas no assoalho. — Espero que as suas contas fechem a matemática oficial.
Elian engoliu em seco. O pomo de adão do novato subiu e desceu rapidamente. Ele depositou o dossiê sobre a mesa e espalhou três folhas desenhadas com cálculos estruturais e esboços de engenharia.
— Elas não fecham, mestre. A matemática de Gravios é uma farsa — cravou o jovem, a voz tremendo pela heresia proferida contra a Lenda de Lancrey, mas sustentada pela convicção implacável da lógica.
Silas estreitou os olhos por trás das lentes. O ambiente pareceu congelar.
— Cuidado com a língua, Elian. A forca do pátio real não poupa escribas insolentes.
— Observe as plantas baixas da abóbada, Mestre Silas! — O garoto inclinou-se sobre a mesa, o medo substituído pelo frenesi da descoberta, o dedo sujo de tinta apontando para os rabiscos. — O relatório de Gravios afirma que a besta engoliu a fogueira dos Honrosos e vomitou o fogo para derreter a couraça de Torin, agindo por instinto de sobrevivência selvagem. Mas a área de derretimento na rocha vulcânica não condiz com um sopro de dispersão cônica natural.
Elian puxou outro pergaminho, exibindo um padrão de impacto direto.
— O calor não se espalhou como a baforada de um dragão acéfalo, mestre. Ele foi focado. Canalizado. A criatura não cuspiu o fogo em desespero; ela mirou cirurgicamente no escudo do soldado mais pesado para quebrar a formação do Esquadrão Martelo. E tem mais. — O novato reduziu a voz a um fio quase inaudível, olhando para as sombras do salão. — Liriel solicitou acesso aos pergaminhos de Markyu na madrugada passada. A pesquisadora cruzou a biologia dos Xemios com os contos proibidos da absorção de almas.
Silas recostou-se na cadeira de espaldar alto. As engrenagens da mente velha giraram violentamente. O Arquivista-Chefe uniu as pontas do próprio conhecimento oculto.
— A garota deduziu a verdade… — sussurrou o velho, a expressão beirando o pânico absoluto. — Gravios mentiu para o conselho dos Lordes. A besta não sofreu uma mutação apenas biológica. O Alfa assimilou a consciência corrompida através das cinzas humanas. O monstro possui intelecto. Ele pensa. Ele planeja.
Elian assentiu freneticamente, as mãos magras agarrando as bordas da mesa de carvalho.
— Exatamente! O General ocultou o intelecto da besta para evitar que a muralha inteira entrasse em pânico e desertasse — concluiu o garoto. — Gravios sabe que estamos marchando contra uma mente ancestral, não contra um cão raivoso. E o mais aterrorizante, mestre… se o Alfa aprende roubando memórias da nossa espécie, ele conhece exatamente o funcionamento de Lancrey. Conhece nossas táticas, a força do nosso aço e a falha das nossas armaduras.
Silas fechou os olhos. O peso da mentira militar esmagou a segurança ilusória da Torre. O inimigo não aguardava no escuro; o inimigo estudava a humanidade.
— Tranque esses papéis no cofre de chumbo, Elian. Queime os rascunhos. Se Baelon ou o Rei Aldric descobrirem o que o Exímio realmente é, o caos destruirá Lancrey muito antes da besta alcançar os portões. O segredo de Gravios é a única cola segurando a sanidade deste mundo.
Longe dos pergaminhos empoeirados, o oxigênio escasseava de forma brutal.
A rampa colossal escavada na rocha pelas garras do Alfa subia em um ângulo perigoso, mergulhando nas entranhas superiores da Cratera de Ashfall. O esquadrão Gravios marchava há horas na escuridão confinada do túnel inatural. O chão de terra remexida cedia a cada passo, transformando a subida num verdadeiro inferno físico.
O silêncio do Fronte cobrava um preço alto da mente, mas a gravidade destruía o corpo.
— Quatro horas… — ofegou Caelan, as botas deslizando milímetros na poeira solta antes de encontrarem apoio. O suor empapava os cabelos do garoto, escorrendo pelos olhos e ardendo. — Estamos subindo essa garganta de pedra há quatro malditas horas.
O recruta ajustou a postura. A Armadura de Escamas de Zecreo provava sua leveza, mas a monstruosa Espada de Ruptura puxava os ombros de Caelan para trás, forçando as pernas a trabalharem em dobro para manter o equilíbrio no declive.
Três passos acima dele, Mirel fincou as pontas dos dedos e a lateral da bota numa saliência cravada pelo monstro. A batedora respirava de boca aberta, os pulmões lutando para extrair ar limpo da atmosfera viciada e espessa. O brilho da Malha de Prata Lunar encontrava-se embaçado pela fuligem.
— O desgraçado moveu milhares de toneladas de rocha sólida para cima num ritmo quase impossível — comentou a garota, a voz entrecortada, impulsionando o corpo magro rampa acima. — O Alfa não cavou apenas um túnel de fuga. Ele construiu uma via expressa.
Vorn ocupava a vanguarda logo atrás do líder. A respiração do gigante soava como um fole de forja rústico. A Armadura de Obsidiana e o pesado Escudo transformavam o veterano numa âncora viva. Contudo, o colosso não demonstrava sinais de ceder à exaustão. Os músculos taurinos sob a cota de malha rústica contraíam-se num ritmo mecânico e assustador.
— Guardem o fôlego — repreendeu Vorn, a voz soando como pedras colidindo no fundo de um poço seco. — Reclamar da inclinação gasta o ar que vocês precisarão para brandir o aço quando a escuridão morder de volta.
Gravios mantinha um ritmo impiedoso na liderança. Os passos do General não vacilavam. A Lenda iluminava o caminho íngreme com a radiação arroxeada contida nas Manoplas do Crepúsculo Inerte. As placas da armadura mista retinham o suor interno, mas o veterano ignorava o desconforto, a mente completamente focada no topo do túnel.
— Mais quinze metros! — anunciou Gravios, a voz ecoando pelas paredes rasgadas. — Sinto a corrente de ar cruzar o túnel. A rampa termina ali.
No flanco direito, Trok escalou os últimos metros com a agilidade de uma aranha peçonhenta. O batedor usou a base da besta de repetição como apoio, impulsionou o corpo esguio sobre a borda afiada da rocha e rolou para terreno plano.
O atirador levantou-se rapidamente, assumindo a postura de mira imediata.
Aos poucos, o restante do esquadrão venceu o último obstáculo do túnel macabro. Caelan apoiou as duas mãos nos joelhos assim que os pés alcançaram o piso nivelado, arfando desesperadamente. Mirel caiu sentada numa pedra próxima, fechando os olhos e agradecendo mentalmente à forja de Regiz por manter a temperatura do próprio corpo controlada.
Vorn e Gravios ergueram as defesas e esquadrinharam a nova área.
A claustrofobia do túnel abriu espaço para uma imensidão gélida e melancólica. O esquadrão não encontrava-se mais no subsolo confinado. Eles emergiram na borda extrema da Cratera de Ashfall. O precipício escancarava as ruínas da cidade soterrada muitos quilômetros abaixo e quilômetros para trás. Eles atravessaram a vastidão do abismo por baixo e subiram no paredão oposto.
E, mais uma vez, o silêncio absoluto governava o território. Nenhuma emboscada das sombras. Nenhum urro de vitória do Alfa. O monstro simplesmente traçou a rota e a abandonou.
— Cruzamos a cratera inteira… — murmurou Caelan, erguendo o tronco e varrendo a planície desolada além do paredão. — O coração do domínio dele. E não cruzamos com um único dente.
— Facilidade no Fronte é apenas o prelúdio do matadouro — cravou Vorn, abaixando o Escudo de Obsidiana levemente.
Longe do grupo, Trok caminhou alguns metros à frente. O atirador abandonou a beirada do abismo e adentrou uma pequena floresta de árvores petrificadas, cujos troncos cinzentos erguiam-se como lanças encravadas no solo morto.
A bota do batedor pisou em algo úmido. Um leve som de chapinhar rompeu a quietude.
Trok congelou. O atirador abaixou a besta lentamente, os olhos semicerrados focados no centro de uma clareira estreita e escondida pelas pedras. A raiz amarga caiu de seus lábios entreabertos. O guerreiro mais frio de Lancrey sentiu um embrulho violento revirar o estômago.
O batedor ergueu a mão esquerda e fez o sinal tático de alerta máximo. A urgência no gesto atraiu a atenção de Gravios de forma fulminante.
O General correu na direção do subordinado, seguido de perto por Caelan, Mirel e Vorn. O esquadrão formou um círculo protetor ao redor do atirador, as armas em punho, preparados para o combate.
Contudo, Trok não apontava a arma para um inimigo escondido nas sombras. O batedor apontava o cano da besta para o chão.
— Cacete… — o sussurro escapou dos lábios de Mirel. A garota levou a mão livre à boca, os olhos arregalados em puro choque.
No centro da clareira, o pesadelo revelou uma nova faceta.
Não havia um monstro furioso aguardando a batalha. Havia apenas uma carcaça. Mas a cena não lembrava o resto mortal de uma caçada predatória, onde feras rasgavam carne pelo mero instinto de alimentação. A cena ostentava a precisão macabra de um laboratório.
A criatura morta era um Crymio. Um Xemio Menor, temido pelas glândulas de veneno paralisante alojadas no pescoço e pelas escamas finas incrivelmente resistentes. O monstrinho repousava de costas sobre uma laje lisa de pedra vulcânica, usada como maca.
O Crymio encontrava-se aberto. Literalmente dissecado.
Um único corte perfeitamente longitudinal e reto descia do pescoço até a base do abdômen da criatura. Não havia bordas mastigadas ou rasgadas à força. A espessura do corte indicava a utilização de uma garra afiadíssima guiada por um pulso firme e metódico. A pele pálida e escamosa do monstro estava rebatida para os lados e esticada, presa nas pontas por afiados espinhos de osso cravados na rocha, mantendo a cavidade torácica da aberração brutalmente exposta.
O horror habitava os detalhes.
Nenhum predador havia devorado aquela carne. Os órgãos internos do Crymio repousavam do lado de fora da carcaça, organizados de forma aterradora. O pequeno coração negro pulsante encontrava-se separado do fígado corrompido. As letais glândulas de veneno do pescoço haviam sido extraídas intactas e alinhadas ao lado da cabeça morta da criatura, sem derramar uma única gota da toxina. O sangue escuro do Xemio não manchava a pedra de forma caótica; ele escorrera através de canaletas rasas e milimétricas escavadas na rocha, desenhando padrões estritamente simétricos ao redor da mesa de dissecação improvisada.
Caelan recuou um passo instintivo, o estômago embrulhando com o cheiro ferroso e ácido impregnando a clareira. A repulsa misturou-se à constatação aterrorizante.
— Isso não é uma carcaça de caça — concluiu o garoto, a voz embargada, os nós dos dedos brancos de tanto apertar o cabo da pesada Espada de Ruptura. — Isso é uma autópsia.
Vorn trincou a mandíbula, o rosto coberto de cicatrizes endurecendo como as placas de obsidiana protetoras de sua armadura. O gigante balançou a cabeça em uma negação seca.
— O Alfa possui foices de osso do tamanho de carroças — rosnou o veterano, a mente processando o abismo tático em que acabavam de afundar. — Uma pata daquela magnitude jamais conseguiria realizar um corte tão fino e extrair glândulas sem estourá-las. A besta violeta não fez isso. A fera esmaga. Isso… isso exige ferramentas. Exige bisturis. Exige mãos.
O silêncio engoliu a clareira.
Gravios encarou o cadáver do Crymio cirurgicamente aberto. A postura inabalável do General, forjada em décadas de carnificina e vitórias improváveis, vacilou visivelmente. O aperto das Manoplas do Crepúsculo Inerte afrouxou. A cicatriz diagonal no rosto do comandante empalideceu sob a pouca luz do ambiente. O terror puro, um sentimento há muito enterrado sob a farda militar, subiu pela espinha da Lenda de Lancrey como um calafrio mortal.
O veterano arregalou os olhos azuis, os lábios ligeiramente entreabertos refletindo o pânico brutal de uma constatação absoluta.
O túnel maciço escavado nas paredes da Cratera de Ashfall não representava a expansão territorial de um predador confiante. Representava a rota de fuga desesperada de uma besta apavorada. O monstro colossal não reinava sobre o próprio domínio; ele abandonara a superfície para buscar refúgio nas sombras. O esquadrão humano não perseguia o topo da cadeia alimentar.

Regras dos Comentários:
Para receber notificações por e-mail quando seu comentário for respondido, ative o sininho ao lado do botão de Publicar Comentário.