Índice de Capítulo

    O vento da tarde soprava lentamente pelas ruas de Tokyo.

    Apesar do movimento comum da cidade, havia algo diferente no ar.

    Era como se o próprio tempo estivesse aguardando alguma coisa.

    Depois da conversa com Akira, Yoru, Ben e Hudson seguiram em silêncio por boa parte do caminho. Nenhum dos três dizia uma palavra.

    As informações recebidas eram pesadas demais.

    Charles.

    O Rei de Tokyo.

    O conceito de Domínio.

    Uma técnica única.

    Tudo aquilo parecia distante… mas, ao mesmo tempo, assustadoramente próximo.

    Ao se despedirem em um cruzamento, Ben apenas levantou a mão.

    — Não morram antes da gente se encontrar de novo.

    Hudson sorriu de lado.

    — Você fala como se fosse fácil.

    Yoru apenas respondeu:

    — Da próxima vez… vamos estar mais fortes.

    Os três seguiram caminhos diferentes.

    Pela primeira vez, cada um carregava um objetivo muito claro.

    Não bastava sobreviver.

    Precisavam evoluir.

    Casa de Yoru.

    A televisão estava ligada, mas nenhum dos dois realmente prestava atenção.

    Hina permanecia encostada no ombro de Yoru enquanto um filme qualquer passava.

    Depois de alguns minutos de silêncio, Yoru respirou fundo.

    — Acho que estou mais perto do que nunca.

    Hina virou o rosto.

    — Do quê?

    — De descobrir quem realmente foi minha mãe…

    A garota permaneceu calada.

    Yoru olhava fixamente para a televisão, mas seus pensamentos estavam longe dali.

    — Sempre senti que existia alguma coisa escondida… como se todo mundo soubesse de algo, menos eu.

    Sua voz ficou mais baixa.

    — Agora tenho certeza.

    Hina segurou sua mão.

    — Isso é bom…

    Ela sorriu, mas seus olhos demonstravam preocupação.

    — Significa que você finalmente está encontrando respostas.

    Yoru sorriu discretamente.

    — É…

    Depois de alguns segundos, Hina abaixou a cabeça.

    — Mas também significa que você está entrando cada vez mais em um lugar sem saída.

    O sorriso de Yoru desapareceu.

    Ela apertou sua mão com força.

    — Eu tenho medo.

    Yoru olhou para ela.

    — Medo de quê?

    Os olhos da garota começaram a ficar úmidos.

    — De você descobrir toda a verdade… e ela levar você embora de mim.

    O silêncio tomou conta da sala.

    Yoru aproximou a testa da dela.

    — Eu prometi que voltaria para casa.

    — E vou cumprir.

    Hina fechou os olhos.

    Por mais que acreditasse nele…

    Seu coração dizia que aquela promessa seria colocada à prova muito em breve.

    Casa de Ben.

    Sophie preparava café enquanto Ben permanecia sentado olhando para o teto.

    Ela percebeu imediatamente.

    — Você está pensando na conversa de hoje…

    Ben deu um pequeno sorriso.

    — Tá tão na cara assim?

    Ela colocou duas xícaras sobre a mesa.

    — Você sempre fica desse jeito quando alguma coisa mexe com você.

    Ben segurou a xícara.

    — Charles não é um inimigo que o Yoru consegue enfrentar sozinho.

    Sophie assentiu.

    — Eu sei.

    Ben fechou lentamente a mão.

    — Então eu preciso ficar forte.

    — Forte o suficiente para lutar ao lado dele.

    Sophie permaneceu alguns segundos em silêncio.

    Depois respondeu com sinceridade.

    — Eu também estou treinando.

    Ben olhou para ela.

    — Sério?

    Ela confirmou.

    — Quero proteger vocês…

    Sua voz começou a falhar.

    — Mas…

    Ela desviou o olhar.

    — Tenho medo de que isso acabe comigo.

    Ben ficou imóvel.

    Ela sorriu de maneira triste.

    — Não sei se sou capaz de acompanhar vocês.

    Ben levantou-se e colocou delicadamente a mão sobre sua cabeça.

    — Você não precisa acompanhar ninguém.

    Ela o encarou.

    — Só continua sendo você.

    — Já é mais do que suficiente.

    As lágrimas que insistiam em aparecer desapareceram junto com um sorriso tímido.

    Apartamento de Lee.

    Mia observava a chuva começar pela janela.

    Lee permanecia sentado no chão, limpando cuidadosamente suas armas de treino.

    Nenhum dos dois falava.

    Depois de um longo silêncio…

    Mia perguntou:

    — Você acha que vamos perder alguém?

    Lee parou por alguns segundos.

    Respirou fundo.

    — Acho.

    Ela fechou os olhos.

    — Eu também.

    Nenhum dos dois tentou fingir que tudo ficaria bem.

    Porque sabiam…

    Que aquela guerra não terminaria sem sacrifícios.

    Academia de Hiroshi.

    O som dos golpes ecoava por todo o salão.

    Hiroshi golpeava um enorme saco de treino repetidamente.

    Cada soco fazia correntes metálicas vibrarem.

    Seu corpo inteiro estava coberto de suor.

    Nathan treinava velocidade.

    Seu corpo desaparecia e reaparecia entre obstáculos de madeira.

    Cada movimento era mais rápido que o anterior.

    Do outro lado…

    Kaito permanecia completamente imóvel.

    De olhos fechados.

    Respirando lentamente.

    Até que…

    Abriu os olhos.

    Em um único movimento.

    BOOM!!

    O poste de concreto à sua frente simplesmente rachou ao meio.

    Os três pararam por alguns segundos.

    Nathan sorriu.

    — Ainda não é suficiente.

    Hiroshi enxugou o suor.

    — Nem perto.

    Kaito fechou novamente os punhos.

    — Se quisermos enfrentar monstros…

    Precisamos deixar de ser humanos comuns.

    Os três voltaram imediatamente ao treinamento.

    Sem descanso.

    Sem reclamações.

    Okinawa.

    Em uma montanha cercada pelo mar.

    Hayato permanecia ajoelhado.

    Seu corpo inteiro tremia.

    Os braços estavam cobertos por hematomas.

    Seu rosto sangrava.

    Mesmo assim…

    Não caía.

    À sua frente…

    Aiko Yamamoto observava tudo com os braços cruzados.

    Seu olhar era frio.

    Ela era a criadora do lendário Thunder Boxe, um estilo baseado em explosões de velocidade, impulsos curtos e precisão absoluta.

    Sem qualquer aviso…

    Ela desapareceu.

    Hayato arregalou os olhos.

    BANG!

    Um soco atingiu seu abdômen.

    Ele foi lançado vários metros.

    Antes mesmo de tocar o chão…

    Outro golpe.

    Depois outro.

    E outro.

    Parecia que dezenas de punhos o atingiam ao mesmo tempo.

    Hayato caiu de joelhos.

    Cuspiu sangue.

    Respirou com dificuldade.

    Aiko caminhou lentamente até ele.

    — Levante.

    Hayato tentou.

    As pernas falharam.

    Ela falou novamente.

    — Levante.

    Ele apoiou uma mão no chão.

    Seu corpo inteiro gritava para desistir.

    Mesmo assim…

    Ficou de pé.

    Aiko sorriu pela primeira vez.

    — Bom.

    — O seu corpo começou a entender.

    Hayato respirava com dificuldade.

    — Entender… o quê?

    Ela respondeu calmamente.

    — Que velocidade não nasce das pernas.

    Ela apontou para seu peito.

    — Nasce da decisão.

    Antes que o cérebro diga para atacar…

    Seu corpo já precisa estar em movimento.

    Hayato ficou em silêncio.

    Aiko continuou.

    — Enquanto pensar…

    Você será lento.

    Quando agir por instinto…

    Começará a aprender o Thunder Boxe.

    Ela virou de costas.

    — Amanhã…

    Começaremos de verdade.

    Hayato caiu sentado no chão.

    Se aquilo ainda nem era o verdadeiro treinamento…

    Ele nem conseguia imaginar o que estava por vir.

    Os dias passaram.

    Depois semanas.

    A cidade continuava funcionando normalmente.

    As pessoas iam ao trabalho.

    Crianças brincavam nas ruas.

    Lojas abriam.

    Trens circulavam.

    Mas…

    Nos bastidores…

    Algo estava mudando.

    Pequenos conflitos entre gangues aumentavam.

    Homens desconhecidos apareciam em diferentes regiões do Japão.

    Velhos nomes voltavam a ser mencionados em conversas sussurradas.

    E antigos lutadores desapareciam sem deixar rastros.

    Era como se peças invisíveis estivessem sendo posicionadas em um enorme tabuleiro.

    Enquanto isso…

    No último andar da sede da GHV.

    Charles observava novamente a cidade através da enorme janela.

    Um homem entrou na sala.

    — Senhor.

    — Todas as peças estão em posição.

    Charles sorriu discretamente.

    — Excelente.

    — Então podemos iniciar a próxima fase.

    O homem fez uma breve reverência.

    — E quanto aos jovens?

    Charles pegou seu copo de whisky.

    Girou lentamente o gelo.

    — Deixe-os crescer.

    O subordinado demonstrou surpresa.

    — Não vamos eliminá-los agora?

    Charles soltou uma leve risada.

    — Não.

    Seus olhos brilharam de forma sombria.

    — Um rei não teme filhotes.

    Ele levou o copo aos lábios.

    — Mas… quando eles finalmente acreditarem que têm força para me enfrentar…

    Vou destruir todas as esperanças deles diante dos próprios olhos.

    Lá fora…

    Um trovão cruzou o céu.

    A chuva começou a cair sobre Tokyo.

    Era como se o próprio mundo anunciasse que uma tempestade muito maior estava se aproximando.

    A guerra ainda não havia começado.

    Mas ninguém mais conseguiria impedir sua chegada.

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