Capítulo 273 – Um tanque de guerra
O vento soprava violentamente sobre a estrada que atravessava as montanhas. As nuvens cobriam completamente o céu, escondendo a lua, enquanto dezenas de faróis iluminavam a escuridão. O cheiro de gasolina misturava-se ao da terra úmida. O silêncio que existia poucos segundos antes havia desaparecido.
Agora…
Existia apenas tensão.
Yoru permanecia ajoelhado próximo ao penhasco, respirando com dificuldade. Seu peito doía a cada inspiração, e o gosto metálico do sangue ainda permanecia em sua boca. Wallace caminhou lentamente até ficar ao lado dele.
— Aguenta firme.
Yoru limpou o sangue do canto dos lábios.
— Ela… é muito mais forte do que imaginei…
Wallace não respondeu.
Ele também observava Yummi.
Parada no centro da estrada.
Com a maleta em uma das mãos.
Cercada por aproximadamente mil e quinhentos homens.
E…
Ela sorria.
Não era um sorriso de arrogância.
Nem de desprezo.
Era um sorriso de felicidade.
Como uma criança que finalmente recebera o presente que esperou durante anos.
Ela fechou os olhos por um breve instante.
Inspirou profundamente.
O vento balançou seus cabelos.
Então falou em voz baixa:
— Faz tanto tempo…
Abriu lentamente os olhos.
— Faz tanto tempo que ninguém me dá uma batalha de verdade…
Ela girou os ombros lentamente, como alguém que estava aquecendo antes de um treino.
Olhou para cada um dos soldados.
Depois para os veículos.
Carros blindados.
Motos.
Caminhonetes.
Escudos.
Armas de choque.
Tudo preparado para contê-la.
Yummi soltou uma pequena risada.
— Vocês realmente vieram preparados…
Um dos comandantes da linha de frente deu um passo à frente.
— Cercar!
Em poucos segundos, dezenas de soldados avançaram simultaneamente, fechando todas as rotas de fuga.
Outro comandante gritou:
— Não deem espaço para ela respirar!
A formação fechou completamente.
Yummi permaneceu imóvel.
Seu sorriso apenas aumentava.
“É isso…”
“É exatamente isso que eu queria.”
“Venham…”
“Mostrem que essa noite vale a pena.”
O primeiro soldado correu.
Logo atrás dele vieram outros.
Depois dezenas.
A estrada inteira pareceu se mover ao mesmo tempo.
Yummi deu apenas um passo para frente.
O primeiro homem tentou golpeá-la.
Ela desviou com um movimento mínimo da cabeça.
Segurou seu braço.
Girou o corpo.
E o lançou contra outros quatro soldados.
Os cinco caíram juntos, interrompendo o avanço daquela parte da formação.
Ela nem esperou.
Seu corpo desapareceu entre os homens.
Onde ela passava…
A formação simplesmente deixava de existir.
Soldados eram arremessados para longe.
Escudos escapavam das mãos.
Capacetes rolavam pelo asfalto.
Os homens tentavam reorganizar as linhas.
Mas ela mudava constantemente de direção.
Nunca permanecia parada.
Nunca repetia o mesmo movimento.
Era impossível prever seu próximo ataque.
— Não deixem abrir espaço!
Gritou outro comandante.
Quatro motocicletas aceleraram ao mesmo tempo.
Os pilotos tentaram fechá-la pelos lados.
Yummi olhou rapidamente para eles.
Sorriu.
Esperou até o último instante.
Saltou.
A primeira moto passou por baixo dela.
Ao aterrissar, apoiou um dos pés sobre o banco da segunda motocicleta.
Usou o próprio impulso para girar o corpo.
O piloto perdeu completamente o controle.
A moto deslizou contra outra que vinha logo atrás.
As duas tombaram.
As outras tentaram corrigir a direção.
Tarde demais.
O caos já havia tomado conta da estrada.
Enquanto isso…
Outros soldados avançavam.
Ela mergulhou novamente no meio deles.
Cada movimento parecia extremamente econômico.
Sem desperdício.
Sem hesitação.
Cada golpe tinha um único objetivo.
Abrir caminho para o próximo.
Ela não parecia lutar.
Parecia dançar.
“Muito lento…”
“Todos são lentos…”
“Mais…”
“Venham mais…”
Ela sentia o coração acelerar.
A respiração ficava mais pesada.
E, curiosamente…
Quanto maior era o número de inimigos…
Mais calma ela parecia ficar.
Era ali que se sentia viva.
Um caminhão blindado acelerou diretamente contra ela.
Os soldados abriram espaço.
— Agora!
O veículo ganhou velocidade.
Os pneus levantavam poeira.
Yummi permaneceu parada.
Observando.
Esperando.
Quando o caminhão ficou a poucos metros…
Ela avançou.
Seu punho encontrou a parte dianteira do veículo.
O impacto mudou completamente sua trajetória.
O caminhão perdeu estabilidade.
Girou sobre o próprio eixo.
Deslizou pela estrada.
Parou apenas ao atingir a proteção metálica próxima ao penhasco.
Os soldados próximos congelaram por um instante.
— Ela… desviou um caminhão…
— Não…
Respondeu outro homem, completamente pálido.
— Ela parou o caminhão.
Antes que conseguissem reorganizar a formação…
Ela já estava entre eles novamente.
Seu corpo desaparecia e reaparecia constantemente.
Cada grupo que tentava cercá-la era imediatamente rompido.
A estrada, antes organizada, agora parecia um campo de batalha completamente caótico.
Mesmo assim…
Yummi não demonstrava cansaço.
Pelo contrário.
Ela começou a rir.
Uma risada espontânea.
Livre.
— Isso!
Ela girou o corpo para escapar de outra investida.
— Continuem!
Outro grupo tentou avançar.
Ela sorriu ainda mais.
— Não parem!
“É isso…”
“Esse sentimento…”
“Fazia anos…”
“Anos…”
“Que eu não lutava desse jeito.”
Enquanto isso…
No centro de comando improvisado, instalado a vários quilômetros dali…
Monitores exibiam imagens captadas por drones.
Enzo permanecia de pé.
Vip e Enrico observavam em silêncio.
Nenhum deles dizia uma palavra.
Até que um operador retirou lentamente o fone do ouvido.
Seu rosto estava completamente pálido.
— Senhor…
Enzo virou-se imediatamente.
— Relatório.
O operador engoliu seco.
— Perdemos contato com a primeira linha.
Outro operador falou logo em seguida.
— Segunda linha também.
Mais uma voz surgiu.
— As equipes móveis não conseguem cercá-la.
Outro monitor mostrou imagens aéreas.
A formação estava completamente destruída.
Os soldados tentavam reorganizar posições.
Mas Yummi continuava atravessando todas elas.
Sem reduzir o ritmo.
Sem apresentar qualquer sinal de desgaste.
Enrico apertou lentamente os punhos.
— Isso… não faz sentido…
Vip permaneceu imóvel.
Pela primeira vez em muitos anos…
Ele parecia verdadeiramente preocupado.
O operador voltou a falar.
Sua voz tremia.
— Senhor Enzo…
Enzo respondeu sem tirar os olhos da tela.
— Continue.
O homem respirou fundo.
— Ela está… amassando todas as unidades.
Outro operador complementou.
— Nenhum dano visível.
Mais uma pausa.
Então veio a frase que fez toda a sala mergulhar no silêncio.
— Até agora…
Ela não sofreu…
Nenhum arranhão.
Enzo permaneceu olhando para o monitor.
Seu semblante não mudou.
Mas, por dentro…
Ele compreendeu que aquela batalha seria muito pior do que havia previsto.
Enquanto isso…
Na estrada…
Yummi girava lentamente os ombros.
Respirando fundo.
Com um brilho quase insano nos olhos.
Ela olhou para os inúmeros combatentes que ainda permaneciam de pé.
E abriu um sorriso ainda maior.
— Então…
Era só isso que vocês tinham para me receber?
Ela ergueu lentamente a mão.
Apontando para o restante do exército.
— Venham.
— Eu ainda nem comecei a me divertir.
A estrada havia deixado de parecer uma estrada.
O asfalto estava completamente destruído.
Crateras se espalhavam por dezenas de metros.
Carros tombados queimavam lentamente.
Motos retorcidas permaneciam espalhadas pelos acostamentos.
O cheiro de fumaça misturava-se ao de pólvora e sangue.
O vento levava pequenos pedaços de metal pelo campo de batalha.
E, no centro de tudo aquilo…
Yummi permanecia de pé.
Sua respiração estava perfeitamente controlada.
Nem uma gota de sangue escorria por seu corpo.
Nem um arranhão.
Nem um único hematoma.
Ela passou lentamente a mão pelos próprios cabelos, afastando alguns fios do rosto.
Depois olhou ao redor.
Centenas de soldados estavam caídos.
Alguns tentavam se levantar.
Outros sequer conseguiam mover o corpo.
Ela sorriu.
Não era um sorriso de superioridade.
Era um sorriso de satisfação.
“Isso…”
“É maravilhoso…”
“Meu coração…”
Ela colocou lentamente a mão sobre o peito.
“Está acelerado…”
“Há quanto tempo…”
“Eu não sentia isso?”
Ela fechou os olhos por um instante.
Respirou profundamente.
O ar frio da madrugada invadiu seus pulmões.
E uma lembrança surgiu.
Ainda adolescente…
Treinando sem parar.
Enfrentando dezenas de adversários.
Sempre buscando alguém que pudesse fazê-la sentir aquele mesmo entusiasmo.
Mas ninguém conseguia.
Os anos passaram.
Ela ficou mais forte.
Mais experiente.
Mais perigosa.
E, pouco a pouco…
As batalhas deixaram de emocioná-la.
Tudo terminava rápido demais.
Até aquela noite.
Ela abriu novamente os olhos.
Na sua frente…
Mais soldados começavam a avançar.
Ela abriu os braços.
— Venham.
A voz ecoou pela estrada.
— Não me façam esperar.
Os homens trocaram olhares.
O medo era evidente.
Mesmo assim…
Continuaram avançando.
Porque aquela era a missão deles.
Porque recuar significava abandonar todos os companheiros que já haviam caído.
Um comandante ergueu o braço.
— Formação Delta!
Em poucos segundos, dezenas de combatentes reorganizaram completamente suas posições.
Escudos pesados foram colocados na linha de frente.
Lanças de contenção apareceram logo atrás.
Outros homens cercavam os lados.
Era uma formação criada exclusivamente para prender um único alvo.
Yummi observou tudo.
Seu sorriso aumentou.
— Finalmente…
Ela apoiou um dos pés à frente.
Baixou levemente o centro de gravidade.
“Agora…”
“Vocês estão começando a lutar.”
Os soldados correram.
A distância diminuía rapidamente.
Quando ficaram próximos…
Todos atacaram ao mesmo tempo.
Yummi não recuou.
Ela mergulhou diretamente contra a formação.
Seu ombro atingiu o primeiro escudo.
O homem que o segurava perdeu completamente o equilíbrio.
Antes que caísse…
Ela já havia acertado outro golpe.
O impacto atravessou dois soldados de uma vez.
A formação começou a desmoronar.
Outros tentaram fechá-la novamente.
Tarde demais.
Ela já estava atrás deles.
Um cotovelo atingiu a nuca de um combatente.
Um chute derrubou outro.
Ela girava continuamente.
Nunca permanecia parada.
Cada passo era calculado.
Cada golpe abria espaço para o próximo.
Os soldados começaram a perceber uma coisa assustadora.
Ela não estava usando toda sua força.
Ela estava…
Brincando.
Um homem conseguiu aproximar-se pelas costas.
Tentou segurá-la.
Yummi apenas inclinou o corpo.
Segurou o braço dele.
E utilizou o próprio impulso do adversário para lançá-lo contra um carro blindado.
A lataria afundou completamente.
Outro grupo tentou imobilizar suas pernas.
Ela saltou.
Girou no ar.
Ao aterrissar…
A onda de impacto espalhou todos ao redor.
A estrada voltou a tremer.
Mais homens caíram.
Outros perderam as armas.
Alguns simplesmente desistiram de avançar.
O medo começava a dominar a tropa.
— Como ela ainda está desse jeito?
— Ela nem está respirando pesado!
— Isso é impossível!
As vozes se espalhavam.
Yummi ouviu todas.
E riu.
— Impossível?
Ela caminhou lentamente entre os soldados caídos.
— Não.
Seu olhar ficou distante.
— Vocês apenas nunca enfrentaram alguém da minha geração.
Ela continuou andando.
— Durante anos…
Tudo o que fiz foi lutar.
— Enquanto vocês aprendiam técnicas…
Eu aprendia a sobreviver.
Parou diante de outro grupo.
— Enquanto vocês treinavam para vencer…
Eu treinava para continuar viva.
Seu sorriso desapareceu.
— Essa é a diferença entre nós.
Ela desapareceu novamente.
Quando reapareceu…
Já estava no meio da nova formação.
Os soldados sequer conseguiram reagir.
Era como tentar segurar uma tempestade com as próprias mãos.
Enquanto isso…
No centro de comando.
Os operadores continuavam enviando relatórios.
A cada minuto…
A situação piorava.
— Perdemos mais cento e vinte homens.
— As equipes móveis foram destruídas.
— Os blindados não conseguem limitar seus movimentos.
Outro operador levantou a cabeça.
— Senhor…
— Restam pouco mais de oitocentos soldados em condições de combate.
Vip fechou lentamente os olhos.
— Em menos de meia hora…
Enrico apertou a mesa com força.
— Ela reduziu praticamente metade da operação.
Ninguém conseguia acreditar.
Enzo permaneceu completamente imóvel.
Observava atentamente um dos monitores.
A câmera mostrava Yummi caminhando calmamente.
Ela nem parecia participar de uma batalha.
Parecia passear entre pessoas incapazes de detê-la.
Enzo respirou lentamente.
— Ainda não…
Vip olhou para ele.
— O quê?
— Ainda não chegou o momento.
Enrico ficou surpreso.
— Vai continuar assistindo?
Enzo respondeu.
— Sim.
— Quero descobrir onde está o limite dela.
O operador virou rapidamente.
— Senhor!
Enzo respondeu.
— Fale.
— Wallace está pedindo autorização para entrar.
Silêncio.
Outro rádio começou a transmitir.
— Hudson também.
Mais um.
— A Hunides solicita permissão.
Outro.
— A Unidade Especial está pronta.
Enzo fechou os olhos por alguns segundos.
Depois respondeu calmamente.
— Negado.
Todos olharam para ele.
Até Vip ficou surpreso.
— Vai deixar os soldados morrerem?
Enzo respondeu sem alterar o tom de voz.
— Não.
— Vou deixar a Yummi acreditar que já venceu.
…
Na estrada.
O número de combatentes diminuía cada vez mais.
Mesmo assim…
Ela continuava sorrindo.
Seu coração batia acelerado.
Seu corpo inteiro parecia leve.
“É maravilhoso…”
“Quanto mais lutam…”
“Mais vontade eu tenho de continuar.”
Ela ergueu lentamente o rosto para o céu.
Algumas gotas de chuva começaram a cair.
Ela abriu os braços.
Deixando a água tocar seu rosto.
Então murmurou:
— Obrigada…
Não estava agradecendo aos soldados.
Nem a Enzo.
Nem a Charles.
Ela agradecia à própria batalha.
Porque, depois de tantos anos…
Finalmente havia encontrado uma noite capaz de fazê-la se sentir verdadeiramente viva.
Naquele instante, porém…
Bem atrás dela…
Wallace abriu lentamente um sorriso.
Hudson estalou o pescoço.
Os membros da Hunides começaram a caminhar.
Os integrantes da Unidade Especial colocaram as mãos sobre suas armas.
Todos receberam a mesma mensagem.
“Autorização concedida.”
A verdadeira batalha…
Estava apenas começando.

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