Índice de Capítulo

    O pátio da antiga escola mergulhou em silêncio.

    A chuva havia diminuído.

    As gotas que ainda caíam batiam lentamente nas poças espalhadas pelo chão rachado.

    Yoru permanecia imóvel.

    Sua respiração era pesada.

    Os olhos estavam completamente tomados pela raiva.

    À sua frente…

    Yummi.

    Mesmo com um braço inutilizado e o corpo marcado pela batalha, ela mantinha a postura firme.

    Atrás dela, Charles observava tudo em absoluto silêncio.

    Yummi respirou fundo.

    Seu olhar encontrou o do irmão.

    Por um breve instante, havia tristeza em seus olhos.

    Então ela falou:

    — Chega, Yoru.

    Sua voz era firme, mas calma.

    — Essa história já machucou pessoas demais.

    Ela fechou lentamente a mão que ainda podia usar.

    — Estou pronta para colocar um fim nisso.

    Yoru não respondeu.

    Apenas avançou.

    Seu corpo desapareceu.

    O primeiro golpe atravessou o ar com violência.

    Yummi desviou por centímetros.

    Ela conhecia a forma como ele lutava.

    Cada passo.

    Cada mudança de direção.

    Cada tentativa de surpreender.

    Yoru atacava sem parar.

    Punhos.

    Cotovelos.

    Chutes.

    Joelhadas.

    Toda a dor que carregava parecia transformar-se em força.

    — Você matou nossa mãe!

    — Ele destruiu tudo!

    — Eu não vou deixar ninguém impedir!

    Yummi bloqueava um golpe após o outro.

    Ela não respondia com agressividade.

    Esperava.

    Observava.

    Como se procurasse o momento certo.

    Yoru começou a perder o controle.

    Seus movimentos deixaram de ser precisos.

    A emoção estava dominando a técnica.

    Yummi suspirou.

    — É exatamente isso…

    — Que ele queria.

    Ela apareceu diante dele.

    Apenas dois movimentos.

    O primeiro desviou completamente sua guarda.

    O segundo atingiu um ponto preciso.

    Yoru perdeu o equilíbrio.

    Sua visão escureceu.

    O mundo desapareceu.

    Silêncio.

    Nenhuma chuva.

    Nenhum vento.

    Nenhuma dor.

    Yoru abriu lentamente os olhos.

    Estava em um lugar completamente branco.

    Sem chão.

    Sem céu.

    Sem horizonte.

    Apenas luz.

    Então ouviu passos.

    À sua frente…

    Um homem caminhava calmamente.

    Os cabelos negros eram um pouco mais longos.

    O corpo parecia mais maduro.

    Os olhos carregavam um peso impossível de explicar.

    Era como olhar para si mesmo…

    Vinte anos no futuro.

    O homem sorriu discretamente.

    — Faz tempo que esperei por este momento.

    Yoru permaneceu imóvel.

    — Quem… é você?

    O homem respondeu:

    — Você.

    — Só que vinte anos à frente.

    O silêncio voltou.

    Yoru apertou os punhos.

    — Isso é impossível.

    O homem deu de ombros.

    — Também achei…

    Na primeira vez.

    Ele caminhou até ficar diante do garoto.

    Seu olhar carregava arrependimento.

    Muito arrependimento.

    — Na minha linha do tempo…

    Você perdeu completamente a cabeça.

    Yoru permaneceu em silêncio.

    — Sua raiva venceu.

    O homem abaixou lentamente a cabeça.

    — E você matou a Yummi.

    As palavras pareciam pesar toneladas.

    Yoru sentiu o peito apertar.

    — Não…

    O homem assentiu lentamente.

    — Sim.

    — Durante muitos anos achei que aquilo era inevitável.

    Ele fechou os olhos.

    — Mas não era.

    Respirou profundamente.

    — Eu venci…

    Mas perdi tudo.

    A voz falhou por um instante.

    — Nunca consegui esquecer o rosto dela.

    Os dois permaneceram em silêncio.

    Então o homem estendeu a mão.

    Nela havia uma pequena chave prateada.

    Muito simples.

    Mas envolvida por uma corrente de vento.

    — Eu descobri tarde demais.

    — O verdadeiro poder da nossa família.

    Yoru observava a chave.

    — “Leia o Vento”.

    O homem sorriu.

    — Não é apenas uma técnica.

    — É uma forma de compreender o mundo.

    Ele colocou a chave nas mãos do garoto.

    — O vento nunca luta contra tudo.

    — Ele contorna.

    — Ele aprende.

    — Ele muda.

    — Mas nunca deixa de seguir em frente.

    A chave começou a desaparecer.

    Transformando-se em pequenas correntes de ar.

    Que entraram lentamente no peito de Yoru.

    O homem deu um último sorriso.

    — Não repita meu erro.

    — Salve nossa irmã.

    A luz tornou-se intensa.

    Tudo desapareceu.

    No mundo real…

    Yoru abriu os olhos.

    O vento começou a girar ao redor do seu corpo.

    As árvores balançaram.

    A chuva mudou de direção.

    Até as nuvens pareciam mover-se acima da escola.

    Uma nova janela surgiu diante dele.

    [Habilidade:Leia o Vento]

    Yummi arregalou os olhos.

    — Esse poder…

    Yoru levantou-se lentamente.

    Sua expressão havia mudado.

    A raiva continuava ali.

    Mas agora…

    Estava sob controle.

    Ele respirou profundamente.

    O vento acompanhou sua respiração.

    Quando deu o primeiro passo…

    Parecia não tocar o chão.

    Yummi avançou.

    O soco passou.

    Yoru já não estava ali.

    Ela virou imediatamente.

    Outro golpe.

    Novamente vazio.

    Ele surgia sempre no lugar onde o vento já havia passado.

    Não era apenas velocidade.

    Era antecipação.

    Leitura.

    Movimento.

    Yummi sorriu.

    — Então…

    Era isso.

    Ela também voltou a lutar com tudo.

    Os dois desapareceram entre rajadas de vento.

    O pátio inteiro tremia.

    As paredes antigas rachavam.

    As árvores inclinavam-se.

    Yoru já não enfrentava a força dela diretamente.

    Usava seu impulso.

    Mudava trajetórias.

    Transformava defesa em ataque.

    Cada movimento parecia uma continuação natural do anterior.

    Pela primeira vez…

    Yummi começou a ser pressionada.

    Ela tentou usar sua força.

    O vento desviava.

    Tentou resistir.

    O vento encontrava outra direção.

    Yoru apareceu diante dela.

    Parou o punho a poucos centímetros do seu rosto.

    Não havia ódio.

    Apenas determinação.

    Yummi fechou lentamente os olhos.

    Depois sorriu.

    — Você finalmente encontrou seu caminho.

    Seu corpo perdeu as forças.

    Ela caiu de joelhos.

    Derrotada.

    Yoru respirava pesadamente.

    Mas não deu o golpe final.

    Apenas disse:

    — Chega.

    Ela levantou os olhos.

    Havia orgulho em seu sorriso.

    — Obrigada…

    Irmão.

    Yoru caminhou até Charles.

    O antigo líder permanecia parado.

    Como se já esperasse aquele desfecho.

    — Acabou.

    Charles sorriu.

    — Talvez.

    Yoru olhou diretamente para ele.

    — Agora responda tudo.

    Charles assentiu.

    — Sua mãe…

    Mei…

    Era uma mulher extraordinária.

    — Forte.

    — Inteligente.

    — Teimosa.

    Ele soltou uma pequena risada.

    — Foi ela quem fundou a Gangue da Lua.

    Yoru congelou.

    — O quê?

    — Sim.

    — Ela criou aquele grupo para proteger pessoas.

    O sorriso de Charles desapareceu.

    — Depois…

    Eu tomei o controle.

    O silêncio dominou o ambiente.

    Charles continuou:

    — Há outra verdade.

    Ele olhou diretamente para Yoru.

    — Seu pai…

    Era Ryujiro Blaker.

    O nome ecoou como um trovão.

    Yoru arregalou os olhos.

    Charles prosseguiu:

    — Um dos homens mais perigosos da máfia japonesa.

    — Um monstro.

    — Um homem que precisou ser derrotado por Caprio na geração passada.

    Yoru mal conseguia respirar.

    Charles colocou a mão sobre uma velha pasta.

    — Tudo.

    — Absolutamente tudo.

    — Está nos meus documentos pessoais.

    — O projeto.

    — Sua mãe.

    — Seu pai.

    — Os experimentos.

    — A Gangue da Lua.

    — Tudo.

    Yoru deu um passo.

    Estendeu a mão em direção aos documentos.

    Então…

    Um único estampido cortou o silêncio da noite.

    Charles parou de falar.

    Olhou para o próprio peito.

    Uma mancha vermelha espalhava-se lentamente pela roupa.

    Seus joelhos cederam.

    Ele caiu.

    Yoru virou imediatamente.

    No alto do corredor da escola…

    Kira permanecia imóvel.

    A fumaça ainda saía da arma em sua mão.

    Ela encarava Charles sem demonstrar qualquer emoção.

    Depois abaixou lentamente a arma.

    — O jogo acabou, Charles.

    Ela sorriu de forma discreta.

    — Mas a guerra…

    Ainda está só começando.

    Enquanto Charles dava seu último suspiro e a chuva voltava a cair sobre a escola abandonada, Yoru permaneceu em silêncio, olhando para os documentos caídos ao lado do corpo daquele homem.

    As respostas que procurou durante toda a vida finalmente estavam diante dele.

    Mas o preço para alcançá-las acabara de mudar tudo.

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