Capítulo 279 – Tudo tem um preço
O pátio da antiga escola mergulhou em silêncio.
A chuva havia diminuído.
As gotas que ainda caíam batiam lentamente nas poças espalhadas pelo chão rachado.
Yoru permanecia imóvel.
Sua respiração era pesada.
Os olhos estavam completamente tomados pela raiva.
À sua frente…
Yummi.
Mesmo com um braço inutilizado e o corpo marcado pela batalha, ela mantinha a postura firme.
Atrás dela, Charles observava tudo em absoluto silêncio.
Yummi respirou fundo.
Seu olhar encontrou o do irmão.
Por um breve instante, havia tristeza em seus olhos.
Então ela falou:
— Chega, Yoru.
Sua voz era firme, mas calma.
— Essa história já machucou pessoas demais.
Ela fechou lentamente a mão que ainda podia usar.
— Estou pronta para colocar um fim nisso.
Yoru não respondeu.
Apenas avançou.
Seu corpo desapareceu.
O primeiro golpe atravessou o ar com violência.
Yummi desviou por centímetros.
Ela conhecia a forma como ele lutava.
Cada passo.
Cada mudança de direção.
Cada tentativa de surpreender.
Yoru atacava sem parar.
Punhos.
Cotovelos.
Chutes.
Joelhadas.
Toda a dor que carregava parecia transformar-se em força.
— Você matou nossa mãe!
— Ele destruiu tudo!
— Eu não vou deixar ninguém impedir!
Yummi bloqueava um golpe após o outro.
Ela não respondia com agressividade.
Esperava.
Observava.
Como se procurasse o momento certo.
Yoru começou a perder o controle.
Seus movimentos deixaram de ser precisos.
A emoção estava dominando a técnica.
Yummi suspirou.
— É exatamente isso…
— Que ele queria.
Ela apareceu diante dele.
Apenas dois movimentos.
O primeiro desviou completamente sua guarda.
O segundo atingiu um ponto preciso.
Yoru perdeu o equilíbrio.
Sua visão escureceu.
O mundo desapareceu.
…
Silêncio.
Nenhuma chuva.
Nenhum vento.
Nenhuma dor.
Yoru abriu lentamente os olhos.
Estava em um lugar completamente branco.
Sem chão.
Sem céu.
Sem horizonte.
Apenas luz.
Então ouviu passos.
À sua frente…
Um homem caminhava calmamente.
Os cabelos negros eram um pouco mais longos.
O corpo parecia mais maduro.
Os olhos carregavam um peso impossível de explicar.
Era como olhar para si mesmo…
Vinte anos no futuro.
O homem sorriu discretamente.
— Faz tempo que esperei por este momento.
Yoru permaneceu imóvel.
— Quem… é você?
O homem respondeu:
— Você.
— Só que vinte anos à frente.
O silêncio voltou.
Yoru apertou os punhos.
— Isso é impossível.
O homem deu de ombros.
— Também achei…
Na primeira vez.
Ele caminhou até ficar diante do garoto.
Seu olhar carregava arrependimento.
Muito arrependimento.
— Na minha linha do tempo…
Você perdeu completamente a cabeça.
Yoru permaneceu em silêncio.
— Sua raiva venceu.
O homem abaixou lentamente a cabeça.
— E você matou a Yummi.
As palavras pareciam pesar toneladas.
Yoru sentiu o peito apertar.
— Não…
O homem assentiu lentamente.
— Sim.
— Durante muitos anos achei que aquilo era inevitável.
Ele fechou os olhos.
— Mas não era.
Respirou profundamente.
— Eu venci…
Mas perdi tudo.
A voz falhou por um instante.
— Nunca consegui esquecer o rosto dela.
Os dois permaneceram em silêncio.
Então o homem estendeu a mão.
Nela havia uma pequena chave prateada.
Muito simples.
Mas envolvida por uma corrente de vento.
— Eu descobri tarde demais.
— O verdadeiro poder da nossa família.
Yoru observava a chave.
— “Leia o Vento”.
O homem sorriu.
— Não é apenas uma técnica.
— É uma forma de compreender o mundo.
Ele colocou a chave nas mãos do garoto.
— O vento nunca luta contra tudo.
— Ele contorna.
— Ele aprende.
— Ele muda.
— Mas nunca deixa de seguir em frente.
A chave começou a desaparecer.
Transformando-se em pequenas correntes de ar.
Que entraram lentamente no peito de Yoru.
O homem deu um último sorriso.
— Não repita meu erro.
— Salve nossa irmã.
A luz tornou-se intensa.
Tudo desapareceu.
…
No mundo real…
Yoru abriu os olhos.
O vento começou a girar ao redor do seu corpo.
As árvores balançaram.
A chuva mudou de direção.
Até as nuvens pareciam mover-se acima da escola.
Uma nova janela surgiu diante dele.
[Habilidade:Leia o Vento]
Yummi arregalou os olhos.
— Esse poder…
Yoru levantou-se lentamente.
Sua expressão havia mudado.
A raiva continuava ali.
Mas agora…
Estava sob controle.
Ele respirou profundamente.
O vento acompanhou sua respiração.
Quando deu o primeiro passo…
Parecia não tocar o chão.
Yummi avançou.
O soco passou.
Yoru já não estava ali.
Ela virou imediatamente.
Outro golpe.
Novamente vazio.
Ele surgia sempre no lugar onde o vento já havia passado.
Não era apenas velocidade.
Era antecipação.
Leitura.
Movimento.
Yummi sorriu.
— Então…
Era isso.
Ela também voltou a lutar com tudo.
Os dois desapareceram entre rajadas de vento.
O pátio inteiro tremia.
As paredes antigas rachavam.
As árvores inclinavam-se.
Yoru já não enfrentava a força dela diretamente.
Usava seu impulso.
Mudava trajetórias.
Transformava defesa em ataque.
Cada movimento parecia uma continuação natural do anterior.
Pela primeira vez…
Yummi começou a ser pressionada.
Ela tentou usar sua força.
O vento desviava.
Tentou resistir.
O vento encontrava outra direção.
Yoru apareceu diante dela.
Parou o punho a poucos centímetros do seu rosto.
Não havia ódio.
Apenas determinação.
Yummi fechou lentamente os olhos.
Depois sorriu.
— Você finalmente encontrou seu caminho.
Seu corpo perdeu as forças.
Ela caiu de joelhos.
Derrotada.
Yoru respirava pesadamente.
Mas não deu o golpe final.
Apenas disse:
— Chega.
Ela levantou os olhos.
Havia orgulho em seu sorriso.
— Obrigada…
Irmão.
…
Yoru caminhou até Charles.
O antigo líder permanecia parado.
Como se já esperasse aquele desfecho.
— Acabou.
Charles sorriu.
— Talvez.
Yoru olhou diretamente para ele.
— Agora responda tudo.
Charles assentiu.
— Sua mãe…
Mei…
Era uma mulher extraordinária.
— Forte.
— Inteligente.
— Teimosa.
Ele soltou uma pequena risada.
— Foi ela quem fundou a Gangue da Lua.
Yoru congelou.
— O quê?
— Sim.
— Ela criou aquele grupo para proteger pessoas.
O sorriso de Charles desapareceu.
— Depois…
Eu tomei o controle.
O silêncio dominou o ambiente.
Charles continuou:
— Há outra verdade.
Ele olhou diretamente para Yoru.
— Seu pai…
Era Ryujiro Blaker.
O nome ecoou como um trovão.
Yoru arregalou os olhos.
Charles prosseguiu:
— Um dos homens mais perigosos da máfia japonesa.
— Um monstro.
— Um homem que precisou ser derrotado por Caprio na geração passada.
Yoru mal conseguia respirar.
Charles colocou a mão sobre uma velha pasta.
— Tudo.
— Absolutamente tudo.
— Está nos meus documentos pessoais.
— O projeto.
— Sua mãe.
— Seu pai.
— Os experimentos.
— A Gangue da Lua.
— Tudo.
Yoru deu um passo.
Estendeu a mão em direção aos documentos.
Então…
Um único estampido cortou o silêncio da noite.
Charles parou de falar.
Olhou para o próprio peito.
Uma mancha vermelha espalhava-se lentamente pela roupa.
Seus joelhos cederam.
Ele caiu.
Yoru virou imediatamente.
No alto do corredor da escola…
Kira permanecia imóvel.
A fumaça ainda saía da arma em sua mão.
Ela encarava Charles sem demonstrar qualquer emoção.
Depois abaixou lentamente a arma.
— O jogo acabou, Charles.
Ela sorriu de forma discreta.
— Mas a guerra…
Ainda está só começando.
Enquanto Charles dava seu último suspiro e a chuva voltava a cair sobre a escola abandonada, Yoru permaneceu em silêncio, olhando para os documentos caídos ao lado do corpo daquele homem.
As respostas que procurou durante toda a vida finalmente estavam diante dele.
Mas o preço para alcançá-las acabara de mudar tudo.

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