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    A chuva não diminuía.

    Ela caía sobre os destroços, lavava o sangue espalhado pelo asfalto e fazia pequenas correntes descerem pela estrada quebrada. O silêncio que tomou conta do campo de batalha era pesado. Wallace permanecia ajoelhado, respirando com dificuldade. Seu olho esquerdo ardia como se estivesse sendo queimado por dentro. A visão voltava a falhar, tornando tudo borrado.

    Yummi começou a caminhar.

    Deu as costas para ele.

    Seu casaco rasgado balançava com o vento.

    Ela não olhou para trás.

    — Você perdeu.

    Sua voz era calma.

    — Não existe vergonha nisso.

    — Continue vivo.

    — Fique mais forte.

    — E um dia…

    Ela sorriu discretamente.

    — Vamos terminar essa luta.

    Wallace abaixou a cabeça.

    Seu corpo inteiro tremia.

    Não de medo.

    Mas de frustração.

    Sua mão fechou-se lentamente sobre o asfalto rachado.

    A imagem de seu irmão surgiu em sua mente.

    O sorriso.

    As conversas.

    As promessas.

    Tudo desaparecendo diante dele.

    “Foi por isso…”

    “Que eu sobrevivi…”

    “Foi por isso…”

    “Que continuei lutando…”

    “E agora…”

    “Vou deixar ela ir embora?”

    Seus dentes rangeram.

    Então…

    Ele gritou.

    — FODA-SE!!

    A voz ecoou pelas montanhas.

    Todos olharam para trás.

    Yummi parou de andar.

    Sem se virar.

    Wallace colocou novamente a mão no bolso.

    Retirou outro pequeno frasco.

    O último.

    Hudson arregalou os olhos.

    — Não…

    Yoru também percebeu.

    — Wallace…

    Wallace sorriu.

    — Esse era para emergência…

    Ele abriu o frasco.

    Pingou novamente o colírio nos olhos.

    Uma dor absurda atravessou sua cabeça.

    Seu corpo quase caiu.

    Mas permaneceu de pé.

    Quando voltou a abrir os olhos…

    O brilho havia retornado.

    Por mais alguns minutos.

    Yummi finalmente virou-se.

    Seu semblante havia mudado.

    Ela percebeu.

    Algo era diferente.

    Wallace respirou profundamente.

    Seu peito subia lentamente.

    Então falou.

    — Passei a vida inteira tentando entender quem eu era.

    A chuva escorria pelo seu rosto.

    — Sempre achei que copiar os outros fosse um talento incompleto.

    Ele deu um passo.

    — Sempre invejei aqueles que criavam técnicas próprias.

    Outro passo.

    — Sempre pensei… Que eu nunca teria algo realmente meu.

    Yummi permaneceu imóvel.

    Observando.

    Wallace sorriu.

    Um sorriso tranquilo.

    — Mas eu estava errado.

    Ele levantou lentamente a cabeça.

    — Copiar…

    — Foi justamente o que me trouxe até aqui.

    Seus olhos encontraram os dela.

    — Cada pessoa que enfrentei… Cada mestre…Cada derrota…Cada vitória… Todas elas vivem dentro de mim.

    O vento aumentou.

    Sua aura começou a mudar.

    Não era maior.

    Nem mais pesada.

    Era…

    Profunda.

    Como um oceano sem fim.

    Wallace fechou lentamente os olhos.

    “Eu finalmente entendi…”

    “Esse…É o meu lugar.”

    Quando voltou a abri-los…

    Sua voz saiu firme.

    — Esse é meu Caminho…

    Fez uma pequena pausa.

    — As infinitas cópias

    O mundo pareceu silenciar.

    Até mesmo a chuva pareceu desacelerar.

    Yummi arregalou discretamente os olhos.

    Pela primeira vez naquela noite…

    Ela sentiu algo próximo da expectativa.

    Wallace desapareceu.

    Não havia mais um único estilo em seus movimentos.

    Cada passo era diferente.

    Cada ataque surgia de uma lógica completamente nova.

    Um soco baseado em um antigo boxeador.

    O giro de um lutador de taekwondo.

    A precisão de um mestre de karatê.

    A fluidez do aikidô.

    A explosão do muay thai.

    A leitura do jiu-jítsu.

    O equilíbrio do kung fu.

    Tudo…

    Misturado.

    Sem ordem.

    Sem padrão.

    Sem repetição.

    Yummi bloqueou o primeiro golpe.

    Depois o segundo.

    O terceiro acertou seu rosto.

    Ela recuou meio passo.

    Wallace já estava em outro ângulo.

    Outro golpe.

    Outro.

    Outro.

    Ela tentou prever.

    Não conseguiu.

    “O que…”

    “É isso?”

    Cada ataque parecia nascer de um lutador diferente.

    Mas, ao mesmo tempo…

    De ninguém.

    Era impossível acompanhar.

    Porque Wallace mudava completamente sua maneira de lutar a cada segundo.

    Não existia adaptação possível.

    Ele não copiava apenas técnicas.

    Copiava possibilidades.

    Yummi começou a ser empurrada para trás.

    Seu braço recebeu um impacto.

    Depois o abdômen.

    Depois o ombro.

    Ela bloqueava um golpe.

    Era atingida por outro completamente diferente.

    Seu sorriso voltou.

    Mas agora…

    Misturado com surpresa.

    — Impressionante…

    Wallace continuava avançando.

    — Ainda não acabou!

    Ele girou o corpo.

    Utilizou uma técnica que havia aprendido anos atrás.

    Mas, antes do impacto…

    Transformou completamente sua trajetória.

    Criou uma combinação inédita.

    O golpe acertou diretamente o braço esquerdo de Yummi.

    Ouviu-se apenas o estalo seco da articulação cedendo.

    O braço dela perdeu completamente a posição.

    Quebrado.

    Os olhos dos soldados se arregalaram.

    Hudson abriu um enorme sorriso.

    — ELE CONSEGUIU!

    Yoru levantou-se mesmo sentindo dor.

    — Wallace…

    Yummi olhou para o próprio braço.

    Permaneceu alguns segundos em silêncio.

    Depois…

    Sorriu.

    Um sorriso enorme.

    Cheio de entusiasmo.

    — Hahahaha…

    Ela levantou lentamente a cabeça.

    — Então esse…

    — É o seu caminho.

    Wallace respirava pesadamente.

    Sua visão começou novamente a escurecer.

    O colírio estava perdendo o efeito.

    Mesmo assim…

    Continuou avançando.

    Queria terminar.

    Queria vencer.

    Mas seu corpo já não respondia da mesma maneira.

    Os movimentos começaram a ficar lentos.

    A precisão desaparecia.

    A distância entre os ataques aumentava.

    Yummi percebeu imediatamente.

    “Acabou…”

    Ela respirou fundo.

    Seu Domínio da Força percorreu todo o corpo.

    Mesmo com o braço quebrado…

    Seu avanço continuava monstruoso.

    Ela apareceu diante dele.

    Antes que Wallace pudesse reagir…

    Uma mão segurou sua garganta.

    Firmemente.

    Ele tentou escapar.

    Não conseguiu.

    Yummi ergueu seu corpo apenas com um braço.

    Os pés dele deixaram o chão.

    Sua visão já estava quase completamente apagada.

    Ela olhou diretamente em seus olhos.

    — Obrigada.

    Wallace tentou responder.

    Mas não havia ar.

    No instante seguinte…

    Ela o lançou violentamente contra o chão.

    O impacto abriu uma enorme cratera na estrada.

    O solo afundou.

    Fragmentos de pedra foram arremessados para todos os lados.

    A poeira subiu junto com a chuva.

    Mesmo assim…

    Wallace tentou levantar.

    Seu corpo não respondia mais.

    Sua visão finalmente mergulhou na escuridão.

    O colírio havia terminado.

    Yummi permaneceu olhando para ele.

    Em silêncio.

    Depois soltou lentamente o ar.

    Seu braço quebrado pendia ao lado do corpo.

    Ela aproximou-se.

    Ajoelhou-se diante dele.

    Colocou a mão sobre seu ombro.

    — Você perdeu.

    Sua voz estava diferente.

    Mais baixa.

    Mais respeitosa.

    — Mas não porque foi fraco.

    Ela olhou para o céu.

    — Perdeu…

    Porque ainda está começando o seu caminho.

    Voltou a encará-lo.

    — Continue vivendo.

    — Continue copiando.

    — Continue carregando dentro de você todas as pessoas que conheceu.

    Ela sorriu.

    — Um dia…Seu Infinito talvez seja grande o bastante para superar até alguém como eu.

    Yummi levantou-se lentamente.

    Olhou mais uma vez para o campo de batalha destruído.

    Depois para Wallace caído dentro da enorme cratera.

    E, pela primeira vez em muitos anos…

    Sentiu algo que raramente oferecia aos seus adversários.

    Respeito.

    Ela virou de costas.

    Enquanto caminhava, murmurou para si mesma:

    — Wallace…Não morra. Quero ver até onde esse caminho consegue chegar.

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