Capítulo 270 – Vamos caçar
O relógio marcava pouco mais das nove da manhã.
Uma névoa fina cobria parte da cidade, enquanto o trânsito seguia normalmente pelas avenidas de Tokyo. Para qualquer pessoa, aquele parecia ser apenas mais um dia comum.
Mas, nos bastidores…
A guerra já havia começado.
…
Yoru caminhava por uma rua pouco movimentada, usando um casaco escuro e as mãos nos bolsos. Seu olhar permanecia firme.
Enzo havia marcado uma reunião urgente.
Aquilo significava apenas uma coisa.
O plano estava prestes a entrar em ação.
Depois de alguns minutos, Yoru entrou em um antigo galpão industrial.
O lugar havia sido completamente reformado por dentro.
Mesas repletas de computadores.
Mapas enormes espalhados pelas paredes.
Monitores exibindo imagens de câmeras instaladas por toda Tokyo.
Diversos homens trabalhavam em silêncio.
No centro da sala, Enzo observava um enorme mapa holográfico da cidade.
Ao lado dele estavam Wallace, Hudson e três integrantes da unidade especial.
Enzo levantou os olhos.
— Você chegou.
Yoru caminhou até a mesa.
— Então… qual é o plano?
Enzo sorriu discretamente.
— Melhor do que você imagina.
Ele retirou uma pasta preta de uma gaveta.
Sobre a capa havia apenas uma inscrição.
Documento Charles.
Yoru imediatamente estreitou os olhos.
— Então… você realmente conseguiu.
Enzo balançou a cabeça negativamente.
— Não.
Yoru ficou confuso.
— Como assim?
Enzo abriu a pasta.
Diversas folhas preenchidas por códigos, contratos e relatórios apareceram.
Pareciam completamente verdadeiras.
— Isso…
Ele fechou novamente a pasta.
— É falso.
O silêncio tomou conta da sala.
Wallace cruzou os braços.
Hudson abriu um pequeno sorriso.
Já conheciam aquela estratégia.
Yoru olhou novamente para Enzo.
— Você falsificou tudo?
— Exatamente. Cada assinatura, cada selo, cada página. Tudo foi criado apenas para parecer o verdadeiro documento.
Yoru permaneceu alguns segundos tentando entender.
— Então…
— O verdadeiro documento nunca saiu das suas mãos?
Enzo abriu um sorriso.
— Nunca.
Ele bateu levemente no próprio peito.
— O documento verdadeiro sempre esteve comigo. E continuará comigo.
Yoru soltou uma pequena risada.
— Então isso tudo…
— É uma isca. Exatamente.
Enzo aproximou o mapa.
Um enorme prédio apareceu projetado.
— Dentro de três dias… Essa empresa anunciará publicamente que recebeu o documento mais importante envolvendo Charles.
Yoru observava atentamente.
Enzo continuou.
— A informação será espalhada por vários canais. Chegará inevitavelmente até Yummi.
Wallace apoiou as mãos sobre a mesa.
— Ela não vai permitir que isso aconteça.
Enzo confirmou.
— Não. Ela atacará imediatamente por ordens dele
Hudson sorriu.
— E é exatamente isso que queremos.
Enzo ampliou o mapa.
Diversos pontos vermelhos surgiram ao redor do prédio.
— Aqui começa a segunda parte.
Ele pressionou um botão.
O mapa ficou completamente cercado por marcações.
— Teremos aproximadamente mil e quinhentos soldados posicionados em todas essas áreas.
Yoru arregalou discretamente os olhos.
— Mil e quinhentos…
Enzo respondeu calmamente.
— Sim.
— Porque estamos falando da Yummi.
Ele olhou diretamente para Yoru.
— Uma única mulher. Mas uma mulher capaz de destruir um exército inteiro se for necessário.
O ambiente ficou completamente silencioso.
Todos sabiam que aquilo não era exagero.
Enzo voltou a falar.
— Esses homens não estão ali para derrotá-la.
— Estão ali para limitar seus movimentos.
— Cansá-la.
— Obrigar que ela revele tudo o que possui.
Yoru sorriu.
— Gostei disso.
Enzo então começou a listar os participantes.
— Além dos mil e quinhentos soldados…
Sua unidade estará presente.
Ele apontou para Yoru.
— Você.
Depois para Wallace.
— Wallace.
Hudson apenas levantou a mão.
— Hudson.
Logo em seguida surgiram outros nomes.
— Toda a Unidade Especial. Os combatentes da Hunides e diversos agentes espalhados pelo perímetro.
Wallace sorriu.
— Faz tempo que eu queria uma luta dessas.
Hudson riu.
— Também.
Enzo então olhou novamente para Yoru.
— Você será a peça principal.
Yoru respondeu imediatamente.
— Pode deixar comigo.
— Estou preparado para qualquer coisa.
Enzo permaneceu alguns segundos observando o garoto.
Era impressionante como, em apenas alguns meses, aquele jovem havia amadurecido.
Já não existia mais hesitação.
Nem dúvidas.
Apenas convicção.
Enzo estendeu a mão.
Yoru apertou firmemente.
— Então…
— Vamos iniciar a caçada.
…
Enquanto isso…
No último andar de um dos edifícios mais luxuosos de Tokyo.
Yummi permanecia sentada em uma enorme varanda.
À sua frente, uma mesa de vidro.
Uma xícara de café.
E a vista completa da cidade.
Ela segurava o celular junto ao ouvido enquanto observava o horizonte.
— Faz tempo que não conversamos.
Do outro lado da ligação, uma voz masculina respondeu algo.
Yummi sorriu levemente.
— Sim…
— As coisas andam agitadas por aqui.
Ela cruzou lentamente as pernas.
— Charles continua movimentando peças.
— Como sempre.
A voz perguntou alguma coisa.
Yummi respondeu sem pensar.
— Meu irmão?
Ela soltou uma pequena risada.
— Está crescendo muito rápido.
Seu olhar ficou distante.
— Muito mais rápido do que eu esperava.
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
Depois continuou.
— Yoru sempre foi diferente.
— Mesmo quando era criança.
Ela fechou os olhos.
— Ele nunca aceitava perder.
— Nunca desistia.
— Sempre levantava outra vez.
Do outro lado da ligação houve uma breve resposta.
Yummi sorriu.
— Se continuar nesse ritmo…
Ela olhou novamente para Tokyo.
— Em poucos anos…
— Vai superar todas as gerações.
A voz pareceu demonstrar surpresa.
Yummi confirmou.
— Sim.
— Todas.
Ela apoiou o braço na cadeira.
— Primeira. Segunda. Geração Zero. Não importa. Ele possui algo que quase ninguém tem.
A pessoa perguntou o que seria.
Yummi respondeu sem hesitar.
— Uma vontade absurda de seguir em frente.
Seus olhos demonstravam um raro brilho de orgulho.
— E isso assusta.
Ela deu um pequeno gole em seu café.
— Sabe qual é a sensação que eu tenho?
Silêncio.
Então ela respondeu à própria pergunta.
— A de que meu irmão… Vai colocar um ponto final em toda essa história de delinquentes.
O vento balançou seus cabelos.
Ela respirou profundamente.
— Talvez…
Ele seja a última geração.
…
O silêncio dominava a enorme sala de operações.
O mapa digital permanecia projetado sobre a mesa central, mostrando a empresa que serviria como palco da emboscada. Pequenos pontos vermelhos piscavam constantemente, indicando cada posição estratégica preparada por Enzo.
Yoru permanecia observando tudo atentamente.
Quanto mais olhava aquele planejamento…
Mais percebia o tamanho da operação.
Enzo colocou as duas mãos sobre a mesa.
— Não estamos organizando apenas uma luta.
Sua voz era firme.
— Estamos organizando uma guerra localizada.
Wallace deu um sorriso de canto.
— Finalmente alguém resolveu levar a Yummi a sério.
Enzo respondeu sem desviar os olhos do mapa.
— Quem subestima aquela mulher… não vive para cometer o mesmo erro duas vezes.
O ambiente voltou a ficar silencioso.
Um dos integrantes da Unidade Especial aproximou-se.
— Senhor Enzo.
— Todos os grupos já confirmaram presença.
— As equipes de contenção também.
Enzo assentiu.
— Ótimo.
Ele pressionou um botão.
O mapa foi ampliado.
Diversos círculos apareceram ao redor da empresa.
— Escutem com atenção.
Todos voltaram seus olhares para ele.
— Dividimos a operação em quatro fases.
Ele apontou para o primeiro círculo.
— A primeira fase é simples.
— Atrair a Yummi.
Seu dedo deslizou até outro ponto.
— Segunda fase.
— Cercar completamente o perímetro.
Outro ponto.
— Terceira.
— Obrigar ela a revelar toda sua força.
Por último…
Seu dedo parou exatamente sobre o centro do mapa.
— Quarta fase.
Ele olhou diretamente para Yoru.
— Você entra.
Yoru permaneceu sério.
— Meu objetivo é derrotá-la?
Enzo balançou lentamente a cabeça.
— Não.
Todos demonstraram surpresa.
Até Wallace ergueu uma sobrancelha.
Enzo continuou.
— Seu objetivo será descobrir até onde ela consegue lutar.
— Não force uma vitória.
— Force informações.
Yoru franziu a testa.
— Quer analisar a luta?
— Exatamente.
Enzo cruzou os braços.
— Quanto mais soubermos sobre ela…
Maior será nossa chance contra Charles.
Wallace sorriu.
— Continua pensando dez passos à frente…
Enzo ignorou o comentário.
— Se a oportunidade aparecer…
Eliminem-na.
— Mas não sacrifiquem a operação inteira apenas por isso.
Yoru assentiu lentamente.
Aquela batalha não seria movida apenas pela força.
Seria um jogo de estratégia.
…
Enquanto isso…
Em outro ponto da cidade.
Dentro de uma enorme garagem subterrânea.
Centenas de homens caminhavam de um lado para outro.
Caixas de equipamentos eram transportadas.
Veículos blindados recebiam combustível.
Rádios eram testados.
Mapas eram distribuídos.
O clima lembrava uma operação militar.
Hudson observava toda aquela movimentação.
— Nunca imaginei que o Enzo tivesse tanta gente.
Wallace riu.
— Isso aqui é só uma parte.
Hudson virou rapidamente.
— Só uma parte?
Wallace colocou as mãos nos bolsos.
— Enzo construiu influência durante muitos anos.
— Enquanto Charles fazia alianças nas sombras…
Enzo preparava pessoas para enfrentá-lo.
Hudson olhou novamente para os soldados.
Pela primeira vez…
Percebeu que aquela guerra vinha sendo preparada muito antes de Yoru aparecer.
…
No lado de fora.
Ben caminhava ao lado de Sophie.
Os dois observavam diversos caminhões entrando no complexo.
Sophie respirou fundo.
— Estou nervosa.
Ben sorriu.
— Achei que não ficava mais.
Ela deu um leve soco em seu braço.
— Idiota.
Os dois riram.
Depois de alguns segundos…
Ela voltou a falar.
— Não é medo de lutar.
Ben ficou em silêncio.
— Tenho medo de perder alguém.
O sorriso dele desapareceu.
Ele compreendia perfeitamente aquele sentimento.
Depois de alguns instantes respondeu:
— Eu também.
Sophie olhou para ele.
— Mas existe uma diferença.
— Qual?
Ben encarou o enorme galpão.
— Antes…
Eu tinha medo porque não conseguia proteger ninguém.
Ele fechou lentamente a mão.
— Agora…
Tenho medo porque finalmente tenho pessoas que valem a pena proteger.
Sophie sorriu discretamente.
Sem dizer nada…
Segurou sua mão.
…
No mesmo momento.
Cobertura de Yummi.
Ela permanecia diante de um enorme painel digital.
Diversos relatórios eram exibidos.
Um homem aproximou-se.
— Confirmamos.
— A notícia está se espalhando muito rápido.
Yummi cruzou os braços.
— Rápido demais…
O homem demonstrou dúvida.
— A senhora acha estranho?
Ela respondeu imediatamente.
— Muito.
Ela aproximou dois dedos da tela.
A imagem da empresa apareceu.
— Quem divulgaria algo tão importante dessa maneira?
Silêncio.
Yummi estreitou os olhos.
— Parece…
Uma armadilha.
O homem perguntou:
— Então não devemos ir?
Ela ficou alguns segundos pensando.
Depois sorriu.
— Devemos.
O subordinado ficou confuso.
— Mesmo sabendo que pode ser uma emboscada?
Yummi caminhou lentamente até a janela.
— Se for uma armadilha…
Ela olhou para a cidade.
— Quero descobrir quem teve coragem de prepará-la.
Seu olhar tornou-se completamente frio.
— E matar essa pessoa.
…
Na sede da GHV.
Charles permanecia sentado em sua enorme cadeira.
Beobunk entrou lentamente.
— Recebemos uma informação curiosa.
Charles ergueu o olhar.
— Fale.
— Estão espalhando rumores sobre um documento envolvendo você.
Charles permaneceu imóvel.
Por alguns segundos…
Não demonstrou absolutamente nenhuma reação.
Depois…
Sorriu.
— Interessante.
Beobunk cruzou os braços.
— Vai investigar?
Charles tomou um gole de whisky.
— Não.
— Porque esse documento não existe fora daqui.
Ele abriu lentamente uma gaveta.
Lá dentro…
Havia uma pasta preta.
Intacta.
Charles bateu levemente sobre ela.
— O verdadeiro documento nunca saiu das minhas mãos.
Beobunk ficou pensativo.
— Então alguém está tentando atrair…
Charles terminou a frase.
— A Yummi.
O velho sorriu.
— Parece que finalmente alguém começou a entender como jogar.
Charles levantou-se.
Caminhou até a janela.
— Não avisarei ela.
Beobunk olhou surpreso.
— Não?
Charles respondeu calmamente.
— Quero ver até onde minha melhor peça consegue chegar.
Ele observou a cidade abaixo.
— Se ela vencer…
Eliminará meus inimigos.
— Se perder…
Saberei exatamente quem está preparado para enfrentar meu império.
Beobunk soltou uma pequena risada.
— Você realmente trata pessoas como peças.
Charles respondeu sem emoção.
— Porque é exatamente isso que elas são.
…
Naquela mesma noite…
Yoru permanecia sozinho no telhado do esconderijo.
O vento agitava seus cabelos.
Ele observava as luzes de Tokyo.
Pensava em tudo o que havia acontecido.
Pensava em sua mãe.
Em kira.
Em Charles.
E, principalmente…
Em Yummi.
— Irmã…
Ele fechou os olhos por alguns segundos.
— Espero que, quando nos encontrarmos… Você não me obrigue a escolher entre o sangue e aquilo em que acredito.
Ao longe, um relâmpago iluminou o céu.
Nuvens escuras começaram a cobrir toda a cidade.
A contagem regressiva continuava.
Faltavam apenas dois dias para o início da grande caçada.

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