Índice de Capítulo

    A antiga escola permanecia mergulhada na escuridão.

    A chuva diminuía lentamente, dando lugar a uma fina névoa que cobria o pátio. As paredes rachadas, as janelas quebradas e os corredores vazios faziam o prédio parecer um fantasma de outra época. O vento atravessava as salas abandonadas, produzindo um som baixo que tornava o ambiente ainda mais inquietante.

    No centro do pátio…

    Charles permanecia parado.

    As mãos nos bolsos.

    A postura relaxada.

    Como se toda a guerra que acontecia do lado de fora não passasse de um pequeno inconveniente.

    Alguns passos ecoaram.

    Yummi surgiu entre a neblina.

    Seu corpo carregava marcas da batalha.

    O braço esquerdo permanecia sem mobilidade.

    Seu rosto estava coberto por pequenos cortes.

    Mesmo assim…

    Ela caminhava com a cabeça erguida.

    Ao chegar diante de Charles, retirou a maleta debaixo do braço e a colocou sobre um banco de concreto.

    — Aqui está.

    Charles olhou para a maleta.

    Depois…

    Sorriu.

    — Então conseguiu.

    Yummi respirou fundo.

    — Custou caro.

    Ela cruzou os braços.

    — Mas ninguém conseguiu impedir.

    Charles aproximou-se.

    Abriu lentamente a maleta.

    Seus olhos passaram rapidamente pelo conteúdo.

    Então…

    Fechou-a novamente.

    Sem pegar absolutamente nada.

    Yummi franziu a testa.

    — Não vai conferir?

    Charles respondeu calmamente.

    — Não há necessidade.

    Ela permaneceu em silêncio.

    — Como assim?

    Charles olhou diretamente para ela.

    — Porque esse documento nunca teve valor.

    A expressão dela mudou.

    — O quê?

    Ele respondeu como se estivesse comentando o clima.

    — É falso.

    O verdadeiro…

    Ele colocou a mão dentro do casaco.

    Retirou uma velha pasta preta.

    — Sempre esteve comigo.

    O mundo pareceu silenciar.

    Yummi permaneceu imóvel.

    Olhava alternadamente para a pasta verdadeira e para a maleta que havia arriscado a vida para recuperar.

    Sua respiração começou a ficar pesada.

    — Você…

    Charles continuou completamente tranquilo.

    — Precisava descobrir quem estava por trás da armadilha.

    Ela deu um passo à frente.

    — Então…

    Eu arrisquei tudo…

    Ela apertou os punhos.

    — Enfrentei centenas de pessoas…

    — Quase perdi um braço…

    — Lutei até meu corpo chegar ao limite…

    Sua voz começou a tremer.

    — E você está dizendo…

    Que isso…

    Era uma mentira?

    Charles permaneceu em silêncio.

    Aquilo bastou.

    Yummi fechou os olhos.

    Respirou profundamente.

    Quando voltou a abri-los…

    Havia raiva.

    Uma raiva que poucas vezes havia demonstrado.

    — Você me usou.

    Charles respondeu sem emoção.

    — Usei.

    Silêncio.

    — Porque era necessário.

    Ela permaneceu encarando aquele homem por longos segundos.

    Depois…

    Deu uma pequena risada.

    Mas era uma risada vazia.

    — Você realmente…

    Nunca muda.

    Enquanto isso…

    Do outro lado da floresta.

    Yoru corria.

    Seu corpo havia recuperado boa parte das forças graças ao sistema.

    Enquanto atravessava as árvores…

    Uma janela azul surgiu diante de seus olhos.

    [Nova Missão.]

    Objetivo: Derrote Charles.

    Recompensa: A Verdade.

    Yoru diminuiu o passo.

    Olhou fixamente para a mensagem.

    — A verdade…

    Ela desapareceu.

    Seu coração acelerou.

    “Então…”

    “Tudo termina aqui.”

    Ele voltou a correr.

    Cada passo era mais rápido que o anterior.

    Poucos minutos depois…

    A antiga escola apareceu diante dele.

    As janelas quebradas refletiam a luz da lua.

    A névoa cobria todo o pátio.

    Yoru atravessou lentamente o enorme portão enferrujado.

    Antes mesmo de alcançar a entrada principal…

    Uma voz feminina surgiu.

    — Achei que demoraria mais.

    Yoru parou.

    Virou lentamente o rosto.

    Sobre um dos muros da escola…

    Uma mulher observava tudo.

    Seus longos cabelos brancos brilhavam sob a luz da lua.

    Kira.

    Ela sorriu.

    Saltou do muro.

    Aterrissou suavemente diante dele.

    Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio.

    Depois ela perguntou:

    — O que está fazendo aqui?

    Yoru respondeu sem hesitar.

    — Vim matar Charles.

    Kira começou a rir.

    Uma risada baixa.

    Divertida.

    — Hahaha…

    Ela balançou a cabeça.

    — Ainda é jovem demais.

    Yoru permaneceu sério.

    Kira continuou.

    — Acha mesmo…

    Que aquele homem pode ser morto tão facilmente?

    Ela caminhou ao redor dele.

    — Charles sobreviveu a guerras.

    Sobreviveu a reis.

    Sobreviveu à primeira geração.

    Sobreviveu a traições.

    Seu sorriso desapareceu.

    — Aquele homem parece impossível de matar.

    Yoru olhou diretamente para ela.

    — Então saia da minha frente.

    Kira permaneceu imóvel.

    Depois sorriu novamente.

    — Gosto desse olhar.

    Ela deu um passo para o lado.

    — Vá.

    — Quero descobrir até onde você consegue chegar.

    Yoru passou por ela.

    Sem olhar para trás.

    Kira observou o garoto desaparecer dentro da escola.

    Então murmurou:

    — Talvez…

    Você realmente consiga mudar este mundo.

    O corredor principal estava completamente escuro.

    Cada passo de Yoru ecoava pelo prédio vazio.

    As salas permaneciam abertas.

    Mesas quebradas.

    Livros espalhados.

    Poeira.

    Silêncio.

    Até que…

    Ele chegou ao antigo pátio interno.

    Charles permanecia parado.

    Como se já o esperasse.

    Yummi estava alguns metros atrás dele.

    Ao perceber Yoru…

    Seu olhar mudou.

    Mas ela permaneceu em silêncio.

    Charles sorriu.

    — Finalmente.

    Yoru caminhou até ficar frente a frente com ele.

    Os dois permaneceram alguns segundos apenas se encarando.

    Depois…

    Yoru falou.

    — Quero uma resposta.

    Charles assentiu.

    — Faça a pergunta.

    Yoru respirou profundamente.

    Sua voz saiu pesada.

    — Qual era…

    A relação entre você…

    E minha mãe?

    Charles não desviou o olhar.

    — É simples.

    Fez uma pequena pausa.

    — Eu era amigo dela.

    O silêncio tomou conta do ambiente.

    Yoru franziu a testa.

    — Amigo?

    Charles assentiu.

    — Lutamos juntos.

    — Construímos sonhos juntos.

    — Salvamos pessoas juntos.

    Yoru permaneceu imóvel.

    Charles continuou.

    — Até o dia…

    Em que precisei matá-la.

    O mundo pareceu parar.

    A respiração de Yoru falhou.

    — O quê?

    Charles respondeu olhando diretamente em seus olhos.

    — Eu a matei.

    — Porque ela não me deixou outra escolha.

    Yoru deu um passo à frente.

    Sua voz tremia.

    — Do que…

    Você está falando?

    Charles respirou lentamente.

    — Sua mãe decidiu impedir o projeto.

    — Ela queria tirar você daquele lugar.

    — Queria acabar com tudo.

    Ele fechou os olhos por um instante.

    — Eu não podia permitir.

    Yoru sentia o coração bater cada vez mais forte.

    Nada fazia sentido.

    — Projeto?

    Charles olhou para ele.

    Sem qualquer emoção.

    — Você realmente nunca percebeu?

    Silêncio.

    — Você acha normal aprender qualquer técnica em poucos minutos?

    — Adaptar-se instantaneamente a qualquer situação?

    — Evoluir numa velocidade impossível?

    Yoru permaneceu calado.

    Charles aproximou-se.

    — Porque você não é um ser humano comum.

    As palavras atravessaram o silêncio como uma lâmina.

    — Você…

    É um rato de laboratório.

    Yoru congelou.

    Charles continuou.

    — Você foi criado.

    — Moldado.

    — Aperfeiçoado.

    — Desde antes de nascer.

    Sua voz permanecia fria.

    — O objetivo era simples.

    — Criar o ser humano perfeito.

    Yoru deu um passo para trás.

    Sua cabeça parecia girar.

    “Não…”

    “Isso…”

    “Não…”

    Charles apontou para ele.

    — Seu sistema…

    Não é magia.

    — Nem uma habilidade sobrenatural.

    Ele sorriu.

    — São nanomáquinas.

    — Um protótipo experimental.

    — Implantadas em você desde o início.

    Yoru arregalou os olhos.

    As janelas azuis.

    A cura.

    A evolução.

    As missões.

    Tudo começou a fazer sentido.

    Ou talvez…

    Deixasse de fazer.

    Charles concluiu:

    — Você foi o único experimento que funcionou.

    O silêncio tornou-se absoluto.

    Yoru abaixou lentamente a cabeça.

    Suas mãos tremiam.

    Seu corpo inteiro tremia.

    Raiva.

    Confusão.

    Dor.

    Nada parecia suficiente para descrever o que sentia.

    As lembranças da mãe invadiram sua mente.

    Seu sorriso.

    Seu abraço.

    Sua voz.

    “Então…”

    “Ela morreu…”

    “Tentando me salvar?”

    Ele ergueu lentamente o rosto.

    Os olhos estavam completamente tomados pela fúria.

    Sem dizer uma única palavra…

    Avançou.

    Seu corpo explodiu em velocidade.

    O chão rachou sob seus pés.

    Seu punho seguiu diretamente para Charles.

    Mas…

    Antes que pudesse alcançá-lo…

    Uma figura surgiu entre os dois.

    Yummi.

    Ela estendeu o único braço que ainda podia usar.

    Bloqueando completamente o ataque do irmão.

    Os olhos dos dois se encontraram.

    Yoru respirava como um animal encurralado.

    Yummi o encarava em silêncio.

    E Charles…

    Continuava sorrindo atrás dela.

    Como se aquela fosse apenas a primeira peça de uma verdade muito maior

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