Capítulo 271 – Última noite de paz
O relógio continuava avançando.
Mas, para aqueles que conheciam a verdade…
Cada segundo parecia muito mais pesado do que o anterior.
Tokyo permanecia exatamente igual.
As ruas estavam lotadas.
As pessoas iam ao trabalho.
Estudantes caminhavam para suas escolas.
Os restaurantes abriam normalmente.
Casais passeavam pelos parques.
Era uma rotina comum.
Uma cidade viva.
Entretanto, escondida sob aquela aparência tranquila, existia uma tensão invisível.
A sensação de que algo gigantesco estava prestes a acontecer.
E, curiosamente…
Os principais envolvidos não estavam preocupados apenas com uma batalha.
O problema era o que aconteceria depois dela.
Caso Charles caísse…
Todo o sistema que sustentava o submundo japonês desabaria junto.
Velhas alianças seriam reveladas.
Corrupções viriam à tona.
Organizações desapareceriam.
Outras surgiriam.
E nomes enterrados pela história voltariam à superfície.
A guerra não destruiria apenas pessoas.
Ela destruiria uma era inteira.
…
Mansão Enzo
A enorme sala de reuniões era iluminada apenas pela luz que entrava pelas janelas.
Sobre uma mesa de madeira nobre havia diversos documentos, mapas, fotografias e relatórios de inteligência.
Enzo permanecia em pé, observando tudo em silêncio.
Vip folheava alguns papéis.
Já Enrico terminava de organizar pequenas marcações em um grande mapa de Tokyo.
Depois de alguns minutos, Enrico quebrou o silêncio.
— Nunca imaginei que esse dia realmente chegaria.
Vip respirou lentamente.
— Eu também não.
Enzo continuava olhando pela janela.
Seu reflexo aparecia no vidro.
Depois de alguns segundos, falou.
— Amanhã começa a parte mais perigosa.
Os dois voltaram seus olhares para ele.
— Não estou falando da luta. Estou falando do que vem depois.
Vip apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Você acha que Charles realmente cai se perder a Yummi?
Enzo permaneceu alguns segundos calado.
— Não, Charles não depende apenas dela.
Ele virou lentamente.
— Mas perder a Yummi significa perder sua principal muralha.
Enrico cruzou os braços.
— E isso abriria espaço para vários predadores.
Enzo assentiu.
— Exatamente.
Ele caminhou até o mapa.
Com uma caneta, circulou diversas regiões.
— No momento em que Charles demonstrar fraqueza…
Esses lugares entrarão em guerra.
Vip observava atentamente.
— Gangues, Organizações, Mercenários e Antigos Aliados.
Enzo confirmou.
— Todos tentarão pegar um pedaço do império dele.
Ele respirou fundo.
— Mas existe alguém que me preocupa mais.
Os dois já sabiam quem era.
— Kira…
Enzo apenas confirmou com a cabeça.
A expressão dele ficou muito mais séria.
— Aquela mulher nunca desperdiça oportunidades.
Enrico concordou.
— Ela deve estar esperando exatamente esse momento.
Enzo olhou novamente para a cidade.
— Se Charles cair…
Ela não tentará apenas assumir território.
Sua voz ficou mais baixa.
— Ela vai querer tudo.
Silêncio.
— Informações.
— Contatos.
— Recursos.
— Arquivos.
— Dinheiro.
— Influência.
Vip fechou lentamente um dos relatórios.
— Ela vai querer o império inteiro.
Enzo respondeu.
— Sim.
— E isso será uma desgraça.
O ambiente ficou completamente silencioso.
Depois de alguns instantes, Enrico perguntou:
— E se ela conseguir?
Enzo respondeu sem hesitar.
— Trocaremos um tirano por outro.
…
Esconderijo de Kira
Em um enorme escritório iluminado por telas digitais, Kira permanecia sentada em uma cadeira giratória.
À sua frente havia diversos monitores.
Cada um exibia informações diferentes.
Rotas.
Interceptações.
Conversas.
Fotografias.
Ao seu lado…
Uma mulher observava tudo calmamente.
Yue.
A antiga aliada de Charles.
Agora…
Sua maior traidora.
Kira girou lentamente a cadeira.
— Então…
Tem certeza?
Yue respondeu imediatamente.
— Absoluta.
— Enzo realmente pretende atacar a Yummi.
Kira abriu um pequeno sorriso.
— Excelente.
Ela levantou-se.
Caminhou lentamente até uma enorme janela.
— Faz muito tempo que espero por isso.
Yue cruzou os braços.
— Charles nunca vai imaginar que fui eu quem começou a espalhar parte dessas informações.
Kira olhou para ela.
— Você fez um ótimo trabalho.
Yue não demonstrou qualquer emoção.
— Apenas devolvi tudo o que ele fez comigo.
Por um breve instante…
Seus olhos ficaram frios.
Muito frios.
Kira percebeu.
— Ainda o odeia.
Yue respondeu apenas:
— Não.
Silêncio.
— Odeio o homem que ele escolheu se tornar.
…
Na outra ponta da sala…
Um rapaz observava diversos documentos espalhados sobre uma mesa.
Danilo.
Ex-número dois da Escola 35.
Conhecido pela inteligência estratégica e pela incrível capacidade de antecipar movimentos.
Ele fechou uma pasta.
— Tudo está encaixando.
Kira aproximou-se.
— O que encontrou?
Danilo apontou para um mapa.
— Veja.
Ele circulou três pontos.
— Enzo atacará aqui.
Depois apontou outro.
— Charles reagirá daqui.
Por fim…
Marcou um terceiro local.
— E nós…
Entraremos por aqui.
Kira sorriu.
— Enquanto eles estiverem ocupados se matando…
Danilo concluiu.
— Nós esvaziaremos os cofres de Charles.
Yue permaneceu observando em silêncio.
Danilo continuou.
— Além disso…
Ele pegou outro documento.
— Existe uma grande chance de Yummi morrer nessa batalha.
Kira respondeu naturalmente.
— Espero que sim.
— Ela é um problema enorme.
Danilo voltou a falar.
— E Charles…
Mesmo que sobreviva…
Nunca mais terá tempo para reorganizar seu império.
Kira deu uma leve risada.
— Dois inimigos eliminados em uma única jogada.
Ela voltou a olhar pela janela.
— É quase perfeito.
Depois de alguns segundos…
Seu sorriso desapareceu.
— Quase.
Danilo percebeu.
— Ainda existe alguém.
Ela respondeu sem sequer pensar.
— Yoru.
Yue ergueu discretamente o olhar.
Kira continuou.
— Aquele garoto…
É imprevisível.
Ela respirou lentamente.
— Quanto mais informações recebo…
Mais tenho certeza.
Virou-se para os dois.
— Se ele sobreviver aos próximos anos…
Não haverá ninguém capaz de detê-lo.
Danilo concordou.
— O potencial dele é absurdo.
Yue completou.
— Não é apenas potencial.
Os dois olharam para ela.
— Ele muda as pessoas ao redor.
A sala ficou em silêncio.
Yue continuou.
— Pessoas comuns começam a acreditar que conseguem enfrentar monstros.
— Organizações rivais passam a cooperar.
— Velhos inimigos unem forças.
Ela fechou lentamente os olhos.
— Esse é o verdadeiro perigo do Yoru.
Kira ficou alguns segundos refletindo.
Depois sorriu.
— Então talvez…
Depois que Charles cair…
O próximo problema seja justamente ele.
…
Na mesma hora…
Em um lugar desconhecido.
Charles permanecia sozinho em sua sala.
Sobre sua mesa havia dezenas de relatórios.
Mas ele não lia nenhum.
Seu olhar estava fixo em uma fotografia antiga.
Nela apareciam vários homens da antiga geração.
Entre eles…
Caprio.
Beobunk.
Akira.
E um jovem Charles.
Ele segurou a fotografia por alguns instantes.
Então murmurou:
— Está chegando…
Guardou a imagem na gaveta.
Levantou-se.
E caminhou até a enorme janela.
Ao longe, as luzes de Tokyo brilhavam como estrelas.
Charles sorriu.
Não era um sorriso de preocupação.
Era um sorriso de expectativa.
— Finalmente…
A nova geração resolveu bater na porta do inferno.
Ele fechou lentamente os olhos.
— Espero que estejam preparados para descobrir o que realmente construí durante todos esses anos.
Um forte vento atingiu a janela.
No horizonte…
Nuvens negras começavam a cobrir completamente o céu.
A tempestade já podia ser vista.
E ninguém mais seria capaz de detê-la.
….
Faltavam poucas horas.
A cidade continuava iluminada.
Os letreiros de neon coloriam as ruas de Tokyo.
Os bares estavam cheios.
As estações de trem ainda recebiam milhares de pessoas.
Os restaurantes funcionavam normalmente.
Ninguém imaginava que aquela poderia ser a última noite de paz antes de um dos maiores confrontos da história do submundo japonês.
Enquanto a população dormia tranquilamente…
Os verdadeiros jogadores permaneciam acordados.
Cada um preparando sua própria jogada.
Cada um acreditando que sairia vencedor.
Mas apenas um deles conhecia toda a verdade.
Ou pelo menos…
Era isso que acreditava.
…
Esconderijo de Kira
O relógio marcava duas horas da madrugada.
O enorme escritório estava quase completamente escuro.
A única iluminação vinha das telas espalhadas pela sala.
Kira permanecia sentada em uma cadeira de couro, observando um gigantesco painel com diversas informações.
Rotas.
Movimentações.
Comunicações interceptadas.
Posições de soldados.
Ela apoiou o rosto sobre uma das mãos.
E então…
Sorriu.
Um sorriso verdadeiro.
Raro.
— Finalmente…
Sua voz saiu quase como um sussurro.
— Esperei tantos anos por esse momento…
Atrás dela, passos leves ecoaram.
Yue entrou calmamente na sala.
Vestia roupas pretas.
Na cintura…
Sua espada permanecia presa à bainha.
Ela caminhou até a janela e permaneceu observando a cidade.
Depois de alguns segundos, falou sem sequer olhar para Kira.
— Você está feliz demais.
Kira riu.
— E como não estaria?
Ela levantou-se.
Abriu os braços enquanto caminhava lentamente.
— Charles…
Yummi…
Enzo…
Todos finalmente resolveram se mover ao mesmo tempo.
Ela deu uma pequena volta pela sala.
— É perfeito.
Yue continuava olhando pela janela.
— Ou desastroso.
Kira arqueou uma sobrancelha.
— Está pessimista?
Yue passou lentamente a mão sobre o cabo da espada.
O som metálico ecoou pela sala.
— Não.
— Apenas realista.
Silêncio.
Ela finalmente virou o rosto.
Seu olhar era frio.
Muito frio.
— Talvez…
Ela fez uma pequena pausa.
— Essa seja a sua última noite.
A frase ficou suspensa no ar.
Kira permaneceu imóvel.
Depois…
Começou a rir.
Primeiro discretamente.
Depois…
Cada vez mais alto.
— Hahahaha…
Ela levou a mão ao rosto.
— Yue…
Você realmente acha que isso me assusta?
Yue respondeu calmamente.
— Não.
— Apenas achei que deveria lembrar.
Kira aproximou-se lentamente.
Parou bem à frente dela.
— Escute bem.
Seus olhos brilhavam de ambição.
— Passei anos esperando essa oportunidade.
— Planejei cada detalhe.
— Criei alianças.
— Traí pessoas.
— Perdi homens.
— Sacrifiquei tudo.
Ela apontou para o próprio peito.
— Não existe mais caminho de volta.
Yue permaneceu em silêncio.
Kira continuou.
— Agora…
É tudo…
Ou nada.
Ela sorriu novamente.
— Se eu morrer…
Morro tentando tomar este país.
Yue fechou lentamente os olhos.
— Continua igual.
— Sempre enxergando o mundo como um enorme tabuleiro.
Kira respondeu imediatamente.
— Porque ele é.
Silêncio.
Yue caminhou em direção à porta.
Antes de sair…
Disse apenas:
— Espero que você esteja certa.
As portas se fecharam lentamente.
Kira voltou até a janela.
Olhou para Tokyo.
— Amanhã…
Tudo muda.
…
Sede da GHV
No último andar do edifício.
Charles permanecia sozinho.
O enorme escritório era luxuoso.
Livros antigos.
Quadros.
Esculturas.
Uma garrafa de whisky aberta.
Mas nada daquilo chamava tanta atenção quanto o próprio Charles.
Ele estava sorrindo.
Não era um sorriso discreto.
Era um sorriso largo.
Quase divertido.
Como o de alguém que já sabia exatamente como uma partida terminaria.
Toc… Toc…
— Entre.
A porta abriu.
Yummi entrou calmamente.
Vestia um longo sobretudo preto.
Sua expressão permanecia séria.
Ela caminhou até a mesa.
— Charles.
Ele continuou olhando pela janela.
— Sim?
— Ficou sabendo?
Charles respondeu sem sequer virar.
— Sobre o quê?
— Parece que o Enzo conseguiu colocar as mãos naquele documento.
Charles finalmente virou lentamente.
Por um segundo…
Permaneceu completamente imóvel.
Depois…
Seu sorriso aumentou ainda mais.
Yummi franziu a testa.
— Você está sorrindo?
Charles começou a rir.
Uma risada baixa.
Controlada.
— Hahaha…
Yummi permaneceu olhando para ele.
— O que foi?
Charles caminhou lentamente até ela.
— Yummi…
Você realmente acredita nisso?
Ela cruzou os braços.
— A informação já chegou por várias fontes.
— É difícil ignorar.
Charles colocou as mãos nos bolsos.
— Justamente.
Silêncio.
— Quando uma informação importante se espalha rápido demais…
Ela normalmente foi feita para ser encontrada.
Yummi ficou pensativa.
— Você acha que é uma armadilha?
Charles respondeu imediatamente.
— Claro que é.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Então…
Você quer que eu ignore?
Charles abriu um sorriso.
— Muito pelo contrário.
Yummi ficou surpresa.
— Quero que você vá.
Ela permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Mesmo sabendo que é uma emboscada?
Charles caminhou novamente até a enorme janela.
— Sim.
— Porque existe uma possibilidade.
— E possibilidades movem o mundo.
Yummi aproximou-se.
— Explique.
Charles olhou para a cidade iluminada.
— Imagine comigo.
Ele levantou um dedo.
— Primeira hipótese.
— O documento é verdadeiro.
Levantou outro dedo.
— Se isso acontecer…
Você precisa recuperá-lo antes que qualquer jornalista coloque as mãos nele.
Outro dedo.
— Segunda hipótese.
— O documento é falso.
Ele sorriu.
— Então encontraremos todos aqueles que tiveram coragem de desafiar a GHV.
Yummi permaneceu em silêncio.
Charles virou-se lentamente.
— Em qualquer um dos casos…
Nós ganhamos.
Ela analisou aquelas palavras.
— Você já esperava isso…
Charles respondeu.
— Desde o momento em que Enzo desapareceu do meu radar.
Ele voltou até sua mesa.
Pegou um copo de whisky.
Girou lentamente o gelo.
— Conheço aquele homem.
— Ele jamais faria um movimento sem um segundo objetivo escondido.
Yummi perguntou:
— Então…
Por que me mandar?
Charles bebeu um pequeno gole.
Depois respondeu olhando diretamente para ela.
— Porque entre todos os meus homens…
Você é a única em quem confio completamente.
O ambiente ficou silencioso.
Charles continuou.
— Vá.
— Intercepte o transporte.
— Recupere o documento.
Sua voz tornou-se mais fria.
— E…
Se realmente for uma armadilha…
Mate todos.
Sem exceção.
Yummi assentiu lentamente.
— Entendido.
Ela caminhou até a porta.
Antes de sair…
Perguntou:
— Existe mais alguma coisa?
Charles permaneceu alguns segundos olhando para a cidade.
Então respondeu:
— Sim.
Ela esperou.
— Caso encontre Yoru…
O silêncio tomou conta do escritório.
Yummi permaneceu imóvel.
Charles concluiu:
— Não o subestime.
Ela sorriu discretamente.
— Nunca subestimei meu irmão.
— É justamente por isso…
Que vou lutar com tudo.
Ela saiu.
A porta fechou-se lentamente.
Charles permaneceu sozinho.
Observando as luzes de Tokyo.
Seu sorriso voltou.
Mas, pela primeira vez…
Havia algo diferente nele.
Não era apenas confiança.
Era expectativa.
Como se aguardasse um espetáculo.
Ele olhou para um antigo relógio pendurado na parede.
Os ponteiros avançavam lentamente.
— Façam seus movimentos…
Murmurou.
— Amanhã…
O tabuleiro finalmente será virado.
Lá fora…
O céu começou a ser coberto por nuvens densas.
Um trovão cortou a madrugada.
E a última noite de paz chegou ao fim.

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