Capítulo 122 — DNA
O treino da manhã terminou antes que o sol subisse por completo.
Marco atravessou o pátio do QG com a espada embainhada na cintura, o casaco aberto no peito e a respiração ainda pesada demais para o frio. A neve endurecida estalava sob as botas a cada passo. Uma camada fina de vapor saía da gola dele, sumia no ar e voltava no passo seguinte.
Lou-reen caminhava ao lado sem sinal de esforço.
A capa dela estava presa no ombro, a espada na cintura, o cabelo quase imóvel apesar do vento. Se tinha corrido, golpeado, desviado e obrigado Marco a repetir a mesma sequência até os braços dele falharem, nada no corpo dela denunciava isso.
Halikah vinha do outro lado, com neve no cabelo e uma marca vermelha no antebraço. Mesmo assim, acompanhava o passo da general sem arrastar os pés.
Lou-reen olhou para ela de relance.
— Você sustentou bem o ritmo.
Halikah demorou meio passo para responder.
— No colégio, a gente corria com carga.
Marco virou a cabeça para ela, ainda respirando pesado.
— Com carga?
— Às vezes.
— No colégio?
Halikah assentiu. Lou-reen continuou andando.
— A carga do colégio é leve.
— Depende do instrutor — Halikah disse.
Marco soltou uma risada curta, sem fôlego.
— Claro. Depende do instrutor. Porque aparentemente existe uma escala de tortura escolar.
Halikah olhou para ele, sem saber se devia responder.
— Era mais solto do que hoje.
— Mais solto?
— Sim. Hoje foi mais rígido.
Marco olhou para Lou-reen.
— Ela está dizendo que o treino em que eu quase morri foi só mais rígido.
Lou-reen não diminuiu o passo.
— Você não quase morreu.
— Essa não é uma defesa tão boa quanto você acha.
Halikah abaixou os olhos por um instante, mas não conseguiu esconder o começo de sorriso.
— O senhor levantou todas as vezes.
— Porque ela mandava.
— Isso também conta.
Marco apontou para as duas.
— Como assim vocês treinam desse jeito no colégio? Vocês são crianças.
Halikah franziu a testa.
— Crianças entram no colégio após dez invernos.
— Isso piora a frase inteira.
Lou-reen empurrou a porta lateral do galpão.
— Aos quinze vão para a Academia.
— Também piora.
— Aos dezoito entram no Exército.
Marco apontou para ela com a espada.
— Essa é exatamente a parte que eu estou criticando.
O cheiro do galpão veio primeiro: pedra úmida, ferro, pano usado, sedativo espalhado em medida baixa e alguma coisa amarga que já fazia parte daquele lugar desde a noite anterior. Halikah parou no limiar.
Reinna estava sedada, o corpo pesado contra as contenções, a cabeça caída para a frente. O cabelo sujo cobria parte do rosto, mas não o bastante para esconder a linha alterada da mandíbula nem a diferença dos olhos entreabertos.
Lou-reen entrou primeiro. Marco também parou de respirar pelo riso e entrou atrás dela.
Antes que Marco desse o segundo passo dentro do galpão, Hegoria largou o carvão sobre a bancada.
— Você disse que todas as partes do corpo são feitas dessas células.
Ela veio na direção dele sem esperar cumprimento.
Hegoria não parecia ter dormido. O cabelo estava preso de qualquer jeito, com fios soltos perto das têmporas. As mangas estavam dobradas acima dos cotovelos. Havia manchas secas nos dedos, carvão na lateral da mão e uma atenção acesa demais nos olhos.
Atrás dela, o microscópio continuava montado sobre o balcão.
Ao redor dele havia lâminas de vidro usadas, frascos abertos, tiras de pano manchadas e folhas presas sob pesos de metal. Algumas tinham círculos desenhados às pressas. Outras traziam palavras riscadas no meio, com novas anotações espremidas nas margens.
Ela apontou para Marco, como se tivesse segurado a pergunta por horas.
— Pele, sangue, músculo, órgão. Tudo. Mas não são iguais. Você disse que não são iguais. Então o que muda? Forma? Tamanho? Função? Ou a essência se prende de modo diferente em cada uma?
Marco piscou, ainda tentando sair do frio do pátio e entrar no ar pesado do galpão.
— Bom dia para você também.
Hegoria pareceu perceber a ordem errada das coisas um segundo tarde demais.
— Bom dia. — A palavra saiu automática. — O sangue também? Porque sangue não mantém forma. Ele corre. Então as células dele são livres? Ou a parte importante está no líquido entre elas?
Marco olhou para Lou-reen por reflexo. A general só ergueu uma sobrancelha. Hegoria apontou para a bancada.
— E músculo. Se músculo contrai, a célula contrai ou muitas contraem juntas? A fibra que eu vejo com lâmina comum é uma célula inteira ou um conjunto? Quando uma parte morre, a célula morre primeiro ou o tecido morre primeiro?
Marco levantou uma mão.
— Devagar.
— Eu passei a noite tentando comparar.
— Eu percebi.
— O microscópio não mostra como uma lente comum. Ele muda a escala inteira. — Hegoria voltou metade do corpo para o balcão, como se precisasse olhar as próprias anotações para continuar falando. — Uma camada de pele não é uma camada. É um agrupamento. O músculo não é só carne. O sangue não é só líquido. Tudo é feito de partes menores, repetidas, mas não do mesmo jeito.
Ela virou de novo para Marco.
— Então uma célula viva e uma célula morta são diferentes no formato? Na cor? Na reação à essência? Se uma célula ainda responde, mas a fibra inteira não, o tecido está morto ou só incapaz de organizar resposta?
Marco passou a mão pelo rosto, cansado.
— Hegoria, isso eu sei só por cima.
Ela travou.
— Só por cima?
— No meu mundo, isso é estudado por especialistas. Médicos, biólogos, fisiologistas. Eu sei o princípio. Sei o bastante para explicar a ideia geral. Não consigo substituir uma médica.
— Mas você sabe o que é.
— Sei.
— Então já é mais do que eu tinha ontem.
Marco não discutiu.
Hegoria voltou para a bancada e pegou uma folha. O carvão tinha marcado círculos pequenos, linhas, setas e palavras ainda sem sistema.
— Você disse que algumas células carregam instrução do corpo.
— Eu disse que, no meu mundo, entendemos que as células carregam instruções sobre como o corpo se forma e se mantém.
— Essas instruções ficam onde?
Marco hesitou.
“Vai lá, garoto do espaço. Explique DNA para uma médica que descobriu células ontem”. Nova alfinetou na mente dele.
Marco quase fechou os olhos.
— Dentro da célula — ele disse. — Na maior parte delas, existe uma estrutura menor. Um núcleo. E dentro dele há uma substância que guarda essas instruções.
Hegoria ficou imóvel.
— Uma substância?
— Sim. Não é essência, não é pensamento. É química. No meu mundo, chamamos de DNA.
— E essa… química… diz à célula o que ela deve ser?
— De forma muito simplificada, sim. Ela carrega instruções. Como formar partes do corpo, como manter certas funções, quando dividir, quando parar.
Hegoria olhou para Reinna.
— Então, se a transformação alcança essa instrução…
Marco não respondeu de imediato.
“Retiro parcialmente o ‘medieval’. Ela entendeu genética em menos de um minuto”, Nova disse.
— Aí eu já não sei afirmar — Marco falou. — Eu sei o princípio. Não sei dizer como a essência mexeria nisso. Nem se mexe diretamente.
Hegoria virou o rosto para ele.
— Isso é possível?
— Eu não sei.
— Mas, no princípio, é possível?
Marco apertou a mandíbula.
— Hegoria, eu não sei como a essência interage nesse nível.
— Não perguntei como. Perguntei se a instrução pode ser alterada.
— No meu mundo, pode.
Os olhos dela acenderam de novo.
— E quando muda, o corpo muda junto?
— Depende.
— Depende de quê?
— De muitas coisas.
— Quais?
Marco ficou em silêncio por tempo demais. Hegoria deu mais um passo.
— Se a célula carrega a ordem de formar pele, músculo, sangue… e alguma coisa altera essa ordem, ela continua tentando obedecer? Mesmo errada? É assim que um corpo deixa de ser o que era?
— Doutora — Lou-reen cortou.
Hegoria parou. Lou-reen olhou para Marco por um instante, depois voltou para Hegoria.
— Ele já disse que não sabe.
Hegoria ficou com a pergunta presa na boca, olhando para Marco como se ainda houvesse mais três perguntas na ponta da língua.
— Certo — ela disse, baixo.
Marco soltou o ar devagar.
— Eu consigo explicar o princípio — ele disse. — Célula, núcleo, DNA, instrução. Mas não consigo te dizer o que a essência faz com isso. No meu mundo não existe essência.
Hegoria baixou os olhos para as anotações. Pegou uma folha.
— Eu estava tentando entender o corpo depois que ele muda. Mas talvez a mudança real comece antes. Se a essência altera as células primeiro, o corpo inteiro só obedece depois.
Lou-reen interrompeu antes que Hegoria avançasse para outra explicação.
— Isso ajuda a reverter o estado dela? Ou o de uma próxima vítima?
Hegoria ficou com a folha suspensa entre os dedos.
— Só se eu descobrir até quando o corpo ainda obedece ao que era.
A frase saiu baixa, quase para si própria. Marco ficou imóvel.
Hegoria continuou, agora mais rápida:
— A pele endurecida, a fibra torta, o músculo que puxa força demais, o órgão sobrecarregado… tudo isso pode ser etapa avançada. Se a alteração começa nas células, talvez exista um ponto anterior ao colapso. Um ponto em que o corpo ainda não terminou de aceitar a mudança.
Lou-reen não deixou a palavra passar.
— Aceitar?
Hegoria ergueu a folha um pouco, como se corrigisse a própria formulação.
— Responder. Quero dizer responder. Se a essência força uma direção, o corpo pode reagir contra ela por um tempo antes de ceder. Se eu encontrar esse estágio, talvez seja possível interromper o processo antes de outra Reinna chegar a isto.

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