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    A corrente de águas quentes leva consigo um vapor natural. Já do lado de fora do galpão onde a fonte térmica cruza, Raisel está nos últimos ajustes de sua vestimenta para ir ao encontro com a Matriarca. As manoplas são presas até os antebraços e a espada se estabelece fixamente ao lado esquerdo da cintura.

    “Essa é a terceira vez que eu troco de roupa desde que vim pra cá e a qualidade do tecido faz-me sentir como um nobre…” 一 Deslizando os olhos para os lados, ele avança em direção à porta enquanto escora o palmo canhoto sobre o cabo da arma.

    No seu caminhar, o rastro de tecido no pescoço balança como um cachecol, mas acoplado diretamente na gola. O colete ainda existe com os ombros levemente pontiagudos, mas com uma segunda camada de roupa por baixo, mangas longas negras e com adornos claros. A faixa na cintura também é branca, as calças e sapatos terminam com o tom preto.

    一 Até que caíram bem em você as nossas roupas de luto. 一 De braços cruzados, Thamina o espera logo adiante escorada em uma árvore.

    一 Eu fico melhor vestindo coisas escuras. Não curto muito essas roupas de vocês mais claras e tão abertas… 一 os braços suspendem pelas laterais do corpo, caminhando rumo ao salão central.

    一 Que mesquinho. O que tem de demais mostrar o corpo? O que você tem, todo homem tem. O que eu tenho, toda mulher tem… 一 com uma das sobrancelhas levantadas, a elfa se inclina para frente e gesticula usando uma das palmas.

    一 E daí? A privacidade faz bem, principalmente quando se chama alguém dentro do quarto da pessoa. 一 Ele a encara de soslaio junto de um suspirar pelo nariz.

    一 Eu já disse que não foi de propósito, tá bom?! Eu bati na porta e te chamei! Você não veio e aí eu abri pra te chamar diretamente! 一 os ombros dela sobem e os braços se unem à lateral do corpo conforme os passos batucam contra o chão.

    一 Sei, sei… 一 revirando os olhos, ele segue com uma breve inclinação de cabeça para trás.

    一 Que saco! Você é muito chato! 一 Ela acelera o passo sem olhar para trás.

    Após alguns minutos, eles entram em um dos corredores abertos que levam diretamente até o local de encontro. Próximo de uma das entradas laterais, outros elfos de cabelos brancos assistem a chegada do rapaz guiado pela beldade dos Thinkanin. Os machos o encaram com hostilidade, mas Raisel não devolve e segue em frente mantendo o foco.

    Thamina empurra a porta e a vista para o salão se abre, definitivamente mais decorado. Logo atrás dela, o menino repara nos detalhes e ornamentos novos que cruzam pelo teto de parede à parede. As ligas de ouro com detalhes cristalizados, os sons de instrumentos que ele nunca viu antes e o cheiro comum de tulipas no ar.

    一 Eu saúdo a Matriarca. 一 A mulher abaixa a cabeça enquanto leva a mão até próximo do peitoral, expondo a lateral da palma.

    一 Obrigado por cuidar dele, Thamina. Está dispensada. 一 Sentada sobre uma grande almofada, a moça com uma coroa de ramos dourados na cabeça gesticula com a palma para trás e para frente no abanar.

    A elfa de corpo voluptuoso se retira em passos laterais, mantendo a cabeça baixa. Os demais familiares se mantêm próximos das paredes em posição formal, braços para trás e pernas eretas.

    Entre as filas de pessoas presentes nos cantos, Raisel se aproxima do centro e se abaixa, agachando com um dos joelhos ao chão. De cabeça baixa enquanto de frente para a figura de autoridade máxima, ele suspira lentamente…

    “Tem tantas pessoas aqui. Vieram só me ver? Será que vai acontecer algo a mais? Merda… Tantos olhares em mim.”

    一 Raisel, erga a sua cabeça. 一 Os olhos claros da mulher emitem constantemente uma fumaça etérea que preenchem os arredores do seu rosto.

    Atendendo à ordem, o semblante antes nervoso, endurece sob a afiação das íris douradas.

    一 Eu, a Quarta Matriarca da Casa Thinkanin, Obelina, reconheço as suas qualidades virtuosas para carregar consigo o emblema de Viajante. Sob a autoridade dessa insígnia, você será encarregado de prestar Favores, contabilizar e registrar as trocas. 一 Entre os dedos da elfa, ela estende um broche dourado com a imagem de um tulipa esculpida cuidadosamente, repleta de runas e linhas quase imperceptíveis.

    O item flutua até Raisel conforme é carregado pela energia azul da autoridade. Já próximo, ele o agarra com a palma direita e leva o punho até à frente do peitoral. Abaixando a cabeça novamente, o seu Gewissen surge gradualmente conforme se expande como uma chama dourada no ambiente.

    “Tanto a Thamina e o Zairom disseram que na hora de receber a insígnia, era necessário deixar visível a sua energia e concentrá-la no artefato.” 一 Dentro da mão, as runas e linhas ocultas do broche cintilam sobre a mesma cor áurea do rapaz.

    Em alguns segundos, ele emite um som como uma trava sendo aberta, um clique. O garoto rapidamente reprime a sua energia e o silêncio toma conta do salão.

    “Pelo menos não explodiu como as caixas de vidro da Ferihylis.” 一 aliviado, os olhos piscam demoradamente.

    No breu da sua visão, diversas labaredas claras, mas multicolores, surgem. Ao observar os arredores, todos presentes elevam as suas energias tal qual ele fez há pouco com o som sutil de diversos aplausos usando apenas o dedo indicador e médio sobre a palma. Os aplausos em conjunto assemelham-se à estalos. Mas, de repente, a ‘salva de palmas’ e os brilhos cessam com o assobio vindo da Matriarca.

    一 Algo a dizer antes de encerrarmos a cerimônia? 一 escorando o punho contra a lateral do rosto, a braçadeira da grande almofada apoia o seu cotovelo.

    Ainda sem dar uma resposta, Raisel encara o objeto emitindo um vapor dourado em sua palma.

    “Pra ser sincero, não foi me explicar muito bem o porquê de estar aqui… As coisas só foram acontecendo e isso pareceu ser o certo. Mas, por algum motivo, existem tantas coisas que parecem erradas em uma civilização de pessoas que vivem por dois séculos.” 一 as sobrancelhas apertam-se sobre a testa.

    一 Eu espero entender melhor a sociedade dos Puros e, para isso, vou me esforçar ao máximo. 一 ele encara a Matriarca diretamente.

    Na troca de olhares, os cantos dos lábios neutros da mulher decaem brevemente. Logo, os passos dos demais ecoam perante o encerramento da cerimônia e, no fim, as portas se fecham.

    Do lado de fora da Casa Thinkanin, em meio ao vasto campo de tulipas na entrada, Umerina espera a saída do garoto enquanto está sentada numa pedra. Na vasta paisagem da manhã, Raisel caminha pela estrada de paralelepípedos de mármore atravessando o campo e indo de encontro a elfa de cabelos curtos.

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