Capítulo 15 - Bjorn - Garoto Mimado
Bjorn era ferreiro, como o pai fora, e antes dele o pai do pai. O ofício vinha pelo sangue, pelas mãos e pelas costas. Na família dele, homens já nasciam sabendo que o mundo respeitava duas coisas: aço bom e braço capaz de fazê-lo. Bjorn recebera os dois. Viera largo de ombros, grosso de punhos, resistente como bigorna, e a megin ainda o tocara por cima disso. Tivera mais sorte do que os seus. Mais sorte e, se a Estrela permitisse, mais futuro.
Talvez por isso estivesse tendo tanta dificuldade em esconder o contentamento.
A armaria da Hird ali não continha nada de impossível. Não havia lâminas cantadas na língua do Senhor, nem metal moldado à força de megin, nem relíquias das histórias contadas em oficinas velhas para impressionar aprendiz.
Ainda assim, o lugar o deixava quase tonto de admiração. Tudo ali era bom. Não bom do jeito que mercador rico dizia que algo era bom, sem saber o que olhava. Bom de verdade. Couro bem curtido, rebites limpos, cabos ajustados sem folga, peso certo. Equilíbrio certo. Até as armas mais simples pareciam ter saído das mãos de gente incapaz de aceitar mediocridade.
“O trabalho mais simples daqui é tão bem feito quanto o meu melhor, guardião”, disse, com todo respeito que tinha.
Estava falando com o gigante.
O Guardião era um convidado da Hird, um imigrante vindo de um povo que Bjorn só conhecia por relatos de mercadores e viajantes. Diziam que os gigantes eram feitos para o trabalho como os lobos eram feitos para caçar. Diziam também que eram serenos, na maior parte do tempo. Bjorn acreditava nas duas coisas. Por isso, foi o primeiro dos aprendizes a reunir coragem para se aproximar, antes que os outros achassem a deles. Sabia o que podia aprender com uma criatura daquelas. Sabia também que, às vezes, uma vida inteira mudava por causa de uma única conversa dita no lugar certo.
O Guardião apontou para o martelo de guerra que ele tinha nas mãos. Era uma peça soberba. Grande, densa, finamente trabalhada, com o peso distribuído de modo tão preciso que parecia mais leve ao mover do que tinha qualquer direito de ser.
“Isso”, disse o gigante, “é sucata.”
Bjorn se mexeu um pouco, mas não por ofensa. Foi a voz.
Mesmo um homem do tamanho dele — e havia quem o chamasse de pequeno gigante, quando queriam irritá-lo ou elogiá-lo — tinha dificuldade de não levar as mãos aos ouvidos quando o Guardião falava. A voz não saía, ela avançava, era profunda. Como se o ar precisasse se abrir para deixá-la passar.
“Acho que fico com essa”, respondeu Bjorn.
Não se sentia insultado. Todo ferreiro decente passava por humilhações piores durante o aprendizado. Às vezes da boca do mestre, no caso dele do pai. As vezes de cliente enterrado porque uma peça falhara na hora errada. Arma ruim matava o dono com a mesma facilidade com que matava o inimigo. Se era sucata, era sucata. Um ferreiro que não entendia isso acabava vendendo panela.
“Boa escolha”, disse o Guardião.
A voz viajou pela armaria e pareceu até mexer nas roupas de Bjorn.
Aquilo lhe arrancou um sorriso orgulhoso. Se o gigante chamava a peça de sucata e ainda assim a considerava melhor do que o resto, então Bjorn ao menos tinha olho para o aço, já era alguma coisa.
“Ei, grandão.”
Bjorn se virou por reflexo, certo de que era com ele.
“Você não”, disse a voz. “O outro grandão.”
Ele encontrou o dono da graça e sentiu a irritação subir antes mesmo de pensar.
O rapaz era alto para um homem comum, mas baixo perto dele. Faltava-lhe um braço. Trazia um sorriso enviesado na boca e um mordomo colado ao lado. O conjunto quase gritava nobreza. Aquele tipo que parecia atravessar o mundo como se tudo já lhes pertencesse e o resto só estivesse atrasado em reconhecer isso.
Ele nunca gostará dessa gente, homens que nunca precisaram ganhar o próprio pão não eram homens decentes. O pai dele dizia isso, e ele concordava.
“Sim?”, perguntou o Guardião, inclinando-se para o rapaz.
“Você parece entender de armas”, disse ele. “Entende bem o bastante para me indicar uma?”
A antipatia de Bjorn piorou. Um ferreiro já merecia respeito, um gigante ferreiro mais ainda. Não se falava com um ser daqueles como se estivesse pedindo cerveja barata numa esquina qualquer.
“Sim”, respondeu o Guardião.
Então se abaixou para examinar o rapaz. O gigante o olhou de vários ângulos, tocou-lhe o ombro, ajustou-lhe a postura, fez o rapaz dar um passo para um lado, depois para o outro. O nobre deixou, parecia até se divertir.
“Entendo”, murmurou o Guardião por fim. Ergueu um dos braços longos até uma prateleira alta demais para qualquer homem comum alcançar sem banco. Tirou de lá uma arma e a estendeu ao rapaz.
“É ruim”, disse. “Mas o peso diferente servirá a você.”
“Tem certeza?”, perguntou o rapaz, e o Guardião apenas assentiu.
Foi a gota.
Bjorn já tinha pouca boa vontade com nobres. A forma como o sujeito duvidou da palavra do gigante arrancou dele o resto. “Ele é um gigante, garoto mimado”, disse, contendo mal a raiva. “Então pega a droga da arma.” Arrependeu-se assim que falou.
Não por causa do nobre, por causa do Guardião. Responder daquela forma, ali, também era uma falta de respeito para com ele. Mas Bjorn tinha sangue ruim com gente bem-nascida, e certas coisas saíam antes do juízo.
O rapaz não respondeu de imediato. Ficou apenas olhando para ele com olhos negros, tranquilos demais. O mordomo demonstrou um desgosto mínimo, mas evidente com uma contração discreta no rosto. Bjorn já tinha visto aquilo antes. Sempre vinham com a mesma cara, como se o mundo inteiro lhes devesse delicadeza.
“Por que você está olhando como se fosse bater em um aleijado?”, perguntou o rapaz por fim, lançando um olhar para o próprio ombro vazio.
Bjorn abriu a boca e não saiu nada. Não por culpa, por surpresa.
Em todas as respostas que imaginara desde que o sujeito surgira, aquela não entrava em nenhuma. O silêncio caiu por um instante. O mordomo ficou duro, já o Guardião soltou uma lufada funda que Bjorn só conseguia descrever como o riso de um cavalo se cavalos soubessem zombar.
“Não me diga que agora ficou com medo de um aleijado”, continuou o rapaz, e o sorriso de canto não saiu de sua boca nem por um instante.
“Eu não seria tão desonroso”, respondeu Bjorn, encontrando enfim a própria voz.
E era verdade. Tinha orgulho demais para isso, não havia valor em esmurrar um nobre folgado. Menos ainda um nobre folgado com um braço só. Vitória assim não pesava nada na mão.
“Lute com ele”, disse o Guardião, e os três olharam para o gigante.
“Guardião…”, começou Bjorn, sem saber ao certo o que pretendia dizer. Que não era treino digno? Que não queria criar problema com algum filho de casa importante? Que aquilo era absurdo?
“Vai lhe fazer bem”, completou o gigante. Bjorn franziu a testa.
Ao rapaz, porém, a ideia pareceu agradar de imediato. O sorriso cresceu só um pouco, mas cresceu. Não como o de um nobre ofendido que finalmente ganhara licença para dar lição num artesão. Havia outra coisa ali, gosto, diversão.
“Você ouviu o grandão”, disse ele. “Não vai correr do aleijado, vai?”
Bjorn sentiu o maxilar endurecer.
Agora entendia melhor o que o incomodara desde o primeiro olhar. Não era só o jeito de nobre, nem o sorriso, nem o mordomo a tiracolo. Eram os olhos, a tranquilidade neles, o jeito que falava, como se a vergonha esperada dos outros pudesse ser tomada, virada do avesso e usada como arma, gente assim era complicada; gente que pouco se importava.
Bjorn não gostou nada daquilo, desconfiou que talvez não estivesse diante de um garoto mimado.
Talvez estivesse diante de um problema.
Havera mais capitulos hojê, caro leitor, lembrem-se de comentar.
Capitulos novos todos os dias!

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