A maça tinha um bom peso, o que por si só já era estranho dadas as circunstâncias. Hrafn a balançou algumas vezes no ar, girando-a entre os dedos, testando a inércia, sentindo o atraso curto do metal antes de obedecer à mão. Era boa, mais do que boa – era confortável.

    Não que fosse usá-la.

    Aquilo era só uma luta de treino, um sparring amistoso, e havia um limite para o quanto valia a pena parecer um desequilibrado logo no primeiro dia. Então deixou a maça de lado e escolheu um bastão de madeira mais simples, mais próximo do tipo de coisa que um homem pegaria para acertar outro num beco sem precisar pensar muito. 

    Normalmente ele não provocaria alguém de modo tão descarado, não daquela forma, não por esporte. Ou ao menos gostava de pensar que não. Mas o brutamontes parecia um bom teste, e como o gigante resolvera a questão da arma com tanta facilidade, sobrara pouco a fazer além de irritar Edvard, testar a bênção e descobrir até onde seu novo milagre pretendia sabotá-lo.

    A bênção era volátil, as vezes era difícil dizer quanto dela estava desperta e quando apenas existia ali, sob a pele, como um membro dormente que ainda era seu, mas que nem sempre respondia como devia. Na maior parte do tempo permanecia abafada, comprimida no fundo dos sentidos. Às vezes bastava pensar nela para que isso mudasse. Às vezes bastava lembrá-la e ela já vinha, sensível e desagradável, como se tivesse vontade própria. Precisaria aprender a conviver com aquilo antes que chegasse a hora de usá-la de verdade.

    “Pronto?”, perguntou o grandalhão.

    Era um sujeito grande. Grande demais para Hrafn achar sensato enfrentar em condições normais. Mas teria de lidar com coisas piores dali em diante. Ainda se lembrava dos caídos que haviam atacado o acampamento naquela noite. Mesmo o que enfrentara — um dos menores — já era maior do que qualquer homem. Os caídos vinham de muitas formas, muitos tamanhos, muitos humores. Aquilo, diante dele, era só um homem de ombros largos e mau gênio. 

    “Ei, garoto mimado”, insistiu o outro.

    Foi só então que Hrafn percebeu ter se perdido de novo na bênção e nos próprios pensamentos, porque a voz do sujeito lhe chegou lenta.

    O idiota era burro como uma porta, disso ele já estava quase certo. Quem, em perfeito juízo, o confundiria com um garoto mimado só porque tomara banho e aceitara vestir roupas que Edvard quase lhe impusera por violência moral? Hrafn começou a suspeitar de que havia alguma relação entre esse tipo de estupidez e nomes começados com B. O pensamento lhe arrancou um sorriso ao lembrar de outro idiota, menor, mas igualmente talentoso em ser estupido.

    “Pronto”, respondeu. E então se entregou de vez.

    A bênção o varreu de cima a baixo. A área de treino não era exatamente cheia de vida, mas havia o suficiente: plantas, gramado e arvores criavam uma flora decorativa, havia também as pequenas coisas, musco e fungo, enfiado em locais onde nem o mais dedicado dos servos conseguiria arrancar. 

    Mas havia mais, quando ele se entregava assim, sua benção ia para baixo, a quantia de vida sob a terra era maior, se estendia ate o limite da sua percepção e provavelmente alem. Era muito. 

    Sua mente ficou presa num instante que o corpo não conseguia acompanhar, como se o pensamento tivesse disparado na frente e o resto dele precisasse ser arrastado depois. Tentou reduzir, tentou empurrar aquilo de volta.

    Conseguiu, mas conseguiu de uma vez só.

    O passo que daria à frente saiu errado, direto demais, como alguém puxando uma corda com força excessiva só para ser jogado para trás quando ela arrebenta. Quase tropeçou. Seguiu mesmo assim, avançando para cima do sujeito num ataque que devia ter parecido mais obstinado do que treinado. O brutamontes não pareceu assustado. Se havia alguma emoção ali, parecia aborrecimento e uma pitada de desconfiança. Como se toda a situação lhe fosse um inconveniente. 

    Quando Hrafn chegou perto o bastante para ver melhor o descontentamento no rosto dele, mergulhou outra vez na bênção, e o mundo afundou em lentidão.

    Tudo mudou sem sair do lugar. Viu que o grandalhão não estava propriamente em guarda. Achara, provavelmente, que o tropeço de Hrafn já dissera o bastante sobre o nível da luta. Hrafn puxou a bênção de volta com cuidado, aproveitando as aberturas, deixando o mundo acelerar aos poucos, satisfeito ao sentir que dessa vez talvez conseguisse usar aquilo. O bastão desceu em direção ao pescoço do idiota.

    Bjorn começou a erguer a espada de madeira para aparar. Tarde. Hrafn viu as falhas. Viu várias, viu também um caminho limpo entre elas, estreito, bonito, quase inevitável, contanto que executasse tudo certo.

    Não executou.

    A bênção desapareceu de súbito outra vez. O controle se esvaiu das mãos dele como água. A troca brusca de percepção o confundiu o bastante para que o golpe passasse longe do alvo e, um instante depois, uma espada de madeira se cravasse com brutalidade na lateral do seu estômago.

    A dor o jogou de volta, e essa foi a pior parte. Ela não veio e passou, ela estendeu-se, arrastou-se dentro dele, comprida e viva, como se tivesse todo o tempo do mundo para acontecer. Os olhos de Bjorn o fitavam com uma confusão crescente, e Hrafn conseguia sentir Edvard ao lado, um passo já adiantado naquilo que em algum momento se tornaria uma corrida elegante para socorrê-lo. Não queria a ajuda, não ali, não naquela luta estúpida.

    A agonia durou por muito tempo, ou por pouco tempo; com a bênção bagunçando tudo, era difícil dizer. Foi focando a cabeça aos poucos, filtrando o excesso, reduzindo o que podia reduzir. Não precisava desligar tudo, só o bastante para suportar. Conseguiu um sucesso medíocre. O mundo continuava insuportavelmente lento, a dor continuava inteira, mas agora havia diferença dentro dela. Agora ele conseguia notar que a espada estava, de fato, empurrando sua carne para dentro, deformando o corpo antes de se afastar.

    Agarrou-se a isso e continuou.

    Empurrou as coisas para a frente, um pouco mais rápido de cada vez, sentindo a cabeça latejar em pulsos cada vez mais violentos, a megin torcida pelo esforço de ser puxada, comprimida e solta em medidas que ela claramente detestava. Quando julgou ter controle suficiente para pensar em outra coisa, buscou um modo de contra-atacar. Notou que seus pés ainda estavam bem plantados. Notou também que a espada o atingira de lado, não no centro. Isso lhe deixava uma linha.

    Teve uma ideia – provavelmente uma ideia estúpida, mas estúpido era melhor do que nada. Planejou tudo primeiro. O pé direito empurraria o corpo para fora da linha da lâmina, o esquerdo sustentaria a base, o resto seria peso, testa e má intenção.

    Então soltou a megin bem mais rápido do que antes.

    O pé direito o arrancou da frente da espada, o esquerdo firmou o chão. E Hrafn avançou com a cabeça.

    Foi uma cabeçada surpreendentemente boa para alguém com tão pouco conhecimento de luta séria. Bem inclinada, bem colocada no ângulo certo.

    Depois disso tudo correu rápido demais, o que na verdade significava apenas que o mundo voltara ao normal e sua percepção é que estivera torta o tempo todo. Sentiu um calor instantâneo na testa, ouviu o estalo úmido de algo se quebrando, e Bjorn tombou para trás com um gemido baixo, as mãos indo tarde demais ao rosto. Hrafn foi junto, sem equilíbrio suficiente para fazer pose depois do golpe, e os dois acabaram largados no chão, respirando pesado como cães ruins após uma briga pior ainda.

    “Você não é um nobre, é?”, perguntou Bjorn por fim, a voz fanha de sangue.

    Hrafn virou o rosto para encará-lo. Tinha de dar crédito ao sujeito: aguentara um nariz quebrado sem choramingar nem um pouco. 

    “O que você acha?”, respondeu.

    Estava se divertindo com a ideia, e isso ao menos ajudava a aliviar um pouco a dor de cabeça e a torção desagradável na megin.

    “Bom”, disse Bjorn, fungando sangue e orgulho ao mesmo tempo. “Nunca vi um nobre lutar como um vagabundo…” 

    Hrafn soltou uma risada curta. 

    “Olha só”, zombou. “Que brilhante.”

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