Capítulo 17 - Alva - Bem-nascidos
O vapor do chá subia fino da porcelana. A prata não tilintava, o pano não enrugava, até a luz da manhã parecia entrar com mais cuidado ali, filtrada pelas cortinas claras e refletida no verniz escuro dos móveis.
“O jovem voroir, apesar das circunstâncias, parece ter potencial, minha senhora”, disse Astrid, terminando de alinhar a bandeja. “Ouvi dos servos que ele venceu um sparring.”
“Contra um fylkirn”, respondeu Alva, sem erguer os olhos do espelho de mão. “O mínimo para qualquer voroir.”
A resposta saiu seca, mas não vazia. Ela sabia bem o valor daquilo, sabia também o valor de fingir que não.
Sua família construíra fortuna sobre ferro, escolta e rotas que só continuavam abertas porque homens marcados pela Estrela marchavam à frente das caravanas e permaneciam de pé quando outros tombavam. O comércio enriquecia a casa. Os voroir a mantinham viva. Uma família sem voroir por gerações demais deixava de ser família e passava a ser lembrança, um nome ainda pronunciado à mesa apenas por educação ou por piedade.
Gerar um voroir, porém, custava caro, custava moeda, sangue e filhos.
Os métodos eram antigos, obscuros e guardados com o zelo de quem vendia esperança. Aumentavam as chances, diziam, e talvez aumentassem mesmo que marginalmente, mas o bastante para que ninguém ousasse abrir mão deles. O bastante para que quase toda família aristocrática séria se agarrasse à mesma lógica miserável: ter filhos em número abundante, investir mais nos melhores e rezar para que um entre eles fosse tocado pela graça antes que a ruína chegasse.
Alva pousou o espelho e tomou a xícara.
“Meus irmãos estão tentando negociar com Hakon”, disse, soprando o chá antes de provar. “E você espera que eu vá até esse… aleijado?”
“Voroir, minha senhora”, corrigiu Astrid. “Um abençoado.”
‘’Não sabia que era devota’’ respondeu, torcendo um pouco a boca. “Doce.”
Astrid não se moveu. “Não há fé em mim, senhora”, corrigiu. “Mas há poder nela como um todo. Assim como há poder no voroir.” Fez uma breve pausa, então pegou a própria xícara, serviu-se e bebeu. “E o chá está no ponto.”
Alva virou o rosto devagar para encará-la.
Aquilo era uma das coisas mais irritantes em Astrid. A prima sempre soubera exatamente até onde podia ir sem que o castigo valesse o escândalo. Dizia verdades com a postura de uma criada, mas com o sangue de uma igual correndo por baixo da pele. Se Astrid tivesse nascido de ventre mais modesto, Alva a pisaria com mais facilidade. Mas sangue reconhecia sangue.
“Você fala verdades demais, querida Astrid”, disse Alva, tornando a pegar a garrafa. Desta vez serviu o chá ela mesma, corrigindo o açúcar com a própria mão. “É uma qualidade cansativa.”
“É uma qualidade útil”, respondeu. ‘’O rapaz e jovem’’.
Um dos muitos problemas de famílias aristocráticas terem filhos demais era que, cedo ou tarde, alguém acabava descendo degraus para que outros os mantivessem. Nem todos herdavam nome na mesma medida. Nem todos herdavam futuro. Alguns se casavam bem, alguns eram enviados para postos distantes, dignos o bastante para parecerem honrosos e alguns serviam casas maiores e chamavam isso de continuidade.
Astrid fora uma dessas continuidades.
Alva, em comparação, tivera mais sorte. Seu pai fora menos ambicioso com o ventre das esposas do que muitos homens do círculo interno, e por isso produzira menos filhos para disputar o mesmo teto. O problema era que os poucos que vieram eram todos competentes à sua maneira. Seus irmãos mais velhos tinham tino para números e trato político. Ela tinha rosto, nome e inteligência suficientes para não ser posta de lado. E então havia Hakon; o caçula, o pestinha.
Dezoito anos recém-completos e elevado antes que qualquer um tivesse tempo de decidir o que fazer com ele. Aquilo não fora um milagre. Fora um inconveniente.
“Assim como Hakon”, disse Alva, tomando outro gole, agora satisfeita com o sabor. “E ele, ao que parece, é o grande prêmio da estação.”
“Hakon é diferente”, respondeu Astrid, ajeitando uma dobra inexistente na toalha. “É bem-nascido. Foi educado para isto, foi ensinado a reconhecer armadilhas.”
Alva ergueu uma sobrancelha. “Supõe, então, que eu seja uma mulher de armadilhas?”
“Não suponho, minha senhora.” Astrid terminou de alinhar a última colher. “Não ousaria.” Então ergueu os olhos. “Sei que é.”
O silêncio que se seguiu teve a delicadeza de uma faca fina.
Alva sorriu. Não porque estivesse divertida, mas porque não daria a Astrid a recompensa de vê-la irritada.
“E ainda assim”, disse ela, apoiando a xícara no pires com suavidade impecável, “você veio me aconselhar.”
“Porque seus irmãos já estão fazendo o óbvio.” Astrid pegou o carrinho de chá com ambas as mãos. “E o óbvio raramente basta.”
Alva não respondeu de imediato. Ficou olhando a prima por um instante, medindo o rosto dela, o corte limpo do queixo, a compostura ensaiada. Astrid seria bonita, nobre, em outras circunstâncias. “Explique”, pediu enfim.
“Hakon tem nome, sangue, instrução, respaldo e agora bênção. Sua casa inteira já se move em torno disso.” Seus dedos apertaram de leve a alça do carrinho. “O outro não. É jovem, recém-chegado, pouco conhecido, ferido, deslocado e, segundo tudo que ouvi, não é homem que saiba muito bem onde pisar.”
“Um comum, então.”
“Um comum elevado”, corrigiu Astrid. “Que pode ser moldado antes que alguém mais esperto resolva tentar o mesmo.”
Alva deixou o olhar cair sobre os papéis separados ao lado da bandeja.
Os arquivos eram magros, com pouca origem verificável. Havia menção à deficiência, à origem obscura, à estranheza do caso, ao episódio do ataque. Quase nada ali transmitia segurança. Menos ainda prestígio.
Uma aposta ruim. Mas apostas ruins às vezes eram as únicas disponíveis para quem não tinha o luxo de herdar o melhor tabuleiro.
Hakon já seria cercado. Seus irmãos sabiam disso, outras casas também. Rapazes elevados cedo e com nome antigo atrás de si raramente permaneciam disponíveis por muito tempo, não para alianças sérias. Já o outro… o outro vinha com lacunas. E lacunas, às vezes, eram portas.
“Você está me dizendo”, murmurou Alva, “que eu devo desperdiçar meu tempo com um rapaz sem passado claro, sem refinamento, sem posição estabelecida e com um braço a menos, porque talvez ninguém ainda tenha lhe explicado o próprio valor.”
Astrid inclinou a cabeça. “Estou dizendo que homens assim costumam aprender rápido, minha senhora. E costumam se lembrar de quem lhes ensinou.”
Alva soltou uma respiração curta pelo nariz.
Se desse certo, ela ganharia precedência onde ainda não havia fila formada. Se desse errado, teria perdido tempo, dignidade e talvez algo pior: a oportunidade de mirar em alvo mais seguro enquanto os outros se moviam. Era uma aposta arriscada.
Ainda assim, o nome de Hakon lhe desagradava mais. Nunca se dera bem com o irmão caçula. Não começaria agora, só porque a Estrela resolvera tocá-lo e erguê-lo acima de onde deveria estar.
“Você fala como alguém muito confiante para uma serva”, disse Alva.
“E a senhora escuta como alguém inteligente demais para desperdiçar conselho”, respondeu Astrid.
Depois fez uma reverência curta. Correta. Insuportavelmente correta. “Com sua licença.”
Alva a viu sair sem chamá-la de volta. Quando a porta se fechou, o quarto pareceu maior.
Ela tomou mais um gole de chá e puxou os papéis para perto. Tornou a examinar o nome, as poucas notas, a caligrafia burocrática. Não gostou do que viu, não havia garantia ali, não havia nada que recomendasse entusiasmo.
Mas havia poder. E poder era a única virtude que, no fim, sobrevivia ao ridículo. “Um jovem voroir”, murmurou para si mesma.
Virou mais uma página. Poucas informações novamente. Muita margem para desastre ou… para vantagem.
Alva pousou o dedo sobre o nome como se aquilo pudesse lhe dizer algo que os relatórios não diziam.
Seria uma aposta arriscada,que não faria caso ela tivesse mais meios, mais liberdade ou irmãos menos ávidos. Mas não tinha. Restava-lhe o espaço entre o possível e o necessário.
“Bem”, disse ao quarto vazio. “Vamos ver quanto vale um comum ignorante.”

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