Índice de Capítulo

    Fenrir estava calado diante da fogueira com os olhos perdidos nas chamas. As dores persistiam, principalmente quando ficava muito tempo parado na mesma posição. Atrás dele, Heitor dormia escorado em uma árvore e Anayê prosseguia no treinamento, sentada na frente da fogueira, fazendo o ovo em sua mão flutuar, descer, flutuar, descer. Várias vezes sem parar.

    Ela mirou o ceifador por um instante. Parte de seu rosto iluminado, parte escura. Mas percebeu que a parte ainda mais escura era seu olhar perdido.

    — O que houve? — perguntou.

    — Hã? — Fenrir ergueu os olhos.

    — Seu silêncio está tão alto que eu escuto daqui.

    Ele trocou a posição dos pés.

    — Não é nada.

    — Nem vem com essa — ela retrucou.

    Fenrir hesitou. Vislumbrou Heitor totalmente adormecido e se voltou para Anayê.

    — Desembucha, Fenrir.

    — Que bem… — Hesitou de novo. — Fizemos ao vilarejo?

    Anayê baixou a cabeça por um momento.

    — Matar a aberração foi a coisa mais certa a fazer? — ele continuou.

    — Matar a aberração não é a questão — Anayê falou.

    Ela fitou o ceifador de semblante perdido.

    — Não confie nas palavras de Elchor, eu vim de onde o lorde dele governa e não há nada de bom lá — Anayê afirmou. — Você não sabe o que é ser escravo na fortaleza de Astaroth.

    Fenrir engoliu seco. A fogueira estalou.

    — A pergunta não é se matar Elchor foi certo — ela prosseguiu. —  Mas por que aquelas pessoas viram como mal, algo que consideramos bom?

    Ele ponderou com olhar imaginativo, tentando compreender a nova visão proposta pela ceifadora.

    — Quando escapei da fortaleza de Astaroth, dois idosos me enganaram e me entregaram aos maggs — Anayê contou. — E a pergunta que não saiu da minha cabeça por muito tempo foi por que eles se uniram com os inimigos de sua própria raça?

    — E você chegou a uma resposta?

    Ela suspirou profunda e lentamente.

    — Até ontem? Não. — Apontou para Heitor. — Talvez ele tenha me sugerido o caminho mais plausível até então.

    A visão de Fenrir passeou de Anayê para Heitor e depois para a ceifadora de novo.

    — O que ele disse?

    — Qual o significado de liberdade para você?

    Fenrir não respondeu de imediato. Vasculhou as memórias e as informações na sua mente por um tempo.

    — Talvez essa seja a verdadeira questão — ela disse.

    Fenrir assentiu. As dúvidas em sua mente ainda eram vivas, mas quem sabe aquele fosse um caminho para algum tipo de resposta.

    ***

    — Ei, Fenrir.

    O ceifador abriu os olhos devagar sentindo um incômodo quando a luz ainda fraca do sol atingiu seu rosto. Ele enxergou Heitor ajoelhado ao seu lado.

    — Vamos, levante-se.

    — O que…?

    — Temos muito o que fazer.

    O semblante de Fenrir se fechou numa carranca enquanto ele se sentava e observava Anayê mais à frente treinando outra vez.

    — Você precisa colocar seu corpo para funcionar se quiser uma recuperação mais rápida — Heitor comentou se erguendo. — Portanto, tenho alguns exercícios a propor.

    De início, Fenrir concordou com a ideia, entretanto, quando Heitor mandou que fizesse dez flexões e seus braços arderam como se ele estivesse dentro de um caldeirão de fogo, o ceifador desistiu imediatamente.

    — Ora, vamos, deixe de frescura — Heitor retrucou batendo nas costas dele com um galho.

    — Ai! Ai! Caramba, não faça isso.

    Fenrir tentava alcançar a parte dolorida nas costas. O pescoço empapado de suor.

    — Levante-se, você precisa fazer alguns agachamentos.

    — Nem pensar!

    — Pelo amor dos Três, você é muito fracote.

    — Você não está sentindo todos os ossos do corpo brigando por dentro.

    Anayê parou de treinar e assistiu a cena.

    Heitor bateu nas costas do ceifador de novo.

    — Mandei parar com isso! — Fenrir disse com o rosto avermelhado. 

    Anayê virou o rosto escondendo uma risada.

    — Agachamentos — Heitor ordenou.

    — Eu odeio você.

    — Ótimo. O ódio fortalece as pernas.

    Fenrir fechou a cara.

    — Se eu não estivesse tão fraco, eu ia te mostrar uma coisa.

    Heitor riu, debochado.

    — Sorte a minha que não está.

    ***

    Fenrir não fez os agachamentos. Mal conseguiu montar no cavalo e ficava resmungando enquanto Anayê e Heitor soltavam risinhos.

    Quando o sol encerrou outro dia de viagem, Heitor avisou que encontrariam uma estalagem mais à frente onde poderiam descansar e esticar as pernas.

    — Foi a coisa mais sábia que você já disse — Fenrir comentou.

    O vento estava tão frio quanto na noite anterior. Porém, antes mesmo de chegarem na estalagem, Heitor viu a fumaça e estranhou. Anayê também enxergou.

    — Acho melhor apressarmos os cavalos — o ceifador falou.

    Eles chegaram na estalagem meia hora depois e, conforme se aproximavam, mais tinham certeza de que algo havia acontecido.

    E estavam certos.

    Heitor saltou do cavalo e passou os olhos pela cena. Escombros, madeira queimada e alguns corpos. Não sobrara nada do estabelecimento.

    — O que aconteceu aqui? — Anayê indagou.

    Mais a frente, havia dois corpos enforcados no galho de uma árvore.

    — Os mercenários do exército de Mafur — Heitor falou. — Ou talvez apenas bandidos.

    Ele se aproximou de um dos corpos na árvore, um homem calvo e barbudo, de feição redonda.

    — Você conhecia? — a ceifadora perguntou.

    Heitor assentiu, sem dizer nada. Sacou um punhal e retirou os dois corpos da árvore com cuidado. Ambos tinham o pescoço inchado e marcado no ponto onde a corda se prendera.

    O vento congelante outra vez cortou o ar.

    — Sinto muito — Anayê disse.

    Eles organizaram os mortos em uma pilha que Heitor ateou fogo depois, até mesmo Fenrir os ajudou, cerrando os lábios e exalando bicas de suor.

    Quando as chamas começaram a consumir os corpos, Heitor ficou parado diante da fogueira em silêncio com uma expressão fria como o aço de uma espada, segurando seu odre e levando-o à boca de vez em quando.

    Anayê e Fenrir encontraram um local onde as paredes arruinadas ainda ofereciam proteção contra a noite e fizeram uma pequena fogueira. 

    Heitor permaneceu paralisado como um ídolo de concreto até o fogo se extinguir e sobrarem apenas cinzas. Então caminhou, trôpego, e se sentou à sombra de uma árvore.

    Anayê foi ao encontro dele com um pedaço de carne e pão. Heitor pegou a comida sem dizer nada.

    — Se quiser… — a ceifadora começou.

    — Eu vou ficar bem, garota — disse com a voz mole. — Só preciso de…

    Paralisou observando as cinzas sendo arrastadas lentamente pelo vento.

    — Droga… — limpou os olhos e fungou. — Eu não queria que minha aluna me visse desse jeito.

    Anayê ergueu a capa para se proteger do frio e varreu o horizonte escuro e denso.

    — Você é um bom mestre — ela disse. — De vez em quando.

    Os lábios dele se curvaram.

    — Acho que o Deus sem face colocou vocês no meu caminho — ele comentou. — Já faz tempo que estou sozinho.

    Ela permaneceu calada.

    — Eu já tive um lar — Heitor revelou. — Uma linda e carismática mulher.

    A ceifadora ergueu as sobrancelhas.

    — Infelizmente, ela foi embora — fungou, outra vez. — Desde então, eu me dediquei unicamente a caçar aberrações.

    — Sinto muito — Anayê falou esfregando as mãos para esquentar. — Meu irmão também me abandonou e… — Travou por um instante. — Se tornou um soldado de Astaroth.

    — Isso deve ter sido difícil.

    Anayê balançou a cabeça.

    — Mas encontrei uma nova família — a ceifadora afirmou. — E ela é incrível.

    Eles ficaram algum tempo observando o céu escuro.

    — Que tal vir para o fogo se esquentar um pouco? — ela sugeriu.

    — Parece uma boa ideia.

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