A lápide encontrada por Elicia não parecia o trabalho de um artesão, cuidadosamente produzido para enaltecer a existência de alguém que habitara este mundo com dignidade. Em vez disso, parecia algo improvisado, com inscrições grosseiramente entalhadas apenas com o objetivo de registrar “quem” estava descansando naquele lugar ermo.

    Estava escrito: “Aqui jaz Izequiel, o herói artífice.”

    Não havia informação das datas de nascimento ou falecimento, apenas aquela frase curta sobre o dono da lápide.

    Mesmo com a falta de informações, Elicia reconheceu aquele título.

    “O herói artífice.”

    — Ei! Encontrei uma coisa interessante aqui! — Elicia chamou os outros heróis.

    — Interessante de que tipo? — Will estava receoso em atender ao chamado.

    — Do tipo que é muito inconveniente de levar até aí, venham logo!

    — Eu também? — Viktor apontou para as ferramentas e objetos dispostos em sua frente. — Estou um pouco ocupado aqui, sabe?

    Elicia suspirou e terminou de desenterrar a lápide dos escombros, ou o que restava dela, na verdade. Não era tão pesada, então Elicia fez o esforço de levá-la até onde Viktor estava. Luna e Will se juntaram a eles.

    — Vejam, tinha um herói enterrado aqui, e não qualquer herói!

    Elicia começou a anunciar, empolgada, mas então percebeu que Viktor não prestava nenhuma atenção, absorto em seu trabalho.

    — Ei! Escute o que estou falando! — Ela deu um beliscão no braço dele.

    Após soltar um xingamento, ele finalmente olhou para ela, emburrado.

    — Vamos, mostre sua “grande” descoberta.

    — O herói artífice? Nunca ouvi falar. — Luna, que analisava a lápide enquanto os dois brigavam, comentou.

    — Eu também não. — Will acrescentou.

    Elicia pareceu um pouco desapontada. Ela nutria um grande entusiasmo pelos heróis do passado.

    Aqueles que trouxeram avanços mais significativos para a Cidade do Sol ganharam lendas próprias, e Elicia adorava ouvir essas histórias desde quando era uma criança. Quando teve acesso aos arquivos completos de relatórios de exploração e registros pessoais de cada grupo de heróis expedicionários, ela passara um bom tempo dormindo pouco para poder estudar tudo sem perder nenhum detalhe.

    Mas ela entendia que os únicos heróis que seriam verdadeiramente glorificados e lembrados pela eternidade seriam aqueles que dessem fim à era de sombras. Se tudo desse certo, o nome dela estaria entre eles.

    Luna e Will não tinham nenhum dever de conhecer aquele nome em particular, então Elicia os perdoava. Mas Viktor, por outro lado…

    — Você sabe quem é, não sabe?

    — Eu deveria saber?

    Elicia suspirou novamente.

    — Pare de fazer mistério! — Will exigiu.

    — O herói artífice, Izequiel, foi quem inventou os artefatos de barreira que todos os grupos de heróis expedicionários desde o século passado vinham implantando ao longo do caminho estabelecido até agora. 

    Will assobiou surpreso.

    — Caramba, então era um cara importante mesmo.

    — E não é só isso. — Continuando, Elicia olhou para Viktor e percebeu que ele finalmente reconhecera de quem se tratava a história. — Ele era o Bisavô do Viktor.

    — Ah, é, tinha isso aí… — Viktor não parecia particularmente animado com a notícia. — Acho que ele tinha morrido nessa floresta mesmo, pelo que me contaram.

    Ele então arregalou os olhos.

    Viktor não era ninguém muito estudioso como Elícia, pelo menos não no que dizia respeito a algo diferente de engenharia mística, mas ele conhecia ao menos um pouco da história da própria família. Praticamente todas as gerações de seus antepassados deixaram pelo menos um cadáver pelo caminho da expedição. 

    Ele, infelizmente, não seria uma exceção, assim pensava. Desejava quebrar aquele tradição idiota de abandonar a família e se tornar herói, mas o destino lhe reservara outro caminho. No mínimo, ele não havia deixado nenhum descendente para trás, ele seria o último da antiga e grandiosa linhagem de heróis.

    Mesmo que contra sua vontade, ele sabia um pouco sobre cada um dos seus ascendentes heróis. Sabia especialmente sobre Izequiel, mesmo que, a princípio, não tivesse reconhecido o nome e o título.

    Era o mais proeminente da linhagem, tendo inventado um dos mais importantes recursos para as expedições posteriores.

    Os registros contavam sobre cada um de seus feitos, mas também descreviam um pouco sobre sua aparência, principalmente enaltecendo sua altura imponente.

    Viktor ligou os pontos.

    — Não é possível! 

    — O que foi? — Elicia se assustou com a mudança súbita de expressão de Viktor.

    — Um espectro inteligente que sabia o suficiente sobre os artefatos para modificá-los e usava como base justamente o lugar onde você encontrou essa lápide, e com essa estatura além de tudo… — Viktor estava atordoado pela realidade. Ele, que estava sentado, deixou-se cair de costas no chão e abriu os braços.

    — Espera! Então quem estava tentando te matar era o seu bisavô? — Will declarou o óbvio, como sempre.

    — O pior é que ele quase conseguiu! — Viktor agarrou os cabelos, indignado.

    — Que reencontro familiar emocionante em. — Luna comentou sarcasticamente.

    — Não foi um reencontro, foi um encontro, ele morreu muito antes de eu nascer.

    Elicia, que até então estava boquiaberta com a revelação, começou a rir baixinho, aumentando o volume gradualmente conforme não conseguia mais se conter.

    Então todos começaram a rir também, até mesmo Viktor.

    Quando conseguiram recuperar o fôlego, o clima entre o grupo estava muito menos tenso.

    Era sempre bom criar momentos como aquele, ou os heróis simplesmente não aguentariam a pressão imensa da missão de salvar o mundo.

    … 

    Com quase uma hora de trabalho, Viktor conseguiu finalizar o conserto do artefato de barreira portátil. 

    Durante aquela hora, Elicia vasculhara incessantemente as ruínas da ruína, esperando encontrar mais alguma pista sobre a vida ou a morte de Izequiel. O seu trabalho, inesperadamente, dera frutos.

    Ela encontrara o que parecia ser um caderno, embrulhado em couro. Ao abrir o embrulho pôde-se descobrir várias runas e uma pequena gema mágica que aparentemente tinham a função de conservar o conteúdo, aquele caderno.

    Elicia leu a assinatura do herói artífice na capa, então entregou o achado à Viktor, alegando que era sua herança.

    Ele folheou o caderno e concluiu que o conteúdo tratava de vários projetos de artefatos e runas, então enrolou-o novamente no embrulho de couro e guardou-o em sua mochila para verificar depois, afinal, em breve ele estaria ocupado demais para poder estudar.

    Com o artefato consertado e mais nenhuma descoberta da ruína, era hora de partir.

    — Nós deveríamos… sabe… enterrá-lo? — Will desconfortavelmente olhava para o cadáver semi-decomposto caído na beirada da clareira.

    — Humm, eu não me importo de deixá-lo aí. — Viktor respondeu.

    — Não! Isso é um desrespeito aos heróis do passado, devemos enterrá-lo sim! — Elícia rebateu.

    — O maior desrespeito com um herói não é tentar matá-lo? — Luna deu um sorriso zombeteiro. — Não acho que esse aí esteja merecendo muito respeito depois de nos desrespeitar tanto.

    — Ele foi corrompido pela névoa negra, mas isso não anula quem ele foi antes.

    — Eu sei, eu sei, estava só brincando. Eu concordo em enterrá-lo.

    Como nenhum deles carregava consigo uma pá ou alguma ferramenta que servisse para cavar, eles apenas amontoaram pedras para cobrir o corpo e colocaram a lápide em cima.

    — Que continue morto dessa vez! — Viktor clamou. 

    Os heróis logo se dirigiram para fora da clareira em direção à onde haviam deixado seus lobos, esperando poder encontrá-los antes que os espectros voltassem para a floresta.

    Já era quase de manhã. Eles não haviam dormido naquela noite e provavelmente não conseguiriam tão cedo.

    Quando a manhã trouxe de volta a penumbra ao mundo, algo mais chegou com ela. A névoa, que até então permanecera branca, estava começando a escurecer.

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