PARTE 2 — NOVOS CAMINHOS

    Matéria e energia,

    uma  barreira intransponível.

    Da união entre Luz e Escuridão,

    a chave irá surgir,

    e entre os mundos selados

    o portal irá se abrir.

    Capítulo 9 – Depois da Queda

    GLOP.

    Uma gota cai.

    GLOP… GLOP…

    GLOP-GLOP…

    Chhhh…

    A chuva se intensifica.

    GLOP-GLOP.

    TROUM! — Um raio corta o céu.

    GLOP

    Ethos abre os olhos.

    Teto de madeira. Cheiro de lenha úmida. Peso das cobertas.

    GLOPGLOP.

    GLOP

    Fecha os olhos.

    TROUM!!

    — PAI!!

    Ethos se sentou num salto, ofegante.

    — ETHI?! — Ophélia subiu as escadas quase tropeçando e entrou no quarto bruscamente.

    — Ethi…?

    Ela para.

    Ele encara o vazio.

    Pupilas perdidas, como se sua alma estivesse distante.

    — Filhote… como você está? — perguntou baixinho Ophélia, cuidadosa.

    Ethos virou o rosto devagar. Demorou para reconhecer a mãe

    — O papai… já voltou?

    Ophélia não conseguiu segurar as lágrimas.

    — Ethi… O papai…

    Ela desabou e o envolveu num abraço forte. Por alguns segundos, Ethos não reagiu; depois, os dois braços dele subiram devagar e apertaram o corpo da mãe.

    — Mãe… — a voz arranha. As cenas voltam aos pedaços: o rugido, a luz branca, a queda. — Desculpa. Ele… eu… foi minha culpa…

    — Não! — Ophélia levantou o rosto dele com as mãos. — Não foi culpa sua. Durak me contou, era um Orc-rei. Ninguém… — a voz falha — ninguém poderia prever.

    — Eu baixei a guarda. Ele falou pra nunca…

    — Chega — ela o puxou de novo. — Você voltou. É o que importa agora.

    GLOP… GLOP… GLOP…

    Os dois ficaram abraçados.

    Chhhh…

    A chuva segue intensa.

    — Onde está Íris? — Ethos perguntou baixinho.

    — Dormindo… — Ophélia passou a mão na cabeça dele. — Já é noite. Você dormiu por três dias.

    — Três… — ele engoliu seco. — Desculpa ter dado tanto trabalho.

    — Não fala assim — ela tentou sorrir. — Vou trazer algo quente para você comer.

    Ele escutou o som leve dos passos dela descendo as escadas.

    Em seguida, passos firmes chegam até a porta.

    Toc-toc-toc.

    — Entre — A voz de Ethos saiu sem força.

    Durak empurrou a porta e entrou apoiado em uma muleta.

    — Finalmente acordou, pirralho — tentou um meio sorriso. — Como você está?

    — Vivo… — Ethos forçou um assentir. — E o senhor…?

    — Acho que vivo também… — Durak tentava amenizar o clima.

    TROUMN!

    Outro raio corta o céu.

    Glop-Glop…

    Durak puxou a cadeira, sentou-se ao lado da cama. Fitou o chão por um instante.

    — Pirralho… me desculpe — a voz dele veio áspera, trincada. — Eu falhei.

    — Não — Ethos balançou a cabeça. — Eu atrapalhei. Se eu não tivesse lá vocês conseguiriam sair facilmente. Ou vencido. Eu… Eu prendi vocês.

    Durak o encarou.

    —  Pirralho, você tem apenas quinze anos, não pode se responsabilizar pelo que houve. Nós te levamos, era nosso dever te proteger! Porém, no final das contas somente seu pai conseguiu…

    Ele inclinou o corpo e voltou a encarar o chão.

    — Além disso… Aquilo não era normal…

    GLOP…

    GLOP…

    GLOP….

    Durak respirou fundo.

    — Se fosse dez anos atrás, eles não teriam a menor chance… e depois aquele Orc-rei, fomos pegos desprevenidos.

    Durak fechou o punho, com raiva.

    — Seu pai — seguiu —, antigamente… ele venceria com certeza esse Orc. Mas depois de tanto tempo, tão cansado…

    — Ele venceu… — interrompeu Ethos. — O rei… ele o derrotou. O problema foi o outro.

    — Outro? Como assim? — Durak se espantou.

    Ethos encarava o nada

    — Ele veio das sombras. Tinha um cheiro diferente… meio doce. Era… meio… roxo.

    Durak disparou o olhar

    — Doce? Roxo?

    — A pele, os olhos… — Ethos apertou o braço com a mão. — Não sei. Foi tudo muito rápido…, mas definitivamente o cheiro era doce.

    — Uma rainha-Orc!

    Ethos se voltou para Durak.

    — Rainha?

    — Se a rainha também estava lá… — Durak rangeu os dentes, muito preocupado. — Droga, nasceu um ninho do abismo ali. Isso explica a quantidade interminável de javalis, os Orcs… Na guerra foram necessários quatro dos Sete heróis para tombar a rainha.

    Ethos mexeu os dedos sobre o lençol. Uma lágrima escorreu do seu rosto.

    — Aquele velho fazendeiro era realmente incrível, né?

    Durak soltou o ar lentamente.

    — Seu pai foi o homem mais forte que conheci.

    GLOP…

    GLOP…

    — Como foi que saímos da floresta? — perguntou Ethos

    — Ophélia quem tirou a gente de lá. Eu só acordei no dia seguinte

    — Minha mãe? Como ela soube?

    — Sua mãe é uma mulher astuta, pirralho. Ela tem alguns truques que você se surpreenderia.

    — Hm… e o Cárion? Já voltou pra casa?

    GLOP…

    GLOP….

    GLOP…

    Durak fechou os olhos por um instante, puxou um pouco de ar.

    — Está vivo — abriu os olhos. — Mas… ainda não acordou. Não sei se ele poderá lutar novamente, mesmo sua mãe não pode fazer muita coisa. Ele está no hospital da cidade.

    — Espero que ele melhore…

    — Eu também…

    GLOPGLOP...

    Ophélia entrou com uma tigela fumegante.

    — Ethi, trouxe sopa!

    — Vou deixar você comer, pirralho — falou Durak, se retirando do quarto.

    Ethos abaixou a cabeça.

    — Obrigado, Durak…

    Durak rapidamente dá as costas, uma lágrima escorria de seus olhos e ele não queria transparecer.

    — Até logo!

    Ophélia sentou-se à beira da cama, e ofereceu a colher com sopa. Ethos comeu devagar, ainda sem forças para sequer segurar a colher.

    — Come tudo, filho.

    — Tá muito bom, mãe!

    Depois de comer, Ophélia recolheu a tigela, beijou a testa de Ethos e ajeitou as cobertas dele.

    — Agora tenta dormir um pouco, tá? — a voz dela era suave, mas cansada. — Qualquer coisa me chama.

    A porta fecha devagar.

    GLOP

    GLOP

    GLOP

    Silêncio.

    GLOPGLOPGLOPGLOP…

    Chhhhh…

    A chuva é indiferente lá fora.

    O quarto, grande demais.

    Ethos tenta respirar fundo.

    A respiração falha.

    Agulhas perfuram seu peito.

    Dói.

    TROUNM!

    Ele fecha os olhos

    A imagem da luz branca volta.

    Ele abre os olhos.

    GlopGlop

    Morde os lábios.

    Lembranças seguem voltando.

    Cuide das meninas.

    Vira de lado.

    Encolhe as pernas.

    Abraça o próprio peito, forte.

    Lágrimas caem.

    Não pode ser…

    O corpo cede.

    O cansaço vence.

    Ele dormiu.

    Era dia.

    Chovia.

    Ethos descia as escadas devagar, o corpo pesado, ainda dolorido.

    — Bom dia, Ethi — disse Ophélia.

    Ela forçava um sorriso.

    Seus olhos estavam vermelhos.

    Inchados.

    Fundos.

    Cansados.

    Íris correu até ele, pequena e leve como sempre.

    — Ethiii! — ela agarrou sua mão. — Como você está? Você dormiu um monte… eu fiquei preocupada…

    Ethos respirou e tentou forçar o sorriso mais suave que podia.

    — Oi, maninha… mamãe falou que você cuidou de mim, né? Obrigado!

    — Uhum! — Íris inflou o peito, orgulhosa. — Mas agora vem comer, mamãe fez panquecas! Vem, vem!

    Ela o puxou até a mesa.

    A mesma mesa.

    A mesma casa.

    As mesmas panquecas.

    Mas o vazio…

    O silêncio.

    Eu nunca pensei que sentiria falta daquele chato reclamando logo de manhã.

    O ar estava pesado.

    As paredes, pálidas.

    A luz da janela, cinza.

    A casa estava igual.

    Tudo estava no lugar.

    Mas, ao mesmo tempo, nada estava.

    No dia seguinte.

    Uma pequena cerimônia de despedida para Árnion.

    Algumas velas e a família… ou o que restou dela.

    Apareceram algumas pessoas do vilarejo para prestar homenagens.

    Uma lápide com o nome de Árnion estava no chão, rodeada por flores.

    Pra que uma lápide se ele não está aqui? Ele não está em lugar nenhum. Naquela explosão não sobraria um fio de cabelo, pensava Ethos.

    Ele ficou ao lado de Íris, afinal eles nunca tinham estado em um lugar com tanta gente.

    Íris olhava ao redor, perdida, sem entender, mas também sem proferir uma palavra sequer.

    Até uma criança entende quando algo está errado.

    Ethos segurou, com dificuldade, as lágrimas ao escutar uma senhora falando com outra no fundo algo tipo “ele era jovem demais, uma pena era um bom rapaz”.

    Ethos tentou não transparecer a irritação.

    Sim ele era “um bom rapaz”, o melhor.

    Ethos, mais do que tristeza, sentia raiva. Mas não sabia o porquê. E acima de tudo, não sabia como se livrar dela.

    A chuva começou a cair.

    Normal.

    Época de chuvas.

    Chuva era normal, as pessoas estão normais, as plantações, tudo.

    Tudo estava normal.

    Que raiva.

    O mundo seguia.

    Era injusto.

    Sim, é injusto, remoía em pensamento.

    A raiva aumentava.

    — Ethi, você está apertando minha mão muito forte — reclamou, Íris.

    — Desculpa, maninha. Vamos entrar, começou a chover.

    — Tá bom.

    O peito doía.

    Muito.

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