Capítulo 8 - A Floresta - Parte 2
O grupo corria pela floresta.
O que está acontecendo, se perguntava Ethos.
— Vamos pirralho, não temos tempo — gritou Durak.
Eles corriam entre as árvores, em formação, com Durak na dianteira. A noite já começava a cair e a visão ficava cada vez mais prejudicada.
— O que está acontecendo? — perguntou Ethos, ofegante. — Ele não morreu? Ele até gritou desesperado.
— Aquilo não era um grito — respondeu Carion. — Era um chamado! Orcs nunca estão sozinhos! Nós não conseguimos derrotá-lo antes que pudesse chamar reforços.
— Sim— completou Durak. — Se fosse em outra circunstância, um grupo de Orcs não era nada, mas como estamos agora… é muito arriscado.
ROWW!!
Roww…
RoWwW!
Rugidos começaram a ecoar de todos os lados. Era como uma sinfonia de terror.
O grupo corria o mais rápido que podia, tentando se afastar dos sons que ecoavam pela floresta.
— PAREM! — gritou Durak. — É um penhasco!
Todos frearam abruptamente. Era um abismo que se abria logo à frente.
— Droga, viemos pelo caminho errado, vamos voltar! — gritou Árnion.
O grupo se virou para seguir em outra direção.
E então…
TUM… TUM… TUMM…
O chão tremia outra vez.
As árvores caíam uma após outra.
De dentro da escuridão da floresta, sob uma lua cheia que brilhava no céu… Três Orcs furiosos emergiram.
Árnion levantou as espadas.
Durak e Cárion se posicionaram.
Ethos, tremendo, respirou fundo e tomou posição.
A lua testemunhava…
O inferno prestes a começar.
…
— Ethos, preste atenção: Você, dessa vez, vai ter que encontrar uma abertura para fugir. Nós vamos cuidar deles, mas você vai ter que triplicar o cuidado — disse Árnion sem olhar pra trás.
— Ok, pai! Não se preocupe.
Antes do trio começar a avançar, um grande grupo de javalis-monstro invadiu a batalha, para piorar ainda mais a situação.
Sem pensar, quase como se seu corpo reagisse sozinho, Ethos saltou à frente…
SHING!
Três javalis caíram.
— Eu cuido dos menores! — gritou Ethos — Vocês cuidam daquelas coisas feias ali na frente!
Durak gargalhou.
— Hahahá! Muito bem, pirralho.
Cárion, sério como sempre, esboçou um sorriso.
— Hum… Tudo bem, contamos com você, garoto!
Árnion mudou sua face de preocupado para um leve sorriso e suspirou.
— não conte pra sua mãe. E… tome cuidado! Não hesite em fugir, viu?
E assim os quatro — exaustos, famintos, sujos e machucados — correram em direção ao perigo.
SHING!
POW!
— Cuidado aí! — disse Árnion, enquanto se defendia com suas espadas de uma clava.
FING!
— ESSE É MEU! — disse Cárion, desviando de um ataque, correndo pela lateral de um dos monstros e acertando um golpe raspando na perna dele.
A batalha se estendia. Os monstros pressionavam, mas o trabalho em equipe dos três adultos era formidável. Não recuavam.
Ethos também dava tudo de si para impedir que os menores interferissem.
Estavam em harmonia, porém, o cansaço ia ficando cada vez mais intenso.
— Temos que acabar logo com isso! — exclamou Durak.
— Vamos focar em um de cada vez — respondeu Árnion. — Eu vou distrair esses dois enquanto vocês terminam o serviço desse aí, que já está com as pernas machucadas — completou, chamando a atenção de dois Orcs.
O Orc ferido se voltou contra Durak e Cárion.
Durak golpeou o chão com o martelo, levantando grandes pedras e poeira. O Orc colocou a mão na frente do rosto para se proteger, fazendo perder a visão por um momento.
As pernas de Cárion brilharam em verde quando ele usou sua grande velocidade impulsionado pelo elemento vento para se apoiar nas pedras e desferir um golpe no pescoço do monstro. Porém, aquela coisa se mexeu a tempo e o ataque não foi tão profundo.
Sem pensar, Durak pulou e golpeou o monstro em seu abdômen, fazendo-o cair. E, por fim, Cárion rapidamente pulou e finalizou o monstro com uma estocada em seu coração.
Ao mesmo tempo, Árnion estava ganhando tempo enquanto lutava contra os dois Orcs restantes.
Ethos acompanhava para ver se podia ajudar seu pai com algo enquanto finalizava os javalis restantes.
Árnion parou por um instante, e lançou um olhar para o filho como quem diz: “veja o que seu pai pode fazer”.
De suas espadas, chamas surgiram. Mas não um fogo comum, era um fogo branco.
Era um brilho quase cegante que irradiava de suas lâminas. Como uma estrela que rasgava a escuridão da floresta.
Ethos estava maravilhado. Era muito quente, mas, ao mesmo tempo, era acolhedor. Ele sentia como se fosse um abraço do seu pai, era esse tipo de calor.
Num piscar, Árnion sumiu.
Ele surgiu no alto.
Como uma sombra diante da lua, despencou em velocidade e, com um movimento, partiu um dos monstros ao meio.
Durak se aproveitou da abertura e golpeou a perna do outro que havia sobrado, fazendo-o tombar. Sem perder tempo, Árnion pulou e cravou suas espadas flamejantes no peito da criatura
Em um instante os monstros estavam carbonizados.
Era ao mesmo tempo incrível e assombroso.
Meu pai tem tanto poder assim?
Ethos mal conseguia acreditar no que via.
Árnion se levantou e, com um simples sacudir de suas espadas, apagou as chamas.
Uma leve brisa interrompeu o breve momento de silêncio que permanecia no local.
Ethos abriu um sorriso e deu um suspiro de alívio muito alto.
Enfim, tudo bem… pensava.
Ele começou a caminhar em direção de seu pai que limpava o sangue de seu rosto. Durak apoiava seu grande martelo no ombro enquanto Cárion sacodia sua capa para tirar folhas presas ao tecido.
Finalmente vamos pra casa…
POW!
Uma clava surgiu e atropelou Durak. Ele voou para longe, desacordado.
PAC!
Cárion voou na sequência. Apagou no impacto.
Ethos arregalou os olhos.
Das sombras, um Orc ainda mais gigantesco surgiu.
Árnion correu em direção ao Ethos, desesperado.
— CORRE ETHI! É UM ORC-REI!! CORRE!
Foi tudo rápido demais. O raciocínio do garoto não acompanhava.
É o fim.
O Orc levantou a clava.
O garoto olhava, já sem esperanças.
O golpe desceu.
As espadas escaparam de suas mãos.
A enorme arma de madeira se aproximava cada vez mais.
Ethos fechou os olhos.
POW!
…
— Quente… — sussurrou.
Ele voava aos braços de seu pai que havia o resgatado no último instante. Porém, ainda assim eles rolaram no chão.
— Você está bem, filho? Consegue se levantar?
— S-sim, pai — gemeu Ethos, tentando ficar de pé com dificuldade — o que vamos fazer?
Seu pai já de pé olhou para Ethos, sorriu e disse:
— Vou te mostrar o que seu velho pai pode fazer!
Ele encheu seu corpo com o fogo branco mais uma vez e avançou em direção ao monstro.
Era uma luta brutal. O Orc-rei era muito mais forte que os outros Orcs.
Árnion quase não aguentava de exaustão, porém recuar não era opção. Se falhasse, Ethos não teria chance.
Ele, então, subiu pela perna daquele monstro e o golpeou na barriga, deixando uma queimadura, mas a pele do monstro era incrivelmente resistente.
O monstro golpeou; Árnion se defendeu com as espadas, ainda assim voou alguns metros, caindo em pé.
Árnion tentou contra-atacar cortando um dos braços do monstro, porém o corte não foi tão profundo.
E a batalha foi se estendendo. Pareciam horas para eles, porém durava apenas alguns minutos.
Até o tempo parecia ter parado para assistir aquela luta.
Velocidade. Força. Agilidade. Instinto. Ethos nem se atrevia a piscar.
Até que, de tanto insistir, Árnion se esquivou de um dos golpes e, usando o restante de sua energia, cravou um X em chamas no peito do monstro.
O Orc-rei tombou.
Árnion ficou de pé; o monstro, caído.
Ethos correu em direção ao seu pai, sorrindo, aliviado.
Dessa vez tem que ter acabado, pensava.
Ele sentiu um cheiro doce no ar.
Finalmente aquele cheiro se foi…
Então,
do nada.
Mais uma clava surgiu em seu campo de visão.
Ela vinha em direção ao garoto.
O mundo estava em câmera lenta.
Aquele gigante pedaço de madeira vinha em direção dele, e ele não poderia fazer nada.
Ele seria atingido.
Eu vou morrer,
Merda.
Eu baixei a guarda outra vez…
POW!
No último instante, Árnion se jogou na frente, salvando o que era para ser um golpe fatal em Ethos, porém os dois ainda assim foram atingidos e voaram para muito longe.
Outro monstro — um pouco menor, uma cor mais roxa, presas menores, mas igualmente aterrorizante — parecia sorrir, satisfeito com o golpe.
— Isso não tem fim! — murmurou Árnion enquanto levantava-se com dificuldade, cambaleando.
Ethos até tentou, mas já não podia se mexer. Então, permaneceu deitado.
Árnion mal tinha forças, porém não podia parar agora. Respirou fundo mais uma vez, encheu seu corpo com o fogo branco e correu em direção ao monstro restante.
A última coisa que Ethos viu foi seu pai olhando para trás e dizendo “cuide das meninas”.
Então, em chamas, com sua própria pele pegando fogo, ele se jogou contra o monstro.
Um brilho gigantesco, como o sol, iluminou a noite. Por um instante, era dia outra vez. A explosão devastou a costa.
Longe dali, onde havia caído, Ethos viu a luz… e desmaiou.

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