Capítulo 155 - O Instinto
A primeira cauda emergiu do lado do corpo de Ian ainda no chão.
Coberta por pelos brancos, grossa como um braço humano, sacudindo lentamente sobre a pedra destruída.
Um arrepio subiu pela nuca de Aedin.
Ele deu um passo para trás.
Não foi decisão.
O corpo respondeu antes.
— O que pretende fazer, Guardião?
A segunda cauda emergiu.
A pressão de mana no espaço ao redor mudou imediatamente.
O ar ficou pesado.
A mana ambiente desacelerou ao redor deles como água ficando densa demais para atravessar.
As pedras da margem começaram a rachar onde a pressão tocava.
Aedin avançou.
O machado ergueu enquanto a mana percorria o braço.
A terra explodiu ao redor das pernas de Ian, subindo para prender o corpo antes da transformação terminar.
Ele precisava acabar com aquilo agora.
Antes que Ian concluísse o que quer que estivesse acontecendo.
O machado desceu mirando a cabeça.
— Morr—
“TUM”
Alguma coisa atingiu Aedin no meio do movimento.
O impacto o lançou através da parede de uma das últimas casas ainda de pé naquela parte destruída da cidade.
Madeira e pedra explodiram junto do corpo dele.
A terceira cauda emergiu.
Aedin empurrou os escombros e voltou para a rua.
Mais lento dessa vez.
Mais controlado.
Ele não havia conseguido ver o que o acertara.
— Ian. — Mais alto agora. — Está na hora de acabar com isso.
Ian estava se levantando.
Não de uma vez.
Em etapas.
O joelho encontrando a pedra.
O tronco se erguendo.
Os ombros abrindo num ângulo que não parecia feito para corpo humano.
Os ossos estalaram.
Enquanto se ajustavam sob a pele
— Não faz sentido continuar resistindo… — A voz de Aedin saiu mais pesada do que pretendia. — Ian… apenas desista.
A quarta cauda emergiu.
Ian…
Ou o que havia sido Ian…
Ficou de pé.
A resposta não veio.
Os olhos ainda acompanhavam movimento.
A respiração mudava junto da mana.
Os sentidos continuavam funcionando.
Mas alguma coisa havia desaparecido no meio do processo.
As quatro caudas circulavam em órbitas lentas atrás dele.
O Domínio pressionava o espaço em ondas densas que chegavam até Aedin como peso nos ombros e dificuldade no ar entrando nos pulmões.
— Guardião.
Silêncio.
A pele da nuca de Aedin se arrepiou imediatamente.
O Guardião ainda parecia humano.
Quase.
Pelos brancos começavam a surgir pelo pescoço e avançavam pela lateral do rosto em linhas irregulares, misturados ao sangue escorrendo do nariz e do canto da boca.
O braço destruído por Eldrik tremia em espasmos curtos.
A carne ao redor do ferimento se fechava devagar demais enquanto sangue continuava vazando pelos dedos e pingando na pedra.
Os ossos do antebraço pareciam largos demais sob a pele.
As mãos já não terminavam completamente humanas.
As unhas haviam alongado.
Curvas.
Escuras.
Garras.
Então os olhos de Ian se ergueram.
Aedin já havia visto aquele olhar antes.
Aedin firmou a pegada no machado.
Não era o olhar de um homem medindo distância.
Era o olhar que ele havia visto nas bestas da barreira segundos antes do bote.
Ian se moveu.
Não pareceu corrida.
O corpo branco atravessou o campo de visão num ângulo impossível enquanto as caudas distorciam a percepção de espaço ao redor dele.
O olho treinado de Aedin tentou acompanhar.
Perdeu no segundo movimento.
— DIREITA! — um dos soldados gritou.
Tarde.
Aedin girou por instinto.
O machado encontrou alguma coisa.
Resistência.
Não carne.
Uma cauda.
O impacto arrancou pedra do chão antes da pressão desaparecer outra vez.
O soldado à direita fez um som.
Curto.
Interrompido.
Aedin virou.
Ian havia passado pelo homem num movimento baixo demais para leitura completa.
O corpo do soldado atravessou a lateral da rua e colidiu contra a parede com um som úmido demais.
Outro soldado ergueu o escudo.
— Protejam Sua Majestade!
Ian surgiu no ponto cego da defesa.
O impacto arrancou o som de ossos quebrando antes mesmo do corpo ser lançado contra a parede do corredor destruído.
A pedra afundou junto do homem antes dele cair.
Aedin avançou.
O machado desceu no ângulo que deveria funcionar.
Havia funcionado antes.
Havia lido padrão.
Calculado distância.
Ian já havia mudado de direção antes do golpe terminar.
O machado acertou pedra.
A vibração subiu pelo braço de Aedin até o ombro.
As caudas continuavam visíveis.
O corpo surgia apenas em fragmentos entre elas.
Um vulto branco.
Uma mudança de posição.
Um reflexo de olhos azuis no meio da neve congelada.
Por um instante, Aedin não conseguiu dizer de onde o próximo ataque viria.
Quarenta anos de combate ensinavam a diferença entre luta que podia ser vencida e luta que precisava ser sobrevivida.
Isso era segunda categoria.
— Recuem para a ponte sul! — Aedin rosnou sem tirar os olhos do espaço à frente. — Levem ele até a linha de contenção!
Os soldados mudaram formação imediatamente.
Ian atravessou outro corredor lateral.
Um dos homens conseguiu vê-lo vindo.
O rosto perdeu a cor antes do impacto.
A parede do corredor explodiu em pedra e sangue.
Aedin começou a recuar.
O cenário destruído da batalha foi ficando para trás enquanto ele atravessava o corredor principal em direção ao setor residencial sul.
Os destroços deram lugar a ruas estreitas de pedra antiga.
Sacadas.
Janelas fechadas.
Cordas de roupa balançando no vento congelado.
Portas trancadas.
Os gritos dos moradores ecoavam pelas casas enquanto soldados corriam pelos corredores e atravessavam os telhados acima.
Aedin manteve o machado à frente.
Os olhos varrendo o espaço.
Ele já havia desistido de entender.
Só precisava concluir o plano.
Atrás dele veio um som.
Não passos.
Garras atingindo pedra.
Acima.
Talvez.
Ao lado.
Aedin não olhou.
Continuou correndo.
O terceiro soldado apareceu pelo corredor lateral tentando fechar o flanco.
— Majestade, pela esquerda—!
Algo atravessou o tronco do homem antes da frase terminar.
Ian surgiu no muro lateral num movimento quadrúpede antes de atingir outro soldado no meio do ar.
Não houve grito.
Só o som do corpo atravessando uma porta de madeira.
Depois silêncio.
Aedin fechou a boca.
Continuou recuando mais rápido.
A perseguição não tinha som constante.
Além dos gritos dos civis.
Tinha intervalos.
Isso era pior.
Quando havia barulho — pedra rachando, metal cedendo, telhas despencando dos telhados — Aedin conseguia localizar.
Conseguia manter distância..
Quando o barulho sumia, as ruas estreitas pareciam apertar ao redor dele.
Aedin percebeu o sangue descendo pelo lado do rosto apenas quando alcançou o setor sul.
Quente.
Escorrendo pela mandíbula.
O braço direito estava pesado.
Os telhados à esquerda fizeram barulho.
Ele não olhou.
As telhas rangeram acima da rua.
Alguma coisa atravessou o beiral.
Aedin ergueu o machado a tempo de bloquear as garras.
O impacto atravessou a parede da casa atrás dele junto do corpo dos dois.
Madeira explodiu.
Pedra cedeu.
Aedin atingiu uma estante com força suficiente para destruí-la inteira.
Os gritos vieram imediatamente.
Uma mulher estava presa sob parte da parede caída.
Aedin olhou apenas por um instante.
Sem tempo.
Ian avançou outra vez.
Descontrolado.
As garras atravessaram a mesa da casa como papel.
Aedin girou o corpo junto do impacto e o chute acertou o tórax de Ian antes da próxima investida.
O Guardião atravessou a parede externa da casa em meio à madeira quebrada.
Aedin já estava correndo quando ouviu o impacto do lado de fora.
De volta ao corredor.
As quatro caudas apareceram por um instante no ângulo da luz antes de desaparecerem outra vez.
Aedin virou a esquina.
O corredor à frente estava vazio.
Por um segundo.
O soldado da escolta estava caído no centro da passagem com a expressão de alguém que não havia tido tempo de reagir.
Aedin passou por cima sem diminuir velocidade.
Atrás dele, o silêncio voltou.
Pior do que o barulho.
Dessa vez nem gritos de civis.
Nem animais.
Só o som do rio batendo contra as pedras.
A ponte apareceu no fim da rua.
Pedra antiga.
Arcos sustentando a estrutura sobre o rio.
O portão sul visível além dela.
Os três magos já estavam posicionados — dois nos flancos e o usuário de Ordo no centro, sustentando a esfera densa avermelhada pulsando com o volume acumulado desde o início da luta.
Com um grupo de soldados os protegendo.
Aedin atravessou a entrada da ponte sem parar.
— Preparem. — A respiração saiu pesada. — Está vindo.
O usuário de Ordo olhou para ele.
Para o sangue.
Para a armadura quebrada.
Para o braço.
Não perguntou nada.
Começou a estabilizar a esfera.
Os magos dos flancos ergueram as mãos.
Aedin parou no centro da ponte.
Virou.
O corredor atrás deles estava vazio.
Nenhum som.
Nenhum movimento.
Nenhuma sombra nos beirais.
O usuário de Ordo falou baixo:
— Onde está?
Aedin não respondeu.
Continuou olhando para a entrada escura da rua residencial onde a luz não alcançava direito.
Os segundos passaram.
Um dos magos começou a mover o peso de um pé para o outro.
O usuário de Ordo mantinha a esfera estável, mas a respiração havia mudado.
Aedin continuou olhando para a escuridão.
Então alguma coisa tocou a manopla dele.
Frio.
Molhado.
A gota caiu na pedra da ponte um segundo depois.
Vermelha.
O mago do flanco esquerdo notou.
Depois ergueu os olhos devagar.
Os outros seguiram o movimento.
Aedin foi o último.
Alguma coisa respirou.
Entre as pilastras do arco acima da entrada da ponte, duas íris azuis surgiram no escuro.
As quatro caudas desceram lentamente entre as pilastras de pedra.
Uma de cada vez.
O silêncio na ponte afundou.
Então o corpo começou a se mover junto da escuridão.

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