Capítulo 138: Barcelona, Espanha
2 de junho de 2024, domingo.
Os últimos dias foram corridos para o casal. Na quinta-feira levantaram cedo e se arrumaram, com a reunião com o dono da pousada acontecendo pouco tempo depois.
Ela levou um tempo e eles conseguiram organizar tudo, fechando um acordo muito bom para a Elegance Affairs. Mas não puderam comemorar muito, pois a agenda estava um pouco apertada e precisaram voltar logo para Tóquio.
Já em casa, aprontaram novamente suas roupas. Aki insistiu em saber para onde iriam, para saber que tipo de roupa levar. Victor apenas respondeu para ir com roupas confortáveis. Mesmo ela insistindo e tentando várias táticas, todas falharam.
— Você vai me matar de curiosidade, Victor! — protestou. Apesar disso, sabia que era uma surpresa e estava muito contente com isso.
Saíram com suas malas e chegaram ao Aeroporto Internacional de Tóquio. Victor pediu para que ela tentasse não ler as informações que pudessem denunciar o local do destino, se possível. Ela aceitou o pedido.
Antes e durante o embarque, Aki fez o possível para não notar o local de destino, apesar de ser difícil. Então, decidiu colocar seus fones de ouvido para diminuir as chances de ouvir algo sobre. Teve ainda que se fingir de desentendida, tentando ignorar ao máximo qualquer informação útil.
“Será que é isso mesmo? Eu não acredito! Mas vou esperar… não quero estragar a surpresa…” ponderava, em pensamentos, quando tinha alguma pista sobre para onde iriam.
Horas depois, estavam desembarcando em Barcelona. Aki estava completamente em choque, desde a revelação exata do lugar, algum tempo antes. Ali estava ela, diante um dos lugares que mais queria conhecer no mundo. Barcelona. Não à toa, um dos seus times de futebol “favoritos” — pois não acompanhava o futebol — era o Barcelona.
Mesmo não sendo experiente no assunto futebolístico, conhecia o básico sobre alguns times, como era o caso desse. Além de outros motivos que a fizeram se encantar por Barcelona, quando uma colega de escola viajou, durante as férias de verão, para lá e espalhou notícias maravilhosas, quase fantasiosas, sobre as praias da cidade espanhola.
Embora não tivesse amigos com quem pudesse compartilhar muitas coisas, era inevitável o fato de ouvir os rumores ou histórias que bombavam entre os estudantes. E assim, cresceu a curiosidade sobre aquele lugar.
A japonesa pesquisou muito sobre e se encantou pelo lugar, entrando num dos seus destinos dos sonhos. Agora, diante de seus olhos, bem debaixo dos seus pés, estavam as terras de Barcelona.
— Victor… — murmurou, procurando palavras. Uma brisa mais forte soprou, fazendo seus cabelos dançarem ao vento. — Eu não sei o que dizer.
— Não precisa. Sua reação já me mostra que escolhi bem. — O tom de falsa arrogância fez Aki soltar uma risada breve.
Chamaram um táxi, que os levou até o hotel reservado. Passariam o dia ali e no dia seguinte iriam para Madrid. Durante o trajeto, vislumbraram aquela cidade maravilhosa. Depois do check-in e de se arrumarem à moda praiana, decidiram ir caminhar à beira-mar.
Em passos lentos e calmos, tranquilos, Victor e Aki caminharam pelas ruas da cidade, indo em direção ao mar. Aki, em especial, demonstrava a sua felicidade em estar ali, sempre apontando e falando sobre o que via — fosse prédios ou casas; igrejas ou comércios; ruas ou becos; árvores ou postes; tudo parecia encantá-la.
Desde a saída do hotel, o sol mediterrâneo já pintava tudo com tons quentes. A luz refletia nos prédios claros, nas palmeiras alinhadas ao longo das avenidas e, principalmente, no mar que surgia entre uma rua e outra, sempre presente, sempre chamando.
Eles não precisavam dizer muita coisa. Às vezes, apenas andavam lado a lado de mãos dadas e trocando olhares curtos, com sorrisos silenciosos entre comentários e perguntas, talvez uma curiosidade ou uma piada.
A primeira praia surgiu quase como uma extensão natural da cidade. A areia clara se estendia larga, limpa, pontilhada por pessoas caminhando, correndo, sentadas em toalhas coloridas. O mar, calmo, tinha um azul que parecia diferente do que Aki conhecia no Japão — mesmo sem saber explicar o porquê.
Ela travou no lugar por um momento, a respiração travada e os olhos brilhando em êxtase pela paisagem deslumbrante à frente. O imenso azul que se fundia ao céu no horizonte brilhando com os raios solares sendo referidos na superfície.
Victor parou por um instante, observando.
Aki soltou a mão dele apenas para tirar os sapatos, afundando os pés na areia ainda fresca. Seu sorriso veio fácil, quase infantil, enquanto caminhava alguns passos à frente, sentindo o contato direto com o chão. Victor a acompanhou logo depois, fazendo o mesmo, e os dois seguiram paralelos à água, deixando pegadas que logo eram apagadas pelas ondas suaves.
Hora ou outra, Aki olhava para trás e fazia algum comentário e Victor respondia, às vezes com uma brincadeira, às vezes em um tom mais filosófico. Em outros momentos tentava fugir da onda que vinha beijar a praia. A japonesa estava realmente feliz em poder conhecer Barcelona.
O vento brincava com os cabelos dela, levantando algumas mechas escuras que insistiam em fugir do lugar. Victor notou. Sempre notava. Não disse nada, apenas observou aquela imagem se gravar na memória: Aki caminhando à beira do mar, vestida de forma simples, com o olhar curioso e sereno de quem estava verdadeiramente feliz e contente.
Mais adiante, sentaram-se por alguns minutos em um pequeno muro baixo que separava a areia do calçadão. Pessoas passavam de bicicleta, outras corriam, algumas conversavam alto em idiomas diferentes. Barcelona parecia falar todas as línguas ao mesmo tempo — mesmo não sendo possível compreendê-las, ainda parecia fluir naturalmente.
— Eu… não quero me esquecer nunca desse momento… — comentou, tirando mais uma selfie. — Mesmo com essas fotos, não posso esquecer desses momentos…
Victor sorriu: — Não vai. Não tem motivos para isso. Eu também não quero me esquecer nunca desses momentos com você. Seria equivalente a arrancar um pedaço de mim. — falou, o final com um tom dramático.
Ela riu.
— Você falou igual ao Natsu. — O sorriso era genuíno em seu rosto. — Vamos continuar. Ainda temos tempo, né?
Depois, seguiram para outra praia, caminhando sem pressa, atravessando trechos de calçadão onde artistas de rua tocavam violão, pintores exibiam telas coloridas e vendedores ambulantes ofereciam bebidas geladas. O cheiro de sal se misturava ao de comida vinda de quiosques próximos. Tudo parecia excessivo no melhor sentido possível.
Aki parou algumas vezes para observar o mar mais de perto, inclinando-se ligeiramente, como se quisesse entender aquela vastidão. Victor ficava a poucos passos, admirando o que via — e não era somente o horizonte.
Em um ponto mais tranquilo, afastado do burburinho maior, eles caminharam novamente pela areia. Não havia necessidade de fotos elaboradas, poses pensadas ou registros perfeitos. Quando Victor levantou o celular, foi apenas para capturar um momento simples: Aki de perfil, olhando o horizonte, com o vento soprando leve e o mar como fundo. Uma imagem comum para qualquer pessoa… mas que, para ele, carregava um peso que nenhuma lente conseguiria traduzir. Ela não percebeu essa foto em específico.
No início da tarde, deixaram a orla e subiram em direção a um dos pontos mais altos da cidade. O caminho os levou a ruas mais silenciosas, ladeadas por árvores, até chegarem a um mirante onde Barcelona se abria inteira diante deles. A cidade, vista de cima, parecia uma colcha viva: o traçado organizado das ruas, o caos bonito dos prédios, o azul do mar se estendendo até onde os olhos alcançavam e se misturando ao infinito do céu.
Eles ficaram ali por alguns minutos, apoiados no parapeito, sem pressa de ir embora. Victor sentia a sensação de equilíbrio e de satisfação, realização — como se, pela primeira vez em muito tempo, tudo estivesse exatamente onde deveria estar, de forma harmônica e tudo dando certo, mesmo com alguns contratempos. Aki, ao seu lado, parecia sentir o mesmo. Seu corpo relaxado e o rosto tranquilo, com um sorriso simples e os olhos atentos à paisagem. Trocaram algumas palavras sobre o lugar e tiraram mais fotos.
Quando voltaram a caminhar, já mais próximos do fim do passeio, passaram por uma área turística mais movimentada. Prédios de arquitetura marcante se erguiam ao redor, com formas que pareciam desafiar a lógica tradicional. Já tinham tido um vislumbre disso mais cedo e agora podiam observar mais de perto.
O dia avançava, e o cansaço começava a se instalar de forma relativamente agradável, o tipo que não pesa, apenas lembra que o corpo viveu bastantes coisas naquele dia — e coisas boas. Antes de retornarem ao hotel, porém, passaram novamente por uma das praias, agora mais cheia e com o sol já começando a descer lentamente.
Eles caminharam mais uma vez pela areia, agora mais quente, as ondas batendo nos pés de ambos. Não conversavam muito. Não precisavam. A presença um do outro bastava ali. Sabiam que era um momento raro e precisava ficar guardado, então fizeram questão de vivenciar aquele instante.
Mesmo que não tivessem mergulhado ou entrado na água, bastava contemplar a paisagem. Na verdade, estavam lá mais para contemplar o horizonte do que para entrar na água. O passeio, naquele momento, se resumiu a isso.
…
Quando deixaram a praia para trás e seguiram de volta, Victor olhou para Aki por um instante mais longo. Ela percebeu e retribuiu o olhar, sorrindo de leve. Nada foi dito. Nada precisava ser. Ambos, cansados, entendiam o que o outro estava dizendo apenas pelo olhar.
Victor sentiu algo em seu coração. Um calor reconfortante e uma sensação de “está feito”, sabendo que havia ajudado a pessoa mais importante para ele a viver um momento importante para ela.
“Então… esse é o caminho certo. Esse é o caminho que eu devo seguir…”
Ele ponderou, deitado no quarto, sobre a cama, com a namorada enroscada em seu peito, dormindo profundamente.

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