Notas de Aviso

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    Pacientemente, Benk esperou que ambos se afastassem para, tranquilamente, aproximar-se do portão da casa. Ninguém à vista, vizinhança em estado de sonolência pacífica. A criminalidade na cidade, ou mesmo em todo o território de Palard, era muito limitada. As reformas implementadas pelo grande Rei Dragão no decorrer dos séculos, ou mesmo milênios, apresentavam efeitos positivos na qualidade de vida. Não era permitido que os habitantes passassem fome ou estivessem ao relento. Por mais que não existisse educação formal universal, as escolas de ofício instruíam as pessoas em uma profissão, e mesmo os fragilizados de corpo podiam contribuir nos centros de acolhimento e socialização.

    O escriba ajeitou o sombreiro, puxou o ferrolho do portão, cruzou-o e o fechou atrás de si. Caminhou pelo quintal displicentemente até encarar a porta, como se fosse sua própria casa; girou o trinco, percebeu que estava destrancado e, sem hesitar, entrou na residência e fechou a porta sem fazer qualquer ruído. O maior equívoco possível seria agir de maneira suspeita.

    Dentro do recinto, observou com atenção todo o interior da casa; acelerou o raciocínio e permitiu que a pressa tomasse conta de seus movimentos. Deslocou-se em passos rápidos, esquivando-se dos móveis e, já no limiar da cozinha, ao mesmo tempo em que testava se a porta dos fundos estava aberta, antes mesmo de refletir sobre a descoberta de que estava trancada, já subia as escadas silenciosamente e com cautela calculada. Sem surpresas até aqui.

    Na parte superior da residência, ladeando o corredor, havia três cômodos e um átrio. Deslizou até a porta mais afastada das escadas, à esquerda, testou o trinco enquanto já fisgava com os dedos o bolso em busca da haste de metal fino e da alavanca. Inseriu-as no orifício e sentiu a estrutura, escutou o atrito, girou e esperou o clac. Porta vencida. Valeu a pena treinar exaustivamente nas fechaduras do orfanato quando ainda mal alcançava a altura da tranqueta.

    O interior do cômodo era amplo. Uma mesa ao canto, próxima à janela, amparava livros, papéis e anotações, memórias de alguém que partiu sem finalizar os projetos ambicionados em vida.

    Nas paredes, sem respiro, prateleiras de livros, abundantes e espessos. Benk queria investigar, abri-los, folheá-los, mas conteve o impulso e engoliu em seco. No entanto, sua percepção o traiu; seus olhos paralisaram na lombada com escritos vermelhos de um exemplar que roubou a sua concentração. Um grimório.

    Era inevitável identificar a tonalidade desses manuscritos uma vez que os conhecia. As letras desses exemplares pulsavam em vermelho-escarlate; eram escritas em tinta à base de sangue.

    Com a respiração ofegante, movimentou os braços, as mãos, as pernas, tecendo os dedos dentro de gavetas, caixas e, por fim, depois de se deparar com o embrulho em tecido de seda já conhecido, investigou o baú, inquieto pela fechadura trancada e por não ter encontrado o que procurava. Ao menos, até agora.

    Absorto na ansiedade, cutucou a fenda e, por habilidade ou sorte, ouviu o estalo. Meu amigo. Um ladrão em pleno aprimoramento.

    Dentro da estrutura de madeira antiga, entre objetos, gemas e mais papéis, encontrou uma caixa, e dentro da caixa, finalmente, um conversor de mana. Benk sorriu, mas o estômago ainda pesava.

    O aparato não era muito grande, nada mais do que um cristal receptor, um suporte, um eixo central de condução, runas de conversão e depuração de mana esculpidas sobre a superfície condutora até o suporte na outra extremidade que terminava com outra gema de regulação mágica.

    Coube perfeitamente na bolsa de couro de Benk.

    Trancou o baú novamente, mesmo que os dedos trapaceassem levemente ao executar os comandos. Girou o corpo e organizou velozmente tudo o que tirara do lugar; caminhou até a porta e, quando já estava de joelhos para trancá-la novamente, constatou que sua maldita consciência pesava, e não no sentido de culpa, mas no de oportunidade.

    Amaldiçoou a bendita ganância de seu ser, escancarou a porta mais uma vez e, com resolução impetuosa, puxou o grimório da estante e o arremessou para dentro da bolsa. Ato falho?

    Calculou mentalmente quantas ampulhetas já gastara nessa brincadeira invasiva. Tempo demais, tempo de menos. Assim que conseguiu trancar a porta do quarto, ouviu as vozes indesejadas de seu melhor amigo e da senhora Hord, que já se aproximavam do portão de entrada.

    Sem que pudesse escapar a tempo, fez o que pôde: esperou que o amigo seguisse o plano à risca.

    Benk escutou os miados agudos e deduziu o cenário, enquanto se aproximava das escadas e, sorrateiramente, tentava observar a situação no andar inferior.

    Poucos instantes depois, a porta se abriu.

    — Entre, Noew — convidou Lorem, enquanto abria a caixa e deixava os pequenos felinos investigarem o interior de sua casa.

    Da borda do corrimão, Benk fez sinal com velocidade e precisão. Pelk, ao entrar, e já instruído sobre o interior da residência, com um leve sobressalto, suou frio ao perceber a mão do amigo de relance na estrutura de conexão entre os andares. Respirou fundo, ciente da situação.

    — Que calor, hein! — comentou Noew, ou melhor, Pelk, tentando não gaguejar.

    A senhora Hord observava os pequenos saltitantes que cheiravam, pulavam e cutucavam os móveis da sala.

    — Sente-se, fique à vontade — disse ela, dirigindo-se à cozinha para trazer um copo de água.

    — Certeza que não deseja um chá? — perguntou a viúva.

    Pelk, na situação em que se encontrava, desejava apenas sair dali o mais rápido possível.

    — Água está bom — afirmou, torcendo para que ela não resolvesse, por algum motivo, subir as escadas de sua própria casa.

    Lorem retornou à sala trazendo consigo um copo metálico para o visitante.

    — Vai mesmo adotar todos eles? — perguntou Pelk.

    — São tão fofinhos! Faz muito tempo que não cuido de animais, mas me surpreendi. Que intrigantes essas coleiras… Uma tem exatamente o número da minha casa, outra as iniciais de meu nome. Parece até que estamos conectados, não é, docinho? — disse a senhora, acariciando a cabeça do felpudo cinzento enquanto o colocava em seu colo.

    — Não sente calor com essas luvas? — perguntou a mulher.

    Pelk forçou um sorriso constrangido que era profundamente consistente com o que de fato sentia.

    — As queimaduras… ardem sem elas.

    — Trabalha com cristais de mana, certo?
    — Sim — mentiu Noew, incorporando o papel.

    — Acidente de trabalho?

    — Acidente de trabalho! — confirmou.

    Lorem simpatizou com a situação de Noew. Magia era uma bênção, mas sempre foi algo a se temer.

    — A senhora não tem nenhuma erva em seu quintal que ajude? — perguntou o rapaz, seguindo o roteiro.

    A viúva refletiu por um instante.

    — O melhor seria comprar uma poção — aconselhou ela, com olhos atenciosos.

    — É muito cara.

    A mulher concordou, colocou o pequeno filhote no chão e levantou-se.

    — Camomila deve ajudar. Venha aqui! — chamou Lorem.

    Ambos saíram em direção ao quintal. Benk esperou um instante, respirou compassadamente e, sem emitir qualquer ruído, desceu as escadas com o corpo arqueado próximo ao chão. Com destreza, cobriu a distância até a porta de entrada na sala, ouviu a conversa sem se atentar às palavras e constatou. Perto demais.

    Retornou até o fundo da residência, agachado, torcendo para que Pelk ganhasse o máximo de tempo possível. E enquanto filhotes peludos cercavam suas pernas, olhou ao redor em busca da chave da porta dos fundos. Ao mesmo tempo já havia inserido a haste metálica na fechadura para sentir a estrutura. Cessou a respiração e encontrou os pinos de contenção. Com um movimento rápido e suave, começou a girar o cilindro para destravar a lingueta, chamou baixo, com um som indistinguível, o pequeno felino aos seus pés, e quando este miou, no mesmo instante, forçou o clac metálico encoberto pelo diálogo com o felpudo. Porta destravada.

    Girou com cuidado a maçaneta, puxando a madeira até apresentar uma fresta mínima. Deslizou para fora com concentração absoluta, afastando o filhote para dentro sem permitir que o seguisse.

    De costas contra a parede, sentiu o ar externo, o sol e a brisa. Com maior nitidez pôde ouvir Pelk elogiando uma flor madrepérola que nunca havia visto antes.

    A posição em que estava era vulnerável; o muro da casa de trás não impedia a linha de visão. Ajeitou o sombreiro, elevou levemente os joelhos, colocou a tesoura de poda sobre o chão e, bloqueando a clareza visual sobre o que fazia, trabalhou com agilidade sobre a fechadura da porta para trancá-la.

    E dessa vez, propositalmente, deixou o barulho ecoar nítido pelos arredores.

    Guardou as ferramentas no bolso, ajeitou silenciosamente os equipamentos, elevou o corpo a meia altura, ainda arqueado e a cada passo que ouvia se aproximando, recuava, por sua vez, um passo, se afastando da porta e contornando a lateral oposta enquanto Lorem se aproximava para conferir que barulho havia ouvido.

    Benk agradeceu por seus pés e sapatos de sola macia não emitirem qualquer som, ergueu o corpo, e já fora do campo de visão da senhora, contornando a casa, galgou passos compassados sobre as pedras que ladeavam a residência.

    Fingiu normalidade, caminhou até o ferrolho do portão, abaixou a cabeça em cumprimento a Pelk, que a certa distância suava frio ante a luz solar que refletia sobre o jardim.

    Abriu, cruzou, fechou e seguiu caminho pela rua sem que sua presença fosse notada pela senhora Hord em momento algum.

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