Capítulo 219: O gato vivo e morto
— Renato, às vezes seu instinto suicida extrapola todos os limites. — Clara bebeu um gole de vinho e sentou-se confortavelmente no sofá. Aquiesceu, satisfeita, enquanto saboreava a bebida. Como era agradável estar de volta em casa!
— Talvez com uma boa estratégia de guerra, dê pra… — Tâmara segurava seu copo de refrigerante de laranja com as duas mãos, mesmo ele estando apoiado sobre a mesa. Até ali, ela parecia em alerta.
— Não existe estratégia para isso! Ficou maluca? — respondeu Jéssica. — Seria mais do que um simples feitiço! Seria como quebrar uma regra cósmica!
— Não seria a primeira vez que quebramos uma regra cósmica, não é?! — Retrucou Tâmara.
— Isso é diferente! — Jéssica cerrou os dentes.
— Diferente por quê?
— Porque não dá. Infelizmente, tenho que concordar com a vadia gospel. — Clara se levantou e pôs a taça vazia sobre a mesa. — Tudo tem limites nesse universo. Não dá pra invadir um reino sem uma chave. E por chave, eu quero dizer “uma assinatura espiritual muito específica”. Os anjos até precisaram de uma quando invadiram o Inferno.
— Todo sistema tem falhas — disse Irina. — Se conseguirmos investigar os arredores, procurar por possíveis aberturas…
— Arredores? — Clara riu. — Não fale como se fosse o QG de um grupo de bandidos! Não é a droga do esconderijo Ivanov! Sabe o que tem nos arredores daquele lugar? Nada! Não sabemos nem onde procurar. Talvez não fique nem nessa dimensão!
— A Clara tá sendo pessimista — disse Lírica, com olhos neutros, enquanto ronronava, esfregando a cabeça em Renato, como um gato procurando carinho.
— Verdade. Totalmente pessimista. — Mical acenou com a cabeça.
— Pessimista — concordou Tâmara.
— Eu não sou pessimista. — A súcubo deu de ombros. — Vocês é que são idiotas demais para entender a verdade! Mesmo que pudéssemos invadir, por onde começamos? Não sei se notaram, mas o endereço do Paraíso não tá no Google Maps, sabiam?
— E se a gente evocasse um anjo, igual fizemos no Priorado? — sugeriu Mical. — Como era o nome daquele? Uriel?
Clara arregalou os olhos, como se tivesse tido uma ideia.
— Isso aí não iria funcionar. Mas…
— Talvez funcione! — insistiu Mical.
— Não. Nenhum anjo seria evocado do Paraíso. Só funcionou com aquele cara porque ele já estava próximo. Talvez até dê pea evocar a ralé, mas aí de que adiantaria, né? — Ela deu de ombros. — Escutem a mamãe súcubo aqui, que é mais experiente que vocês nesse negócio de magia.
— Então o que sugere? — perguntou Tâmara.
— Talvez, a ideia equivocada da garotinha ali dê pra aproveitar alguma coisa.
— Ora, pare de enrolar e fale logo! — Irina perdeu a paciência. — Se teve uma ideia, desembucha!
— Hum… quer saber? — A súcubo estufou o peito, ergueu o queixo e fez a expressão mais arrogante que conseguiu. — Não gostei do seu tom de voz. Então, vou deixá-los quebrarem a cabeça sem mim, enquanto eu saio por aí, na noite, fazendo coisas secretas de súcubo.
Ela tentou sair, mas Renato a deteve, segurando-a pela mão.
— Clara, no que pensou?
A súcubo hesitou por um momento. Ficou em silêncio olhando os olhos castanhos de Renato, até que bufou de raiva.
— Tá! Eu falo! Droga! Como dizer não pra esses seus olhinhos bonitinhos?
— Ahém! — Tâmara pigarreou. — Vamos manter o foco aqui. Se bem que eu concordo. Os olhos dele são bonitinhos mesmo…
— Os olhos de um adúltero que fica beijando náiades safadas — disse Lírica, sem parar de esfregar a cabeça nele.
— Acho que estamos perdendo um pouco o fio de meada aqui… — disse Irina.
— Certo, certo… — Clara pegou a garrafa de vinho de cima da mesa e derramou mais do líquido sagrado em sua taça. — Não tô dizendo que vai conseguir entrar no covil dos alados, mas talvez… só talvez, se a gente usasse o corpo de um anjo num feitiço daqueles bem brabos de localização…
— Corpo de um anjo? — Renato assentiu. — Espere! Talvez o corpo ainda esteja…
— Sim. Como era mesmo o nome daquele maldito que atacou a gente no Priorado? Merdiel? Lixoel? Alguma coisa assim, eu acho… — Clara levou a mão ao queixo, pensativa. — Mas vamos precisar de muita energia!
— Muita quanto?
— Sei lá! Talvez… a energia de umas três ou quatro bombas atômicas! A gente vai procurar a localização de um lugar intergaláctico, oras! Vamos precisar de energia pra caralh…
— Talvez eu saiba como montar uma — disse Tâmara.
Todos olharam para ela com o mais absoluto espanto.
— Que foi? — Ela deu de ombros. — Vocês não conseguem?
— Não! — berrou Irina, chocada. — Quem é você? A reencarnação do doutor Oppenheimer?!
— Oppenheimer? — Clara franziu o cenho. — Esse não é aquele cara do gato que está vivo e morto ao mesmo tempo?
— Não, não. — Irina balançou a cabeça. — Esse é o Schrödinger. Oppenheimer é o…
— Não, não, tenho quase certeza que é o Oppenheimer… — teimou Clara.
— Gato vivo e morto ao mesmo tempo? — Pela primeira vez, Lírica pareceu realmente interessada no assunto.
— O complicado vai ser canalizar tanta energia para um feitiço… — divagou Tâmara. — Essa parte eu não sei se consigo.
— Peraí, nós vamos mesmo explodir uma bomba atômica?! — Irina ficava cada vez mais chocada com o rumo da conversa.
— Três, pelo que eu entendi — disse Mical.
— Ou quatro… — Jéssica se sentou numa cadeira, porque o rumo da conversa a estava deixando tonta.
— Eu realmente quero saber sobre o gato vivo e morto… — Lírica tinha suas próprias dúvidas sobre o assunto.
— Talvez não precise de tanto… — Renato pensou alto. — Vamos!
— Agora? Mas nem deu tempo de descansar minha beleza.
— Clara, o mundo tá acabando. E sua beleza tá fora de perigo.
— Hum… acha que vai me conquistar com palavras bonitas, é? Me aguarde! A noite a gente acerta as contas.
— Esse Priorado que vocês falam… — disse Irina —, fica muito longe daqui?
— Um pouco — respondeu Renato. — Mas talvez… — Ele estendeu o braço e, com os dedos, sentiu a leve brisa de ar. — Talvez eu consiga… pra quem abriu um portal pro Não-criado, não deve ser difícil…
Fechou os olhos. Era quase como se ele pudesse sentir as moléculas de ar colidindo contra sua pele. E, se prestasse atenção, podia ouvir, lá no fundo, a música da criação, sutil como o som de folhas ao vento.
Tateou o ar, até conseguir perceber onde deveria afastar as moléculas. E um portal se abriu. Era como um risco flutuante; emitia uma luz suave e quente.
— Vamos — disse Renato.
Irina meneou a cabeça.
— Esquisitice pouca é bobagem!
E poucos instantes depois, todos eles estavam diante das grandes portas de madeira do Priorado.
Não era a mesma porta de antes, mas os atalaias tiveram o trabalho de entalhar novamente os símbolos de proteção na madeira.
Os muros, as torres de vigilância, estavam todos reconstruídos.
Em volta, a vegetação do cerrado se estendia pela superfície da Terra como um mar sem fim de verde e marrom.
Eles não precisaram esperar muito diante daquela porta. Os vigias já perceberam a presença deles.
Então, as duas placas de madeira da portas se moveu pra dentro.
E lá estava um grupo de jovens. Os acólitos e as noviças. Armados até os dentes. Fuzis, pistolas, metralhadoras. E Renato sabia que, para além deles, havia muitos outros apontando armas de seus esconderijos e torres de vigia, mirando em suas cabeças.

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