As palavras de Yukino soavam duras demais para Aino, que era uma pessoa mais sentimental que sua prima. Ela tentou não chorar, segurou o máximo que podia, mas as lágrimas escaparam de seus olhos.

    — Isso é demais pra mim… — confessou, levando suas mãos até seu rosto, deixando-as encharcadas com seu choro.

    Ainda se recuperando, Naoko decidiu usar sua energia restante e se levantar. Ofegante, caminhou em direção à Aino, abriu seus braços e a abraçou.

    — Tá tudo bem, Aino. Cada uma tem um jeito de lidar, não se pressione… — Naoko confortou Aino com carinho.

    Saindo pelos portões da escola estavam Hikaru e Adonis. O jovem ruivo continuava cabisbaixo e atônito, com dificuldade de encarar o amigo diretamente nos olhos.

    — Obrigado Hikaru… Eu vou sozinho a partir daqui… — pediu.

    — Tem certeza? Tá tudo bem? — perguntou Hikaru, demonstrando preocupação.

    — Tá… tá sim. — confirmou Adonis, ainda com seu olhar direcionado ao chão.

    — Adonis… você viu algo estranho? — Hikaru se esforçou para não ser direto demais em sua pergunta.

    — Ah… — ponderou Adonis. — Você fala daquele fogo?

    O garoto tentou disfarçar citando apenas as chamas que todos haviam visto e que era impossível negar. Dentro dele algo dizia que era melhor não revelar o que sabia e nem seu conhecimento sobre Yesenia.

    — Bem estranho, né! — por dentro Hikaru estava aliviado. O jovem não queria ter que explicar sobre Potentia e ficou bem em saber que Adonis não havia presenciado a luta.

    — É… pois é… — concordou, com sua voz hesitante.

    Percebendo que deveria ir, Hikaru se despediu de Adonis e seguiu de volta para dentro da escola. Logo todos se organizaram e retornaram para suas casas, tentar esquecer o que havia acontecido naquela manhã.

    Adonis esperou todos saírem do colégio para pegar seu celular e fazer uma ligação.

    — Fugiu da aula? — com sua voz firme e grave, Koa atendeu o celular que vibrava incessantemente.

    — Heidi e Yesenia… Atacaram a escola… Eu não sabia que isso ia acontecer… eu… é… Heidi sumiu… Yesenia… — falava Adonis hesitante, era possível sentir o desânimo em sua voz, mesmo estando ao outro lado do telefone. — Yesenia morreu.

    — E onde está o corpo? — perguntou o homem, sem alterar em nada sua voz.

    — No pátio da escola. — respondeu o garoto.

    — Queime.  — disse Koa, desligando o telefone em seguida.

    Durante alguns instantes Adonis ficou encarando o celular. Suas mãos tremiam enquanto ele segurava o telefone, a única coisa que podia ser ouvida era o barulho da ligação que havia acabado. Percebendo que precisaria cumprir aquela ordem, por mais dolorosa que fosse, o jovem se dirigiu de volta ao colégio.

    O fogo alaranjado cobriu totalmente o corpo de Yesenia. Rapidamente as chamas consumiram sua pele, seus músculos e até mesmo seus ossos, não sobrando nem mesmo um fio de cabelo da mulher.

    Adonis seguiu imediatamente para sua casa, onde se trancou no quarto, fechou as cortinas e ficou encolhido na cama. Assim ele passou o resto do dia, até adormecer.

    As notícias logo se espalharam. No jornal da hora do almoço, os repórteres comentavam sobre o incidente.

    “Acidente Hidráulico em escola.” Era o que marcava a chamada do noticiário.

    Nesta manhã, um acidente hidráulico ocorreu no Colégio M. Os canos sobreaqueceram e estouraram, alagando boa parte do pátio e causando erosões. As aulas serão canceladas durante pelo menos uma semana, e será contratada uma equipe especializada. 

    Os responsáveis pela escola alegaram não saber como ocorreu o sobreaquecimento e haverá uma perícia para averiguar se foi criminoso.

    A notícia causou comoção em toda a cidade, em sua casa, Sayuri assistia ao noticiário. Ela havia acabado de receber as meninas de volta e sabia que o noticiário jamais seria capaz de descobrir o que havia acontecido de verdade naquela manhã.

    “Nem a escola está mais segura”, pensou, seu olhar de tristeza fitando a tela a fazia se perguntar se ela seria capaz de possibilitar uma boa vida para as meninas.

    Faculdade UN, 12h

    Era meio-dia, e os estudantes do período da manhã estavam liberados dos estudos. A faculdade municipal era grande e lugar de diversos cursos. A saída é sempre um horário agitado, mas naquele dia ninguém demorou muito para voltar para suas casas, afinal, as notícias já haviam atravessado o município.

    Andando por ali estava Iker, que movia seu rosto, parecendo procurar alguém no meio da multidão. Observando com atenção, ele consegue encontrar Riley, o garçom do bar que conheceu no dia do aniversário de Itzel.

    Ele então desvia seu caminho em direção ao rapaz, mas um zunido interrompe sua caminhada. Seu celular vibrava e antes de atender foi verificar se o número seria conhecido.

    ITZEL CHAMANDO

    Seu silêncio era carregado de irritação, pois sabia que não podia ignorar aquela chamada.

    — Espero que seja importante, Itzel. — Iker atendeu o telefone, sem simpatia alguma.

    — Yesenia está morta. Heidi está ferida e perdeu uma mão. — Itzel informou a situação e Iker se espantou. — Lady Ayami me questionou, está furiosa, parece que atacaram a escola sem comunicar ela. Sabe de algo? As duas são da sua equipe.

    — As duas sempre agem por conta própria… — explicou Iker, enquanto olhava de um lado para o outro. — Por pior que pareça, uma hora ou outra isso iria acontecer.

    — Entendido. Informarei Lady Ayami esta noite. Fui convocado. — disse Itzel.

    — Certo, obrigado. — agradeceu Iker, que logo depois desligou o telefone, buscando em vão por Riley.

    “Droga… perdi ele de vista…”, pensou.

    Finalia, 5 de maio, noite

    Ayami estava em sua sala sentada, cotovelo apoiado em seu sofá e cabeça apoiada em sua mão. Seu olhar perdido se direcionava à janela de vidro, mas sua mente estava inquieta por causa das últimas notícias.

    — Entre, Itzel. — pediu ao escutar as batidas em sua porta.

    Pé por pé, Itzel entrou devagar, sem fazer muito barulho. Ele já esperava que o humor de sua soberana não estivesse dos melhores, então tomou cuidado para não aborrecê-la.

    — O que deseja, Lady Ayami? — perguntou.

    Ela virou seu rosto para encará-lo nos olhos. Sua expressão era de indignação.

    — Imagino que você tenha percebido que esta missão está demorando… E agora perdemos Yesenia, uma das minhas melhores soldadas. — ela fez uma pequena pausa, e então continuou. — Quero que você encontre o núcleo de Potentia da Terra.

    — Eu? Mas senhora, eu não… essa missão não era minha… — respondeu Itzel, assustado com a proposta. Ele deu um passo para trás, suas pupilas dilataram e sua mão tremeu com tal responsabilidade.

    — Vai recusar meu pedido? — questionou Ayami, agora com um olhar muito mais severo. — Acho melhor não. Rosália irá com você, já que ela é a que consegue localizar o núcleo com maior precisão.

    — Si… sim senhora… — concordou Itzel, percebendo que precisaria seguir com a missão.

    Com o assunto finalizado e as direções claras para os próximos passos, Itzel se retirou da sala em direção ao quarto de Rosália. Lá, ele informou detalhadamente tudo o que aconteceu e explicou a nova missão para ela.

    — O QUÊ? NÃO! — os gritos de Rosália haviam sido tão altos que era possível escutar nos corredores. — EU NÃO QUERO VOLTAR LÁ NUNCA MAIS!

    — Amor… Rose… Se acalme, se acharmos esse núcleo, a missão acaba. Você viu o que aconteceu com Yesenia. — Itzel tentava acalmar sua amada.

    A menção do nome de Yesenia fez com que a expressão do rosto de Rosália mudasse imediatamente. Ela ficou triste e preocupada, temia pela segurança dela e de Itzel. As lágrimas começaram a escapar de seus olhos e ela foi ao encontro dos braços de Itzel.

    — Vai ficar tudo bem… — prometeu Itzel, a abraçando de volta, acariciando os longos cabelos roxos de Rosália.

    8 de maio, manhã

    Passados três dias do acontecimento, o clima já estava mais leve. Não houve aula no resto da semana e o dia do aniversário de Yukino havia passado apenas com uma pequena comemoração com a família e uma ligação das meninas. 

    Os planos da jovem para aquele fim de semana haviam mudado e tudo o que ela faria era ficar em casa fazendo a faxina e jogando. As limpezas de casa começavam cedo para que pudessem aproveitar melhor o tempo. E enquanto limpava o quarto, o telefone que ficava no corredor, perto do quarto dela, começou a tocar.

    O barulho estridente da chamada ecoava por toda casa por causa do pé direito alto do corredor e a mãe de Yukino pediu pra que ela atendesse.

    “Que droga… Por que eu? Nunca é pra mim”, reclamou Yukino em pensamento enquanto saía de seu quarto, ainda usando um pijama. O telefone ficava em cima de um barquinho, então ela se abaixou para atender:

    — Alô!

    — YUKIIIII!!! — cumprimentou Akiko, toda animada, reconhecendo a voz da amiga. —  Como tais pra hoje? Às 20 horas tem o show pra ir! A gente vai te buscar. Todo mundo vai, quase todo mundo vai.Tem que ir bem linda, vai que rola autógrafo!

    — Akiko, não provoca. Eu não comprei os ingressos. Depois dos ataques deu altas brigas aqui em casa. — explicou Yukino de maneira séria, contrastando com a expansividade de Akiko.

    — Deu briga? Mas porquê? — perguntou Akiko, sem entender.

    — Porque eu disse que não sabia o que tinha acontecido no acidente. Daí perguntaram ‘Como assim não sabe?’ E daí o fight começou! — respondeu Yukino, seu tom de voz denunciava sua indignação com a briga.

    — Ué! Mas por quê você teria que saber? — Akiko não conseguia encontrar ligação entre os assuntos.

    — A lógica aqui é diferente. — Yukino preferiu não se aprofundar tanto na explicação, pois sabia que não seria plausível.

    — Vai lá e pergunta, vai que pá! — Akiko voltou a animar sua amiga.

    — Tá, eu vou… vai que né!

    Yukino foi até seus pais para pedir permissão para ir ao show. Pouco depois ela voltou, seu rosto sério agora transmitia um sorriso amigável.

    — Ela deixou, só tenho que limpar meu quarto… direito! — informou Yukino para Akiko.

    — AEEEE! — comemorou Akiko.

    O dia passou e Yukino foi cumprindo com as tarefas que sua mãe havia pedido para ela fazer antes do show. Ela estava muito mais rápida do que normalmente estaria e também, naquele dia, não havia preguiça.

    A noite foi chegando e Yukino foi se arrumar para o show. Diferente do dia a dia, em que estava sempre de cara limpa, em eventos especiais ela gostava de caprichar nas roupas e maquiagens. E o evento desta noite era como um presente de aniversário.

    Vestida com seu vestido roxo de cetim, botas altas tipo coturno com plataformas, brincos e gargantilhas nas cores preto e roxo. Sua maquiagem contava com um batom vermelho que adorava, mas só conseguia usar pontualmente. Ela também prendeu seu cabelo num rabo de cavalo, diferente do habitual.

    — MDS… que pensamento que eu tive agora. — disse para si mesma enquanto finalizava o rímel. Um pensamento havia invadido sua mente e foi tão assustador que ela o calou tão rápido quanto ele chegou.

    — YUKINO, SUA CARONA CHEGOU! — avisou a mãe de Yukino.

    — TÔ INDO! — respondeu Yukino.

    Ela se despediu de sua mãe e foi de carona com Guang e os demais para o local do show.

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