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    — Entendi. Então, se você quiser… — eu comecei, sem pensar muito, apenas deixando as palavras saírem da minha boca. — …Eu posso te levar em casa com o meu guarda-chuva.

    Yuki finalmente conseguiu olhar diretamente nos meus olhos, com as bochechas levemente rosadas.

    Por um breve instante, era como se a chuva e todo o barulho de conversas ao meu redor tivesse desaparecido.

    E deixado apenas eu e ela ali.

    — A-ah, não! Não precisa mesmo! Obrigada, mas eu posso esperar a chuva passar — Ela levantou os braços pra cima, com aquela relutância que eu já conhecia bem… — E também… não quero te incomodar de novo…

    “Fala sério…”

    Eu dei um pequeno sorriso.

    — Eu já sabia que você diria isso — comentei enquanto olhava para o nosso redor, com vários alunos ainda abrigados da chuva na escola. — Mas é que… a chuva não deve parar tão cedo.

    Ela olhou para fora também, vendo o temporal pesado que caía.

    — E além disso, não é incômodo nenhum para mim. Minha casa fica na mesma direção — completei, olhando de volta para ela que ainda encarava as pessoas correndo pela chuva.

    — Mas…

    Pensava que ela iria continuar naquela relutância dela, mas ela finalmente cedeu. Suspirando, ela assentiu, com um olhar que desviou dos meus novamente.

    — Tudo bem então, Shin… — Ela virou o rosto levemente para baixo. — Obrigada…

    Eu sorri, e abri o guarda-chuva. Assim que coloquei o pé para fora, a chuva atingiu com força.

    “Que pesado…”

    Yuki chegou-se ao meu lado, e eu coloquei o guarda-chuva levemente mais do lado dela, garantindo que ela não chegasse em casa molhada, e então, começamos a andar.

    Por algum motivo, senti como se o burburinho atrás de nós tivesse aumentado, mas decidi ignorar aquilo.

    Atravessamos o portão da escola em silêncio, andando junto aos alunos que também iam embora naquele momento.

    Poças de água começavam a se formar, enquanto caminhávamos… ainda em silêncio.

    Não era exatamente algo desconfortável ou assim, era mais algo denso?

    Era o tipo de silêncio que eu sentia que podia ser quebrado a qualquer instante por algo que queríamos dizer para o outro.

    A única coisa que se ouvia, naquele instante em que caminhávamos sob o céu cinza escuro, era o som de nossos passos e o de carros que passavam e jogavam a água do chão para o ar.

    De vez em quando, também passava alguém correndo com uma pasta ou mochila na cabeça.

    “…..”

    Eu realmente precisava dizer algo.

    A distância fisicamente era pouca, mas a emocional era… grande.

    Sentia que isso tinha aumentado após a noite da virada, e eu precisava de resolver aquilo.

    — Ei.

    — Shin.

    Desaceleramos o passo e olhamos um para o outro, mas depois ela desviou, totalmente surpresos por termos começado a falar ao mesmo tempo.

    — Pode falar primeiro — disse, baixando um pouco a cabeça.

    — Ah, não. Pode falar você — ela insistiu, desviando o olhar.

    — Tudo bem então…

    Eu respirei fundo, e então ela olhou para mim com a cabeça levemente inclinada.

    — Eu… fiz algo de errado pra você? — perguntei genuinamente.

    O motivo de ela não conseguir me encarar mais era algo que eu não conseguia tirar da mente.

    Ela então parou de andar no mesmo instante, de olhos arregalados e de braços no ar.

    — H-hã!? Não! Claro que não! — ela respondeu rapidamente. — Você… nunca fez nada de mal pra mim, Shin.

    Eu senti um pequeno alívio momentâneo, mas toda a dúvida ainda não tinha desaparecido.

    — Bom, se é assim… então por que você não consegue me olhar nos olhos?

    Eu parei, e olhei diretamente para ela, com uma expressão de curiosidade e… tristeza.

    “…..”

    Ela parecia ter travado no mesmo segundo, praticamente parecendo que eu notei algo que não deveria ter sido notado.

    — N-não sei do que você está falando, Shin! Eu consigo olhar totalmente normal pra você! — ela insistiu, com a voz alta, mas ainda… sem me encarar.

    — Então olha pra mim!

    Dentro do guarda-chuva, eu me virei na direção dela.

    — …..

    Ela então levantou o olhar lentamente, e finalmente nossos olhos se encontraram.

    Eu teria sorrido no momento, se ela não tivesse desviado no mesmo segundo.

    — Ei! Olha isso, você desviou de novo!

    — D-desculpa…! — ela cobriu a cara com as mãos.

    Eu suspirei, e então começamos a andar.

    Era realmente estranho. Por qual motivo ela faria aquilo?

    — É que… — ela começou, enquanto caminhávamos, de voz baixa. — …É por causa da noite da virada do ano.

    Meu estômago meio que acabou pesando.

    “Ah… eu sabia”

    Eu realmente tinha deixado ela desconfortável naquela noite.

    — Desculpa — desviei o olhar para o outro lado da rua, com uma voz baixa o suficiente para ela ouvir. — Eu não deveria ter segurado a sua mão, sei que te deixei desconfortável por causa…

    — Não foi nada disso! — ela rebateu no mesmo segundo, sem me deixar acabar minha frase. Ela, de alguma forma, parecia aflita. Ah, e finalmente me encarou por mais de um segundo. — Na verdade, eu é que te deixei desconfortável! Desculpa!

    — Hã?

    Do que ela estava falando?

    Ela não ficou desconfortável?

    Mas ela pensava que… foi ela que me deixou desconfortável?

    Hã?

    — É que… minha mão ficou tão suada e… você acabou tendo que segurar aquilo a noite inteira… desculpa — ela baixou a cabeça na minha direção, tímida e com as bochechas rosadas.

    Huh?

    Eu só consegui piscar, tentando processar o que ela tinha acabado de falar.

    — Eh? Mas era a minha mão que tava suada! Eu é que fiquei nervoso por você segurar a minha mão quente! — rebati, olhando diretamente para ela, também com a cara quente.

    Ela parou, e ficou com as sobrancelhas erguidas, obviamente surpresa e confusa com o que eu tinha falado.

    Ela expirou, com um pequeno sorriso no canto da boca.

    — Então eu acho que ambos estávamos com a mão suada. — ela disse, e deixou uma pequena risada escapar.

    Eu parei também, e não consegui aguentar.

    Rimos juntos ali, enquanto a chuva pesada continuava a cair.

    — …Não consigo acreditar que ambos tivemos a mesma preocupação boba — Naquele instante, eu senti um alívio imenso percorrer meu corpo.

    — Pois é, que bobos — ela concordou, com os lábios ainda sorrindo e seus olhos encontrando os meus.

    Ah…

    O clima mudou no mesmo instante, e eu sorri enquanto ainda continuávamos a caminhar sob o temporal que não dava sinal de cessar tão breve.

    Toda aquela tensão entre nós… era como se tivesse sumido.

    E o que causou isso foi… simplesmente falar.

    “Que coisa boba.”

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