Capítulo 01 — O Menino da Selva

Em meio à vastidão verde da floresta, uma clareira se abre, onde uma cabana recebe, por uma de suas janelas, os primeiros raios de um novo amanhecer. Um garoto salta da cama e já se alonga, estalando cada parte do corpo. No banheiro, o som da água caindo da torneira se mistura ao atrito apressado da escova contra os dentes.
Ele atravessa a cozinha como um vulto. Ao fundo, uma voz o manda tomar cuidado. Desvia da mesa num giro rápido, enquanto o piso de madeira estala sob seus passos. Ao sair pela porta, um clarão quase o cega… Ele leva a mão aos olhos, sorrindo.
Passa rápido entre as árvores, vento remexendo seus cabelos. Ao chegar ao destino, não perde tempo: vasculha cada canto até encontrar o que procura. Bate uma pedra contra a outra, arrancando faíscas em meio a estalos secos. Depois de afiá-las, usa-as como pás, cavando e levantando terra até formar um buraco raso.
Corta galhos de árvores menores, escolhendo os mais firmes. Com as ferramentas de pedra que improvisou, molda a madeira em estacas pontiagudas. Em seguida, finca cada uma no fundo do buraco. Para finalizar, cobre a armadilha com gravetos finos e folhas secas.
Afasta-se bem do local, logo se enfiando no meio do mato alto, e espera, espera, espera, vendo o tempo passar com o suor escorrendo pelo rosto, até… avistar uma fera negra de listras douradas. Robusta, pesada, ela caminha em passos lentos, a cauda serpenteando enquanto pisa macio.
Um movimento denuncia sua presença, e os instintos da fera falam alto. Um rugido rasga o ar, seguido de um salto brutal. O mato se deita, levantando folhas que se perdem ao vento.
O jovem corre, abrindo o mato em movimentos precisos. Logo atrás, cortando a selva, um vulto negro o persegue furioso. Salta sobre um tronco caído. A relva alta se abre e mostra um rosto jovem, olhos castanhos brilhando de empolgação. Ao tocar a terra úmida, um passo em falso o faz escorregar. Cai de lado e já olha para trás. O tigre não está lá.
A pressão do ar muda à sua direita. Uma mordida faminta, sedenta de sangue, mira direto seu pescoço. Os dentes estralam no vazio. Rola para o lado, dobra o joelho para ganhar impulso e desfere um chute na perna da fera. O bicho tomba, mas se recupera num instante.
O garoto gira rápido, empurra o chão e volta de pé. Ergue os punhos, um à frente do outro. Abaixa o corpo, joelhos dobrados. Os dois se encaram, circulando um ao outro em passos curtos e atentos, à espera do primeiro movimento. Raios de luz atravessam as frestas entre os galhos. Pequenas partículas dançam no ar à volta de presa e caçador.
Um rugido agudo marca o início.
O salto vem longo, patas esticadas, presas armadas. O pequeno caçador desvia para o lado e responde à investida socando rápido, leve demais para machucar, forte o bastante para irritar. Vinda do ponto cego, a cauda do animal laça a perna do garoto como um chicote vivo. O puxão é seco, arrastando-o ao chão num impacto que arranca o ar dos pulmões.
Ele começa a ofegar, mas não há tempo para descanso. A patada seguinte desce rápida demais para qualquer esquiva. Cruza os braços diante da cabeça, ainda assim as garras cravam a pele, rasgando sem piedade.
Antes do próximo golpe, rola, marcando o chão de vermelho. Consegue se levantar com dificuldade, apoiando-se em uma árvore. Começa a tremer, mas não de medo. A dor está começando a cobrar seu preço.
Respiração pesada, visão quase escurecendo, e lá vem… a voz do avô em seus pensamentos: Respira primeiro. Sobreviver depois. Solta o ar de uma só vez. Em seguida… puxa devagar. Com a mente mais clara e a respiração no lugar, seu olhar se firma numa direção.
Se vira e corre com toda a força que lhe resta. Perna arrastada, braços molengas.
A fera vê o momento que todo predador espera de uma presa teimosa. Dobra os joelhos em ritual, num rebolado que antecede um salto feroz. A patada abre um rasgo de cima para baixo nas costas do jovem. Mesmo com muita dor, gira o corpo, já agarrando a pata dianteira do animal. Usa o próprio salto da besta para jogá-los no ar.
O mundo vira de cabeça para baixo. Não o dele, mas o do tigre. Firma as mãos, grudando-se aos pelos da barriga, enquanto os dois caem rumo a um amontoado de galhos e folhas secas. O que os espera lá embaixo não tem nada de fofo. Sob aquele monte, estacas pontiagudas rasgam o couro do predador.
A fera se debate por um momento, mas o garoto segura as patas com determinação. Olha para os olhos da besta, onde seus cabelos pretos com mechas brancas se refletem, enquanto, lentamente, as pálpebras do animal vão se fechando até seu último suspiro.
Exausto e machucado, tira o animal da cova rasa. Com muito esforço, o joga sobre os ombros. Carrega o grande felino, arrastando as pernas enquanto atravessa as árvores e, aos poucos, o mato alto começa a se abrir. Chega a uma clareira bem iluminada, onde sopra uma brisa refrescante que enche seus pulmões de alívio.
De longe, já avista o avô saindo da cabana de madeira, simples e aconchegante. O velho se alonga enquanto estrala as costas, colocando as mãos na cintura.
— Vovô Fiogon… — grita o garoto. — Olha o que peguei pro jantar. — Dá alguns passos antes de desmaiar.
Horas depois, abre os olhos com uma brisa leve no rosto. A luz do dia o cega por um instante, e ele pisca rápido até recuperar a visão. Deitado na grama do lado de fora da cabana, ergue a cabeça devagar e percebe que boa parte da dor sumiu.
Olha para o lado. Fiogon abre a caça sobre uma mesa de madeira, em movimentos precisos de faca que ensanguentam seu avental. Quando o jovem tenta se levantar, seu avô move a mão, que brilha em um tom roxo. Ele para no mesmo instante, ficando imóvel.
— Heragon, pode ficar aí mesmo. Usei a última poção azul que tinha. Ela não é fraca, mas também não faz milagres — diz o velho, apontando a faca para o neto.
O garoto suspira, querendo se movimentar um pouco. Obedece, abrindo os braços e se esticando sobre a relva rasteira. Apertando o olhar, se ajeita confortavelmente… não tenta mais se levantar, mas não fica calado.
— Será que a mamãe está lá na Guilda? Já faz um tempo que ela não vem nos visitar.
— Meu neto, seu sonho não é ser um aventureiro igual a ela? — Sua sobrancelha se ergue.
— Sim! Vou me tornar um aventureiro Rank S! Não, espera, melhor, um SSS! — Levanta seu tronco às pressas.
— Hohoho! Esse rank nem existe. Mas por que não? — Coloca a mão na cabeça do neto. — Cresça e crie seu próprio rank. — Suspira. — Mas gostaria que você fosse para a Academia antes de ir direto para a Guilda.
— Não sei… deixa eu pensar. Qual é a diferença mesmo? — Inclina a cabeça, fingindo dúvida.
— Sem vergonha… tá na cara o que vai escolher. Está doido para sair e se aventurar. — Se inclina, repreendendo o pestinha antes mesmo que ele falasse algo a mais.
A risada deles ecoa pela clareira. O garoto abaixa a cabeça, lembra da batalha contra o tigre. Aperta os punhos… pensativo: Ainda não é o suficiente. Preciso ficar mais forte.
Mais tarde, o velho pendura a pele, salga a carne e separa os melhores cortes. Com um estalar de dedos, o sangue some das roupas.
— Heragon, como está se sentindo? — pergunta o avô.
Ele se levanta, estica os braços, alonga o corpo, dá uns pulinhos e responde: — Não estou cem por cento, mas já consigo me mover melhor agora. — Sinaliza com o dedão levantado.
— Nesse caso, pode ir brincar. Mas tome um banho antes de voltar para o jantar.
— Sim, vovô! — Corre em disparada mata adentro.
Fiogon olha na direção do Rio Fronteira, que separa a Garra Verde da Garra Central. Leva a mão ao medalhão pendurado no pescoço:
Essa presença… — Fecha os olhos por um instante.
A imagem vem da margem do rio. Sentado sobre uma rocha, costas largas e vara de pescar em mãos. O rosto se vira suavemente, por debaixo daqueles cabelos grisalhos… um sorriso que beira o malicioso.
O avô abre os olhos e volta para a cabana. Seu sorriso se abre ao mesmo tempo em que a porta se fecha com um rangido preguiçoso.
O dia passa tranquilo, na mesma rotina de sempre. Fiogon prepara o jantar enquanto Heragon explora até onde seus olhos podem alcançar. Volta para casa sem pressa. Uma brisa vinda da floresta traz o cheiro de madeira, de folhas… mas o mais importante para ele vem da chaminé: comida.
Aperta o passo, ainda com o cabelo pingando depois do banho. Abre a porta e logo vê um pequeno caldeirão pendurado sobre a grande lareira, com as brasas estalando em vermelho. Num canto, gotas pingam do cano da pia. Do outro lado da cabana, uma estante de livros ocupa a parede ao lado da porta que leva aos quartos.
Mas é no centro do ambiente que seu olhar se fixa. A mesa está lotada de comida, e o avô finaliza os últimos detalhes sem cerimônia nenhuma, mas com fartura.
— Strogonoff! Minha comida favorita! Isso sim é presente! — Praticamente berra.
— Mas é claro! — O velho coloca os pratos sobre a mesa. — Hoje é um dia especial. Dezesseis anos, Heragon. Para a nossa raça, é aí que a vida começa pra valer.
— Finalmente sou um adulto. Vamos, me ensina Ressonâncias legais!
— Hohoho… paciência, meu neto. Tudo ao seu tempo. — Ele leva a mão ao ombro do garoto.
— Estou empolgado! Vou me tornar o mais forte de todos! — Põe comida em seu prato.
— Hoooo! Assim como as plantas e os animais absorvem energia, o segredo para ter bastante Eco é…
— Tá muito bom! Quero mais!
— O quêêê?! Já?! Hohoho! Esse é o meu neto! Iria dizer que o segredo é comer bastante, mas vejo que nem preciso falar.
Comem até não aguentarem mais, conversam sobre um monte de coisas e riem até faltar ar. Fiogon joga mais lenha nas brasas, e o fogo dança na lareira, iluminando ainda mais aquele momento. Depois do jantar, o jovem encosta a barriga na pia e começa a lavar os pratos. O velho prepara um chá, observando as ervas flutuarem na água quente.
O ar muda subitamente. O avô leva a mão ao medalhão e suspira. A floresta mergulha em silêncio. Nem os insetos se atrevem a cantar. Até o vento para de soprar. Ouvem estalos secos de madeira se partindo, um som vindo de cima.
De súbito, algo cai do telhado rumo a mesa da cozinha.

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