Capítulo 15 — O Domínio do Céu Negro

Os olhos vermelhos não piscam. O ar ao redor parece ficar mais frio… ou mais pesado, como se a nuvem tivesse encontrado seu dono.
Taira reage no mesmo segundo. Lanças de gelo surgem no ar e começam a orbitar em torno dela. Ao comando de suas mãos, disparam.
A criatura desvia com movimentos secos, econômicos, e contra-ataca com as garras. Uma parede de gelo se ergue. As garras cortam, racham e rompem a defesa como se estivessem rasgando papel molhado.
Antes que atinjam a garota, Heragon surge do lado, rasgando o ar. Ele usou o Impulso no máximo, sem pensar. A criatura percebe, desloca o corpo e bate uma pata no chão de nuvem.
A espuma cede e afunda num círculo perfeito, como se obedecesse.
Heragon passa reto. Perde o tempo do golpe. Sem controle, cai quicando pelo solo fofo.
A nuvem reage como um trampolim e o joga para cima… e, por um instante, ele vê a criatura se mover junto, subindo com ele, como se o salto fosse um degrau.
Ela domina o ar, espaço e o ritmo da luta. Desce com um golpe seco no peito do rapaz. A visão apaga dele apaga no mesmo instante.
Um tempo depois…
Heragon acorda com uma dor forte no peito. Talvez não seja visível por causa da alta regeneração do traje, mas a criatura o feriu. Por sorte, o golpe não foi profundo.
Graças à capacidade regenerativa dos Dragões jovens, a ferida já está quase cicatrizada.
Ele olha ao redor e percebe que está em uma caverna: paredes de pedra, solo firme coberto por grama rasteira e arbustos; uma árvore com frutos estranhos; ao lado, uma vereda d’água. No ar, pequenos insetos bioluminescentes flutuam, emitindo uma luz intensa e deixando o ambiente bem iluminado.
Avista a garota desmaiada, com três cortes nas costas. Aproxima-se e verifica se ela ainda respira. O alívio vem… mas não dura muito.
Ao observar os ferimentos, entende: não é hora de relaxar.
Seguindo as instruções de sobrevivência ensinadas pelo avô, ele lava os cortes com a água da vereda. Em seguida, pega folhas dos arbustos, molha, amassa nas mãos e aplica com cuidado sobre as feridas.
Recolhe galhos e folhas secas, colhe algumas frutas e faz uma fogueira ao lado da garota. Senta-se, come e a observa em silêncio.
Após algum tempo, nota que o calor não é suficiente para aquecê-la. Aproxima-se, a abraça com cuidado e usa uma técnica aprendida com Ouroboros, aumentando a própria temperatura corporal. Depois de um tempo, ele acaba adormecendo ali mesmo.
— Ei, garoto. — Um empurrão.
— Hum…
— Acorda. — Outro empurrão.
— Hum… mais cinco minutinhos…
— Sai de cima de mim logo! — ela berra, chutando ele.
— Opa, desculpa! — Ele se afasta, meio sonolento. — Você acordou?
— Meio óbvio, né? Ai, ai… que dor. O que é isso nas minhas costas?
— Folhas dos arbustos — responde ele, simples.
— Olha só… algo assim só faz efeito se forem folhas medicinais.
— Eu sei. — Heragon coça a nuca. — Mas era melhor do que deixar aqueles cortes abertos. E… funcionou o bastante pra você acordar e gritar comigo.
— Ah… nesse caso, tudo bem. — Ela respira fundo, apesar da dor.
— Como você se machucou daquele jeito? — pergunta Heragon.
— Você me deu um trabalhão. Depois que foi derrotado, dei um jeito de te pegar e fugir. Fomos perseguidos por aquele bando lá fora. Achei esta caverna, mas, antes de entrar, acabei sendo atingida. Usei a energia que restava para bloquear a entrada.
— Por isso está tão frio aqui. — Heragon olha para o enorme bloco de gelo na entrada da caverna.
— Agora que percebeu? Para algumas coisas você é esperto, mas para outras… é bem tapado.
— Obrigado por me salvar, mesmo sem me conhecer direito.
— É bom estar agradecido mesmo. Você é pesado, foi difícil te carregar. Te salvar é algo natural para mim. Afinal, me chamo Taira, da grandiosa raça dos Librarianos. Nosso dever é proteger quem precisa de ajuda, nascemos para sermos Heróis.
— Maneiro. Já ouvi histórias sobre a sua raça. Bem, me chamo Heragon, da orgulhosa raça dos Dragões! — Ele faz uma pose exagerada.
— Ei, está me imitando, por acaso? — Ela estreita os olhos. — O quê? Espera… Dragões?
— Você falou com tanta convicção que me empolguei.
Se ele é um Dragão, significa que posso voltar para casa mais cedo do que pensei… — Taira tenta disfarçar, escondendo o sorriso que cresce em seu rosto.
— Agora que nos apresentamos, preciso de uma explicação.
— Hehe, imagino que sim. Bem…
O jovem explica, de maneira resumida, o que aconteceu e como chegaram até ali.
Entendi. Ele ainda não é um aventureiro… nesse caso, tenho que ajudá-lo o máximo possível. Assim, posso convencê-lo a aceitar aquela missão. — Taira vira seu olhar para Heragon. — Nossa situação atual não é muito boa. Temos que derrotar aquela coisa e eu não sei se consigo ajudar agora. Vai demorar um pouco para me recuperar.
— Já pensei em algo — diz Heragon.
— Qual é o seu plano?
— Treinar, ficar mais forte e derrotar aquela coisa.
— Você chama isso de plano? — Ela suspira. — Mas… é melhor do que nada.
— Faça uma abertura no gelo. Vou lá fora começar. Colhi algumas frutas para você comer. Descanse e se recupere.
— Está bem. Só tenta não morrer.
Ela cria um buraco no bloco de gelo. Heragon sai da caverna e, logo em seguida, Taira fecha a entrada de novo.
— Muito bem… — Ela observa o bloco. — Tenho que modelar melhor esse gelo… deixei uns buracos nos cantos para o ar entrar, mas precisamos de mais ventilação. Também não dá para ficar abrindo um buraco novo toda vez que ele entrar e sair. Precisamos de uma porta.
Enquanto a jovem reúne forças e se recupera, Heragon começa a correr por aquele solo fofo, tentando se acostumar ao terreno. Não demora para o bando percebê-lo. A perseguição começa.
Ele ainda corre com dificuldade, mas já está se adaptando. Algumas vezes é alcançado; por enquanto, foca em desviar das investidas, aceitando alguns arranhões como parte do treino.
Em certo momento, despista as criaturas, encontra uma pedreira com água corrente, bebe e se senta sobre uma rocha.
— Haa… — Ele respira fundo.
Um rosnado o interrompe.
Heragon ergue o olhar e vê outro grupo de criaturas: corpos cobertos por penas, mas com a aparência de lobos, olhos brilhando na escuridão.
— Haha… pelo jeito, não vou ter tempo para descansar. — Heragon sorri empolgado, se levantando com os punhos fechados. — E lá vamos nós.

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