Capítulo 06 — Abismo

Não vieram correndo.
Não vieram “ajudando”.
Vieram do jeito que predador chega quando a presa já cansou: no tempo deles.
A neve afunda um pouco mais a cada passo.
E o luar, por algum motivo, parece menos… gentil.
O estrago no chão ainda está quente.
Mas o que chegou agora é outra coisa.
É frio de matemática.
Frio de “acabou”.
Ômegas, dispensam apresentações. São o topo do topo, da cadeia alimentar.
Curupira, Hunter Ômega; Espécie: Track. São rastreadores, excelentes em criar armadilhas.
Ela vai na frente, pequena, quase juvenil, cabelos um pouco acima dos ombros, o rosto sorridente voltado para Fiogon.
— Irú… e aí, Fiogon. Há quanto tempo.
São Jorge, Hunter Ômega; Espécie Domitor. Domam animais, bestas e criaturas para lutar.
Veste uma armadura de metal e um elmo na cabeça; a cicatriz no olho esquerdo destaca o olhar duro enquanto encara o horizonte deformado e a neve ainda “viva” de energia.
— Essa luta causou estrago demais. Típico de dragão.
Ele lança uma breve olhada para Fiogon, que apenas sorri de volta.
Odin, Hunter Ômega; Espécie: Perfidus. Ótimos em esconder sua presença, atacam sorrateiramente.
Cabelos cacheados, armadura leve, ri baixo, já cutucando onde dói.
— Por que está reclamando? Se quisesse menos estrago, podia ter vindo no lugar do Hugo. Ou o famoso caçador de dragões ficou com medinho?
São Jorge vira o rosto devagar. O brilho do luar pega na armadura e se estilhaça em reflexos limpos, quase como vitral quebrado espalhando fé pela neve. Até o vento parece hesitar antes de encostar nele.
— Medo? Fala quem prefere a noite e a sombra. Atacar pelas costas virou bravura agora… hein?
Odin dá um passo. A luz ao redor dele não reflete; parece afundar. As sombras se juntam no chão como cães treinados, e o ar fica fino, frio, com cheiro de caçada começando.
— Hã. Bonito discurso. Lenda… famoso caçador de dragões… qual dragão dizem que você matou mesmo? Ah, lembrei. — Ele sorri maliciosamente — He…
São Jorge emite uma presença que pesa o ar, fazendo pássaros se assustarem aos quatro ventos.
Os dois encostam a testa um no outro, como duas feras teimosas marcando território.
Uma figura passa entre eles e empurra os dois para o lado, sem esforço.
— Já chega.
Diana. Hunter Ômega; Espécie: Venator. Só uma palavra a define: Predadora.
Olhar afiado, cabelos pretos, postura de quem não veio assistir, veio encerrar.
Ela para diante de Fiogon.

— Fiogon… como vai ser?
Fiogon solta o ar, vencido mais pela matemática do que pela dor.
— Desisto. Com tantas feras e uma predadora, não tenho energia nem para fugir… — Ele vira o rosto, resmungando. — Mas não vou dizer onde está meu neto.
Diana inclina levemente a cabeça.
— Sem problemas. — Ela passa a língua nos lábios, devagar, sem pressa. — Vai ser mais divertido caçá-lo.
Correntes de prata prendem Fiogon. Ele é arrastado para dentro de uma jaula, puxada por ferozes Tigres presos a coleiras de energia.
Tigres Dentes de Sabre
Tipo: Besta; Ameaça: Legendário; Classe: Dino.
— Levem-no para a masmorra subterrânea — ordena Diana.
São Jorge olha para Hugo, que acena de leve.
Assim, Fiogon é levado.
— Ué… não vem, Hugo? — indaga Curupira.
— Depois alcanço vocês. Por enquanto, vou ficar deitado enquanto o chão ainda está quente.
Ele fecha os olhos e respira fundo, encarando o céu estrelado. O rastro de uma estrela reflete em seus olhos.
“Heragon… boa sorte. Você vai precisar.”
Ao deixar Floressi, percebemos que estamos envolto por uma densa névoa.
De dia, o Nimpo é limpo. A cúpula das dimensões altera o espectro da luz, que deixa de ser prateado e se torna azul.
De noite, a maré sobe. Gêiseres entram em erupção e cobrem as dimensões com uma nevoa negra, escurecendo o interior da cúpula, que logo é levemente iluminado pelo brilho prateado.
Vamos mergulhar mais fundo nesse Miasmo quase mais denso que água, descendo por uma grande fenda. Trevas definem este lugar, escondendo seres aterrorizantes, pesadelos vivos.
É arriscado ir mais fundo.
Lá, onde a luz se desfaz e o tempo esquece o próprio nome, uma ilha solitária flutua dentro de um mar de Miasmo envolto em uma cúpula.
No topo dessa ilha esquecida, um castelo em ruínas desafia o silêncio. Torres partidas, muralhas corroídas, janelas cobertas por um brilho escuro. Cada pedra parece lembrar algo que o resto do Multiverso preferiu esquecer.
Dentro dele, passos ecoam. Lentos. Certos. Fortes.
A cada passo, o chão se curva um pouco; as sombras se ajeitam, como se quisessem sair do caminho.
Uma figura surge, usando um traje negro que devora a própria luz. Seu corpo é uma cicatriz viva no tecido do Multiverso.
Ele se senta em um trono de ferro retorcido. O trono vibra, como se odiasse o peso que é obrigado a sustentar.
Do solo rachado, seres se erguem da neblina de Miasmo que emana dali. Criaturas distorcidas, com cristais cravados em seus corpos, surgem daquela névoa pesada: Tritsers. Garras, bocas, olhos que não fazem sentido, escamas e barbatanas… todos se curvando diante do trono.
A figura ergue o olhar. Sua voz é grave, arrastada, como se tivesse atravessado eras demais.
— …O selo… está quase quebrado.
O ar vibra. O castelo range, longamente.
Das sombras à frente, outra presença aparece: uma figura encapuzada, máscara negra, postura curvada em respeito.
— Meu senhor… — diz, com voz neutra. — Sua expressão mudou. Aconteceu algo?
O ser no trono apoia o queixo na mão, como alguém entediado que, mesmo assim, está atento a tudo.
— O tempo… vacila — ele diz. — A linha se estica. Está frágil, perto do fim.
Ele respira, e o ar ao redor se comprime.
— Vi algo que nunca tinha visto antes.
— Uma visão…?
— Não. Um presságio. — Seu traje escuro se inclina um pouco à frente. — Vi uma fera alada com três sombras. Longos cabelos. Um manto. Um olhar que o tempo não reconhece. Algo que ainda não existia.
O mascarado hesita.
— E… o que isso significa, meu senhor?
O trono estala. Fissuras se abrem na estrutura.
— Significa… — A voz dele se enche de ódio e satisfação. — Que o último ciclo começou.
O Miasmo ferve. Os Tritsers urram, como se celebrassem e temessem ao mesmo tempo.
— Por incontáveis eras, eu fui arrastado de volta ao início — ele continua. — Sempre que me aproximava do fim… o tempo me puxava de volta. Mas agora… o fluxo não vai recuar.
O mascarado permanece em silêncio. Mesmo ele sente: algo mudou.
— A profecia está se mexendo. — o ser no trono continua. — Aquela Celestial insolente deve ter sentido. Mas não importa. Desta vez… o ciclo não vai se repetir.
Ele caminha até a sacada. Seus punhos se fecham lentamente.
— Meus outros Aspectos logo vão despertar… e, quando isso acontecer, o Multiverso vai se curvar diante de meus irmãos.
Relâmpagos escarlates rasgam as trevas. O castelo treme.
Ele apenas sorri. Um sorriso calmo, quase satisfeito.
— Desta vez… nada será capaz de me deter.
O riso que se segue não é alto, mas parece atravessar mundos.
Não é o riso de quem ameaça.
É o riso de quem lembra!


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