Floressi — à tarde

    Garra Central

    Vale do Desespero

    Uma neblina engole a visão. A savana ao redor, estranhamente quieta. Ele caminha com calma, como se o silêncio fosse só mais um detalhe do cenário, enquanto pequenos roedores roem um osso ainda com vestígios de carne. Ao menor sinal de presença, disparam, deixando a refeição para trás.

    Os passos no solo úmido, aos poucos, são substituídos por pedras talhadas. O ar branco, leve e insistente, revela casas rústicas surgindo uma a uma, com cabeças de animais empalhados no topo, exibidas como troféus que vigiam quem se aproxima.

    Sem muros, sem bloqueios, uma grande estrutura se impõe. Paredes erguidas com ossos de bestas gigantescas. No lugar de pinturas, peles de animais cobrem tudo, como se a própria história daquele povo tivesse sido escrita em carne, caça e inverno.

    Ele atravessa um corredor largo e chega a um portão. Entra. O chão cede ao tapete de couro sob seus pés. À frente, um trono feito de incontáveis ossos, empilhados com a paciência cruel de quem nunca esquece uma vitória.

    Hugo se ajoelha diante de uma figura imponente, cabelos negros e olhar penetrante.

    — Predadora.

    — Sabia? A tradição diz que cada novo Predador deve cravar um osso nesse trono.

    — Sim, eu sei. Afinal, já me sentei nesse trono.

    — E, mesmo assim, deixou o garoto escapar com o Medalhão Rodens… e empatou com um dragão velho, datado de antes da Era Pós-Noite. — Ela eleva o tom, cada palavra batendo como um golpe.

    — Ele pediu ajuda para aquela mulher. Os rastros foram apagados depois que o garoto foi levado… e Fiogon, mesmo sendo velho…

    — Sem desculpas. Hércules unificou nossa raça. Depois que ele foi embora, seu meio-irmão, meu pai, assumiu. Depois de morrer… por muito tempo me foi negado o trono.

    Hugo permanece em silêncio. Ela se levanta do trono, desce com passos firmes e caminha até ele. Pousa a mão em seu ombro e fala perto do seu ouvido, como quem faz questão de que a humilhação tenha endereço certo.

    — Você é uma decepção, igual ao seu filho traidor. Os outros Ômegas e seus subordinados ficaram a cargo de rastrear o garoto.

    — Sim, Predadora. — Ele serra os punhos e pensa, irritado: “Essa pirralha… é isso que dá colocar uma coroa em alguém tão jovem.”

    Ele se mantém centrado, permanecendo onde está.

    Ela caminha, saindo da sala do trono, seguindo por um corredor silencioso, comprido demais para parecer normal. No fim, uma porta entalhada com a cabeça de um touro a encara com um olhar vazio — ou talvez nem tanto. Ao abri-la, um ar frio e pesado escapa, trazendo consigo um cheiro metálico, antigo… quase vivo.

    Descendo uma escadaria que parece não ter fim. As tochas nas paredes queimam com chamas azuladas, tremendo como se temessem o que guardam ali embaixo. O chão muda, as pedras ganham rachaduras, e o som dos passos ecoa de um jeito estranho, como se alguém, ou algo, respondesse a cada pisada.

    Os corredores abaixo são estreitos, úmidos e cobertos por uma névoa densa. Às margens, celas de barras grossas se estendem por todos os lados. Nenhuma delas tem fechaduras, mas, curiosamente, parecem seguras o bastante para convencer qualquer um a não sair. Há algo naquele lugar… um instinto, uma presença que faz o corpo hesitar e o coração acelerar.

    No centro, um portão colossal de ferro negro. Três fechaduras o selam, desenhando runas em um brilho fraco e azulado. Atrás dele, correntes de prata maciças se entrelaçam, conduzindo até as algemas que prendem Fiogon, imóvel, mas com um leve sorriso — sereno, quase orgulhoso.

    — Meu neto… — diz ele, a voz ecoando como um sussurro que o lugar inteiro escuta. — Sua jornada acabou de começar. Siga o seu próprio caminho… e não se esqueça de aproveitar a vista.

    O portão se abre.

    Diana entra com um sorriso de canto, como quem já conhece o gosto da vitória antes mesmo de servir o prato. A luz recorta a silhueta dela por um instante, e o ar parece ficar um pouco menor, só para caber sua presença.

    — Hora do interrogatório — diz, mordendo de leve o canto da boca.

    Jurassic

    O venenoso começa com o treinamento de Heragon.

    — O quanto você conhece sobre Eco e Ressonância?

    — São uns poderes legais que usamos pra lutar. Usa… Ecu?

    — Quase isso. A gente repõe Eco com um bom controle de respiração e se alimentando bem.

    — Então por que eu ainda não consigo usar Ressonância?

    — Porque o Eco vibra em diferentes frequências. Pra usar Ressonância, você precisa alinhar essa vibração primeiro em uma única frequência… ou seja, em um canal.

    — Entendi…

    — O que você entendeu?

    — Entendi foi nada.

    — Moleque. — Ouroboros dá um cascudo em Heragon. — Preste atenção. Pense nos canais como trilhas. Você até pode correr, mas se tentar correr em todas ao mesmo tempo, tropeça no próprio pé.

    Contando com uma paciência bem curta, explica:

    — Elemen: Elementalização. Criação e manipulação dos “atributos básicos”: fogo, água, vento, terra, luz, sombra… “atributos Variantes”: mesclagens de elementos básicos, como gelo ou raio… “atributos avançados”: toxina, madeira, atmosfera, alma, Espaço e éter.

    Ergue o dedo:

    — Mater: materialização; Forti: fortificação; Modi: modificação; Invo: invocação; Mani: manifestação; E tem o que ajuda na comunicação entre Canais, Adap: Adaptação.

    Heragon pisca, tentando acompanhar.

    — Tá… então cada raça puxa mais pra um desses?

    — Exato. — Ouroboros aponta pra ele. — Dragões usam o canal Elemen, o que nos permite criar e manipular elementos com base no atributo. Isso varia de espécie pra espécie.

    — Mas como assim vibrar, frequência?

    — O Eco, na forma base, vibra em frequências diferentes o tempo todo. O canal alinha o Eco em uma frequência. E, se você usar Adap, dá pra alinhar mais de uma ao mesmo tempo.

    Ouroboros abre a mão esquerda e cria uma névoa verde em torno dela. Na direita, em vez da névoa, surge uma “chama” verde, firme, com aparência de fogo.

    — Qual a diferença entre as frequências em cada mão?

    — Uma cai e a outra sobe.

    — Não! Palhaço.

    Ouroboros estala a língua, segurando a vontade de dar outro cascudo.

    — Na esquerda, estou usando só Elemen em toxina. Na direita, interliguei o Elemen ao Adap e alinhei com Modi… só pra dar aparência de chama.

    Heragon olha empolgado… mas logo recua e cruza os braços, pensativo.

    — Legal. Eu achava que era um Drake igual ao vovô, mas… se eu usei fogo, então sou um Ignivern?

    O venenoso fica em silêncio por alguns segundos.

    — Fiogon pelo menos te ensinou sobre os Dragões.

    — Pois é. Quando não estávamos treinando, o vovô contava histórias. De vez em quando eu gostava de ler alguns livros. Os de aventureiros e Dragões eram os que eu mais gostava.

    — Sem perder o foco. Pra usar Ressonância, vou te ensinar o Sinal. A maioria das raças tem afinidade com a faixa imagética, porque é a mais intuitiva. Tente criar uma chama na sua mão. Pense no Eco, molde no que quer criar… e no resultado disso.

    Heragon abre a mão, tenta, mas nada acontece.

    — É… difícil. — diz o jovem, apertando os olhos.

    — Imagine a chama… depois como ela se move… e, em seguida, o que ela causa. Passe isso na sua mente como se estivesse olhando quadros em sequência, cada um mostrando a chama num estágio diferente.

    Apertando os olhos outra vez, faíscas pipocam na mão dele. A pequena chama surge… e apaga. Surge… e apaga.

    — Pelo jeito, não vamos a lugar nenhum assim. Existe uma Ressonância da nossa raça que é mais fácil de visualizar. Vamos começar por ela.

    Esse venenoso é meio ranzinza, mas até que é um professor decente. O quê? Por que eu o chamo de venenoso? Porque sim, e pronto!

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