Capítulo 10 — Yggdrasil

Rodeada por densas névoas, uma cúpula luminosa se destaca, envolta por nuvens. No topo, um branco intenso escurece à medida que desce, como um crepúsculo eterno.
Próximo à cúpula, um verde surge entre o branco das nuvens.
Ao entrarmos, passamos por entre enormes galhos cobertos de folhas. O inusitado: cada galho tem o tamanho de um arranha-céu, como se vários prédios tivessem sido empilhados um sobre o outro. E cada folha daria para uma pessoa usar como paraquedas.
Descendo mais e mais, vemos um mar de nuvens densas, tão fofas que parecem dar para nadar. Peixes serpenteiam por elas, saltando para outras nuvens, seguindo o som distante das cachoeiras.
Ilhas flutuantes pontilham o céu: algumas gigantes, com árvores colossais; outras pequenas, com árvores delicadas, como bonsais pendurados no abismo.
Cachoeiras deságuam pelas bordas das ilhas, fluindo tão calmas que parecem rios verticais que esqueceram de cair.
Aves cruzam o céu: umas grandes, com asas como velas; outras pequenas, rápidas como flechas. Todas à espreita, esperando que um peixe se arrisque a planar demais.
No horizonte, algo maior toma a visão: uma árvore colossal, tão grande que seria necessário empilhar incontáveis torres para alcançar seu topo. Tão grossa que dar uma volta completa levaria dias.
Suas imensas raízes se estendem e se prendem a ilhas próximas, como pontes vivas. Ilhas repousam nos galhos do tronco, como se descansassem após flutuar demais. Já a ilha que sustenta esse colosso é igualmente colossal, com as bordas despejando cachoeiras imensas.
Em uma ilha ao lado, ligada a uma das raízes, uma estrutura de blocos de pedra empilhados guarda, em seu interior, um gigantesco Pilar com runas brilhando em roxo. Um feixe de luz despenca do céu e atinge o topo da imensa estrutura.
Ao atravessar o portal, Heragon surge no interior de um prédio colossal, onde fileiras de Pilares se erguem lado a lado, como colunas de uma engrenagem antiga e perfeitamente organizada.
Corredores estreitos, delimitados por fitas presas a pequenos postes, conduzem o fluxo de pessoas até uma única fila diante de um guichê. O ambiente cheira a papel, metal e pressa. Passos ecoam pelo salão, vozes se misturam num zumbido impaciente, e ninguém parece ter tempo para hesitar.
Atrás do balcão, uma mulher de expressão seca estende a mão sem sequer erguer o rosto por completo, já esperando receber o que para ela era óbvio. Heragon apenas franze a testa. A exigência se repete, mais lenta, mais dura, como se a impaciência pudesse traduzir o desconhecido.
Ainda assim, ele continua perdido. Não fazia ideia do que ela queria, muito menos do tipo de lugar em que havia acabado de pisar.
O olhar da atendente endurece. Com a mesma frieza mecânica daquele salão, ela esclarece que ninguém entrava sem documentos e sem o pagamento das taxas exigidas. Antes mesmo que Heragon pudesse reagir melhor, os dedos dela apertam um botão sob o balcão. O efeito é imediato.
Seguranças avançam por entre as filas e o cercam em poucos segundos, fechando o espaço ao redor dele como uma armadilha pronta para se fechar. O rapaz responde no mesmo instante: fecha os punhos, recolhe os cotovelos junto ao tronco e abaixa levemente o queixo, deixando o corpo pronto para explodir ao menor sinal de ameaça. Então um homem grande se aproxima por trás e pousa a mão em seu ombro.
Péssima decisão.
O jovem agarra o punho do brutamontes e o aperta com firmeza. Num único movimento, puxa o braço do homem para si e projeta a perna para trás, varrendo o chão sob os pés dele.
O corpo do grandalhão perde a base, sobe no ar e, no instante seguinte, é arremessado com violência contra o piso frio. Os outros avançam de uma vez, mas Heragon corta os ângulos com os punhos cerrados e a base bem firme. Entra e sai da distância no tempo certo, quebra o equilíbrio, varre pernas, derruba um, depois outro, e mais outro.
Em poucos segundos, todos estão no chão, largados entre gemidos.
Encostada à parede, uma mulher observa. Alta, pele morena, abdômen definido, runas tatuadas nos braços e pernas. Cabelo curto, roupas leves que deixam o corpo solto para golpear.
— Interessante… o garoto é bom, mas só domina o básico. Vence na força e na intuição.
Ela avança em passos curtos que, aos poucos, se alongam, encurtando a distância sem pressa. Sem qualquer aviso, estala o quadril e dispara um chute frontal na direção do peito dele. Heragon percebe por muito pouco.
Cruza os antebraços, endurecendo-os, e absorve o impacto com um recuo pesado. Quase perde o equilíbrio, mas finca os pés no chão e se mantém firme. Puxa o ar fundo e balança os braços, tentando expulsar o formigamento.
— E aí? — ela provoca, ajeitando a guarda. — Vai ficar parado ou vem? Se não vier, eu vou.
A pressão no ar aumenta. No rosto dele, porém, só empolgação. Heragon baixa o centro de gravidade: um braço à frente, o outro recuado, peso bem distribuído, pronto para reagir.
A mulher mantém guarda alta, queixo protegido, tronco levemente girado. Pernas afastadas, prontas para chutar com qualquer perna. Braços vivos, marcando distância. Ela avança devagar, olhar cravado nele, passos medidos.
Heragon dá um passo curto para dentro e tenta um agarramento de tronco. Ela torce o corpo no último instante, respondendo com um chute lateral.
Ele bloqueia no antebraço e sente o impacto até o ombro. Já contra-ataca em linha, mas ela sai do alcance num pequeno recuo.
— Olha só… achei que você só sabia o básico. Tem um contra-ataque decente. Te subestimei.
Ela encurta a distância em passos curtos. Um joelho sobe, raspando o vazio. Em seguida, o corpo gira numa canelada por cima, sem espaço para acertar, as tatuagens brilham.
Heragon arma a resposta… e o golpe entra no abdômen por um ângulo impossível. O ar foge do peito. Ele é levantado do chão e, ainda no ar, recebe outro chute que o joga de costas.
Tonto, encara a lutadora.
Os ombros e quadris dela se movem e, um instante depois, um rastro translúcido do corpo repete o gesto, meio atrasado, uma investida fantasma onde a imagem demorasse a voltar.
Chamas discretas se acendem ao redor dos punhos do garoto. Ambos adversários ajustam a base para voltar ao combate.
Quando uma pressão diferente afunda o ambiente. O ar pesa em uma chuva de presença.

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