Capítulo 11 — Plantinha?!
Merlin salta e puxa Heragon junto.
— Matriz: Elemen Vento — Ejetor!
Uma rajada de vento os arremessa para o alto. Uma boca gigantesca se fecha exatamente onde estavam.
Eles caem perto e, com outra rajada de vento, Merlin amortiza a queda.
— Se não fosse por você… já era! — diz Heragon, ofegante.
Do solo irrompe uma planta colossal, toda dentes e cipós.

Carnoda
Tipo: Besta; Ameaça: Épica; Classe: Treant.
— Lembrei! Essa é uma planta carnívora chamada Carnoda! — explica Merlin. — Ela atrai suas presas usando uma fruta rica em Eco, conhecida como Onda Doce.
— Plantinha uma ova! Olha o tamanho disso! — grita Heragon.
— Vamos ter que lutar.
Heragon dispara sem pensar.
— Espera! A gente precisa de um plano! — grita Merlin.
Mas era tarde demais.
Heragon salta na direção da planta carnívora. A Carnoda reage com uma chuva de cipós. Ele desvia de alguns; outros o pegam e o arremessam ao chão com força. A pedra arranca o ar do peito. Mesmo tonto, ele se levanta e avança de novo.
Merlin observa, atento, procurando uma brecha. Heragon desfere socos e chutes; aos poucos, concentra chamas fracas nos punhos, calor o bastante para marcar a superfície. Dano mínimo… mas real.
A planta se enfurece. Os ataques ficam mais agressivos, apressados, como se tivesse perdido a paciência. Cipós se entrelaçam num instante, torcendo e apertando até virarem uma broca viva. Ela dispara direto nele, girando com fúria.
— Matriz: Invo — Teleporte!
Heragon desaparece no exato momento em que a broca atinge. O golpe perfura o solo com força absurda, rasgando e estilhaçando a terra como argila diante de uma lâmina quente.
Heragon reaparece ao lado de Merlin, ainda sentindo o vento do ataque que quase o pegou.
— Uau… pareceu o vovô. O que foi isso?
— Algo que gasta muito Eco… — Merlin responde ofegante, o peito subindo e descendo rápido. — Heragon! Vamos trabalhar juntos! Eu sei que você quer aproveitar para treinar, mas a gente precisa de um plano.
— Tá bom… me empolguei.
— Certo. Observa o movimento da Carnoda e procura uma brecha. Tenho uma fórmula nova que pode funcionar.
— Pode funcionar? Ótimo. Eu adoro apostas suicidas.
— Essa foi boa! — Merlin solta um riso rápido. — Vamos tentar derrotá-la sem destruir a fruta. Você vai ter que queimá-la, e eu cuido da proteção.
— Minhas chamas ainda estão fracas…
— Dá um jeito. Confia na sorte. Eu sou sortudo!
— Tudo ou nada, então.
Heragon para de atacar e passa a só desviar, enquanto Merlin analisa o padrão. Ele percebe: a planta sempre tenta puxar o alvo depois de imobilizá-lo. Heragon também nota.
— Merlin, prende meus pés no chão!
Heragon começa, finalmente, a querer usar o cérebro. Finalmente, hein, garoto!
— Tem certeza? Você vai ficar vulnerável!
— Confia em mim. Tenho um plano.
Heragon se concentra.
— Endurecer!
A pele se torna firme, metálica, a única Ressonância que ele aprendeu com certa facilidade.
— Matriz: Elemen Madeira — Enraizar!
Raízes rompem do solo e o prendem até os tornozelos. Os cipós se fecham em volta do seu corpo, apertando e puxando, e a Carnoda tenta arrastá-lo, como quem quer arrancar um troféu do chão… só que, desta vez, em vão.
Heragon finca o corpo, baixa o centro de gravidade e segura a força da planta no braço e na postura, travando cada puxão como se estivesse segurando uma correnteza com as próprias mãos.
“Vamos lá… lembra da Salamandra. Fogo… fogo mais quente.”
Ele estreita o olhar, fecha os punhos, respira fundo, solta o ar devagar. O Eco na mente ganha forma, imagem atrás de imagem, lado a lado, até se fixar em uma só.
Subitamente, um clarão.
— Em Chamas!
O corpo se incendeia. As chamas correm pelos cipós. A planta grita em agonia. A boca se abre por completo… a brecha perfeita.
De olhos fechados, Merlin cria em suas mãos duas esferas grandes de Eco que lembram painéis cheios de pontos de luz. Flutuando entre elas, forma uma esfera menor, compacta. Fios de energia saem das maiores e se conectam à menor, ponto por ponto, como se ele montasse um circuito no ar.
— Protocolo — Matriz: Elemen Vento e Luz/Variante…
Quando tudo se encaixa, Merlin choca as esferas, fundindo-as em uma só. A estrutura vibra.
— Vácuo!
Merlin ergue uma barreira luminosa ao redor da fruta. O ar é expulso, formando um vazio que suga o calor e impede as chamas de tocá-la.
A Carnoda é consumida pelo fogo e desaba, enquanto a fruta permanece intacta.
Merlin cai de costas no chão.
— Merlin! Você está bem?! — grita Heragon, ofegante.
— Estou… mas meu Eco já era. — Ele ri, exausto. — Esse tipo de programa consome muita energia.
— Conseguimos! Aquilo foi muito legal.
— Eu só improvisei… nem sabia se ia dar certo. Tivemos sorte. Mas você foi muito maneiro.
— Então estamos empatados. — Heragon sorri, ajudando-o a se levantar. — Vamos para casa antes que o azar apareça.
Heragon coloca Merlin nas costas e segue em direção à saída da caverna.
De longe, Ouroboros observa, um sorriso satisfeito no rosto.
— Morgan… seu discípulo é talentoso. Vou ter que pegar mais pesado com o meu.
Ele suspira, mas sorri de canto.
Ate Morgan tem um discípulo agora. Vou ter que arrumar um para mim. Não é inveja não tá!
De volta à casa do venenoso, os dois chegam exaustos. Ouroboros, como bom anfitrião rabugento, já havia deixado o caminho livre de perigos.
— Vejo que conseguiu a fruta. Mas trouxe um extra.
— Esse é um amigo que fiz na caverna. — Heragon coloca Merlin no chão.
— Prazer, sou Merlin, dos Magos. Só não aperto sua mão porque… bom, estou morto por dentro agora.
— Entendo — diz Ouroboros. — Heragon, me entregue a fruta.
Merlin solta um suspiro.
— Eu me perdi… não sei como chegar ao Pilar.
— Descanse. Quando estiver melhor, te levo até lá.
— Muito obrigado. Heragon tem sorte de ter um mestre tão legal.
— Ha, seu bajulador… — o venenoso resmunga, mas sorri, orgulhoso.
Merlin se despede.
— Heragon, se um dia você for à Magi, me procure! Sou bem conhecido por lá.
— Pode deixar! E, se precisar de mim, é só chamar.
Merlin se vira como se estivesse encerrando uma cena importante. Endireita a postura, faz uma pose exagerada, levanta a mão no alto e anuncia, com a solenidade dramática de quem acredita muito no próprio roteiro:

— Que vença o melhor protagonista!
— Fechou! Até a próxima! Pera… o quê? Prota… pragonista… protanista?
E lá se vai o jovem Mago, sumindo pelo caminho, deixando Heragon para trás, confuso, mastigando uma palavra que ainda não faz sentido na cabeça dele.

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