Capítulo 17 — A Provação de Sun Wukong
Céu Negro
Despencando rapidamente, um rastro moreno corta nuvens em queda livre. O vento sopra forte; o ar escurece, mas logo surge uma luz. Ao tocar as nuvens, ondulações se espalham ao redor. Raios irrompem delas, anunciando sua chegada. Elena caminha, tranquila, até o Alfa.
— Ei, precisava daquele último golpe?
— Ruaaaaaa.
— Uma voz disse que era necessário.
— Rugaraaaaa.
— E você só fez. É isso que dá dar trabalho para uma ave burra.
O Alfa se irrita e desfere uma bicada. Elena não deixa barato: responde com uma canelada. Os dois caem numa briga absolutamente sem sentido.
O Máscara Negra surge como uma sombra no meio da neblina. Se aproxima de Heragon, levando a não para checar seu pulso. Mas recua, uma descarga elétrica circula seu corpo… faíscas pipocam ao seu redor.
Assim que aquela reação passa, faz os primeiros socorros ali mesmo e se prepara para levá-lo de volta.
— Vocês dois, parem. — O mascarado é ignorado. — Ei. Parem de uma vez.
Ele libera uma presença ameaçadora, que afunda o ambiente a volta. O Alfa se encolhe atrás de Elena, que entra em guarda por puro instinto: uma perna erguida, mãos protegendo o queixo.
— Quem é você?
— Não temos tempo para isso. Vamos subir.
— Sua alma se parece com a de alguém que conheço, mas é um pouco diferente.
— O Mestre da Guilda me enviou para ficar de olho nele. — Ele mostra uma insígnia em forma de S.
— É legítima. A energia que sai dela combina com a sua. — A postura de Elena muda; o rosto fica sério. — Você… você é…
— Não temos tempo para isso.
O Máscara Negra joga Heragon no ombro. Elena ergue Taira com cuidado.
De volta à Guilda, deixam os dois na enfermaria. Na saída, o Mestre da Guilda já os aguarda.
— Aquela mulher me ligou furiosa — diz o Mestre. — Perguntou quem intimidou a doma dela.
— Era inevitável — afirma o mascarado.
— Eu vi. Mas você se deixou levar pelos sentimentos. Aquela presença foi quase toda direcionada para… Elena, qual é o nome dele mesmo?
— Rimu.
— Ah, sim. Ela deixou o Rimu aqui para passar um tempo em seu habitat natural. Familiares de bruxas compartilham tudo o que sentem com seus mestres. Imagino que você saiba disso.
— …
— Esses jovens… Bem, terei de curar aqueles dois. Amanhã terão um longo dia.
Elena corre atrás do mascarado.
— Ei, espera aí. Tira a máscara rapidinho.
No fim, ele simplesmente desaparece, ignorando-a. Elena baixa a cabeça, aperta os olhos e, num muxoxo quase fofo, resmunga:
— Idiota.
Sala do Mestre da Guilda — manhã seguinte.
Sundar e Elena estão reunidos com Heragon já recuperado da luta.
— Elena, aconteceu algo? Você parece meio para baixo — pergunta Heragon.
— Calado. Não é nada.
— Elena, qual é o seu veredito? Ele passou no seu teste? — indaga Sundar.
— Passou, sim. Já o registrei como minha recomendação.
— Sério? Consegui! Estou curioso: serão provas separadas ou conjuntas? Vai ter muita luta? Aaaah, estou animado. — Mas em sua mente:
Perdi, de novo, desta vez, tenho que ganhar, custe o que custar.
Esse garoto se esqueceu totalmente do objetivo inicial dele… Bem, isso é bom. — O Mestre da Guilda, apenas observa o olhar do garoto.
— Vá se preparar, Heragon. Como eu o indiquei, vou levá-lo para a ilha onde acontece o festival. Tecnicamente, já começou, mas a provação do torneio só será anunciada à tarde.
Heragon sai correndo para se arrumar. Na ponte que liga a Guilda à ilha onde ele treinava, Elena já o espera. O Máscara Negra chega e para ao lado dela.
— Não sou quem você pensa que sou. Pelo menos, não mais.
— …
Ela continua claramente emburrada.
— Muita coisa aconteceu — continua ele.
— Percebi. Sua alma está diferente. Algum dia vai me contar o que houve?
— Algum dia.
Ela o empurra de leve com o ombro; os dois soltam uma risada curta.
Heragon entra na ponte.
— Elena, já estou pronto. Sua expressão está melhor. Aconteceu algo de bom?
— Podemos dizer que sim.
— Tive a impressão de que estava conversando com alguém.
— É só impressão sua.
Em uma das bases ao lado da Guilda, há grande movimentação: enormes aves transportam quem quer ir ao festival.
— Maneiro… olha o tamanho desses pássaros.
— São Argentavis, um dos principais meios de transporte desta dimensão. Voam rápido para o porte que têm e possuem força suficiente para levar cargas pesadas.
Os dois seguem para a ala do aviário. Elena já havia reservado uma Argentavis. Eles sobem na ave e voam rumo à ilha do festival.
Ao chegarem, Heragon se impressiona: uma ilha enorme, com diversas estruturas, ruas tomadas por barracas e gente de todo tipo circulando entre elas.
No centro, um coliseu colossal — usado, em geral, para duelos entre aventureiros e, às vezes, até para resolver intrigas entre nações, com a Guilda como mediadora neutra.
Eles pousam e vão direto ao coliseu, passando pelas barracas, parando aqui e ali para comer alguma coisa — afinal, é um festival.
Coliseu da Guilda
Arquibancadas gigantes cercam a arena, contidas por um muro arredondado. No topo, com a melhor visão, ficam as salas VIP — tomadas por figuras importantes.
— Como sempre, o festival está bem movimentado. Magnífico — comenta o Mestre dos Magos, Magnon.
— Exatamente, meu amigo. Essa animação deixa a cerveja ainda mais saborosa. O que amarga é esse cheiro de Elfo — resmunga o Magnânimo da Forja, Diamut, dos Anões.
— É impressão minha ou ouvi um murmúrio? Deve ser algo insignificante, já que está fora do meu raio de visão — responde o Mestre da Guilda, o Alto Elfo Sundar.
— Fala na minha cara, se tiver coragem, seu orelhudo — retruca Diamut.
— Ai, ai… já estou com a idade avançada. Está difícil até olhar para baixo para ver enfeites de jardim — Sundar o provoca.
— Quer levar um soco? — rosna o anão.
— Quer uma cadeira emprestada? Posso arrumar mais uma ou, se preferir, espero você construir uma escadaria.
— Como sempre, grandes amigos — comenta a Rainha das Bruxas, Merlinda.
— Quem é amigo de quem? Desse cara eu não sou — dizem os dois ao mesmo tempo, virando o rosto para lados opostos.
— Ainda fazem isso em perfeita sincronia… — Merlinda se levanta, ajeita seus cabelos azuis, para diante de Sundar, apoia o pé na cadeira entre as pernas dele e o puxa pela gola. — Não pense que esqueci. Quem intimidou a minha doma? Se não responder, será punido no lugar dessa pessoa.
— Bem… — ele começa a suar frio. — Eu não sei o…
— Sem rodeios. Se mentir, já sabe as consequências.
Desculpa, meu amigo. É por um bem maior. — Sundar sussurra, quase inaudível. — Ra…
— Muito bem. Já imagino quem seja. Vou deixar para lá desta vez. Poucas pessoas são capazes de intimidar um dos meus familiares… — Conheço apenas uma pessoa com essas iniciais capaz de tal feito. E, com esta mulher aqui, não é bom que o nome seja dito. — Merlinda recua.
— Fiquei curiosa. A superprotetora dos bichinhos de estimação vai deixar para lá? Quem é essa pessoa? — pergunta Diana, Líder dos Predators, a Grande Predadora.
— Ninguém que te diga respeito.
— Quanta hostilidade… Se me tratar assim, vou é ficar com vontade de caçar você — diz Diana, lambendo os lábios.
— …
É a reação geral da sala.
— Ei, não precisam me olhar desse jeito. Só quero participar da conversa. Essa mulher do meu lado já está me dando calafrios… e olha que já enfrentei aberrações de todo tipo. Essa doida, do nada, começa a sussurrar — reclama Diana.
Todos esticam o pescoço para encarar a mais bela entre as mulheres: postura, olhar, cada gesto exala presença.
— Não me importo de ser encarada; sei que sou irresistível. Mas já é hora de prestarmos atenção: a apresentação vai começar — diz a Guia Suprema, Stephane, linda, maravilhosa.
Um homem entra na arena: roupas pretas de couro, espinhos em partes do corpo, cabelo em moicano. Com um microfone em mãos, ele abre os braços e começa:
— E aí, seus putos, estão prontos para a competição mais frenética e eletrizante já vista no Multiverso?
A plateia vibra em coro: Siiim!
— Não ouvi direito. Cadê a empolgação?
O rugido aumenta até fazer o coliseu tremer.
— É isso aí, rock and roll! — Apresentador do festival.
Ao seu sinal, duas Argentavis sobrevoam a arena carregando uma grande roleta. Elas a depositam no chão, soltam um brado e voltam ao alto.
— Chegou a hora que todos esperavam: a escolha das provações que nossos competidores terão de enfrentar. Como todos sabem, durante a terrível Horda Negra. Apareceram os Campeões — que passaram por provações para salvar todo Multiverso. As imagens de cada provação estão estampadas nesta roleta. Agora vocês já sabem: façam esta arena tremer para a roleta girar e, depois, silêncio total para ela parar.
Guran marca o ritmo: duas pisadas rápidas, um intervalo, palmas em sequência.
A plateia acompanha, primeiro desordenada, até que tudo se encaixa. O coliseu começa a tremer; a arena vibra; a roleta ganha velocidade.
De súbito, o som para em sincronia, e a roleta desacelera até parar no desenho de duas pessoas correndo.
— Ah, moleque! Essa é a minha preferida: a segunda provação de Sun Wukong, a Relíquia Perdida.
— Nesta provação, uma relíquia será escondida. Os competidores deverão procurá-la. Quem a encontrar, além de poder ficar com ela, terá vaga garantida na Guilda e começará no Rank B. O restante será avaliado; desempenho satisfatório começa no Rank C. A única regra é não receber ajuda externa durante a prova. Agora, os competidores serão levados ao local da provação.
Projetores se alinham; imagens de uma das maiores ilhas da dimensão tomam o ar acima dos muros.

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