Céu Negro

    Despencando rapidamente, um rastro moreno corta nuvens em queda livre. O vento sopra forte; o ar escurece, mas logo surge uma luz. Ao tocar as nuvens, ondulações se espalham ao redor. Raios irrompem delas, anunciando sua chegada. Elena caminha, tranquila, até o Alfa.

    — Ei, precisava daquele último golpe?

    — Ruaaaaaa.

    — Uma voz disse que era necessário.

    — Rugaraaaaa.

    — E você só fez. É isso que dá dar trabalho para uma ave burra.

    O Alfa se irrita e desfere uma bicada. Elena não deixa barato: responde com uma canelada. Os dois caem numa briga absolutamente sem sentido.

    O Máscara Negra surge como uma sombra no meio da neblina. Se aproxima de Heragon, levando a não para checar seu pulso. Mas recua, uma descarga elétrica circula seu corpo… faíscas pipocam ao seu redor.

    Assim que aquela reação passa, faz os primeiros socorros ali mesmo e se prepara para levá-lo de volta.

    — Vocês dois, parem. — O mascarado é ignorado. — Ei. Parem de uma vez.

    Ele libera uma presença ameaçadora, que afunda o ambiente a volta. O Alfa se encolhe atrás de Elena, que entra em guarda por puro instinto: uma perna erguida, mãos protegendo o queixo.

    — Quem é você?

    — Não temos tempo para isso. Vamos subir.

    — Sua alma se parece com a de alguém que conheço, mas é um pouco diferente.

    — O Mestre da Guilda me enviou para ficar de olho nele. — Ele mostra uma insígnia em forma de S.

    — É legítima. A energia que sai dela combina com a sua. — A postura de Elena muda; o rosto fica sério. — Você… você é…

    — Não temos tempo para isso.

    O Máscara Negra joga Heragon no ombro. Elena ergue Taira com cuidado.

    De volta à Guilda, deixam os dois na enfermaria. Na saída, o Mestre da Guilda já os aguarda.

    — Aquela mulher me ligou furiosa — diz o Mestre. — Perguntou quem intimidou a doma dela.

    — Era inevitável — afirma o mascarado.

    — Eu vi. Mas você se deixou levar pelos sentimentos. Aquela presença foi quase toda direcionada para… Elena, qual é o nome dele mesmo?

    — Rimu.

    — Ah, sim. Ela deixou o Rimu aqui para passar um tempo em seu habitat natural. Familiares de bruxas compartilham tudo o que sentem com seus mestres. Imagino que você saiba disso.

    — …

    — Esses jovens… Bem, terei de curar aqueles dois. Amanhã terão um longo dia.

    Elena corre atrás do mascarado.

    — Ei, espera aí. Tira a máscara rapidinho.

    No fim, ele simplesmente desaparece, ignorando-a. Elena baixa a cabeça, aperta os olhos e, num muxoxo quase fofo, resmunga:

    — Idiota.

    Sala do Mestre da Guilda — manhã seguinte.

    Sundar e Elena estão reunidos com Heragon já recuperado da luta.

    — Elena, aconteceu algo? Você parece meio para baixo — pergunta Heragon.

    — Calado. Não é nada.

    — Elena, qual é o seu veredito? Ele passou no seu teste? — indaga Sundar.

    — Passou, sim. Já o registrei como minha recomendação.

    — Sério? Consegui! Estou curioso: serão provas separadas ou conjuntas? Vai ter muita luta? Aaaah, estou animado. — Mas em sua mente:

    Perdi, de novo, desta vez, tenho que ganhar, custe o que custar.

    Esse garoto se esqueceu totalmente do objetivo inicial dele… Bem, isso é bom. — O Mestre da Guilda, apenas observa o olhar do garoto.

    — Vá se preparar, Heragon. Como eu o indiquei, vou levá-lo para a ilha onde acontece o festival. Tecnicamente, já começou, mas a provação do torneio só será anunciada à tarde.

    Heragon sai correndo para se arrumar. Na ponte que liga a Guilda à ilha onde ele treinava, Elena já o espera. O Máscara Negra chega e para ao lado dela.

    — Não sou quem você pensa que sou. Pelo menos, não mais.

    — …

    Ela continua claramente emburrada.

    — Muita coisa aconteceu — continua ele.

    — Percebi. Sua alma está diferente. Algum dia vai me contar o que houve?

    — Algum dia.

    Ela o empurra de leve com o ombro; os dois soltam uma risada curta.

    Heragon entra na ponte.

    — Elena, já estou pronto. Sua expressão está melhor. Aconteceu algo de bom?

    — Podemos dizer que sim.

    — Tive a impressão de que estava conversando com alguém.

    — É só impressão sua.

    Em uma das bases ao lado da Guilda, há grande movimentação: enormes aves transportam quem quer ir ao festival.

    — Maneiro… olha o tamanho desses pássaros.

    — São Argentavis, um dos principais meios de transporte desta dimensão. Voam rápido para o porte que têm e possuem força suficiente para levar cargas pesadas.

    Os dois seguem para a ala do aviário. Elena já havia reservado uma Argentavis. Eles sobem na ave e voam rumo à ilha do festival.

    Ao chegarem, Heragon se impressiona: uma ilha enorme, com diversas estruturas, ruas tomadas por barracas e gente de todo tipo circulando entre elas.

    No centro, um coliseu colossal — usado, em geral, para duelos entre aventureiros e, às vezes, até para resolver intrigas entre nações, com a Guilda como mediadora neutra.

    Eles pousam e vão direto ao coliseu, passando pelas barracas, parando aqui e ali para comer alguma coisa — afinal, é um festival.

    Coliseu da Guilda

    Arquibancadas gigantes cercam a arena, contidas por um muro arredondado. No topo, com a melhor visão, ficam as salas VIP — tomadas por figuras importantes.

    — Como sempre, o festival está bem movimentado. Magnífico — comenta o Mestre dos Magos, Magnon.

    — Exatamente, meu amigo. Essa animação deixa a cerveja ainda mais saborosa. O que amarga é esse cheiro de Elfo — resmunga o Magnânimo da Forja, Diamut, dos Anões.

    — É impressão minha ou ouvi um murmúrio? Deve ser algo insignificante, já que está fora do meu raio de visão — responde o Mestre da Guilda, o Alto Elfo Sundar.

    — Fala na minha cara, se tiver coragem, seu orelhudo — retruca Diamut.

    — Ai, ai… já estou com a idade avançada. Está difícil até olhar para baixo para ver enfeites de jardim — Sundar o provoca.

    — Quer levar um soco? — rosna o anão.

    — Quer uma cadeira emprestada? Posso arrumar mais uma ou, se preferir, espero você construir uma escadaria.

    — Como sempre, grandes amigos — comenta a Rainha das Bruxas, Merlinda.

    — Quem é amigo de quem? Desse cara eu não sou — dizem os dois ao mesmo tempo, virando o rosto para lados opostos.

    — Ainda fazem isso em perfeita sincronia… — Merlinda se levanta, ajeita seus cabelos azuis, para diante de Sundar, apoia o pé na cadeira entre as pernas dele e o puxa pela gola. — Não pense que esqueci. Quem intimidou a minha doma? Se não responder, será punido no lugar dessa pessoa.

    — Bem… — ele começa a suar frio. — Eu não sei o…

    — Sem rodeios. Se mentir, já sabe as consequências.

    Desculpa, meu amigo. É por um bem maior. — Sundar sussurra, quase inaudível. — Ra…

    — Muito bem. Já imagino quem seja. Vou deixar para lá desta vez. Poucas pessoas são capazes de intimidar um dos meus familiares… — Conheço apenas uma pessoa com essas iniciais capaz de tal feito. E, com esta mulher aqui, não é bom que o nome seja dito. — Merlinda recua.

    — Fiquei curiosa. A superprotetora dos bichinhos de estimação vai deixar para lá? Quem é essa pessoa? — pergunta Diana, Líder dos Predators, a Grande Predadora.

    — Ninguém que te diga respeito.

    — Quanta hostilidade… Se me tratar assim, vou é ficar com vontade de caçar você — diz Diana, lambendo os lábios.

    — …

    É a reação geral da sala.

    — Ei, não precisam me olhar desse jeito. Só quero participar da conversa. Essa mulher do meu lado já está me dando calafrios… e olha que já enfrentei aberrações de todo tipo. Essa doida, do nada, começa a sussurrar — reclama Diana.

    Todos esticam o pescoço para encarar a mais bela entre as mulheres: postura, olhar, cada gesto exala presença.

    — Não me importo de ser encarada; sei que sou irresistível. Mas já é hora de prestarmos atenção: a apresentação vai começar — diz a Guia Suprema, Stephane, linda, maravilhosa.

    Um homem entra na arena: roupas pretas de couro, espinhos em partes do corpo, cabelo em moicano. Com um microfone em mãos, ele abre os braços e começa:

    — E aí, seus putos, estão prontos para a competição mais frenética e eletrizante já vista no Multiverso?

    A plateia vibra em coro: Siiim!

    — Não ouvi direito. Cadê a empolgação?

    O rugido aumenta até fazer o coliseu tremer.

    — É isso aí, rock and roll! — Apresentador do festival.

    Ao seu sinal, duas Argentavis sobrevoam a arena carregando uma grande roleta. Elas a depositam no chão, soltam um brado e voltam ao alto.

    — Chegou a hora que todos esperavam: a escolha das provações que nossos competidores terão de enfrentar. Como todos sabem, durante a terrível Horda Negra. Apareceram os Campeões — que passaram por provações para salvar todo Multiverso. As imagens de cada provação estão estampadas nesta roleta. Agora vocês já sabem: façam esta arena tremer para a roleta girar e, depois, silêncio total para ela parar.

    Guran marca o ritmo: duas pisadas rápidas, um intervalo, palmas em sequência.

    A plateia acompanha, primeiro desordenada, até que tudo se encaixa. O coliseu começa a tremer; a arena vibra; a roleta ganha velocidade.

    De súbito, o som para em sincronia, e a roleta desacelera até parar no desenho de duas pessoas correndo.

    — Ah, moleque! Essa é a minha preferida: a segunda provação de Sun Wukong, a Relíquia Perdida.

    — Nesta provação, uma relíquia será escondida. Os competidores deverão procurá-la. Quem a encontrar, além de poder ficar com ela, terá vaga garantida na Guilda e começará no Rank B. O restante será avaliado; desempenho satisfatório começa no Rank C. A única regra é não receber ajuda externa durante a prova. Agora, os competidores serão levados ao local da provação.

    Projetores se alinham; imagens de uma das maiores ilhas da dimensão tomam o ar acima dos muros.

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