Capítulo 20 – Hrafn – Fim dos negócios
“O contrato expira em cinco anos”, disse Hrafn, passando a mão pelos cabelos. “E o grão de luz vem agora.”
Ele e Alva negociavam havia horas.
A moça era esperta. Mais esperta do que Hrafn gostaria de admitir. Tinha vindo pronta, com números, precedências, concessões medidas e aquele tipo de calma que gente bem-nascida vestia. Para sorte dele, porém, ela o subestimara. Tomara-o por bruto demais, por comum demais, por aleijado demais. Falara mais do que devia. E, numa mesa de negociação, gente que falava mais do que devia costumava pagar por isso.
“E você atenderá até três chamadas por trimestre”, rebateu Alva. “Também será meu campeão em disputas formais.” Havia mais vida na voz dela nessa parte e aquilo dizia bastante.
Hrafn não estava satisfeito com o resultado final. Tampouco ela parecia estar, pelo pouco que ele conseguia ler por trás da compostura. O que significava que o negócio provavelmente terminara no ponto certo. Saga lhe ensinara, que acordo justo era o tipo de acordo em que todos saíam ligeiramente ofendidos.
“Bom o bastante”, disse Hrafn. “Oficialize.”
Lady Alva assentiu e se levantou antes mesmo que a criada pudesse ajudá-la. Não de forma grosseira. Nunca de forma grosseira, apenas rápida o bastante para parecer que permanecer ali por mais um instante já começava a lhe custar alguma coisa.
“O contrato estará pronto até o fim da semana”, disse ela, curvando-se só o necessário para não escandalizar o mordomo dele. “Com sua licença.”
Ele não a levou até a porta. Deixou isso com Edvard. Hrafn, por sua vez, ficou onde estava, pensando no que vinha pela frente.
Vou ter trabalho.
O acordo o beneficiava de muitas formas, beneficiava Alva ainda mais em algumas, e exigiria tempo dos dois.
A filha do conde era mais capaz do que ele esperara de uma dama em décima oitava posição. Pegara o pouco que lhe deram e fizera render. Ao longo dos anos conseguira alargar o próprio espaço, tomar controle de duas caravanas e fazê-las funcionar sem se afogarem no meio do caminho, o que, naquele mundo, já beirava milagre administrativo. Caravanas não eram carroças com mercadoria. Eram homens, rotas, pedágios, favores, proteção, temperos, metal, clima, bandidos, bestas, fome e imprevisto. Qualquer peça errada e todo o resto apodrecia junto.
O maior problema dela era simples… faltavam-lhe voroirs.
Sem aliados assim, as caravanas não podiam ir longe o bastante para que os produtos valessem o risco. Podiam até rodar, vender, manter lucro modesto e alimentar algum crescimento, mas não alcançar as distâncias onde certos bens se tornavam raros e caros de verdade. Ir mais fundo significava expor homens, moeda e carga a um tipo de perigo que nenhum mercador sensato enfrentava sem milagre por perto.
Era aí que Hrafn entrava. “O que você acha, Ed?”, perguntou, notando o mordomo de volta ao seu lado. O homem retornava sempre daquele jeito silencioso, como se portas, corredores e criadas tivessem sido instruídos a não fazer barulho quando ele passava.
“Parece um acordo justo, meu senhor”, respondeu Edvard. “O grão de luz foi uma surpresa. Ser seu campeão, porém, pode trazer problemas.”
“Sim”, disse Hrafn, batendo os dedos na mesa. “Imaginei.”
O grão de luz fora a melhor parte.
Uma surpresa boa, rara o bastante para ser suspeita. Alva deixara a informação escapar no momento errado, e Hrafn não viu motivo algum para abrir mão daquilo depois. Talvez recebesse um em circunstâncias normais, mais adiante, quando assinasse o contrato formal com a Hird. Edvard já lhe confirmara algo nessa linha. Mas isso dependeria de tempo, de rito, de vontade institucional e de uma fila de decisões que ele preferia não esperar.
“Você sabe como são feitos, Ed?”, perguntou.
“Eu não ousaria cogitar, senhor.” respondeu. Hrafn olhou para ele, havia alguma coisa ali. Não exatamente reverência, parecia medo.
O grão de luz agia de modos diferentes sobre a megin, a depender de quem o recebia. Mas agia sempre para melhor. Era raro, limitado, distribuído em cotas, e não podia ser comprado. Pelo menos era o que Edvard lhe dissera. Isso erguia Alva mais um degrau na conta que Hrafn fazia dela. E acrescentava cautela.
Quanto ao resto do acordo, a pior parte era outra: ser campeão.
Atender chamadas da caravana em si não o incomodava tanto. Havia responsabilidades parecidas dentro da própria Hird, e muitas piores. Além disso, servir ao comércio era, no fim das contas, servir à mesma máquina. O reino lucrava, a Coroa lucrava, a Hird lucrava. Se Alva ganhasse mais moeda, avançasse mais longe com as caravanas e acumulasse mais influência, parte daquilo escorreria para cima como sempre escorria.
A coroa ganharia, a Igreja ganharia. Ganham sempre.
“Mas a margem talvez compense”, disse Edvard. E tinha razão.
Se fosse apenas um fylkirn, Hrafn nem teria negociado. Teriam decidido por ele. Mandado-o para onde quisessem, para a Hird que achassem adequada, para o papel mais útil ao reino, à fé ou ao capricho de algum superior bem barbeado. Mesmo alguns voroirs recém-formados talvez não recebessem proposta melhor da nobreza e acabassem ficando sob o braço inteiro da Hird por falta de opção. Gente como Alva não costumava apostar o futuro dos próprios negócios num desconhecido, recém-elevado e vindo de lugar nenhum. As casas fomentavam os próprios voroirs por uma razão.
Logo, poderia ter dito ter sorte, por ainda poder negociar o próprio futuro com uma nobre mais elevada e gananciosa o bastante para correr riscos, disposta a fazer acordos que gente mais prudente evitaria. Ele ganhava com isso alguma influência sobre quais batalhas travaria.
Resultado amargo.
Teria mais liberdade. Receberia menos benefícios da Hird. E, em caso extremo, ainda serviria quando fosse chamado, como todos serviam. Hrafn entendia isso. Mesmo que quisesse recusar ou fugir, não havia para onde. Era assim em todo lugar que importava, quando a noite mostrava os dentes, voroirs eram postos na frente dela. Essa era a sina.
Ao contrário de muitos, porém, Hrafn preferia assim. Preferia o acordo com uma nobre ao acordo direto com a Hird. Nunca fora homem de fé. Não tinha gosto especial por morrer em nome dela.
O verdadeiro problema era ser campeão.
Guerras internas eram problemáticas demais para que o reino pudesse se dar ao luxo delas. Havia inimigos demais do lado de fora. Então as disputas menores, as que ainda precisavam ferir alguém para se resolver, costumavam ser entregues a um duelo entre campeões.
“Há margem para sabotagem”, disse Hrafn. “Matar-me num duelo seria fácil. Estaria dentro das leis do reino e da Igreja.”
Teria de ficar no lado bom de Alva agora. Não imaginava que ela fosse insana a esse ponto, mas não costumava atribuir sensatez demais aos outros quando sua própria pele estava envolvida. Bastava um desentendimento ruim, um cálculo frio ou uma oportunidade especialmente lucrativa para que alguém resolvesse que um duelo e sua morte era um preço aceitável.
“Não imagino que deva se preocupar com isso, meu senhor”, disse Edvard, puxando a cadeira para que Hrafn se levantasse. “O senhor é muito mais valioso vivo.”
Hrafn lançou-lhe um olhar curto. A resposta viera limpa, mórbida, prática demais para ser bonita. Exatamente o tipo de coisa que ele preferia ouvir.
“Está ficando mais sincero, Ed”, disse. “Isso é bom.”
“Obrigado, senhor.”
Edvard recolocou a cadeira no lugar sem produzir o menor ruído.
“Seu banho está pronto”, continuou. “Seu instrutor chega à décima hora da Estrela. E os livros que pediu já foram levados à nova propriedade.”
Essa era a outra parte do acordo, menor para Alva, importante para ele.
A moça mal se dera ao trabalho de negociar aquilo. Ao que parecia, uma pequena mansão no segundo distrito de Sahirid significava pouco aos olhos de uma filha de conde. Para Hrafn, porém, era necessária. Se sairia das asas militares da Hird para operar sob outro arranjo, precisaria de um lugar seu.
Hrafn sorriu.
Ter Edvard por perto – e todos aqueles anos de experiência guardados atrás da cara de mármore – vinha se tornando indispensável. Principalmente agora que os dois começavam a se entender. Havia muito tempo que ele não falava com tanta liberdade com alguém que não fosse Saga. Gostava do homem prático, silencioso, útil. Quase nunca fingia virtudes desnecessárias.
Além disso, o mordomo preenchia lacunas e organizava o mundo com tamanha precisão que Hrafn poderia tê-lo tomado por um voroir da mente.. Hrafn já vira outros mordomos, bons profissionais. Edvard, porém, era de outra espécie.
“O que eu faria sem você, Ed?”, perguntou.
Deu mais dois passos. Então olhou por cima do ombro, como se lembrasse de algo.
“Ah. Fique longe das lareiras.”
“Ficarei, senhor”, respondeu Edvard, curvando-se com o que Hrafn talvez quase pudesse chamar de diversão.

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