Ola, queridos leitores! A obra vai entrar em hiato por um tempo, pouquinho, mas jaja volto, ainda estou escreveno!
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Capítulo 19. Edvard. Negócios
O último dos livros estava sendo colocado na prateleira.
Edvard não sabia exatamente por que seu senhor dava tanto valor a um velho livro de contos, mas aprendera a não desprezar coisas pequenas. Também passara a gostar daquele volume, não por seu conteúdo, mas pelo que ele indicava.
O jovem, até pouco tempo um plebeu sem nome digno de nota, chegara cheio de surpresas. Uma delas era que sabia ler, outra e talvez mais importante, era que havia sido educado o bastante para esconder parte do que sabia. Havia lacunas, mais do que Edvard gostaria de admitir, ainda assim, o material ali era bom. Hrafn possuía um tipo de inteligência venenosa, desconfiada e cínica. Não fossem as falhas óbvias em seus modos, sua etiqueta e sua fala, Edvard poderia tê-lo tomado por um nobre, por um dos melhores tipos.
“Imagino que chegou a hora, Ed,” disse seu senhor.
Edvard conteve o pequeno repuxo interno que ainda lhe vinha toda vez que ouvia a abreviação. Teria de se acostumar com isso. Havia coisas mais graves no mundo do que o lento assassinato de um nome.
“Eu não pensei que ela viria até nós.”
“Ela pode estar jogando um jogo, meu senhor,” respondeu Edvard. “Os nobres transformam até as menores coisas em um.”
“Sim, transformam,” disse Hrafn. “Se não fosse por você, eu jamais saberia sequer que importa quem vai até quem. E os idiotas ainda chamam isso de esperteza.”
“Obrigado, meu senhor. E sempre um prazer ser útil.” Respondeu com orgulho medido. Hrafn fazia elogio soar como insulto com uma facilidade quase nobre.
“Mas acho que ela pode estar tentando baixar sua guarda,” continuou Edvard. “Ela provavelmente já sabia que eu o instruiria nesse ponto. Pode imaginar que você reconhecerá boa vontade no gesto.”
“Veremos até onde vai essa boa vontade,” respondeu Hrafn.
Restava pouco tempo antes que os convidados chegassem. Edvard havia preparado tudo com antecedência, Lady Alva era filha da casa de um poderoso marquês; tratá-la bem não era mera cortesia, mas prudência. Quando uma criada apareceu para informá-lo de que os visitantes já estavam a caminho, Edvard sentiu alívio. Seu jovem senhor era do tipo impaciente, do tipo que tamborilava os dedos, girava o ombro e mudava o peso do corpo de um pé para o outro sempre que precisava esperar.
Um hábito lamentável, pior ainda porque amassava, com regularidade criminosa, as roupas que Edvard preparava com tanto cuidado.
“Lady Alva,” declarou Hrafn no momento em que a viu. Ele não se curvou nem usou a forma correta de tratamento.
“Trouxe mais gente também. Bom.” Apontou para a criada e para o guarda que a acompanhavam. Apontar teria sido descortês mesmo em circunstâncias melhores, ali logo de saída, pareceu a Edvard quase uma tentativa ativa contra a ordem natural das coisas.
“Elevado Hrafn,” respondeu a dama, exibindo compostura impecável em cada gesto. “É uma honra—”
“Sim, sim, imagino,” interrompeu Hrafn, para o desconforto imediato de todos os presentes, e para o horror de Edvard. “Entre, estou com fome.”
Antes que alguém pudesse protestar, ele já havia virado as costas e seguido em direção à refeição preparada, andando o mais rápido que podia sem de fato correr. Por um instante, Edvard considerou pedir desculpas em nome de seu senhor, mas não tinha esse direito e fazê-lo implicaria, diante de todos, que Hrafn estava errado. Então apenas o seguiu atrás junto com os outros, em silêncio constrangido.
“Venha, sente-se,” disse Hrafn quando chegou à mesa. Então apontou para Edvard com um sorriso largo demais. “Você também, Ed.”
O mordomo não compartilhava da mesma alegria. Seu senhor parecia gostar de testar até onde seu velho coração iria antes de finalmente falhar. “Não,” respondeu.
Em circunstâncias normais ele teria sido mais polido.. Mas pelo que vinha aprendendo, qualquer delicadeza extra apenas dava ao jovem espirituoso mais espaço para lhe pregar algum truque.
Algo como: Uma mesa com seis cadeiras, Ed, e ainda assim você insiste em ficar de pé?
O comentário não veio, ainda assim apenas imaginá-lo, dito naquela ordem e diante da filha de um marquês, fez o coração de Edvard falhar uma batida.
“Com sua licença,” disse Lady Alva, enquanto a criada puxava sua cadeira, ela se sentou com elegância impecável. A criada permaneceu atrás dela e o guarda ficou um passo ao lado.
Edvard percebeu que Lady Alva estava medindo tudo no aposento, acima de tudo ela media Hrafn. Fazia isso com a ousadia que sua posição permitia. Edvard também media as coisas, claro, mas o fazia como um homem de ofício. Ela o fazia como uma mulher acostumada a decidir o valor das coisas antes mesmo de tocá-las. Mas ela teria dificuldade ali, suspeitava, Hrafn não era fácil de medir.
“Então, Alva,” disse seu senhor, chamando-a diretamente pelo nome, fazendo pouco esforço para frustrar as mais baixas expectativas do mordomo. “O que você quer de mim?” A pergunta saiu com a boca um pouco cheia e para piorar, ele fez um gesto vago com uma das mãos perto da orelha, algo entre continue e desembucha logo.
Lady Alva levou um momento antes de responder, ele viu o desgosto nela, embora bem escondido e na criada também, até no guarda. “Elevado Hrafn,” começou ela. “Antes de tudo, eu gostaria de parabenizá-lo por sua rápida elevação—”
“Obrigado,” interrompeu o que claramente teria sido um respeitável monólogo de abertura.
“Em segundo lugar,” insistiu Lady Alva, firme o bastante para não deixar a interrupção roubar seu equilíbrio, “também vim parabenizá-lo por lidar tão bem com uma perda difícil, bem como para lhe oferecer certas oportunidades.” Inteligente, pensou Edvard. Cada elogio soava sincero, e cada um carregava algo mais.
Elevação rápida e precoce, então precoce podia soar bem, mas também podia significar cedo demais, antes da instrução e da forma, antes da preparação adequada. A menção à perda havia sido colocada ainda melhor, aos ouvidos da alta sociedade era quase o mesmo que dizer: você mal começou, e já começou errado.
“E sim, perder o braço foi uma merda,” xingou Hrafn, e Edvard teve a impressão distinta de que ainda não descobrira o limite exato de sua própria capacidade para o horror. “Oportunidade é bom,” continuou seu senhor, sem uma gota de vergonha no rosto. “Mas o que você ganha com isso?”
Lady Alva não perdeu a compostura, pousou os dedos no braço da cadeira, leves o bastante para parecer casual “Uma pergunta justa,” disse ela. “Eu ganho proximidade com um homem promissor. Você ganha uma casa com recursos, rotas, experiência comercial e influência bastante para tornar certas dificuldades menos… difíceis.”
Hrafn mastigou um pouco mais, como se pesasse a proposta e a comida na mesma balança. “Influência,” repetiu, no tom de alguém provando algo e já suspeitando que não vai gostar.
“Ela move coisas,” respondeu Alva. “Moeda também.”
“Moeda compra menos do que as pessoas acreditam.” Hrafn limpou os dedos no pano com uma indiferença ofensivamente sincera. Não era exatamente grosseria calculada, era simplesmente a forma natural como ele existia. “Eu já tenho dinheiro,” disse. “A Hird paga bem.”
Lady Alva sustentou seu olhar. “Ela nem sempre paga em escolha.”
Hrafn inclinou levemente a cabeça, menos bruto e mais atento. “Então você quer me vender espaço para manobrar,”
“Quero lhe oferecer parceria.”
“Uma palavra bonita.”
“Palavras bonitas muitas vezes são necessárias.”
“Para esconder coisas feias?”
Hrafn soltou um som curto pelo nariz. Não era bem riso, tampouco puro desprezo, Edvard conhecia aquele som, conhecia-o bem o bastante para entender que, contra toda razão e todo bom gosto, a conversa talvez estivesse indo melhor do que deveria.
E foi então, enquanto observava o jovem voroir torto, a dama ambiciosa, a criada silenciosa, e o guarda desconfortável compartilhando a mesma mesa sob o teto que ele havia preparado com tanto cuidado, que Edvard começou a pensar que talvez ficar perto da lareira, bebendo chá, xingando panelas, reclamando do tempo, e todo esse tipo de coisa, não soasse nada mal afinal.
Mas era tarde demais para isso.

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