Capítulo 24 - Liv - Sonhadora
Liv ajudava a montar o acampamento do elevado Hrafn.
Sempre fora do tipo prestativa, antes de se tornar guerreira, fora serva também, e certos hábitos não saíam fácil do corpo. Levara anos juntando moeda aqui e ali, trabalhando mais do que o pai achava decente, até conseguir comprar para si um equipamento surrado e um pouco de treino. Não era muito, mas era o bastante para começar.
“Ei, novata, deixa que os servos façam isso”, comentou um dos outros guerreiros, vendo-a ajudar a erguer uma das barracas. “Quem luta não ajuda.”
Liv não olhou para trás, continuou firmando a estaca com o pé e puxando a lona junto do servo. “Ajudar um pouco não faz mal”, retrucou. “Não cai sua mão por isso.” Era nova, e sabia disso, mas não era de baixar a cabeça, nunca fora.
Aquela era sua primeira missão oficial com um grupo de verdade. Nada grandioso, nada digno de canção, mas ainda assim uma viagem real, curta e séria o bastante para que Dagny a tivesse trazido junto. A líder do grupo era mulher também, o que para Liv já bastava para fazer da outra uma figura quase lendária. Gostara do espírito dela, ao que parecia, e resolvera testá-la ali.
“Larga a barraca, garota.” A voz da líder não saiu como pedido, e sim como ordem. Dagny vinha na direção dela, mastigando alguma coisa com paciência.
“Mas—”
“Sem mais, garota.” Dagny cuspiu no chão. “Quem luta não deve se cansar com tarefa.”
Trazia uma laranja na mão e, sem sequer olhar para a fruta, começou a cortá-la. Liv viu aquilo e sentiu um tipo diferente de vergonha. “Se esse teu braço fino cansa alguns segundos antes da hora”, continuou a mulher, separando um gomo com a ponta da faca, “você morre.”
“S-sim, senhora”, respondeu Liv, a voz saindo mais baixa do que gostaria.
Aquilo era tão lógico que a envergonhou por inteiro, experiência era mesmo um negócio grande. Um dia ela também seria experiente e cortaria laranjas sem olhar para elas. Prometeu isso a si mesma, um dia seria como um herói.
O pensamento a levou a olhar para um deles, ele era jovem. Mais jovem do que Liv esperava de um voroir, talvez até mais jovem do que ela própria por pouco, mas parecia já ter lutado muito mais. Faltava-lhe um braço, algo que certamente devia ter sido perdido com bravura, e mesmo assim continuava se movendo como se aquilo não lhe tivesse arrancado nada importante. Usava uma armadura bonita demais para ser comum, pesada demais para ser de mentira, e o modo como a maça descansava perto dele fazia parecer que o metal tinha vontade própria e o obedecia por gosto.
Pena que a Estrela não gostara de Liv, ainda. Ela não desistiria, pois havia aqueles que despertavam tarde, aqueles que se provavam depois de velhos. A Estrela dava valor aos que combatiam, o Véu guardava os que não se desviavam, o Sal abria caminho aos persistentes. Era nisso que Liv acreditava, por isso se tornara guerreira.
Enquanto observava o rapaz terminar o que quer que estivesse fazendo, exercício, talvez, embora Liv mal conseguisse chamar aquilo assim, percebeu que a arma se movia depressa demais para seus olhos a acompanharem por completo. Não fazia ideia da força necessária para aquilo, menos ainda da destreza.
Por fim ele se sentou perto de uma chama feita só para ele e para o mordomo.
O mordomo, por sua vez, trazia nas mãos um livro grosso e velho, Liv já vira algo parecido. O pai tinha um, cheio de figuras na capa, um livro de contos daqueles bem antigos, com histórias tão velhas quanto improváveis.
Liv gostava deles, tinham sido parte do que a empurrara para aquele caminho. O pai não gostara, gostara menos ainda quando ela recusara casamento. Menos ainda quando gastara dinheiro com treino. O engraçado era que fora ele mesmo quem lera aquelas histórias para ela, noite após noite, sem perceber que estava abrindo portas que depois não conseguiria fechar.
“O que será que ele está lendo?”, perguntou um dos guerreiros mais próximos.
A fogueira fazia o possível para desenhar o rosto do homem por baixo do capuz. Ele não o tirava nem para comer.
“Não sei. Não sei ler”, respondeu outro, rindo um pouco e bebendo escondido enquanto Dagny fingia não ver. “Só nobrezinho como ele sabe.”
“É um cego se acha que ele é nobre”, disse Dagny do canto dela, abrindo os olhos e comendo a laranja já descascada. “E se você der mais um gole, arranco tua língua.”
“Gole? Que—”
O homem encontrou o olhar dela, suspirou, ergueu a garrafa diante dos olhos da líder e despejou o conteúdo no chão antes de levantar as mãos.
Dagny não disse mais nada, limitou-se a chupar a laranja e cuspir uma vez antes de voltar a ignorar o resto do grupo.
Liv achava a mulher severa demais, pouca coisa aparecia tão perto de Sahirid. Se houvesse algum problema nas minas, provavelmente seria coisa de trabalhador assustado, bicho grande demais ou uma história torta crescendo em boca errada. O grupo estava ali mais porque um voroir elevado não devia andar sozinho do que por necessidade de verdade.
Ela voltou a olhar para ele, gostava de observá-lo. Os relevos da armadura, a postura, o mordomo leal ao lado. O jeito como parecia pertencer a alguma história antiga mesmo parado, como se houvesse sempre mais peso à volta dele do que à volta dos outros homens. Um dia ela seria assim.
Foi durante uma dessas espiadelas que algo mudou. O rapaz fechou o livro depressa, pôs-se de pé e pegou a arma antes de começar a girá-la daquela forma estranha, os olhos voltados para a noite.
“Armas! De pé! De pé!”, gritou Dagny, agarrando o machado ao lado e saltando para cima. “Trabalhadores no centro!”
Os servos correram para o meio da estrada de sal, embolando-se perto da carga e dos mantimentos. Os guerreiros se espalharam nas bordas.
“Sem lacunas!”, berrou a líder, fazendo todos se apressarem para formar um círculo. “Conosco, garoto!”, gritou para o elevado.
Liv correu para o lugar que achava ser o seu após um momento longo de consideração. Se fosse um ataque de cavaleiros, já estaria morta. Teve tempo de perceber isso e odiar-se por perceber. O jovem elevado, porém, continuava no mesmo ponto, ignorando os chamados da líder.
“Pirralho maldito”, rosnou Dagny, antes de avançar na direção dele com uma intenção ruim nos olhos, como se fosse arrastá-lo à força para dentro da formação.
Ao mesmo tempo, o rapaz disse alguma coisa ao mordomo e o empurrou para trás com um gesto curto.
Foi então que aconteceu, primeiro veio o som. Um ruído vindo da terra, como quando cavalos aram campo seco, só que mais fundo. Depois o chão se partiu, um vulto de pelos, carne e dentes saltou da abertura, arremessando terra para todo lado enquanto se lançava pelo ar na direção do elevado.
A maça continuava girando.
No instante em que a criatura ia cair sobre ele, o ângulo da arma mudou. Um balanço diagonal, subindo junto do giro, acertou a coisa em cheio e a arremessou de volta para o meio da estrada de sal, longe deles, o som do impacto bruto viajou até os ouvidos de Liv, o voroir afundou os pés na estrada, rasgando um pouco a estrada de sal em um arrasto pra tras.
“Um rastejador!”, gritou Dagny, e o resto do grupo pareceu entender de imediato. Alguns largaram as armas curtas e puxaram lanças ou armas com mais alcance. Outros correram para os arcos, a própria líder manteve o machado.
“Mantenham ele na estrada!”, ordenou. “Não deixem que morda!”
Liv demorou um pouco mais do que os outros, outra vez, mas logo apertou a lança com as duas mãos e correu para a frente. Parou ao lado do voroir, respirando fundo, e só então conseguiu olhar direito para a coisa.
Tinha corpo parecido com o de um rato, mas muito mais comprido. Do tamanho de um cavalo pequeno, talvez. Os pés fumegavam em contato com o sal, e uma baba grossa, viscosa, escorria de sua boca como se estivesse apodrecendo por dentro. Não tinha olhos, ao menos não onde os olhos deviam estar. Apesar da semelhança com um rato não tinha rabo. Em compensação, tinha seis pernas, todas finas e nervosas, mexendo-se com uma rapidez horrível.
A coisa rosnou, não, gritou. O som saiu dela como ferrugem viva, uma mistura de chiado, fome e ódio. Liv sentiu a espinha se apertar inteira, mas não recuou. Lutaria ali, hoje, diante da Estrela, do Véu e do Sal. Provaria aos milagres o seu valor, quem sabe eles não sorriam para ela, afinal.
Ao lado dela, o elevado não disse nada. Só ajustou a postura, e a maça girou outra vez.

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